Viva quem canta

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Não venho aqui para vos dizer que Pedro Barroso é o melhor cantor do mundo. Não venho falar de festivais ou de cantigas populares que certos divulgadores rádio-afónicos transformaram em produtos de consumo. Não venho sequer como mestre de cerimónias incumbido de apresentar um acto de variedades levado à cena num palco de ilusões.

Sofremos, hoje, as consequências de sermos uma geração dividida entre um passado vagamente assumido e um presente sombrio. Desiludidos ou simplesmente derrotados, uns optaram pelo monastério do seu sectarismo rafeiro ou preferiram testemunhar em defesa de Jeová enquanto outros se tornaram militantes fervorosos do Sacanavenense. Safam-se uns quantos, os gajos porreiros, em luta permanente contra as trovas cansadas que nos enchem os ouvidos, sem outras armas que não sejam a vontade de continuar vivo.

Disse: vivo. E não penso, obviamente, naqueles que supõem ser a vida uma espécie de mausoléu onde repousam os restos mortais de velhas crenças. O que custa, na verdade, não é a forma de dizer mas a maneira de estar, já que afinal somos todos diferentes versões de anarcristos à cata de um futuro qualquer que deve andar por aí.

É disto que vos falo. De um mundo feito de pessoas, cantigas simples, fadigas sem conta. Das noites ganhas em rodas de amigos, dos encantos vadios desta Lisboa, da terra agreste que enche o Portugal inteiro que há para descobrir.

Pedro Barroso vive em Riachos, no coração do Ribatejo, cercado por estradas que nenhum Papa conhece. Como cantor e como homem não será melhor nem pior do que os outros, mas é, decerto, reflexo de um tempo e de um espaço bem definidos – onde há lugar para fados e fandangos, cantigas de amigo e baladas de desespero, lutas velhas e desejos renovados. Disto tudo vão ficando alguns trabalhos e muitas horas de voltas e revoltas nem sempre compensadoras. Mas vividas, com a sinceridade possível, entre humores variáveis e alguns gostos insatisfeitos.

Só por isso já valeria a pena ouvir este disco onde se fala de gente igual à gente, realidades incómodas, interrogações e angústias cada vez mais dolorosas. No fim de contas são estas as coisas de que vale a pena falar, ainda que doa. E se está já definitivamente afastada a hipótese da conquista de um reino dos céus, resta-nos ainda a esperança de alcançar um lugarzinho neste país à beira-mar entalado, um sítio qualquer onde nos deixem sonhar à vontade, sem os fantasmas do imposto por pagar, do amor feito a conta-gotas, do reencontro eternamente adiado.

Talvez um dia, quem sabe, talvez seja possível essa paz, aqui ou em algum outro recanto do universo, perdido nas marés de uma galáxia diferente. Até lá, vamos fazendo o que se pode, como se pode.

E que viva quem canta!

Nota introdutória ao LP Do Lado de Cá de Mim de Pedro Barroso | Rádio Triunfo | 1983

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