Alguns textos publicados na Imprensa durante os anos 80 do século XX | Em organização

Um marginal da política

+  Um marginal da política

«Há sempre uma nova ‘guerra’ que está para chegar, e essa é sempre melhor do que a anterior. Sempre relativa, nunca deixará de o ser, por muito empenhado que eu esteja nela, por muitas noites que perca. E depois, se não resulta, normalmente sou capaz de ver o que falhou na minha actuação. Na acção política não há fórmulas mágicas, aprende-se passo a passo.»
Carlos Antunes. Segredos e outras histórias de um guerrilheiro urbano.

O Jornal Ilustrado | 19.Out.1990

+ Um marginal da política

Saramago, autor do século XVIII

+  Saramago, autor do século XVIII

José Saramago, um romancista do século XVIII? Ninguém se lembraria de tal coisa, mas foi assim mesmo que ele foi inicialmente apresentado, em Bucareste, poucos meses antes do lançamento, pela Editora Univers, da tradução romena de «Memorial do Convento». Um truque para iludir a censura de Ceausescu. E resultou.

Jornal de Letras | 12.Jun.1990

+ Saramago, autor do século XVIII

Bom dia, tristeza

+  Bom dia, tristeza

É uma cidade triste cheia de gente triste. Tão triste como o odor que se sente nas ruas, intenso e incomodativo. «Cheira a ciganos e a comunistas», explica-me Mihaela, com um sorriso igualmente triste. Como Viorel, Alexandru, Alma ou Teodor, Mihaela tomou parte activa na revolução de Dezembro e sente, agora, a desilusão própria de quem vê frustrados os seus sonhos. Uma viagem pela Roménia pós-comunista, em tempo das primeiras eleições livres. Ou quase.

O Jornal | 1.Jun.1990

+ Bom dia, tristeza

Guerra santa contra o rock

+  Guerra santa contra o rock

«Satanás já não esconde as suas motivações. Os textos das canções condenam abertamente o cristianismo e apresentam a adoração do demónio como alternativa. A violência, o sexo, a rebelião e as drogas não são unicamente objecto de promoção, mas também são apresentados directamente ou encenados em palco. As canções fazem a apologia do suicídio e os telediscos levam a mensagem de Satã directamente a nossas casas...» Este discurso assustador não pertence à história da Santa Inquisição, nem tão pouco foi extrajdo de qualquer ritual exorcista da Idade Média. Trata-se, apenas, da expressão mais simples encontrada pelo padre norte-americano Fletcher A. Brothers para definir aquilo que considera ser o «rock satânico-teatral» dos anos 80.

Se7e | 9.Jun.1986

+ Guerra santa contra o rock

Um violino sem telhado

+  Um violino sem telhado

«Somos um povo demasiado sério e que não acredita em si próprio.» Palavras de Carlos Zíngaro, músico e autor de banda desenhada, em vésperas de um concerto em Lisboa, em meados de Março de 1985. Afinal, parece que há coisas que nunca mudam.

O Jornal | 15.Mar.1985

+ Um violino sem telhado

Tanto caminho andado...

+  Tanto caminho andado...

Polémico, por vezes contraditório, mas sempre corajoso e firme nas suas opções, José Carlos Ary dos Santos deixou um espólio de muitas centenas de canções que fizeram um pouco de história na música portuguesa.

Se7e | 25.Jan.1984

+ Tanto caminho andado...

A partilha da água

+  A partilha da água

«Para mim é sempre bom ter uma oportunidade de estar junto das pessoas, de passar com elas bons momentos. Quanto mais vezes estivermos juntos, mais poderemos falar uns com os outros, mais poderemos aprender. Uns com os outros e uns sobre os outros.»
No terraço de um hotel de Lisboa, Richie Havens fala-me assim da sua segunda visita a Portugal, desta vez para participar no espectáculo de encerramento do Festival «Dêem Uma Oportunidade à Paz». Aos 42 anos, quinze decorridos após Woodstock, Richie continua a parecer-se com os velhos hippies da geração de 60, embora sem deixar transparecer qualquer ponta de saudosismo em relação ao que foi feito pelos homens e mulheres do seu tempo.

Se7e | 3.Ago.1983

+ A partilha da água

A última vontade

Já passa da uma da manhã. A minha mulher continua sem aparecer e a gata Genoveva não pára de me lamber os calcanhares como se fossem gelado de limão. Dantes, as coisas e as pessoas eram muito mais simples, mas a tecnologia transformou tudo. Até as gatas. Escureço aos poucos na calma idílica dos subúrbios enquanto Ian Dury, preso nas ondas da telefonia, continua a sussurrar o seu convite: «Walk up and make love to me.» Não entendi ainda se será uma alusão discreta à minha mulher ou à gata mas, bem vistas as coisas, vai dar ao mesmo.

Se7e | 15.Jun.1983

+ A última vontade

Para acabar de vez com a decência

Longe vai o tempo do fado à solta em Alfama e na Madragoa, vadio e real como a amargura. A civilização ocupou as ruas e os becos, transformou as tascas em restaurantes e «pubs», iluminou a noite com vidrinhos coloridos, transformou as violas e as guitarras em potentes estereofonias.
Do fado livre e vadio restam um ou dois sítios no Bairro Alto e a memória dos mais velhos. E restam as fantasias, os mistérios e as solidões do nosso quotidiano, sonhos apressados de pequena metrópole.

Se7e | 8.Dez.1982

+ Para acabar de vez com a decência

A democracia do baralho

+  A democracia do baralho

Vivemos, ao que consta, num país democrático. Sui generis, sem dúvida, mas democrático. Mais do que isso: pluralista e cristão, como mandam as regras da convivência ocidental.
É claro que a revolução foi p'ró galheiro, graças à «originalidade». É claro que os pides, os bombistas e os ministros de Salazar se encontram em liberdade enquanto um punhado de antifascistas morre aos poucos nas prisões. É claro que a polícia de choque bate (para nos livrar da subversão), o Governo prepara leis pré-históricas (para defender a instituição) e o povo tem fome (para manter a tradição). Mas a essência da pátria mantém-se democrática, encantadora, bem portuguesa.

O Jornal | 2.Jul.1982

+ A democracia do baralho

Um velho espírito de Natal

+  Um velho espírito de Natal
No Natal, o Rossio transforma-se numa espécie de presépio gigante (...) onde os reis magos foram substituídos pelos agentes da Casa da Sorte e os pastores ganharam a forma de polícias sem rosto. Os meninos do presépio do Rossio andam pelas ruas do Metro a vender pensos rápidos, alimentando-se na esperança de uma estrela qualquer que os guie a novo destino. E São José, na encosta do Martim Moniz, aguarda pacientemente a chegada dos bêbados e das putas ...
Se7e | 30.Dez.1981

+ Um velho espírito de Natal

Memórias de Santa Engrácia

+  Memórias de Santa Engrácia
De todos os templos portugueses nenhum demorou tanto tempo a construir como o de Santa Engrácia – hoje Panteão Nacional – no coração da Lisboa antiga, que Ramalho Ortigão considerou «o mais belo dos nossos monumentos do século XVII». A sua história está intimamente ligada às crenças populares nascidas após o célebre «desacato de Santa Engrácia», em 1630, e constituiu o fulcro das atenções do «passeio de domingo» que o Centro Nacional de Cultura ontem realizou.
O Diário | 25.Mai.1981

+ Memórias de Santa Engrácia

À descoberta do Arco

+  À descoberta do Arco
Quem sabia, por exemplo, que a Sala do Arco – ocupando todo o interior do único piso ali existente, ao cimo de algumas dezenas de degraus – esteve em tempos para ser um museu? Ou que o seu monumental relógio foi construído por Manoel Francisco Gousinha, relojoeiro mecânico de Almada?
O Diário | 29.Dez.1980

+ À descoberta do Arco

Em tempo de Natal

+  Em tempo de Natal
Em tempo de Natal, as leis e os tribunais ficam um pouco como os pombos: aceitam aquilo que lhes dão e procuram não ser muito severos com a aplicação da justiça. Além disso, como toda a gente sabe, é preciso ser-se complacente de vez em quando ...
O Diário | 26.Dez.1980

+ Em tempo de Natal

Mais sugestões de leitura

  • Crime e castigo Open or Close

    A notícia da detenção, em Londres, do antigo ditador chileno Augusto Pinochet tornou-se no principal acontecimento deste fim-de-semana – e por pouco não conseguiu secundarizar o discurso de duas horas e meia de Fidel Castro no comício de solidariedade com Cuba, em Matosinhos.

    RCS | 19.Out.1998

    Ler Mais
  • À descoberta do Arco Open or Close
    Quem sabia, por exemplo, que a Sala do Arco – ocupando todo o interior do único piso ali existente, ao cimo de algumas dezenas de degraus – esteve em tempos para ser um museu? Ou que o seu monumental relógio foi construído por Manoel Francisco Gousinha, relojoeiro mecânico de Almada?
    O Diário | 29.Dez.1980
    Ler Mais
  • Na morte de Luís Pignatelli Open or Close

    «O Luís Pignatelli faz aqui muita falta», lamentava-se, uma destas tardes, o Armando Baptista-Bastos ao balcão do Expresso, um dos últimos lugares de convívio do largo a que deram o nome de Trindade Coelho, mas que há-de ser sempre da Misericórdia, por maioria de razão popular. Naquele espaço por onde os afectos ainda vão circulando, disfarçados de imperiais e cariocas de limão, a falta que o Luís faz é particularmente sentida. E o lamento do Bastos nem sequer precisa de ter resposta, todos sabem que é verdade. Sente-se nas conversas, quer sejam contra o Cavaco ou em glória de um soberbo frontispício feminino que vai passando pelo largo onde os pombos promoveram uma ocupação selvagem.

    Revista MPP | Julho 1994

    Ler Mais
  • A nostalgia da esperança Open or Close
    Nenhuma revolução se faz com cantigas. Mas elas são sempre parte integrante de qualquer movimento social e político, reflectindo-lhe os intentos, analisando-lhe os defeitos e as virtudes, antecipando, até, as suas consequências de futuro.

    Canto de Intervenção
    Edição A25A | 1984

    Ler Mais