Cantigas de antes e depois de Abril

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«Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade...» Vinte minutos passados sobre a meia-noite, os versos iniciais da canção de José Afonso fizeram-se ouvir por todo o país. Através do programa Limite, de Carlos Albino, Leite de Vasconcelos e Paulo Coelho, a Renascença entrava para a história como a estação de rádio que transmitia a confirmação para a saída dos quartéis dos militares que se preparavam para derrubar a mais velha ditadura da Europa. Cerca de uma hora e meia antes, E Depois do Adeus fora o ‘primeiro aviso’, dado por João Paulo Dinis através dos Emissores Associados de Lisboa. Era o princípio do fim de 48 anos de um regime político obtuso, nascido entre gritos e lágrimas, mas destinado a terminar no meio de uma grande festa…

A escolha de ambas as canções para ‘santo’ e ‘senha’ da Revolução dos Cravos já foi contada por mais do que uma vez: Grândola foi o tema escolhido por Otelo Saraiva de Carvalho na sequência do espectáculo de 29 de Março desse mesmo ano, organizado pela Casa da Imprensa no Coliseu dos Recreios. Nesse memorável encontro de canções de resistência, Zeca Afonso apenas foi autorizado a cantar dois temas: uma canção tradicional, Milho verde e… Grândola, vila morena. Esta seria entoada em conjunto pelos mais de cinco mil presentes no Coliseu, e foi o enorme impacto do improvisado coro que levou os capitães a escolhê-la, ainda que as primeiras opções tivessem sido Traz outro amigo também e Venham mais cinco. Quanto a E depois do adeus, foi uma escolha óbvia: era a canção que, nesse mesmo ano, tinha representado Portugal no Eurofestival da Canção, pelo que a sua transmissão não corria o risco de levantar quaisquer suspeitas. E, depois, o título até tinha o seu «quê» de simbólico.

A verdade é que em poucos países do mundo existe uma ligação histórica tão profunda como em Portugal entre a música e a luta política. As raízes desta relação datam do século XIX (e nem sequer vale a pena citar o exemplo de A Portuguesa, que começou por ser um cântico de revolta contra a capitulação da Coroa portuguesa perante as exigências coloniais britânicas para se tornar no hino da República) e passam por um género musical que, ironicamente, havia de ser um dos estandartes do salazarismo – o fado que, a par de Fátima e do futebol, era um dos vértices da trilogia representativa do adormecimento colectivo que reinou em Portugal durante 48 anos.

A verdade é que, muito antes de ser elevado à condição de «canção nacional» pelo Estado Novo, o fado começou por ser um género frequentemente interventivo – e, por exemplo, o «fado operário» dos finais do século XIX e princípios do século XX não tem nada a ver com os cantares fatalistas que, com o passar dos anos e o enraizamento da ditadura, passaram a dominar este género musical. Não será, de resto, por acaso que, logo em 1936, a Mocidade Portuguesa – a organização juvenil do salazarismo – promoveu conjunto de conferências transmitidas pela Emissora Nacional e subordinadas ao tema «fado, canção de vencidos»…

Curioso é verificar que o movimento da «canção de protesto», nas suas várias fases, acaba por nascer também a partir da evolução de um género específico de fado, o de Coimbra – a que alguns preferem chamar «canção de Coimbra», alegando que «o fado» é outra coisa. Tudo começou entre os últimos anos da década de 50 e os primeiros da de 60, numa altura em que os marxistas de todo o mundo enfrentam os abalos provocados pela desestalinização de Krutchov e uma nova forma de esperança revolucionária surge pela vontade dos «barbudos» da ilha de Cuba.

Musicalmente, o que de mais interessante acontece por esses dias pode ouvir-se em França, com Jacques Brel a cantar que «les bourgeois c’est comme les cochons / plus ça devient vieux / plus ça devient bêttes», enquanto o quarentão anarquista Léo Ferré escandaliza os intelectuais ao musicar Les fleurs du mal, de Baudelaire. Mas também nos Estados Unidos, onde os ritmos alucinantes de Bill Haley e Elvis Presley preocupam os defensores dos bons costumes. E mal sabem eles que o melhor ainda está para vir…

Por cá, a pacatez lusitana estremece com alguns grandes movimentos de massas, como a campanha presidencial do general Humberto Delgado, um antigo militar do 28 de Maio que sentiu ter chegado a altura de acabar com a ditadura. Não conseguiu, mas o regime nunca mais se recompôs do susto. A partir de 1961, o início da guerra colonial torna-se mais uma dor de cabeça para os mentores do regime. E as movimentações estudantis que começam a verificar-se juntam-se à agitação laboral que, ciclicamente, as forças da resistência à ditadura conseguem impulsionar.

Até então, o cenário da denominada ‘canção ligeira’ limitava-se ao fado, que tinha os seus próprios circuitos de difusão na Rádio (e a partir de 1957 também na Televisão), e àquilo a que João Paulo Guerra virá a chamar ‘nacional-cançonetismo’, por irónica analogia com o ‘nacional-socialismo’ hitleriano. Quanto à música tradicional, é certo que Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça já desenvolviam o seu heróico trabalho de recolha, mas a verdade é que, para o grande público, ela se confinava às representações dos ‘ranchos folclóricos’ que funcionavam na sua maior parte como extensão do Secretariado Nacional da Informação, o departamento de propaganda do regime.

Ora será a partir de Coimbra que algo de novo irá surgir, em sentido contrário ao rame-rame então em vigor. José Afonso e Adriano Correia de Oliveira são os dois grandes impulsionadores do movimento que, a partir da recuperação do fado tradicional coimbrão, há de agitar as pautas e criar sérios embaraços ao decrépito Estado Novo. A edição da Balada de Outono, de José Afonso, provavelmente em 1960, é um dos primeiros reflexos do movimento que, timidamente, começa a despontar. Adriano junta-se-lhe logo de seguida e será a sua Trova do vento que passa que irá desenterrar definitivamente, em 1962, o ‘machado de guerra’ da música contra o obscurantismo do regime. De Zeca Afonso surgem também, por esses tempos, as primeiras composições de cunho marcadamente interveniente como Menino do bairro negro, Os vampiros ou No lago do breu. Mesmo assim, Zeca ainda encarava a música apenas na perspectiva de um sucedâneo da sua actividade como professor, e as primeiras cantigas nascem naturalmente do contacto com os seus alunos, nos sucessivos liceus e escolas por onde passou.

Entre os portugueses exilados há também os que sentem ser seu dever usar a canção como uma arma contra a ditadura. Era o caso de Luís Cília, um jovem músico nascido em Angola que, por recusar fazer a guerra colonial acabou por fixar-se em Paris, onde em 1964 publica o disco Portugal, Angola – Chants de lutte, através da histórica etiqueta ‘Le Chant du Monde’. E era o caso também de José Mário Branco que, mais ou menos por essa altura e pelas mesmas razões, vai também viver para Paris. Alguns anos depois, terá um papel central na renovação em curso, quer como autor e intérprete, quer como orquestrador de alguns dos mais importantes discos de José Afonso.

Por cá, e ainda em Coimbra, faz se ouvir também a guitarra de Carlos Paredes, a provar que a música instrumental pode também ser uma forma de luta. Ficaram célebres as numerosas sessões de poemas em que o Mestre participou, traduzindo nas cordas da guitarra a força das palavras do declamador de serviço. E, na esteira da actividade de Zeca e Adriano, outros cantores vão surgindo, todos eles com uma grande preocupação na escolha dos textos dos seus repertórios, e quase todos disponíveis para participar nas sessões culturais que se multiplicam por todo o país, muitas vezes de forma semiclandestina e frequentemente sujeitas a umas pouco simpáticas intervenções extramusicais a cargo da Pide e da GNR…

O ‘movimento’ estava criado. Em fins dos anos 60 e princípios de 70, destacam-se os nomes e as vozes de Manuel Freire, José Jorge Letria, Vieira da Silva, o (então) padre Francisco Fanhais, António Macedo, Fausto, Rita Olivais, Hugo Maia de Loureiro, António Pedro Braga, Duarte e Ciríaco, Francisco Naia, Pedro Barroso. E também Samuel, José Manuel Osório, Vitorino. Ou, oriundos de outra escola mas convergindo nos mesmos objectivos, Fernando Tordo, Ary dos Santos, Carlos Mendes, Maria do Amparo, Carlos Alberto Moniz.

Muitos destes novos autores e intérpretes surgiram na sequência do programa televisivo ‘Zip Zip’ que, aproveitando a fugaz abertura da chamada ‘primavera marcelista’, conseguiu furar a barreira de silêncio imposta pelos detentores do poder e dar a conhecer um pouco do que de novo se fazia entre nós. É graças ao ‘Zip’, por exemplo, que Pedra filosofal, um poema magistral de António Gedeão musicado e interpretado por Manuel Freire, se torna o primeiro grande êxito de vendas dos ‘baladeiros’, que é como estes jovens cantores se tornam conhecidos. Pouco tempo depois, um conjunto de novos discos lançados quase em simultâneo vem provar que algo está realmente a mudar em Portugal. É quando José Afonso publica Cantigas do Maio, Adriano Correia de Oliveira grava Gente d’aqui e d’agora e José Jorge Letria edita Até ao pescoço. A partir do exílio, chegam até nós mais dois discos destinados a fazer história: Mudam­-se os tempo, mudam se as vontades, de José Mário Branco, e Os sobreviventes, de Sérgio Godinho.

É também por essa altura (em Agosto de 1971) que acontece o primeiro Festival de Vilar de Mouros, uma modesta versão lusitana do mítico Woodstock que dois anos antes, a partir de uma quinta dos arredores de Nova York, ateara o imaginário de milhões de jovens por todo o mundo. O início dos anos 70 é também a época da consolidação da revista Mundo da Canção (MC para a comunidade de leitores-ouvintes), publicada desde Dezembro de 69 pelo mesmo pequeno grupo portuense de «agitadores» que daria corpo, algum tempo depois, ao jornal Memória do Elefante. A nova música portuguesa também se divulgava por escrito.

Paralelamente, os jovens portugueses agitam-se nas universidades e nos liceus. A guerra de África é um elemento catalizador da luta contra a ditadura. A Oposição mobiliza-se e leva por diante um conjunto de iniciativas que culminam no congresso de Aveiro, em 1973, onde apesar da dura repressão policial, se traçam importantes rotas para o futuro – que, afinal, estava muito mais próximo do que muitos supunham. José Afonso também participou nos trabalhos dessa cimeira da resistência. Uma vez mais, a música estava presente onde fazia falta.

Com o fim do fascismo, nos tempos que se seguiram a esse «dia inicial inteiro e limpo» que foi o 25 de Abril de 1974, abriram se as portas para a canção. Pela Rádio e pela Televisão, até então quase totalmente fechadas às novas expressões musicais, passaram a ser servidas em doses exaustivas as composições de Zeca, Letria, Godinho, Adriano, Cília, Zé Mário. As editoras, até então reticentes quanto ao futuro dos ‘baladeiros’ (com as honrosas excepções de Arnaldo Trindade e da Sassetti), começaram a investir fortemente no novo filão, gravando e difundindo tudo o que, de algum modo, pudesse ser apresentado como ‘cartão de visita’ da Revolução.

Por todo o lado se multiplicavam as sessões musicais mais ou menos improvisadas, na ânsia de recuperar no imediato tudo o que não tinha sido possível nos anos do medo. No I Encontro Livre da Canção, realizado no Porto poucos dias depois do derrube da ditadura, um grupo de cantores e activistas intelectuais tentou criar um movimento unitário – o ‘Colectivo de Acção Cultural’ – que desse força e contribuísse para abrir novos caminhos. Dessa tentativa ficou um comunicado subscrito por Adriano Correia de Oliveira, Carlos Albino, Carlos Augusto Gil, Eduarda Ferreira, Fausto, Francisco Fanhais, Francisco Gago da Silva, Isabel Branco, José Afonso, José Jorge Letria, José Mário Branco, José Maria Correia, Júlio Pereira, Luís Cília, Luís Cortesão, Manuel Freire, Manuel Alegre e Vitorino, que terminava com um apelo «a todos os trabalhadores culturais antifascistas, anti­colonialistas e anti-­imperialistas consequentes que estejam interessados em pôr a sua actividade musical ao serviço dos objectivos acima definidos (o pão, a paz, a terra, a independência nacional e a liberdade) e no sentido de unificar o multiplicar a nossa participação organizada e activa no movimento democrático e popular.»

Mas se o 25 de Abril representava o fim do obscurantismo e a possibilidade de concretizar em liberdade os objectivos que durante tantos anos tinham sido o motor da unidade entre os cantores anti­fascistas, vinha também pôr em evidência as diferenças entre eles, tornando impossível a continuação de um movimento unitário. E o ‘colectivo’ acabaria por desaparecer tão depressa como tinha nascido, com o crescimento das cisões entre os vários grupos político partidários por que se distribuíam os cantores de intervenção.

Desses tempos ficaram algumas dezenas de canções e ficaram milhares de horas vividas em torno de acções, umas mais colectivas do que outras, todas elas destinadas a «agitar a malta», como se exigia na época, fosse graças ao MFA ou a iniciativas de colectividades, círculos culturais, associações de moradores ou comissões de trabalhadores. As palavras de ordem eram inspiração suficiente para muitas músicas: «Paz, pão, habitação, saúde, educação» eram, ainda, reivindicações do quotidiano e serviram a Sérgio Godinho de mote para um belo tema sobre a liberdade. «A vitória é difícil mas é nossa», apregoada pelo PCP –, resultou numa canção de José Jorge Letria. Carlos Moniz e Maria do Amparo cantavam um «força, força companheiro Vasco» garantindo que «nós seremos a muralha de aço». E, de um modo mais simples, Tino Flores garantia: «Camaradas, no fundamental nós temos os mesmos problemas».

Depois, inevitavelmente, os cantores seguiram os seus próprios caminhos. E, à semelhança dos outros sectores da sociedade portuguesa, nem sempre as suas rotas se tornaram confluentes. Dessa época de euforia ficaram, porém, muitas canções: algumas inevitavelmente datadas, mas muitas outras bem capazes de resistir à poeira do tempo.

Nesta colectânea juntam-se canções do antes, do durante e do depois de Abril. Desde temas «fundadores» do movimento (Trova do vento que passa, Pedra filosofal) à clássica A Internacional (símbolo da esperança na transformação radical da sociedade), passando por algumas canções que fizeram história antes de Abril (Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Tango dos pequenos burgueses, Tourada, Canta amigo canta, Vejam bem, E alegre se fez triste, Monangambe) e por outras que são parte da própria banda sonora da revolução e dos tempos que se lhe seguiram (Somos livres, Já chegou a liberdade, Rosalinda, Os pontos nos is, Fernandinho vai ó vinho, A mim não me enganas tu, Chão nosso), as 30 faixas desta antologia cantam-nos uma história a muitas vozes. Uma história que fala de tempos difíceis – quando nomeávamos «Santo António» para referir o ditador de Santa Comba, quando a simples menção à palavra liberdade era passível de constituir um acto subversivo – e da esperança que veio depois. Uma história de que todos aqueles que estão hoje na faixa dos 50 se lembram bem, e que todos os outros devem aprender.

O que este disco agora nos propõe é uma viagem pelo vasto percurso da canção portuguesa, entre os últimos anos da ditadura e os primeiros passos da Liberdade. Sem dramatismos nem visões sectárias, com a tranquilidade que apenas a distância permite, mas ainda assim com a consciência de que é preciso não esquecer o passado, tanto no que respeita aos maus como aos bons momentos. Para que aqueles não voltem a repetir-se e para que estes possam permanecer. Na nossa memória e na nossa vida.

Introdução a E Depois do Adeus | Antologia de canções, CD ed. Farol, Abril de 2007

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