Bom dia, tristeza

É uma cidade triste cheia de gente triste. Tão triste como o odor que se sente nas ruas, intenso e incomodativo. «Cheira a ciganos e a comunistas», explica-me Mihaela, com um sorriso igualmente triste. As origens do mau cheiro que assalta as narinas do viajante (semelhante ao que se sente, também, em muitos bairros de Moscovo) são obviamente outras: sobretudo a poluição atmosférica, por um lado, e a falta de higiene e de limpeza, visível tanto nas ruas como nos cafés e nos hotéis de luxo, que o são apenas porque um dia alguém assim os classificou.

Para o visitante, a revolução romena é como que o nosso 25 de Abril, porém visto ao espelho: as palavras, aqui, têm o significado oposto («comunista» tornou-se um insulto tão grande em Bucareste, como «fascista» na Lisboa de 75), e de certa maneira os valores também. O grande anseio de boa parte dos romenos parece ser o acesso à «iniciativa privada», mesmo quando não sabem muito bem no que consiste. «It's the free market», diz-me, num inglês arranhado, um jovem vendedor romeno quando o questino sobre a descarada discrepância dos preços praticados em função da nacionalidade do cliente.

Esta imagem de um Abril ao contrário percebe-se melhor quando se pensa na natureza do movimento que levou à queda de Ceausescu comparativamente com a Revolução dos Cravos: em Portugal, houve um golpe de estado que deu origem a uma revolução, na Roménia foi um movimento revolucionário que se transformou num golpe de estado. Este sentimento é partilhado por muitos dos jovens e menos jovens que nas últimas semanas ocuparam a Praça da Universidade, no centro de Bucareste, em protesto contra o que entendem ser uma «reciclagem» do regime anterior. Como Viorel, Alexandru, Alma ou Teodor, Mihaela tomou parte activa na agitação de Dezembro e sente, agora, a desilusão própria de quem vê frustrados os seus sonhos de uma transformação radical da sociedade. «Nós fizémos a revolução, mas quem ganhou foram eles».

«Eles» são a Frente de Salvação Nacional (FSN), no poder desde a queda de Ceausescu, em Dezembro passado. A desconfiança que, sobretudo nos sectores intelectuais, existe em relação à FSN tem a ver principalmente com o passado dos seus mais destacados dirigentes. Iliescu, o presidente eleito, grande amigo de Gorbachev e membro do comité central do PC até 1984 (apesar de, em 1972, ter sido afastado dos lugares de decisão, em Bucareste, e enviado para Timisoara, onde foi o responsável pela direcção regional do partido) foi, no regime de Ceausescu, o responsável pelo sector da propaganda.

Silvio Brucan, o homem que a si próprio se considera «a eminência parda» da Frente de Salvação, pertence à primeira geração de comunistas romenos, a de Gheorghe Gheorghiu-Dej, instalados no poder com o auxílio soviético no rescaldo da II Guerra Mundial. Dois anos após a morte de Estaline foi o responsável editorial do «Scienteia», o jornal oficial do PC romeno e, em príncipio dos anos 50, foi o autor de numerosos artigos em que defendia «a destruição completa» dos oposicionistas ao regime comunista – textos agora reproduzidos pelos periódicos não comprometidos com a Frente –, conselho que os seus camaradas de então terão tomado a peito: só o Partido Camponês reivindica 300 mil mortos e desaparecidos durante esse período e, no total, fala-se, aqui na capital, em números próximos do milhão. Mais tarde, Brucan foi director da televisão romena, onde ajudou a criar a estrutura censória que se manteve até à queda de Ceausescu.

A presença destes e de outros elementos em lugares-chave da FSN e do governo (como Sérgio Celac, durante anos o responsável pela tradução para Inglês dos livros atribuídos ao  «génio dos Cárpatos») gera um compreensível mal-estar entre as hostes oposicionistas, que temem a instalação de um regime «neocomunista» na Roménia.

Uma cidade de contrastes

Os apoiantes da Frente dizem, por sua vez, que vão conduzir a Roménia por uma «terceira via», nem capitalista, nem comunista. Iliescu defendeu esta ideia durante uma conferência de Imprensa, cinco dias após as eleições que o plebiscitaram, mas não explica, em termos concretos, o que vai fazer. Permanece a incerteza quanto às grandes questões, sobretudo económicas, fundamentais para elevar a condição social dos Cárpatos: o ordenado médio dos romenos ronda os três mil lei (cerca de 20 contos, ao câmbio oficial, menos de 5 no mercado negro), um televisor custa pelo menos 40 mil. A produção de carne é grande, mas destina-se primordialmente à exportação.

Há imensas filas de espera em frente aos estabelecimentos abastecedores e quando, após longas horas, o cidadão vê chegar a sua vez, tem direito a uma porção de carne congelada – que tanto pode ser bife como costeleta –, habitualmente de fraca qualidade. A alternativa é comprar um osso, para dar sabor à sopa, ou meia dúzia de pés de porco, a que os romenos chamam «adidas» por óbvia semelhança anatómica com o símbolo gráfico da popular marca desportiva.

Fora de Bucareste, para Norte, o nível de vida é, apesar de tudo, superior ao da grande cidade. Os pequenos camponeses de Brasov, Bran e dos arredores de Ploiesti conseguem, através dos pedaços de terra que cultivam (agora aumentados com a atribuição, pela FSN, de pequenos lotes antes colectivizados, medida que terá contribuído decisivamente para o real apoio popular de que Iliescu disfruta junto da população da província), criar uma base económica que lhes permite sobreviver. Nas montanhas é frequente verem-se pequenas casas ricamente trabalhadas em madeira, quase sempre construídas pelos próprios moradores – como a de Popa-Nica Ior, na aldeia de Rucar, que visito na Transilvânia.

O contraste destas moradias com os feíssimos blocos de apartamentos de Bucareste é flagrante, mas ainda assim não tanto como quando comparadas com os luxuosos palácios que, em número superior a 40, a família Ceausescu tinha à sua disposição. Alguns foram propositadamente construídos para o efeito, como o de Snagov, junto à antiga estância do Cominform (à volta do qual, consta, Ceausescu mandou matar todos os cães e confiscar os carneiros, para não ser incomodado), outros, como o Castelo de Pelesh, em Sinaia, (mandado construir por Carol I, o rei eleito de fins do século XIX, e que é um verdadeiro repositório de tesouros artísticos) eram museus que o ditador decidiu encerrar e utilizar como casas de férias.

O regresso das velhas senhoras

«O grande problema do regime comunista na Roménia foi a destruição de toda uma cultura e dos valores básicos do relacionamento entre as pessoas», diz-me Dan Caragea, a propósito da desconfiança que, sobretudo nas cidades, as pessoas sentem umas em relação às outras. «E, como o aparelho do partido e da Securitate não chegou a ser inteiramente desmantelado, nós continuamos a olhar com reservas para aqueles que não conhecemos: nunca se sabe se o chefe de mesa do restaurante onde estamos não foi um dos muitos milhares de informadores da polícia.»

A par desta desconfiança, o baixo nível social dos cidadãos e as relações económicas que transformam o dólar norte-americano num verdadeiro santo padroeiro, determinam o dia-a-dia de Bucareste. As prostitutas, desaparecidas da circulação nos tempos que se seguiram à revolução, voltaram em força nos oito dias que antecederam as eleições de 20 de Maio. A presenca de um grande número de estrangeiros (e, portanto, de dólares) esteve na origem desta «mobilização geral». São, em regra, raparigas entre os 20 e os 25 anos, mas também as há da «velha guarda», destinadas aos «camones» mais desamparados. Os bares dos hotéis são, como é regra nos países de Leste, as suas trincheiras preferidas e os preços variam entre os 50 e os 100 dólares, de acordo com as modalidades e o aspecto mais ou menos endinheirado da «vítima».

Assim, as mulheres «da vida» acabam por ser, com os taxistas e os empregados de mesa, alguns dos «privilegiados» da Roménia actual: os dólares que arranjam dão-lhes acesso a alguns pequenos luxos só possíveis de encontrar nas lojas da Comturist – e que vão do apetecido uísque escocês ao vinho romeno de qualidade, passando pelos corriqueiros chocolates «Mars» e «M&M». Porque nas lojas, além de compotas, camarões vietnamitas de aspecto intragável e roupas baratas, quase nada mais se encontra.

Não admira, assim, a tristeza que se sente em todas as esquinas sujas de Bucareste, nem o ódio aos comunistas, nem o encolher de ombros desanimado dos habitantes. Afinal, como diz Viorel, um estudante que, em 22 de Dezembro, participou no assalto ao Comité Central, «durante os últimos 40 anos (e, principalmente, a partir de fins dos anos 70, quando a economia entrou em queda livre) as pessoas habituaram-se à política do "deixa andar", que resultou na ineficácia total do sistema».

A solução? «Privatizar a economia, responsabilizar directamente as pessoas pela produção e acabar com a equalização salarial», acha Mihaela, contagiada pelo que ouviu e leu nos últimos meses. «O que nós queremos é, apenas, ter o direito de viver com um mínimo de dignidade. E em liberdade.»

Essa, afinal, talvez a conquista maior - se não a única - da revolução romena. Que se dirige agora ninguém sabe bem para onde, perdidas as referências antigas e com o Ocidente quimérico em mente como objectivo supremo. «O problema é mesmo esse», diz ainda Dan. «Com tudo aquilo por que passámos, deixámos de acreditar nas utopias.»

O Jornal | 1.Jun.1990

* Este texto inclui mais cerca de 1000 caracteres do que a reportagem publicada em 1990, correspondentes a excertos menos relevantes que, por motivos de espaço, foi então necessário cortar. Dado que na altura já havia computadores na redacção de O Jornal, o texto primitivo ficou guardado em formato digital e pode agora ser recuperado e publicado na versão integral.

Notas de viagem

Não, não é uma reportagem fotográfica, que o autor não tem estudos nem habilidade para tanto. São apenas alguns apontamentos de viagem captados em película, entre Bucareste e a Transilvânia, em Maio e Junho de 1990.

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