Em tempo de Natal

b_500_400_16777215_00_images_geral_d_nat3.jpg

Em tempo de Natal, as leis e os tribunais ficam um pouco como os pombos: aceitam aquilo que lhes dão e procuram não ser muito severos com a aplicação da justiça. Além disso, como toda a gente sabe, é preciso ser-se complacente de vez em quando e o Natal serve às mil maravilhas para demonstrar que afinal somos todos boa gente, carregadinha de senti­mentos. Pois.

Benjamim tem pouco mais de 20 anos, cabelo à Bo Derek, é estudante de Biologia. Nasceu em Cabo Verde e vive no Alto de Santo Amaro, onde joga basquetebol nos tempos livres. Esta é a primeira vez que vem a tribunal, coisas que acontecem: durante um jogo do fim-de-semana esteve prestes a ser desclassificado com as cinco faltas da ordem. O árbitro tem as suas opiniões, Benjamim não concorda, gera-se uma cena mais ou menos violenta e pouco desportiva.

– Estava debaixo de uma grande tensão... – explica Benjamim.

Pois é. O juiz franze o sobrolho, que um bom desportista tem de saber controlar-se, está a ver o que você arranjou.

Palavra para aqui, jus­tificação para ali, «um homem às vezes des­controla-se», até que o árbitro sovado entra em campo, isto é, na sala de audiências, e conta como foi. Benjamim confirma as agressões, diz que não foi premeditado. O juiz pergunta ao agredido se quer perdoar ou se mantém a queixa, mas árbitros são árbitros e murros são murros. A queixa continua válida e «que se faça justiça».

O juiz encolhe os ombros, afinal de contas o ofendido está no seu pleno direito de prosseguir.

– O que não quer dizer que em boa ética desportiva não fosse de perdoar...

Segue-se a sentença: quarenta dias de prisão e seis de multa a 50 escudos ou, em alternativa, mais quatro dias de prisão, além de mil escudos ao árbitro. Mas como é delinquente primário fica com a pena suspensa por dois anos, desde que pague a milena ao ofendido no prazo de um mês.

«E não se meta noutra, veja lá...»

O Diário | 26.Dez.1980

Mais sugestões de leitura

  • Rei Roberto leal a Cavaco Open or Close

    «Aderi ao PSD porque confio no dr. Cavaco Silva. Se vou fazer campanha? Não sei. Mas se eu for consultado, pela primeira vez poderei dizer que o nome do dr. Cavaco Silva é um nome recomendado.» Nasceu em Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros, há 39 anos, mas viveu no Brasil os últimos 28 e ali se tomou conhecido e rico. Regressou a Portugal, ao que diz, para ficar. E, «após um ano vivendo aqui, me confundindo com as pessoas», converteu-se a Cavaco. Chama-se António Joaquim Fernandes, mas o público só o conhece como Roberto Leal.

    O Jornal | 25.Abr.1991

    Ler Mais
  • Três contos de reis Open or Close

    Quando lhe disseram que o trono era seu, nem queria acreditar. Havia tantos anos que sonhava com aquele momento, e agora que ele ali estava, sentia-se infinitamente pequeno, tanto que por instantes pensou que ia fraquejar. Então levantou os olhos na direcção de seu velho pai, e perguntou:
    – Senhor, será que eu posso sentar-me sem medo nesse espaldar de tanta responsabilidade? ...

    Ler Mais
  • António Pinho Vargas Open or Close

    Um homem que fala através de um piano. Foi assim que há muitos anos conheci o António, éramos os dois algo mais jovens e talvez menos intranquilos. Tenho ideia de que na altura ele tocava na banda do então recém-descoberto Rui Veloso, mas já tinha vivido uma mão-cheia de experiências noutros grupos de diferentes tendências. Era, como é, um tipo discreto e já um nome conceituado da música que se fazia em Portugal. Do jazz fazia, nesse tempo, o seu meio de expressão mais comum, mas nunca o único, e a sua marca fez-se sentir muito cedo. Com ele passou a haver uma maneira portuguesa de fazer e sentir o jazz, de fazer e sentir a música. A maneira de António Pinho Vargas.

    Ler Mais
  • A voz do desassossego Open or Close

    «Águas das fontes calai / ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar…» Por um instante, a voz de Zeca estremece e emociona a plateia, onde muitos não conseguem conter as lágrimas perante a crueza premonitória deste verso, aquele que ainda hoje em primeiro lugar me ocorre de cada vez que penso nessa noite mágica de 29 de Janeiro de 1983. Raras vezes um tema musical terá sido tão perturbador para um auditório como o foi essa Balada de Outono cantada por José Afonso no palco do Coliseu dos Recreios. Nenhum de nós o dizia, mas todos sabíamos que aquela era, com certeza, a última vez que o teríamos ali connosco, a cantar como só ele as coisas que mais ninguém sabia fazer assim.

    Introdução ao DVD Ao Vivo no Coliseu, de José Afonso | 2010

    Ler Mais