São dez horas de uma noite fresca de sábado, a marcar a transição entre o Inverno e a Primavera. No espaço da Casa da Juventude de Cacilhas, um grupo de jovens de várias idades e estilos amontoa-se na sala enquanto outro grupo, igualmente jovem e exuberante, salta e grita no palco.

As roupas e as conversas de uns e de outros dão a entender origens diversas, unidas em percursos ocasionalmente comuns. O concerto alternativo desta noite tem como atracções quatro grupos cujos nomes dizem tudo: Inkriminados, H2Vinho, Anti Anti, Campo Minado. Anunciado como um «festival punk», o espectáculo acabará por juntar na mesma sala punks, góticos, cabeças-rapadas e alguns outros jovens não agrupáveis em nenhuma das tribos urbanas conhecidas.

Em comum têm, todos eles, o gosto pela música bem suada e melhor gritada. Desde o punk clássico às mais recentes criações ska, oi!, hardcore. Os mais animados são, sem dúvida, os punks propriamente ditos. Sobretudo aqueles a quem os próprios parceiros de divertimento chamam os «punks do garrafão», cuja única ocupação parece ser beber até cair para o lado e depois ficar assim. São uma minoria entre os jovens presentes, mas suficientes para que, no excesso da folia, um deles atinja inadvertidamente outro com uma garrafa de cerveja.

É mais ou menos nesta altura que entram em palco os H2Vinho, cujo vocalista, exibindo uma magnífica crista cuidadosamente cultivada a meio do crânio, aparece munido precisamente de um garrafão que vai bebendo generosamente e partilhando com alguns espectadores mais sequiosos, enquanto o jovem ferido abandona a sala, sangrando abundantemente do lado direito da cara. O incidente provoca alguma confusão, que termina tão rapidamente como começou, quando o acidentado é levado para o hospital de Almada - de onde voltará um par de horas depois, "remendado" e pronto para outra. Quanto ao agressor, acabaria devidamente esbofeteado, à saída, por um grupo de "justiceiros" de ocasião.

A cena é mais ou menos comum nas noites suburbanas, mas contribui sempre para carregar o ambiente. Depois do espectáculo, quem quer continuar a noite vai até Lisboa ou espalha-se pelos bares das proximidades. «A Barra Espanhola», no Cais do Ginjal, é o sítio eleito pelos que não querem ir para muito longe. Ali se juntam os mesmos jovens de todas as raças, sexos e atitudes. Fala-se do espectáculo, de política, de música. E, inevitavelmente, do episódio que por pouco não ensombrou a noite.

«A malta vem para curtir a música, não é para isto», desabafa um dos presentes.

«Estes gajos não sabem beber, só sabem é embebedar-se até cair», avança outro. «É por causa de tipos assim que se armam confusões», garante um terceiro. Ao contrário do que possa pensar-se, os comentários não vêm de nenhum grupo de meninos bem comportados. Quem diz tudo isto são jovens de cabelo rapado à escovinha, vestidos de ganga e com uns quantos patches como adorno. São relativamente discretos, se comparados com alguns dos seus companheiros de culto. Mas qualquer olhar minimamente treinado não deixa de reparar na inscrição no lado esquerdo do flight jacket de um deles: SHARP, a sigla de Skinheads Against Racial Prejudice. Quer dizer: «skinheads contra o preconceito racial». Importam-se de repetir?

Skinhead. Para a generalidade dos cidadãos, a palavra tem de imediato conotações malditas: cruzes suásticas, violência organizada, ideais fascistas. Falar de skins leva invariavelmente a falar de racismo e de morte. Como a de José Carvalho, assassinado à porta do PSR, vai para uma dezena de anos, ou a de Alcino Monteiro, esfaqueado no Bairro Alto, há metade desse tempo. Os homicídios de Zé da Messa e de Alcino, no entanto, não foram os únicos a supostamente envolver membros da comunidade skin. Pelo caminho houve outros casos, menos notórios, mas suficientemente conhecidos no meio para amedrontar as outra tribos e sub-tribos urbanas mais ou menos juvenis cujos caminhos se cruzam, na noite e fora dela, muito mais do que poderia parecer.

Foi esta crescente identificação dos skinheads com a extrema-direita que levou outros adeptos da "cultura das ruas" a organizarem-se para demonstrar que pode ser-se skin sem ser racista nem defender o nazismo. Por isso surgiu a SHARP e, mais recentemente, a RASH (Red & Anarchist Skinheads), para quem "os verdadeiros skinheads não têm preconceitos raciais, até porque este estilo de vida nasceu precisamente de uma fusão de culturas entre ingleses brancos e jamaicanos".

Nos últimos meses, os boneheads (como são conhecidos entre os restantes os skins de credo nazi) voltaram a fazer-se notar sobretudo com os confrontos de Pinheiro de Loures, em Fevereiro passado, que resultaram em vários feridos. Tudo aconteceu a partir da actuação dos Mata Ratos num concerto de música alternativa onde, segundo o testemunho de quem lá esteve, "se encontravam algumas caras conhecidas", nomeadamente de "tipos que estiveram envolvidos na história do Alcino Monteiro".

O incidente ficaria na memória de alguns como apenas mais uma zaragata de "cabeças rapadas" se não tivesse envolvido, de forma pública, mas discreta, uns quantos sharps e trads (skinheads "tradicionais", sem filiação política) que, juntamente com os punks presentes no local, acabariam por pôr os boneheads em fuga.

«Na realidade, os skins nazis são uma minoria no conjunto dos 'carecas' europeus», esclarece um elemento da SHARP, que, como outros skinheads de várias tendências, pede para não ser identificado. «O que acontece é que eles, de cada vez que aparecem, dão nas vistas o suficiente para que, sempre que se fala em skins, as pessoas pensarem que os únicos que existem são eles.»

Não são: há ainda os reds, os casuals (os mais discretos, que evitam dar nas vistas e procuram fugir das confusões), os apolíticos (estão-se igualmente nas tintas para redskins e boneheads), os já citados trads, os rude boys e mais uma mão cheia de estilos e "facções" nem sempre identificáveis à primeira. Ao todo não serão mais de umas centenas em todo o país. Poucos, mas activos e frequentemente barulhentos.

Em Portugal, no entanto, a matriz fascista deverá ser ainda maioritária, como reconhecem os próprios skins das outras tendências. O que poderá ser explicado pelo facto de o culto ter aparecido em Portugal numa altura em que o a corrente nazi começava a ganhar algum terreno em Inglaterra. No início dos anos 80 o movimento ultra-direitista National Front conseguiu recrutar inúmeros jovens skins, através de acções como os festivais RAC (Rock Against Communism) - de onde havia de surgir uma outra estrutura artístico-fascista, a White Noise, a que se juntaram bandas como a Skrewdriver (célebre por temas como "White Power" e "Smash the IRA"), The Die-Hards, Peter & The Wolves ou Brutal Attack. E, se bem que por cá a "música bonehead" nunca tenha conseguido penetrar, o ideário da supremacia branca acabou por seduzir alguns jovens que, sentindo-se de algum modo identificados com a cultura skin, não sabiam muito bem o caminho a seguir.

Eles, os bones, são, para os "verdadeiros skinheads", uma espécie de "degenerescência" de uma cultura "de raiz operária e que foi, desde o início, um movimento não racista". Os fundamentos deste "modo de viver e de estar na vida", como também é definido por outros skins, resumem-se àquilo a que eles chamam "the spirit of 69" - o tempo da "pureza original", referido ainda hoje em toda a bibliografia skin com indisfarçável nostalgia.

O princípio. Como manda a tradição lusitana, o aparecimento em Portugal de outros skinheads que não os sobejamente conhecidos nazis aconteceu exactamente ao contrário do que se passou nos países de onde é originária esta estranha prática de vida das comunidades de rua.

A origem internacional do movimento skinhead remonta a finais dos anos 60, quando grupos de jovens oriundos do lumpen-proletariado suburbano de Londres começaram a organizar-se em grupos que partilhavam os mesmos sentimentos, assim definidos pelos próprios: "Sentido de território, paixão pelo futebol e mais em geral por todas as formas de divertimento tradicional da classe operária".

Trocado em miúdos: «O pub, a dança, os passeios dos domingos e feriados, etc.» É isto que consta em todas as versões do historial skinhead que circula, em fotocópias ou via internet, entre os membros da comunidade que nos últimos tempos quiseram dar-se a conhecer melhor.

Em Portugal, só no início da década de 80 é que começou a ouvir-se falar de skinheads. "Os primeiros skins eram punks de cabeça rapada", diz um dos líderes portugueses da RASH, que prefere ser designado pelo seu nome de guerra: "Zhukov", nem menos, em memória do general soviético que venceu a batalha de Stalinegrado na II Guerra Mundial. "Por segurança, é melhor não pôr o nome verdadeiro", afirma. Nem o nome, nem o lugar onde vive: "Algures em Portugal", prefere dizer.

Estes receios são comuns à maioria dos skinheads organizados. Uma precaução que não condiz com o exibicionismo de muitos deles, patente nas roupas e nos ornamentos que usam e os tornam facilmente reconhecíveis no meio de qualquer multidão. Zhukov define-se a si mesmo como "um poster ambulante": blusão com foice e martelo nas costas, crachás da defunta União Soviética ao lado das efígies de Marx e Lenine. Veste-se assim "por militância", uma acção diária de agit-prop. É sobejamente conhecido na comunidade skin e afirma que não é o nome suposto que vai impedir os "inimigos" de o identificarem.

Mas esta é apenas uma das várias contradições da praxis skinhead nos diversos quadrantes, nem todas explicáveis por razões de substrato ideológico. A ideia do "sentido de missão", por exemplo, apontada por alguns redskins para justificar a sua actividade, é um conceito que deriva da extrema-direita e não da esquerda (que o substituiu pelo sentido supostamente menos transcendental de "tarefa histórica") de que os reds se reivindicam.

De qualquer modo, os skins-comunistas são de origem recente em Portugal. O embrião desta corrente surgiria por volta de 1986, por inesperada influência de um grupo de franceses que Zhukov foi dos primeiros a conhecer: «Eram uns quatro ou cinco tipos e tinham um aspecto diferente do habitual: limpos, de botas impecáveis, sem nada a ver com a punkalhada que andava por aí», conta.

A impressão imediata com que ficou foi que estes eram uns franceses especiais: «Bebiam cerveja, fumavam uma ganza de vez em quando, não armavam complicações. E traziam blusões com símbolos da URSS, coisas assim. Era uma altura em que não estava propriamente na moda que os jovens fossem de esquerda, de modo que aquilo interessou-me.»

Em pouco tempo, ficou a saber que um deles era o líder da banda Mano Negra, um grupo de culto dos redskins franceses. Na altura, Zhukov andava próximo da "onda punk": «Eles diziam que eram anarquistas. Eu gostava do look e da música dos punks, mas não atinava com aquele vazio, aquela falta de ideais». Os reds davam-lhe a oportunidade de aliar as suas opções estéticas e de vida com convicções suficientemente fortes para que estivesse disposto a literalmente lutar por elas.

Agora tem 28 anos («já não sou um adolescente») e trabalha na produção e agenciamento de espectáculos. Mas continua fervorosamente empenhado na sua batalha, cumprindo a sua parte na luta "pela justiça social numa sociedade em classes". É "a missão típica de qualquer comunista», observa. Quando lhe pergunto se já leu "O Capital" responde, com ar sério e sem hesitar: «Já.» Mas logo a seguir desconstrói o seu próprio discurso: «Agora estou à espera que saia o filme», diz, com uma gargalhada.

A busca de ideais tem sido apontada desde sempre como uma das razões que levaram alguns jovens portugueses a aderir às organizações skin de extrema-direita. Na sua maioria filhos de militantes ou ex-militantes do PCP e da UDP, terão encontrado no ideário nazi a forma mais simples de recusarem os valores dos pais. Zhukov defende este ponto de vista e acha que a sua organização, a RASH, deve funcionar como um contraponto desta situação: «Isto pode parecer presunçoso, mas ainda recentemente estive num comício que juntou vários partidos comunistas e internacionalistas da Europa, e onde estavam muitos reds. E lá foi dito que é necessária uma Quinta Internacional. Depois disso pus-me à procura na Internet e cheguei à conclusão de que, se calhar, essa nova Internacional já existe. É a RASH, mas não só, é uma mistura da esquerda revolucionária.»

Para Zhukov, é fundamental que esta «V Internacional seja antifascista». Porque, diz, «o fascismo está aí, muito mais activo do que muita gente pensa» e «os putos são seduzidos e usados pelos 'graúdos' das organizações neo-nazis, os mesmo que organizam os jantares do 28 de Maio e as missinhas por Salazar». E sublinha, com inabalável certeza: «Esses é que são os gajos realmente perigosos, não são meia dúzia de garotos que andam aí de suástica ao peito.»

É esta convicção da existência de um «perigo latente» que levou Zhukov a alistar-se, juntamente com a RASH, na União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), organização criada por velhos tarrafalistas e normalmente tida como próxima do PCP. Aliás, Zhukov acumula as funções "dinamizadoras" na RASH com a condição de militante comunista e faz questão que se saiba.

Não é fácil imaginá-lo a participar, por exemplo, numa reunião de célula da margem sul, entre velhos bolcheviques e operários da Lisnave. Ele mesmo reconhece que, a princípio, houve quem torcesse o nariz à sua atitude. A começar pelo pai, comunista de sempre: «Skinheads antifascistas? Skinheads comunistas, isso é possível? As pessoas ficam muito confusas.»

Confusões. Delas não tem medo Raul, de 27 anos, vigilante de uma empresa de segurança, um dos poucos que não teve receio de dar o nome e aparecer de frente nas fotografias. Para ele, ser skinhead é como que «um modo de vida, algo com que me identifico e com que me sinto bem» e a SHARP (Skinheads Agaist Racial Prejudice), a que pertence, é uma organização que «aparece para repôr a verdade acerca da cultura skinhead». Outro membro da SHARP, anónimo por opção, dirá que se trata de «voltar ao espírito de 69: uma cultura multirracial, orgulhosa das suas raízes operárias, com sentido do território, numa lógica rua-bairro-cidade-país» que «pode ser patriótico sem ser xenófobo».

São anti-racistas «por natureza, não por militância». Mas, garantem, não são «paternalistas». Como explica Raul: «Não é por um tipo ser preto que, automaticamente passa a ser desculpável por tudo e por nada». Uma atitude que os redskins e a RASH também partilham. Zhukov conta mesmo que já foi «espancado por blacks», alguns dos quais classifica de «fascistas como os zulus da África do Sul, que foram aliados do De Klerk»: os que defendem e praticam «a venda de droga aos brancos» como forma de terrorismo racial.

A propósito, conta «a mais incrível das histórias»: a de um negro que, diz, distribui propaganda de organizações de extrema-direita, como a ainda discreta Frente Nacional. Para Zhukov, isto é a «prova máxima» de que «um preto pode ser tão fascista como um branco». Ao contrário, e para os que pensam que a cultura skin actual já só se limita aos brancos, dá o exemplo de alguns negros que nos últimos tempos se juntaram à «tribo skin».

Convém aqui explicar, já que é de confusões que estamos a falar, que, para a maioria dos skinheads, portugueses e europeus, comunistas, social-democratas, apolíticos ou antes pelo contrário, o "spirit of 69", dos rude-boys originais ainda permanece vivo. Assim, os white-powers e os boneheads em geral são encarados um pouco como aqueles parentes afastados que deram em qualquer coisa pouco recomendável e com quem só nos encontramos nos funerais, casamentos e outras ocasiões sociais inevitáveis.

Neste caso, as festas são, frequente e paradoxalmente, a melhor ocasião. E porque skin que se preze não renega a violência, sempre que os «primos» se encontram aproveitam para fazer o gosto ao dedo. Ou à matraca. "Damo-nos com todo o género de skins, menos com os nazis", afirma Raul. E, quando estes aparecem, o confronto é quase sempre inevitável.

Para a RASH, porém, as "batalhas" com os boneheads surgem como pequenos episódios de um confronto maior, a «luta antifascista e de classes». Diz Zhukov: «É um grande risco, mesmo físico. Nós temos consciência de que 'eles' estão organizados, e sabemos como. E eles sabem que nós sabemos.» Por isso acha que «a violência é essencial para este tipo de luta», desde que «canalizada para um alvo muito específico».

Mais ou menos o que, por palavras mais simples, afirma um skin 'independente' de qualquer destas organizações: «A violência faz parte do nosso quotidiano: quando tem que ser utilizada utiliza-se», diz Pedro, que se classifica como «mais 'trad' que outra coisa qualquer», mas cujo aspecto o aproxima mais dos punks de há quinze anos. E acrescenta que gosta de «futebol, beber cerveja, curtir a música». Palavras muito semelhantes às de Raul e de outros skins, para quem a motivação «não é mudar a sociedade, é ir vivendo».

Ir vivendo. Em geral, os skins, todos, não encaram o presente e o futuro com grande optimismo. «Não somos pessimistas, somos realistas», dizem. E, à cautela, preferem estar preparados para o que der e vier. «Um dia, isto vai ser uma sociedade tipo 'mad Max', onde os skins vão ser quem dita as regras», diz-me um, a rir. «Estou a brincar», acrescenta logo de seguida. Estaria?

Por conta própria. É como se sentem os redskins desde a queda do Muro de Berlim. «Em certo sentido, foi uma benesse: agora é que se vai ver quem é comunista a sério", diz Zhukov, que partilha da tese dos "desvios do socialismo" na extinta União Soviética, perfilhada pelo PCP. «Para mim, Estaline foi uma fascista», afirma, peremptório. De resto, o desmoronamento do país dos sovietes não lhe transmite qualquer sentimento de culpa: «A minha pátria é Portugal, não é a URSS nem nunca foi.»

Como estrutura organizada, a RASH-Portugal tem menos de um ano. É a mais jovem das organizações skin. Muito antes, em 1995, «por alturas da morte de Alcino Monteiro», apareceu a SHARP. São as duas únicas organizações não fascistas de skinheads em Portugal e, apesar de completamente autónomas, mantém relações cordiais e regulares entre si. Ambas têm também contactos internacionais, sobretudo no vizinho estado espanhol.

Recentemente, a RASH-Portugal e a sua congénere da Galiza decidiram passar a funcionar em conjunto. Segundo afirmam num manifesto que já circula entre eles e brevemente estará disponível na Internet, o objectivo desta fusão luso-galaica visa uma futura união de esforços com os redskins de «todas as nações da Ibéria», tendo em vista «a futura União das Repúblicas Socialistas Ibéricas» . Sem tirar nem pôr.

Além disso, a RASH esta empenhada em «elaborar um arquivo das actividades fascistas em Portugal» desde 1974, que será posteriormente divulgado na Internet e nas publicações ("redzines") do movimento, ao mesmo tempo que privilegia as relações com o PCP e o PSR, de onde são oriundos quase todos os reds portugueses.

Relativamente às restantes tribos urbanas, Zhukov tem ideias muito concretas: os rockabilly são «bufos dos fascistas», os punks são «irmãos» e os psychobillys «merecem algum respeito, acima de tudo devido a uma banda de Coimbra, os Tédio Boys». A música como elo de união, uma vez mais. Com os metálicos dá-se bem «desde que sejam politicamente incorrectos», tal como sucede com os góticos e os black-metal: «Tudo bem desde que não estejam fascizados». Quanto aos hippies e aos freacks que sobejaram, Zhukov limita-se a dar um conselho: «Se ainda existirem, venham. Abram os olhos, deixem de dar a outra face, lutem ao nosso lado.»

A SHARP, por sua vez, é bastante mais controlada no entusiasmo. Com núcleos em Lisboa, no Barreiro e na Linha do Estoril, além de «simpatizantes» espalhados por todo o país, esta organização aposta "na criação de um boletim informativo, páginas na Internet, tudo o que possa ajudar a divulgar aquilo que realmente somos». E são, nas suas próprias palavras, «não racistas e contra o autoritarismo, de esquerda ou de direita».

Como a generalidade dos skins, também os membros da SHARP têm «uma desconfiança militante perante os partidos políticos em geral», como conta Raul. Preocupam-se «em melhorar as coisas», através de uma prática que definem como «democracia de rua»: as decisões tanto podem ser tomadas em assembleia como «ao almoço ou à volta de uns copos». Nada de reuniões formais, até porque «têm mais que fazer».

Raul é casado e pai de uma filha. Viveu no Brasil , durante mais de dois anos, no interior do Estado de São Paulo, onde trabalhou como guardador de gado e aprendeu a domar cavalos. Agora vive em Carcavelos. Foi o "fundador" do SKAlgés que, durante meses, inundou as paredes da Linha do Estoril com inscrições a spray.

Faz parte da claque do Estoril, mas, pelo futebol, é capaz de acompanhar os aficcionados de outro clube. A sua atitude já se tornou notada entre os frequentadores dos estádios, que rapidamente perceberam que ele não é "um skinhead como os outros". E, às vezes, se há «movimentações suspeitas» de bones junto de grupos de africanos, estes não hesitam em pedir-lhe ajuda: «Ó skin, ó skin, 'controla' aí esses», costumam dizer-lhe.

Raul personifica de certo modo aquilo a que poderíamos chamar "a normalidade skin", a afirmação de um estilo de vida próprio, mas com um rumo definido. É disso mesmo que trata o hino da SHARP, "Stay Rude - Stay Rebel", um manifesto de intenções que aponta os objectivos da organização: «Stay rude against fascit regimes / Stay rebel against politicians' dreams. / Stay rude and fight back against injustice. / Stay rebel against racial prejudice.» (Sê duro contra os regimes fascistas / Rebela-te contra os sonhos dos políticos / Sê firme e luta contra a injustiça / Revolta-te contra os preconceitos raciais).

O rumo a seguir pelos skins resume-se em dois versos: "Skinhead remember your roots / Think with your brain and not with your boots" (Skinhead lembra-te da tua rota / pensa com a tua cabeça, não com as tuas botas). Uma declaração de princípios cantada nas reuniões e nas festas e sublinhada pelos gritos de «Oi! Oi! Oi!»

Oi! Ska. Hardcore. A música tomou, na cultura skinhead, o lugar que os clássicos de Marx, Lenine e Mao ocuparam na formação dos protagonistas do Maio de 68. De tal forma que um dos pontos do "manifesto" da RASH lhe é inteiramente dedicado: «É um ponto central do nosso estilo de vida e um meio privilegiado de transmitir a nossa mensagem», pode ler-se. Por isso, propõem-se «apostar na divulgação de Ska, Oi!, Punk e outros tipos de música que representem e/ou divulguem os nossos ideias». Não por acaso, o manifesto termina com um distinto "Oi!" transformado em sonora palavra de ordem: «Contra o fascismo e quem o apoie! Pelo socialismo e a revolução! Pela V Internacional! Redskins United! Oi!»

No mesmo sentido de divulgação e esclarecimento através da música aponta a SHARP, que já publica um fanzine quadrimestral - "Oi! It's a SKAndall" - e um boletim no Barreiro, possui igualmente página na Internet e está a montar uma distribuidora de discos, cassetes e livros, a "Street Pride". Esta preferência por designações em inglês é outra das contradições aparentes do movimento, que, mesmo à esquerda, faz questão de manter um certo «sentido de patriotismo».

«O inglês é hoje uma forma de comunicação internacional", explica um dos activistas. «Certos termos, certas expressões, já se tornaram comuns no léxico skin, em toda a parte do mundo. É uma forma de facilitar a comunicação entre todos.» Quanto ao patriotismo, são claros: «Somos portugueses e não temos vergonha disso. Pode gostar-se do país a que pertencemos sem nos julgarmos melhores do que os outros. Mas não renegamos a nossa pátria e gostamos de o mostrar.»

Em todo o caso, para evitar as mais do que habituais conotações com a extrema-direita são poucos os reds, sharps e trads que usam patches com os símbolos nacionais comuns. Preocupam-se mais com a demonstração da sua "natureza de classe", até porque todos são trabalhadores, nos mais diversos ramos: «Damos muito valor ao trabalho, é um dos nossos princípios.»

Por isso, são em regra renitentes perante o uso de estimulantes e outras substâncias criadoras de «paraísos artificiais». Preferem o álcool, sobretudo a cerveja preta (a Guiness é, por tradição, a bebida "oficial" do movimento) e são muito explícitos: «Como grupo urbano, somos contra a dependência das drogas», diz Raul, falando em nome da SHARP. Já Zhukov, pela RASH, tem um discurso ligeiramente diferente: «As drogas leves são bem-vindas desde que não se abuse delas, porque acabam por causar apatia e falta de força para lutar», diz. De resto, acrescenta, «experimentamos qualquer coisa que não seja decadente, como os drunfos ou a heroína».

Casuals e trads comungam, no essencial, destes pontos de vista. Poderão fumar uns charros, mas pouco mais. Para o resto preferem a música, a cerveja e a catarse dos estádios. De resto, as claques de futebol são, como se sabe, o local privilegiado de encontro (e frequentemente de "actuação") dos skins de todas as tendências. Raul faz parte, já se disse, de uma claque da Linha de Cascais, e Zhukov gosta de torcer pelo Benfica, «que também é vermelho». Em Portugal ainda não há claques como a "Celtarra" (do Celta de Vigo) ou a "Riazor Blues" (do Deportivo de Coruña), de onde os boneheads foram excluídos e que hoje são dominadas pelos redskins. Mas Zhukov ainda acredita que, um dia, também será assim em Portugal.

Até lá, pretende continuar «orgulhosamente skin e vermelho» e não se imagina de outra forma: «Se agora deixasse crescer o cabelo ia sentir-me um hipócrita, alguém que não era eu.» E acrescenta, com a firmeza própria dos que acreditam naquilo que fazem: «É isto que me faz viver».

O Independente | 16.Abr.1999

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