Guerra santa contra o rock

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«Satanás já não esconde as suas motivações. Os textos das canções condenam abertamente o cristianismo e apresentam a adoração do demónio como alternativa. A violência, o sexo, a rebelião e as drogas não são unicamente objecto de promoção, mas também são apresentados directamente ou encenados em palco. As canções fazem a apologia do suicídio e os telediscos levam a mensagem de Satã directamente a nossas casas...»

Este discurso assustador não pertence à história da Santa Inquisição, nem tão pouco foi extraído de qualquer ritual exorcista da Idade Média. Trata-se, apenas, da expressão mais simples encontrada pelo padre norte-americano Fletcher A. Brothers para definir aquilo que considera ser o «rock satânico-teatral» dos anos 80. Brothers é o fundador e o director,  espiritual e material, da organização Freedom Village que, desde meados do ano passado, encabeça nos Estados Unidos uma espécie de «guerra santa» cuja palavra de ordem poderia muito bem ser «morte ao rock e a quem o apoiar». Motivação e finalidade exclusiva da campanha: acabar de vez com a difusão da música «pornográfica» ou «assassina» (sic) que «já causou a destruição de milhões de vidas» e, na opinião do sacerdote, é também a principal responsável pelo aumento do número de«adolescentes drogados, rebeldes e sexualmente activos».

Brothers vai, no entanto, mais longe ao garantir, de modo explícito, que por trás de tudo isto anda a mãozinha marota do próprio Satã. É assim que músicos como Prince, Boy George, Alice Cooper ou mesmo Michael Jackson, ao lado de grupos como os Black Sabbath, AC/DC, The Greatful Dead, Kiss ou WASP surgem a encabeçar a extensa lista de «possessos» elaborada pelo padre Fletcher Brothers e profusamente distribuída no território norte-americano.

As mulheres do Grande Irmão e a influência do demónio

A Freedom Village é uma organização sediada em Lakemont, Nova Iorque, e destina-se à «recuperação de jovens turbulentos». Denominando-se a si mesma «a place of miracles» (um lugar de milagres), a instituição do padre Brothers decidiu declarar guerra ao rock imediatamente após as primeiras acções desenvolvidas pela Parents' Music Resource Center (PMRC), que culminaram na criação de uma «comissão especial» junto do Senado destinada a tomar medidas contra «o excesso de pornografia» na música popular norte-americana.

Conforme o «Se7e» oportunamente referiu (texto de João Gobern, edição de 12 de Março p.p.) as acções do PMRC destinavam-se prioritariamente a instituir um novo tipo de censura nos textos das canções publicadas nos Estados Unidos, com vista a «pôr fim à escalada da violência e da sexualidade expressas na música rock actual. «Proteger os nossos filhos» é o grande objectivo expresso pela campanha do PMRC. A sua legitimidade, no entanto, é contestada por grande parte da opinião pública, por inúmeros jornalistas e responsáveis de programas de rádio e, em particular, pelos músicos, compositores e autores de textos na área visada pelas acções da organização. Em causa, naturalmente, a argumentação «moralista e hipócrita» do PMRC e ainda a própria origem e composição da organização, liderada pelas esposas de alguns senadores norte-americanos a quem Frank Zappa, o seu principal opositor, denominou já por «the wives of Big Brother» (as mulheres do Grande Irmão), numa clara e oportuna alusão orwelliana.

A «guerra santa» do padre Fletcher Brothers surgiu sem qualquer relação directa com a «cruzada» do PMRC. Os objectivos de ambas as campanhas, porém, são idênticos, muito embora as esposas dos senadores não tenham, até ao momento, feito qualquer referência à «intervenção» de Satanás no processo criativo dos rockers norte-americanos. A «influência demoníaca» é, para Brothers a razão central «da violência, da sexualidade explícita e da apologia da droga e do suicídio», patente nas canções populares da actualidade. A história do rock, na perspectiva da messiânica organização resume-se a uma sequência infindável de obscenidades, perversões e aberrações sexuais, desvios sociais e apelos à subversão.

Com o que a Freedom Village provavelmente não contava era com a «colaboração voluntária do tão temido demónio que, pela mão de Frank Zappa, incluiu a lista de «excomungados do rock» elaborada pacientemente pelo padre Fletcher Brothers, num dossier sobre as campanhas inquisitoriais de que Zappa é uma das vítimas.
O documento, a que o Se7e teve acesso, foi recentemente distribuído a vários e realizadores de rádio dos Estados Unidos, a propósito da edição de «Frank Zappa Meets The Mothers Of Prevention». Uma carta do próprio Zappa, que acompanhava cada do dossier, incluía apenas um pedido: que cada um analisasse «honesta e imparcialmente» as posições assumidas por todas as partes em confronto – o PMRC e a Freedom Village, Zappa e os seus companheiros – e, daí, tirasse a conclusão entendesse: «Se concordar com o ponto de vista deles, faça aquilo que eles lhe pedem; se não concordar, diga isso mesmo: que não concorda. A defesa dos nossos direitos constitucionais depende de si.»

 O rol dos excomungados

A leitura da longa lista de pequenos e médios demónios do rock'n’roll tem quase tanto de surpreendente como de divertido, ainda que revele alguns aspectos particularmente sinistros da mentalidade norte-americana mais conservadora. Quase uma centena de grupos, entre históricos e circunstanciais, surgem apontados no «index» do padre Brothers como portadores da influência directa e malévola de Satanás.

Curiosamente, Frank Zappa não é citado no rol dos «excomungados» – provavelmente o director da «cruzada» considera-o como a própria encarnação do demónio – que, em contrapartida, não poupa músicos tão aparentemente inocentes como John Denver (que se auto-intitula «messias» e pretende «promover o evangelho de uma nova religião», segundo Brothers), Pat Benatar (a propósito da sua canção «Hell Is For Children»), The Bee Gees (por causa de «To The Edge Of The Universe»), Kris Kristofferson (um defensor da «possessão demoníaca», como prova a sua cantiga «Shake Hands With The Devil») ou Linda Ronstadt. Mas há mais: pelo relatório da Freedom Village, ficamos a saber que Elton John é«um cantor que se dedica a promover o uso das drogas, as relações entre lésbicas, a prostituição, a revolução e o suicídio», para além de se dedicar ao estudo «do satanismo e da bruxaria».

Já agora, fiquem a saber que Boy George é«a criatura mais perversa que existe» e que Janis Joplin, «uma conhecida lésbica», se suicidou quando, «depois de uma 'overdose', olhou para o espelho e não ficou satisfeita com o que viu». E ainda que Jimmy Hendrix, «considerado como um deus por muitos dos seus admiradores, morreu no seu próprio vómito» por razões idênticas às de Joplin.

E os Beatles? Fletcher Brothers garante «a sua grande revolução era contra Deus», convicção que ilustra com os primeiros versos de «Imagine» (que, por acaso, é posterior à dissolução do grupo e da responsabilidade exclusiva de Lennon), acrescentando que, «ao longo de toda a sua carreira, os Beatles demonstraram não ter qualquer respeito pela autoridade ou pela religião.» Graças a Deus, diria um cínico que a gente conhece.

Ao dedo inquisidor de Fletcher A. Brothers não escapam incólumes «as projecções astrais do corpo de Ritchie Blackmore que se verificavam durante os concertos dos Deep Purple»,  nem o facto de este grupo utilizar para as gravações dos seus discos «um castelo setecentista supostamente assombrado por um demónio que serviu Baal, o deus babilónico». E não esquece que Jackson Brown tem uma canção («Rosie») que «se refere ao prazer da masturbação» ou que os Blue Oyster Cult imprimem sempre «uma cruz satânica nas capas dos seus discos». Satânico é ainda, para o instigador deste exorcismo colectivo, o facto de Paul McCartney e sua mulher, Linda, terem sido presos por posse de marijuana. Ou o disco dos Pink Floyd, «The Wall», onde incluem «apelos à violência, à droga e à rebelião», expressos por exemplo em «Another Brick In The Wall»: «Não precisamos de educação /.../ Professor, deixa as crianças em paz», topam?

Dos Rolling Stones nem vale a pena falar. A simpatia pelo demónio, neles, é uma constante, a crer no padre Brothers. O mesmo acontece, aliás, com os Black Sabbath (como o nome indica), ou com os Jethro Tuil (tão alarves que até se atrevem a garantir que «no principio, o homem criou Deus»), com os WASP (os tais de «Fuck Like a Beast»), ou mesmo com os Moody Blues, os Uriah Heep e os The Who. Ou ainda com Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Carlos Santana, Rod Stewart...

Confusos? Ficarão certamente ainda mais ao saberem que, da lista de «diabinhos» não constam, por exemplo, Jim Morrison, nem Bob Dylan, nem Marc Bolan, nem Paul Simon. A verdade é que nenhum deles se pode considerar propriamente um modelo de rapaz bem comportado  Morrison, Dylan ou Bolan por razões evidentes, tal como Simon que, no concerto de Central Park, com Art Garfunkel, em 1981, até agradeceu publicamente aos vendedores de charros – e, segundo os índices de satanismo e subversão adoptados por Brothers, não ficam, decerto, em nada atrás dos cantantes mais diabólicos incluídos no rol. 

Provavelmente, os seus nomes estarão a aguardar numa lista de espera, a utilizar em próximas investidas da Freedom Village. Que, para já, a «cruzada» do padre Brothers se mostra mais interessada na divulgação dos objectivos da sua luta «because of Jesus», para o que conta, aliás, com a colaboração dos meios técnicos audiovisuais ao dispor no mercado, incluindo cassetes áudio e vídeo, que a organização envia aos interessados a troco «de uma oferta de cinco dólares ou mais» (sic). O resto fica a cargo dos «homens e mulheres de boa vontade» que desejem pôr cobro «à obscenidade, à vulgaridade e à indecência». Em nome de Deus, obviamente.

Se7e | 9.Jun.1986

Este álbum contém material que uma sociedade verdadeiramente livre nunca recearia nem tentaria suprimir. (...) A linguagem e os conceitos aqui expressos estão garantidos no sentido de não causarem tormentos eternos no lugar onde o tipo com cornos e vara afiada conduz o seu negócio. Esta garantia é tão verdadeira como as tretas dos videofundamentalistas que utilizam os ataques contra o rock como uma tentativa de transformar a América numa nação de idiotas por correspondência (em nome de Jesus Cristo). Se existe um inferno, o seu fogo espera por eles, não por nós.

Para que não restassem quaisquer dúvidas quanto à sua frontal, determinada e irreversível oposição a quaisquer acções de carácter censório sobre a sua música, Frank Zappa fez questão de incluir, na capa da edição norte-americana do seu mais recente LP o «aviso-garantia» que parcialmente aqui se reproduz.

Afinal, Zappa tem sido o mais activo lutador contras as tentativas de instituição de novas formas de censura, seja por parte das entidades oficiais, seja por intermédio de organizações como o PMRC ou a Freedom Village. Foi a todos eles que decidiu dedicar o seu último álbum, significativamente intitulado Frank Zappa Meets The Mothers Of Prevention, cuja versão europeia foi há poucas semanas editada em Portugal.

Lutar contra censores não é, de resto, uma tarefa nova para o fundador dos Mothers Of Invention e um dos mais provocadores poetas do rock americano. Ao longo da sua história de mais de 30 discos, Zappa tem-se debatido quase constantemente com as mais diversas tentativas no sentido de dificultar a divulgação das suas canções, tentativas que tanto podem assumir a forma de meros conselhos como de erros deliberados de mistura de som, ordenados pelos responsáveis das editoras durante as sessões de gravação.

A edição norte-americana de Mothers Of Prevention difere da europeia pela inclusão, no lado B, do tema «Porn Wars», uma montagem de estúdio com a duração de doze minutos onde Zappa incluiu parte das intervenções dos senadores Danforth, Hollings, Trible, Hawkins, Exon, Gorton, Gore e ainda do reverendo Jeff Ling e da senhora Tipper Gore, durante as sessões da «comissão especial» nomeada pelo Senado para combater aquilo a que Fletcher Brothers considera ser a «música assassina».

Na sequência das acções desencadeadas a partir da «guerra» declarada contra o «rock satânico-pornográfico», Zappa endereçou ao presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, uma extensa carta de quatro páginas dactilografadas onde analisa minuciosamente as intenções e os objectivos dos grupos puritanos anti-rock.
«Apesar de discordar fortemente da política da sua administração, não duvido que são sinceros os seus pontos de vista sobre os nossos preceitos constitucionais básicos», afirma Zappa que, de seguida, acusa o PMRC de pretender simplesmente «criar um clima de ignorância que apenas é benéfico para quem pretende servir-se das crianças e não para elas próprias».

A carta de Zappa é, de algum modo, mais contida na sua ironia do que havia sido a sua intervenção quando chamado à presença dos senadores. Aí, Zappa não resistiu a algumas pequenas provocações – sempre com a maior das seriedades, como é óbvio – antes de concluir que «os maus factos originam más leis, e as pessoas que escrevem más leis são mais perigosas do que os autores de canções que falam de sexo». E acrescentou: «Não há nenhuma prova científica de que a audição de qualquer tipo de música possa levar o ouvinte a cometer um crime ou possa condenar a sua alma aos tormentos do inferno.»

As acusações de «apologia da imoralidade» foram também refutadas por Zappa através de argumentos tão elementares como este: «A masturbação não é ilegal. Se não é ilegal praticá-la, porque deverá ser ilegal fazer uma canção sobre ela? Não haveria espaço suficiente nas prisões para todos os que a praticam».
Os senadores, as mulheres dos senadores, os amigos dos senadores, não parecem ter ficado muito convencidos com a argumentação de Frank Zappa.

Se7e | 9.Jun.1986

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Versão integral da intervenção de Frank Zappa perante a comissão de senadores dos EUA
(com uma curiosa intervenção do então senador Al Gore, aos 14', declarando-se «admirador» de Zappa, mas...)

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