A vida por um traço

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Boémio incurável, amante fiel mas inconstante, apreciador de bons vinhos e petisqueiro afamado, Fernando Relvas reparte o seu tempo de forma desigual entre uma casa em Almoçageme, bares diversos da capital e o Raven, «um corvo atracado no Tejo», que desde há cerca de três meses é como que a sua «residência oficial» em Lisboa.

Estes e outros lugares são os cenários da luta quotidiana que Relvas trava pela sobrevivência. Uma luta assumida sem remorso nem outras concessões que não as estritamente necessárias para garantir a renda de casa, o bacalhau com grão e respectivo acompanhamento líquido. Ainda assim, Relvas não se queixa. Faz o que quer, ainda que nem sempre como quer. E sente-se bem, apesar de tudo.

Ele sabe que, se o desejasse, poderia ter uma vida mais facilitada. Bastava-lhe por exemplo dedicar-se a trabalhar  em publicidade, tal como faz a maioria dos seus colegas de ofício. Mas Relvas não tem pachorra para se submeter às regras do jogo consumista. «Não trabalho em publicidade porque não quero», afirma, com o ar mais natural deste mundo. «Nem sequer é porque não nos demos bem, eu e a publicidade. Já tentei, só que muito simplesmente não funcionamos em conjunto.»

Assim. Tal como a maioria dos anti-heróis que povoam o seu universo criativo, Relvas é incapaz de estar onde não se sinta bem. «Bicho» dos jornais por excelência, foi em publicações periódicas que criou o essencial da sua obra, de resto fortemente marcada por traços e tiques de repórter. Mas, a pouco e pouco, as portas da imprensa foram-se-lhe fechando. «Os jornais, tal como a maioria dos editores, têm uma grande falta de genica e só muito raramente são capazes de apostar», diz. «Com pouquíssimas excepções, vivem todos no pânico da poupança.»

Ultimamente, é no O'Gillin's (bar irlandês do Cais do Sodré) que Relvas tem, digamos assim, o «poiso» mais regular. Aí pode ser encontrado quase todos os dias, desenhando caricaturas ou autografando exemplares de «Karlos Starkiller», o seu livro mais recente, onde reuniu algumas histórias publicadas originalmente no «Sete», na «Lx Comics» e em «O Inimigo» - todos eles títulos já extintos.

Em simultâneo mantém, desde há um mês, uma exposição retrospectiva organizada pela Bedeteca de Lisboa no magnífico espaço do antigo Palácio do Contador Mor, aos Olivais. Chama-se «Relvas à queima-roupa» e é a sua primeira mostra «a sério» na capital (o Porto antecipou-se, e fê-lo por mais do que uma vez) patrocinada pela Câmara Municipal. De resto, o presidente da autarquia lisboeta, João Soares, conta-se entre os muitos admiradores do trabalho de Relvas, a quem, no texto de abertura do catálogo da exposição, classifica sem favor como «um dos mais importantes autores contemporâneos de banda desenhada».

Uma opinião partilhada pela generalidade dos especialistas, mesmo os mais exigentes. É que, apesar do seu crónico mau feitio e de uma manifesta incapacidade para se encaixar em esquemas de vida mais ou menos «normais», Relvas é hoje uma referência obrigatória para todos quantos gostam de histórias aos quadradinhos.

João Paulo Cotrim, director da Bedeteca e promotor desta exposição, não tem a este respeito quaisquer dúvidas: «De uma vez por todas: Relvas não é uma promessa adiada», afirma, peremptório. «Ainda que deixasse neste instante de desenhar, seria um valor absolutamente confirmado e merecedor de muitas atenções e todas as leituras.»

Síndroma Relvas

Assim sendo, qual a razão de todas as dificuldades que Relvas enfrenta actualmente para publicar as suas histórias? Como justificar as precárias condições de sobrevivência de um artista unanimemente reconhecido pelo público e pela crítica? Claro que estamos em Portugal - e isso, todos o sabemos, tem o seu preço - e claro que Relvas não só não é um artista «politicamente correcto», como não pertence a nenhum dos grupos que ditam as tendências dominantes. Mas será que estas premissas justificam tudo?

A resposta pode estar naquilo a que o supracitado João Paulo Cotrim chama «a síndroma Relvas» e que se traduz numa porção de ideias feitas sobre o artista: «O talentoso boémio indisciplinado e irascível que não consegue cumprir um prazo, acabar uma história, fixar-se num estilo, publicar um álbum. Uma espécie de metáfora da banda desenhada em Portugal que, com pequenas alterações, vai funcionando como álibi para justificar o Estado das Coisas.»

Só que a realidade se encarrega de mostrar o que está a mais nestes e noutros juízos apressados. É ainda Cotrim quem tem a palavra: «Se se trata de actualidade, o olhar de Relvas é como que substituído por uma nervosa câmara, fotográfica ou cinematográfica. Se a inspiração bebe no passado, essa sede é saciada na documentação, na pesquisa. Este é um dos mais desmoralizadores desmentidos da síndroma Relvas: ele trabalha. E ainda que do seu trabalho resulte o absurdo, a sua motivação é concreta, roubada à realidade.»

É assim desde que, já lá vão vinte e tantos anos, Relvas se lançou na aventura de bandadesenhar - ou, como ele prefere, «de fazer histórias aos quadradinhos, até porque gosto de trabalhar em pedaços soltos de papel que são, evidentemente, rectangulares». Primeiro, foram os cartoons, publicados na «Gazeta da Semana» em 1975, onde alguma ingenuidade se misturava com o fatal sentido de análise política próprio da época. Seguiu-se uma ainda titubeante experiência de contador de histórias na revista «Fungagá», antes de estrear na edição portuguesa do «Tintim», em 1978, aquele que ainda hoje é um dos seus personagens mais célebres - o «Espião Acácio», conjunto de histórias cuja acção decorre nos tempos da Primeira República.

Ao longo das quase cem pranchas que durou a história, Relvas deixa antever já o carácter inconstante e permanentemente insatisfeito que irá marcar boa parte do seu trabalho futuro: iniciadas como uma espécie de crónica bem humorada da I Guerra Mundial, as aventuras de Acácio acabarão por se tornar um repositório de experiências gráficas e narrativas diversas, com natural prejuizo da sua estrutura global. Ainda assim, «Espião Acácio» tornou-se uma banda desenhada de culto para a geração dos que têm hoje à volta de 30 anos.

Seguiram-se diversas experiências no âmbito da ficção científica, iniciadas com uma desastrosa adaptação da «Viagem ao Centro da Terra» de Júlio Verne e continuadas com «Rosa Delta Sem Saída». Nessa altura com vinte e poucos anos, Relvas, um pouco à maneira de Philip K. Dick e Ray Bradbury, via na ficção científica «sobretudo uma reflexão em torno do destino da humanidade». Quase duas décadas mais tarde, espanta-se quando lhe recordam tão pueris intenções: «Eu dizia isso? Chiça!»

Deadline kamikaze

Os anos 80 são os anos da afirmação definitiva de Relvas como grande criador de banda desenhada. Participa, entretanto, em alguns prestigiados festivais de BD em França, úteis sobretudo para o estabelecimento de contactos e a troca de experiências com outros autores europeus. Após seis meses em que viveu na Alemanha, Relvas assenta arraiais nas páginas do semanário «Sete», onde irá criar algumas das suas melhores histórias: «Concerto Para Oito Infantes e Um Bastardo», «Niuiorque», «Sangue Violeta», «Karlos Starkiller», entre muitas outras, todas elas criadas ao ritmo da sua publicação semanal.

A actualidade esteve sempre presente nas histórias de Relvas, que assim também se tornou especialista em «aterrorizar chefes de redacção», como ele próprio confessa: «Era frequente a página ser entregue no limite do prazo, a ''deadline kamikaze'', para aproveitar o que ia acontecendo.»

A última fase de Relvas no «Sete» corresponde a um conjunto de pequenas histórias da série «O Atraente Estranho», protagonizadas por um hilariante conjunto de personagens onde pontificavam o Marrequinho, a aranha Mao Tse-tung, a osga Heidegger ou o coelhinho Churaku.

«A partir de certa altura deixei de estar motivado para histórias longas, até pelo ritmo de publicação, que provocava um certo cansaço nos leitores», conta Relvas. «E então optei pelas histórias curtas, que culminou nessa fase do Marrequinho, que tem partes muito desconchavadas, mas tem outras de que gosto muito.»

Depois, desempregado e sem dinheiro, Relvas decide ganhar um concurso sobre os Descobrimentos, promovido pelo Centro Nacional de Cultura:

«Eu estava num período economicamente complicado e o prémio de 500 contos era uma tentação. Do regulamento fazia parte a publicação de um álbum, o que resultou na edição do ''Em Desgraça'', que por acaso é um álbum de que não gosto nada...»

O livro, publicado pela Asa, deveria ter uma continuação que nunca aconteceu, porque entretanto a editora alterou a sua política. Surge assim o projecto de «As Aventuras de Piri-Lau», cujo primeiro volume, «O Nosso Primo em Bruxelas» virá a ser editado pelos Livros Horizonte, quando a editora original decide cancelar todos os projectos pendentes. «Piri-Lau» acabará por ser, assim, mais um projecto sem continuidade.

«Foi uma história que a Horizonte "herdou" e que foi publicada porque entretanto eu tinha concordado receber os fotolitos da Asa, que era suposto ser a editora do "Piri-Lau", como parte do pagamento que me era devido. Uma coisa um tanto complicada...»

A tentação da viagem

De então para cá, Relvas dedicou-se a criar, juntamente com o Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, uma série baseada em factos históricos menos conhecidos. O primeiro livro, «Çufo», foi entretanto editado, sem distribuição comercial.

A este há-de seguir-se a história da Rainha Ginga, de Angola, para a qual Relvas decidiu preparar-se particularmente bem. «Tão bem que não sei o que fazer com todo o material que já tenho, que é muito, mas não substitui o conhecimento no terreno», diz. Esta preocupação com o rigor dos factos «está a provocar algum atraso na conclusão definitiva da história, até porque tem sido alvo de várias pesquisas gráficas e narrativas». De onde se conclui que o ideal seria uma viagem a Angola, sonho antigo do artista. Relvas sorri: «Pois.»

Viver num barco, mesmo sendo apenas «arrais de doca», ajuda a alimentar este e outros projectos de correr mundo. Afinal, a tentação da viagem - presente em toda a literatura portuguesa, desde Fernão Mendes Pinto a Herberto Helder - é uma tentação grande, também para Relvas. Encontramo-la, aliás, em muitas das suas histórias, reflexo inevitável das suas vivências.

«Não é sequer obrigatório que seja uma viagem grande», afirma. «A escolha da realidade diária como ponto de partida para o trabalho já é uma forma de viajar. E pode ser uma viagem a um sítio muito perto. É claro que uma viagem longe tem outros atractivos, mas não são nem melhores nem piores do que uma viagem perto. Seja como for a viagem está sempre lá.»

Aliás, para Relvas o ideal mesmo seria poder correr o mundo a viajar de barco: Angola, sim, mas também Cabo Verde, as Caraíbas...

«Eu gosto do mar, gosto de barcos e, por minha vontade, aprenderia muito mais sobre o assunto. Mas é preciso que se pense também que viver ou viajar num barco parece uma coisa muito romântica, mas não é. É mais difícil do que parece e às vezes é mesmo bastante aborrecido. Para já não falar das limitações de conforto...»

Afinal, como é que se vive num barco, no Tejo de Lisboa?

«Como? Balançando, olha que porra...»

Expresso | 1997

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