Um violino sem telhado

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«Então, o que tens feito?»
"Olha: cheguei há oito dias de França, tenho andado por aí... Este ano tenho parado pouco por cá porque, felizmente, tive uma série de concertos, em França e na Suíça, que me ocuparam a maior parte do tempo...»

Começa assim a conversa com Carlos Zíngaro, num princípio de tarde deste soalheiro mês de Março. No átrio do Instituto Franco-Português, o músico e o repórter encontram-se para falar de mágoas e inventariar umas quantas alegrias, a pretexto do espectáculo que ontem [14.3.85] estreou no auditório daquela instituição e hoje se repetirá, na Torre de Belém, antes de iniciar uma digressão de dez dias com paragens previstas para Évora, Porto, Viseu e Batalha.

Chama-se Le Temps du Regard e é um trabalho de música, artes plásticas e dança que, com a participação de Zíngaro, Kent Carter, Michala Marcus e Joel Capella Lardeux e o apoio do AR.CO e do Instituto Franco-Português, procura, a partir de um texto de Philippe Sergeant, oferecer ao espectador «uma outra dimensão do tempo, do espaço e do som, uma espécie de viagem interior retalhada que lentamente se reconstitui na memória».

Para Carlos Zíngaro, esse O Tempo do Olhar representa ainda «a constituição de um trabalho que venho a desenvolver com o Kent Carter desde 1977, sempre com a preocupação de utilizar várias formas de arte ou, se quisermos, de comunicação». Essa preocupação levou-o já a trabalhar, anteriormente, em outras performances de Michala Marcus e está na base da experiência agora encetada, em conjunto com Joel Lardeux.

O Tempo do Olhar significa, deste modo, «a tentativa da criação de todo um imaginário estético que nós procuramos traduzir não só em termos visuais como sonoros, através de uma complementaridade entre a música, o texto, o movimento e as artes plásticas e procurando que não haja uma linguagem subordinada a outra», conforme explica Carlos Zíngaro. «É um espectáculo onde a composição imediata tem um papel muito importante, apesar de todo ele estar perfeitamente estruturado. Mas pretendemos ter em consideração o próprio espaço físico em que o trabalho é apresentado, uma vez que, obviamente, há diferenças significativas entre um auditório e a Torre de Belém ou entre uma sala de teatro e os claustros do Mosteiro da Batalha.»

«Um tipo discreto»

Após a conclusão da digressão com O Tempo do Olhar, Zíngaro empenhar-se-á na criação de um outro espectáculo multimedia, a apresentar na Faculdade de Letras de Lisboa, desta vez com a colaboração de dois portugueses, José Fabião e Carlos Barroco. E, em meados de Abril, espera-o nova viagem a França, onde participará no Festival de Música de Le Mans, considerado já como o grande espectáculo das músicas europeias contemporâneas, integrado nas celebrações do Ano Internacional da Música.

«Eles insistiram em ter um grupo de cada país, de modo que o meu vai ser como que a 'representação' de Portugal», diz Zíngaro. «O que é um bocado ridículo, já que o único português do grupo sou eu...»

A situação reflecte bem, no entanto, o isolamento em que, aos 36 anos, se encontra o violinista Carlos Zíngaro que, a solo, fez, por junto, em Lisboa três únicos espectáculos.

«Foi. Um na Ocarina, outro na Galeria da Valentim de Carvalho e o terceiro na Altamira. Em qualquer dos casos, locais que não estão sequer vocacionados para concertos: um bar e duas galerias de arte, uma das quais é também um estabelecimento de móveis...»

Desta forma, Zíngaro continua (e tudo indica que continuará) a desenvolver o seu trabalho essencialmente no estrangeiro, de onde é frequentemente solicitado para concertos e gravações de discos. A que atribui o músico esta aparente contradição?

«Sei lá! É um assunto de que eu até quase já tenho medo de falar, não quero que pareça que estou a lamentar-me. Eu sou um tipo discreto, é verdade, mas sou-o da mesma forma seja cá ou lá fora. Ou seja: não tento impor-me, nem sequer tenho um agente. Mas o que acontece é que eu vou tocar a vários sítios, encontro outras pessoas, a partir daí sou convidado para outros espectáculos e tudo isso vai formando como que uma `bola de neve'. E a verdade é que, no estrangeiro, há uma divulgação maior deste tido de trabalho, mesmo ao mvel da rádio e da imprensa locais. Porque é que o mesmo não acontece cá? Não faço ideia. Mas creio que tudo isso tem muito a ver com uma certa `apatia nacional', talvez por, aparentemente, todas as coisas estarem concentradas em Lisboa...»

«Açorda»

Lisboa, a capital de onde emana a cultura, onde funcionam a rádio e os jornais, o ponto de encontro dos artistas de todas as tendências.

«Pois é. Mas isso não corresponde à existência de espaços e de uma dinâmica cultural equivalente. Penso até que há zonas do país muito mais activas neste sector. Em Lisboa há realizações esporádicas aqui e ali, meia dúzia de macro-espectáculos que de modo nenhum reflectem na globalidade o que por cá se vai fazendo e, à margem disso, locais como o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian ou, agora, o Instituto Franco-Português. E qual é a realidade? Os discos vendem cada vez menos, à excepção de casos pontuais, os espectáculos continuam sem se fazer – e não é um grande concerto do Sérgio Godinho no Coliseu que resolve as coisas – e continuamos todos nesta ‘açorda’... »

Desencanto? Carlos Zíngaro manifesta algum quando se refere ao ambiente humano que se vive no chamado «meio artístico» onde «as pessoas estão extremamente desunídas, mesmo dentro de cada uma das denominadas ‘áreas’, sejam elas o rock, a música popular ou o Jazz.»

Mais: «Não se procura criar estruturas capazes de modificar a situação em que se vive. Houve a experiência da UPAV, uma coisa que desde logo se via que não podia resultar, e pouco mais. De resto, tanto o Sindicato dos Músicos como o dos Trabalhadores dos Espectáculos ou a Sociedade de Autores são extremamente impotentes para poderem actuar de modo decisivo. É inconcebível, em qualquer país europeu, a realização de uma coisa como foi aqnela droga do Festival da Canção, por exemplo, onde não só se usou e abusou do ‘play-back’ como ainda se pretendeu iludir o público colocando ali músicos a fazer de conta que tocavam...»

Mas, em Portugal, tudo isto acontece. Por culpa de quem?

«Sim, por culpa de quem? A verdade é que não podemos passar a vida a dizer que 'a culpa é da Televisão', ou que 'a culpa é do Governo. O problema é que, se há um músico que se recusa a fazer 'play-back' aparecem logo 20 que aceitam. E ficamos nisto! No fundo é um problema tipicamente português: somos todos muito bons, somos todos doutores, somos todos exclentes críticos. E vamos passar o resto do nosso tempo a culpar as instituições? Afinal, as pessoas talvez tenham as instituições que merecem... E não se pense que este é um problema de agora. Custe o que custar, o que e certo é que nós somos um povo que não acredita em si próprio. Isto verifica-se na minha geração, na geração mais nova ou na geração dos meus pais. E até historicamente: embora se diga que somos o país dos 'grandes navegadores', a verdade é que temos um medo enorme da aventura, uma espécie de vergonha de assumir os nossos valores. E ficamos a vida toda agarrados ao Camões, descobrimos tardiamente o Fernando Pessoa e deixamos à margem gente como a Anabela Chaves ou o Carlos Paredes. No fundo continua-se à espera de um D. Sebastião qualquer, um `salvador' que nos tire do meio do nevoeiro...»

«Um povo muito sério»

«Já reparaste que nós somos o único país da Europa que não tem uma só publicação de banda desenhada?»

Ao músico junta-se agora e artista gráfico que Zíngaro também é, embora fora do activo «desde que o Pãocomanteiga acabou e O Bisnau morreu de morte-macaca», segundo afirma. «Agora continuo a desenhar, mas só nos intervalos dos cinemas ou dos raros momentos em que vejo televisão.»

«Penso», diz Carlos Zíngaro, «que, além de tudo o resto, nós somos também um povo demasiadamente sério, o que também é típico dos povos que não acreditam em si mesmos. E depois, para se fazer uma publicação humorística é necessário uma estrutura muito sólida que, pelo que me foi dado entender, não existia em nenhuma daquelas em que colaborei. Em vez disso havia aquela ideia do ‘vamos fazer uma graça’, o que, logicamente, não resulta para um trabalho de fundo.»

A «seriedade» lusitana que Zíngaro refere resulta, também, «numa profunda ignorância, para não dizer total, dos diversos sectores da cultura: o pintor é totalmente ignorante do ponto de vista musical, o músico desconhece o que quer que seja de pintura, e por aí adiante. Eventualmente há excepções, em sectores como o bailado, por exemplo, mas mais nada. E, enquanto cada um se voltar apenas para aquilo que de algum modo sabe fazer, como é que se pode pretender criar uma cultura nacional?»

O Jornal | 15.Mar.1985

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