Tanto caminho andado...

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«Nos olhos uma flor de hortelã / que é verde como a esperança que amanhã / amanheça de vez a desventura. // Poeta de combate disparate / palavrão de machão no escaparate / porém morrendo aos poucos de ternura.»

Assim se auto-definia José Carlos Pereira Ary dos Santos, poeta, letrista popular, técnico de publicidade e militante político, morto aos 46 anos em Lisboa, na Rua da Saudade. Dez livros publicados, dois em preparação, mais de 600 canções escritas de parceria com nomes tão diversos como Fernando Tordo, Nuno Nazareth Fernandes, Alain Oulmain, Paulo de Carvalho, Pedro Osório, António Victorino d'Almeida – eis o resumo breve da obra de Ary que, para lá de todas as polémicas, ocupa hoje um lugar de incontestável destaque na história da literatura e da canção portuguesas.

Da infância à “Desfolhada”

Nascido a 7 de Dezembro de 1937, no seio de uma família da grande burguesia lisboeta, Ary dos Santos não teve uma infância feliz. «Sofri um ambiente extremamente fechado e virado, sempre, para a ostentação social, no qual os verdadeiros sentimentos eram permanentemente abafados em favor da hipocrisia, da falsidade e, até, da violência», afirmou, em 1981, em entrevista a Baptista-Bastos.

«Tanto o meu pai como os outros homens da família mais chegados, com exepção do meu avô, esse sim, democrata, eram todos fascistas e legionários. Com a morte da minha mãe, ocorrida quando eu tinha apenas 13 anos, iniciou-se um período de descalabro total, que levou, posteriormente, à minha fuga de casa: tinha eu, então, 16 anos.»

Decorria o ano de 1953. Dois anos antes, publicara a sua primeira «aventura literária», um livro intitulado Asas, mais tarde considerado pelo seu autor como uma obra «com algumas coisas invulgares para um puto com 14 anos mas, na verdade, com pouco interesse poético». Depois dessa «aventura», apoiada vivamente pela família, Ary seria incluído na antologia do prémio Almeida Garrett, ao lado de nomes como António Gedeão e Cristóvão Pavia, mas a sua carreira literária só começaria verdadeiramente, em 1963, com a publicação de Liturgia do Sangue, um livro «com grande tendência para o surrealismo, que continha já uma preocupação profundamente social».

No intervalo entre a sua fuga de casa e a edição da Liturgia, Ary exerceu vários ofícios: vendeu máquinas de pastilhas elásticas, foi paquete da Fosforeira Portuguesa, trabalhou como escriturário no Casino do Estoril. «Nesses anos difíceis, tive vários empregos e passei fome», dirá mais tarde. «E assim comecei a ganhar consciência de classe. Conheci pessoas, descobri amigos que me emprestaram livros, que falavam comigo, que me ajudaram a entender muita coisa, a compreender o mundo.»

Estabeleceu, entretanto, os primeiros contactos com os então denominados «novíssimos poetas portugueses»: Fiama Hasse Pais Brandão, Maria Teresa Horta, Liberto Cruz, entre outros. Depois do relativo êxito de Liturgia do Sangue, publicou Adereços-Endereços e Insofrimento InSofrimento e, em 1969, concorreu, pela primeira vez, ao Festival RTP da Canção, com Desfolhada, escrita de parceria com Nuno Nazareth Fernandes e interpretada por Simone. A canção, que obteria o primeiro lugar e um passaporte para o Festival da Eurovisão, em Madrid, constituiu urna autêntica «pedrada no charco» da mediocridade reinante nos certames cantigueiros da TV oficial. O verso «quem faz um filho, fá-lo por gosto» escandalizou as meninges atrofiadas do puritanismo burguês dessa época e tornou-se numa espécie de ponto de referência obrigatório da arte de Ary, pequena amostra da irreverência que viria a marcar uma boa parte da obra futura do poeta.

1969 é, também, o ano da opção política definitiva de José Carlos Ary dos Santos. Adere à CDE e participa activamente na campanha eleitoral, não hesitando em assumir atitudes para com os esbirros do regime que os seus próprios companheiros classificariam de «exageradamente arrebatadas». Num gesto corajoso e inusitado pata a época, toma a defesa dos homossexuais posição que virá a custar-lhe, após o 25 de Abril, dois anos de espera até ao ingresso como membro de pleno direito do Partido Comunista Português – o  que acabará por verificar-se em 1976.

As Portas de Abril

«Arrebatado» e «provocador» era, também, o Ary que em 1970 fazia editar Fotos-grafias, um conjunto de «retratos» entretanto apreendidos pela PIDE, e o LP Ary Por Si Próprio. No ano seguinte repetiria a vitória no Festival da RTP com uma Menina feita à medida de Tonicha e em 1972, editava novo livro: Resumo, incluindo uma pequena antologia de trabalhos anteriores e alguns inéditos.

1973 é o ano de Tourada. Transformado já em parceiro fiel de Fernando Tordo, obtém a mais polémica das vitórias verificadas nos telefestivais portugueses. A sátira de costumes implícta no texto da canção não passou despercebida aos poderes públicos do moribundo Estado Novo, mas Tordo acabaria por estar presente no Luxemburgo, com Tourada, em representação da RTP no Eurofestival.

A partir de 1974, Ary dos Santos passa a dedicar a sua criatividade à defesa dos ideais propostos pelo PCP e intensifica a sua colaboração com músicos e cantores dessa área, ao mesmo tempo que participa em numerosas sessões de canto e poesia promovidas por várias organizações políticas, culturais e sindicais. É, igualmente, um dos primeiros intelectuais de esquerda a defender publicamente Amália Rodrigues (que interpretou, também, algumas das suas canções) dos ataques verbais que lhe foram dirigidos.
Em 1975, escreve e edita As Portas Que Abril Abriu, poema épico sobre o peóodo revolucionário português, e grava novo álbum de poesia, Llanto Para Alfonso Sastre y Todos. Da sua discografia fazem ainda parte os LPs Adereços-Endereços (1969), o já citado Ary Por Si Próprio (1970), Poesia Política (1974), Bandeira Comunista (1977), Ary por Ary (1979) e Ary 80, tendo colaborado com Natália Correia e Amália na gravação de Cantigas de Amigos e com Eunice Murioz em Lírica de Camões. Editou, ainda, os álbuns Poemas de José Régio, Poesia de Bocage e o Sermão de Santo António aos Peixes, considerado pelo poeta como o seu «exame de arte de dizer».

Quinze anos de canções

A sua actividade de letrista foi, porém, a causa directa da sua grande popularidade. Ao longo de cerca de 15 anos escreveu centenas de temas para vozes como as de Amália, Simone, Carlos do Carmo, Samuel, Paulo de Carvalho, Tonicha, Tozé Brito, Hugo Mala de Loureiro, Fernando Tordo. O próprio José Afonso gravaria uma canção feita sobre um poema de Ary, A Cidade. As contradições do seu carácter levam-no a escrever temas menores como A Marcha das Viaturas, Rock Choque ou Cozido à Portuguesa, ao mesmo tempo que criava canções inesquecíveis como Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, ou Namorados de Lisboa e panfletos políticos importantes como O Trabalho, O Emprego ou Fado de Alcoentre.

Depois dos seus primeiros sucessos, escritos de parceria com Nuno Nazareth Fernandes, Ary inicia a mais longa e frutuosa das suas «sociedades», com Fernando Tordo. Simultaneamente, participou em experiências teatrais distintas de que são exemplos Azul Existe, O Caso da Mãozinha Misteriosa e as suas co-autorias com César Oliveira e Rogério Bracinha, no teatro de revista.

A sua parceria cantigueira com Tordo terminou bruscamente em 1980, e Ary regressou «às lides» com o seu primeiro compositor, Nuno Nazareth Fernandes, escrevendo alguns temas desinteressantes para a fadista Maria Armanda. Em 1983, edita uma antologia poética, Vinte Anos de Poesia e acaba de escrever as canções do álbum de Carlos do Carmo, Um Homem no País, disco onde, de certa forma, se adivinhava já o «canto de cisne» do poeta, incapaz de transmitir às composições deste trabalho a força e a beleza poética que estavam patentes em Um Homem na Cidade.

Morreu no dia 18 [de Janeiro de 1984], na sua casa da Rua da Saudade, legando todos os seus haveres ao Partido Comunista Português. Os seus projectos mais recentes – a edição de As Letras das Cantigas, incluindo cem dos seus melhores temas musicados e a elaboração de um romance autobiográfico, Estrada da Luz-Rua da Saudade – não puderam, no entanto, concretizar-se. Ficou a obra que, com todas as contradições, cedências e momentos menos felizes, marcou uma geração de poetas, letristas e cantores. A lembrar «quanto caminho andado / desde o primeiro poema / quanto encontro improvisado /... / quanta força, quanto fado / quanta tristeza serena.»

Se7e | 25.Jan.1984

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