À descoberta do Arco

b_500_400_16777215_00_images_geral_txtarco01.jpg

Mais de meia centena de pessoas participou na visita ao interior do Arco da Rua Augusta que ontem se realizou, no âmbito dos já habituais «passeios de domingo» que o Centro Nacional de Cultura promove regularmente.

Durante pouco mais de uma hora os curiosos foram postos ao corrente da história do Arco e dos pormenores arquitectónicos que determinaram a obra tal como nós a conhecemos – mas que poderia ser bem diferente, não fossem as interrupções que a sua construção foi sofrendo.

De facto, embora iniciado em 1755, o Arco só ficaria concluído mais de um século depois, em 1873, o que originou as desigualdades existentes no conjunto, nomeadamente na parte superior, cuja grandiosidade contrasta com as linhas simples do resto da Praça.

O Arco da Rua Augusta é o único de feição triunfal existente em Lisboa. O projecto inicial deve-se ao arquitecto Veríssimo José da Costa e o grupo alegórico do topo, representando a Glória coroando o Génio e o Valor, foi concebido por Célestin Anatole Calmeis, escultor francês que viveu em Portugal desde meados do século XIX até à sua morte, em 1906, e que é também o autor do monumento ao rei D. Pedro IV, no Porto. As duas figuras laterais do Arco, simbolizando o Douro e o Tejo, bem como as estátuas de Nuno Álvares e Viriato (à esquerda) e do Marquês do Pombal e Vasco da Gama (à direta), foram realizadas por Vítor Bastos.

Estes e outros pormenores foram explicados aos visitantes por Fernando Castelo Branco, que serviu de guia durante o passeio de ontem. Quem sabia, por exemplo, que a Sala do Arco – ocupando todo o interior do único piso ali existente, ao cimo de algumas dezenas de degraus – esteve em tempos para ser um museu? Ou que o seu monumental relógio foi construído por Manoel Francisco Gousinha, relojoeiro mecânico de Almada, segundo mais a respectiva placa de identificação?

b_500_400_16777215_00_images_geral_txtarco03.jpg

A zona do Terreiro do Paço, encimada pelo Arco da Rua Augusta, constitui um dos pontos de maior interesse turístico e arquitectónico da capital. Segundo opiniões de especialistas nacionais e estrangeiros, trata-se de uma das mais belas praças do mundo. Martin Sharp Hume, historiador inglês dos princípios do século XX, disse dela que «é a mais importante praça pública da Europa, com excepção talvez da Praça da Concórdia, em Paris».

Edificada por ordens do Marquês do Pombal após o terramoto de 1755, a Praça do Comércio conhecida dos ingleses por Black Horse Square (Praça do Cavalo Negro) devido à estátua equestre de D. José, de autoria de Joaquim Machado de Castro, constitui ainda hoje o local por excelência dos serviços públicos. Ali funcionam alguns ministérios, o Supremo Tribunal de Justiça, a Cruz Vermelha. Ali também têm acontecido alguns dos mais importantes episódios da nossa História.

A designação de Terreiro do Paço remonta ao século XVI, quando D. Manuel mandou edificar naquele local um sumptuoso palácio, o Paço da Ribeira, mais tarde ampliado por D. João III e Filipe II. Do seu recheio fazia parte uma das mais valiosas bibliotecas reais da época, perdida, tal como o edifício, com o terramoto.

O célebre episódio de Miguel de Vasconcelos, atirado à rua pelos conjurados em 1 de Dezembro de 1640, passou-se no Paço da Ribeira. Miguel de Vasconcelos era um daqueles políticos de aviário que estão sempre ao lado do Poder o que, na circunstância, lhe valeu ser nomeado secretário de Estado às ordens do rei castelhano, representado em Portugal pela duquesa de Mântua, Margarida de seu nome.

Miguel foi executado sumariamente e o seu cadáver lançado de uma das janelas do Paço, como prova da vitória, enquanto Margarida, de outra janela, tentava ainda convencer o povo de que os Filipes eram boa gente e a revolução não passava de um engano.

O palácio e toda a zona circundante foi completamente destruído em 1755, pelo terramoto e a sua riqueza «engolida» pelas águas do Tejo. Das suas ruínas nasceu a actual Praça do Comércio, e o Cais das Colunas, a sul da praça, de onde se desfruta o belo panorama que o Tejo (ainda) oferece.

Praça do Comércio lhe chamou o Marquês, Terreiro do Paço ficou sempre na memória do povo. Nomes que, na verdade, pouco importam. Porque, chamem-lhe o que chamarem, é de Lisboa que se trata.

O Diário | 29.Dez.1980

Mais sugestões de leitura

  • Silêncios sem preço Open or Close

    Agora, António Ferra propõe-nos estes Silêncios Comprados. São três histórias de subúrbios e de gente igual a toda a gente. Neste livro há personagens que vivem «entalada[s] entre marquises de alumínio» em bairros onde os passeios «estão cheios de carros mal intencionados», há imigrantes ucranianos e brasileiros e sãotomenses, uma mulher mal-casada com um tecnocrata (o que até é capaz de ser um bocado pleonástico...), um cão à chuva, gente à procura dos significados do amor nas escadas intermináveis de um prédio de Lisboa. São gente sem rosto, mas com nome, afinal gente igual a toda a gente, com as mesmas angústias, os mesmos medos, as mesmas dúvidas.

    Apresentação de Silêncios Comprados, de António Ferra | 2007

    Ler Mais
  • Um velho espírito de Natal Open or Close
    No Natal, o Rossio transforma-se numa espécie de presépio gigante (...) onde os reis magos foram substituídos pelos agentes da Casa da Sorte e os pastores ganharam a forma de polícias sem rosto. Os meninos do presépio do Rossio andam pelas ruas do Metro a vender pensos rápidos, alimentando-se na esperança de uma estrela qualquer que os guie a novo destino. E São José, na encosta do Martim Moniz, aguarda pacientemente a chegada dos bêbados e das putas ...
    Se7e | 30.Dez.1981
    Ler Mais
  • As sandálias do pecador Open or Close
    O que a seguir se oferece tem o mesmo sentido da partilha bíblica do pão e do vinho. Tinto corrente ou néctar do bom, de preferência com o conduto de uma morcela da Beira ou de um chouriço de Barrancos, que o Mário não se faz rogado. E movimenta-se com o mesmo à-vontade nos salões mais elegantes ou nas tascas mais ordinárias. Sempre com os amigos por perto, como se impõe. Os amigos "que são tristes com cinco dedos de cada lado", como diz Herberto. Os amigos que o Mário torna alegres e que cultiva como rosas delicadas, quer sejam poetas famosos ou bêbados anónimos, mulheres distintas ou putas de rua, actores de seis assoalhadas ou figurantes sem abrigo. À nossa!
    O IVAngelho II Mário Alberto
    Edições Sojorama 2002
    Ler Mais
  • A última vontade Open or Close

    Já passa da uma da manhã. A minha mulher continua sem aparecer e a gata Genoveva não pára de me lamber os calcanhares como se fossem gelado de limão. Dantes, as coisas e as pessoas eram muito mais simples, mas a tecnologia transformou tudo. Até as gatas. Escureço aos poucos na calma idílica dos subúrbios enquanto Ian Dury, preso nas ondas da telefonia, continua a sussurrar o seu convite: «Walk up and make love to me.» Não entendi ainda se será uma alusão discreta à minha mulher ou à gata mas, bem vistas as coisas, vai dar ao mesmo.

    Se7e | 15.Jun.1983

    Ler Mais