Morrer de amor

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É possível morrer de amor? Os poetas e outros loucos, incluindo alguns psiquiatras, acham que sim. «D. João e Julieta» é uma peça de Natália Correia onde o amor e a morte, uma vez mais, se cruzam na grandeza da paixão. Uma peça onde, de um modo particularmente singular, a própria Natália se desvenda, nas falas de algumas das suas personagens.

«Creio no incrível, nas coisas assombrosas, / Na ocupação do mundo pelas rosas / Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.» Termina assim o Credo, um poema irrepetível como todos os de Natália Correia. Um soneto que, divinamente musicado por Janita Salomé, se tornou canção, a mesma onde a poeta nos garante: «Creio num engenho que falta mais fecundo / De harmonizar as partes dissonantes, / Creio que tudo é eterno num segundo / Creio num céu futuro que houve dantes».

Natália, sedutora, fascinante, que dizia da sua poesia ser a «recriação do mundo» e assumia o seu papel na «erotização do universo», cria em «D. João e Julieta» um desses lugares onde o amor e a morte se cruzam, quase se como se fosse esse o destino final de todos os amantes. Porventura, Natália Correia sabia do que falava: poucas mulheres como ela despertaram tantas e tão ardentes paixões nos meios sociais, literários e outros, dos anos 50 e 60.

Nenhuma, porém, terá sido tão poeticamente trágica como a que lhe dedicou Dórdio Guimarães, também poeta, que à morte da Amada não resistiu mais de quatro anos e três meses - apesar de ser mais novo 15 anos do que ela. Como observou Helena Roseta, no livro-catálogo da exposição «Natália, arte e poesia» (atempada e acertadamente subintitulada «Colecções de Arte do espólio de Natália Correia e Dórdio Guimarães», que em Maio pode ser vista em Lisboa e brevemente será inaugurada no Porto), Dórdio «acabou por se deixar morrer aos poucos, submerso nas profundezas de um desgosto sem remédio».

Num tempo mais dado à racionalização efectiva do que à irracionalidade afectiva, talvez custe a perceber como é possível amar tanto. Tanto, a ponto de se desistir da vida. Não era disto que falava outro poeta maior, Herberto Helder, quando se arrojava «por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor»?

Em «D. João e Julieta», Natália rebela-se, pela voz do protagonista, contra «o atavismo das fêmeas vulgares que comprometem a divina loucura do amor a troco da segurança». E no entanto ela, que esteve sempre mais próxima dessa «divina loucura», também não descurou a segurança. Assim, o amor que Dórdio lhe devotou desde 1962, quando a conheceu, só em 1990 se transformou em casamento - após a morte de Alfredo, o anterior marido de Natália. Um casamento, de resto, de pouca dura: Natália Correia morreria a 16 de Março de 1993, um dia antes de celebrar o terceiro aniversário do enlace oficial com Dórdio e seis meses antes de completar 70 anos.

O que os uniu, como foi que Dórdio elegeu Natália para sua mais que musa, mais que tudo? Diz Helena Roseta, no texto já citado, que «sem a sombra tutelar do pai e sem o culto de Natália, [é possível que] Dórdio tivesse dado mais largas à sua sensibilidade e ao seu talento poético. Passava as tardes a escrever, publicava pouco, filmava ainda menos. Esperava ansiosamente as longas horas da noite, onde entre copos e amigos sabia que podia compartilhar a presença desejada».

Porque, como diz ainda Helena Roseta, «a impressionante figura da Natália, com o seu riso e o seu excesso, ofuscava naturalmente quem a rodeava». E Dórdio estava sempre lá, «era teimoso e não arredava pé. Mesmo quando a Natália tinha uma daquelas explosões de fúria ou de impaciência que a tornavam temível.» A verdade, segundo Roseta e quase todos os que foram amigos de Natália, é que também à poeta «agradava a adoração permanente de que era alvo». Mas «apesar de muitas vezes parecer distante e até agressiva para com ele [Dórdio], nunca o deixou afastar-se de si».

Talvez porque, em Natália, o amor não era apenas uma necessidade, era uma força vital. Foi por uma história de amor, a de Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis, que Natália se inscreveu no PSD - com que veio a cortar mais tarde, como era inevitável. E onde continuou a ser a voz independente e frontal de sempre, mesmo se contra a opinião dos seus correlegionários.

E que fez Dórdio? Ele, que até era simpatizante da revolução bolchevique de 1917, por amor a Natália inscreveu-se também no PSD. O que não o impedia de ser republicano e maçon, orgulhoso e assumido, e de se pôr de pé e em sentido de cada vez que ouvia a «Grândola Vila Morena». Mas só após a morte de Natália concretizou aquele que foi o seu sonho político de sempre e tornou-se militante da UDP.

Apesar do seu espírito vagamente anarquista, Dórdio Guimarães submeteu-se por completo à sua Amada, e pareceu sempre incapaz de resistir ao seu canto de sereia, a quem chamou, num poema, Nossa Senhora das Distâncias. Mas, como interroga Helena Roseta, «quem somos nós para censurar as escolhas de vida de cada um?»

 O amor, o amor total e irreversível, é o tema central de «D. João e Julieta». A encenação é de João Mota (a quem Natália ofereceu esta peça inédita, há dez anos, após uma inesquecível recriação de outra bela peça nataliana, «A Pécora») e o elenco inclui os notáveis da Comuna e mais alguns: Carlos Paulo, no protagonista, Álvaro Correia, Vítor Soares, Margarida Cardeal, Ana Lúcia Palminha, Cecília Sousa, entre outros.

Mas - perguntarão os leitores - que têm em comum a peça de teatro e a paixão de Dórdio por Natália? Paixão doentia, por certo. Mas não são todas as paixões irracionais? Nos últimos tempos - é ainda Helena Roseta quem lembra - Dórdio «tinha a obsessão de que nada se perdesse, não permitindo, sequer para limpezas, que alguém tocasse nos papéis que ela deixara amontoados no quarto». E mais: «Sempre que tinha notícia de algum objecto ou documento que tivesse pertencido à Natália e se encontrasse à venda, procurava adquiri-lo. Os dinheiros dela herdados ficaram depositados. O mesmo sucedeu com subsídios recebidos para a Fundação [Natália Correia]. Como se congelando os objectos pudesse congelar a memória e esta lhe devolvesse a razão de ser da sua vida.»

Não é exactamente esta a história de «D. João e Julieta», cujo enredo se centra em dois dos mais conhecidos mitos da literatura romanesca. Escrita nos anos 50 (é o primeiro texto para teatro escrito por Natália) a peça decorre num baile de máscaras, ao longo do qual o espectador é confrontado com as várias identidades e os sentimentos, ora nobres ora mesquinhos, dos convidados. O anfitrião é D. João, o aventureiro sedutor, espécie de cavaleiro andante de um amor que nunca encontrou em toda a plenitude, e que só lhe será revelado com a aparição de Julieta, «Julieta Capuleto... de Verona... a que morreu de amor».

Como se o amor, a entrega total e absoluta, tivesse que atravessar a morte para se consumar: «De mãos dadas passaremos sobre o cadáver das horas efémeras e mesquinhas dentro da nossa eternidade», diz Julieta, quase no final do segundo acto. E acrescenta: «A morte, ciumenta do amor que a ultrapassa, roubou-me a carícia da tua pálida nudez de todos os dias... Mas nós regressaremos, sem dias e sem horas... e noivaremos sem piedade nem esperança, porque a piedade e a esperança são gotas caindo da núvem suspensa do perecível. A voz profunda do Oceano celebrará as nossas núpcias eternas... as estrelas serão sombras no rasto da nossa luz... e os nossos dedos estarão na raiz de todos os mistérios».

A previsão de Julieta cumpre-se no último acto da peça, após um diálogo em que Julieta diz a D. João: «É a tua alma que eu venho buscar... O teu corpo envileceu-se para revelar-te a nitidez da tua alma. Isso a que chamas degradação foi a obscura vigília deste momento absoluto.» João ouve-a com atenção: «Tu extinguiste em mim a chama do desespero humano». E Julieta: «Porque mergulhas finalmente na transparência do teu verdadeiro ser. (...) A tua doença chama-se vida. E conheces igualmente o nome da tua cura». João responde: «A minha cura chama-se morte. (...) A volúpia de pertencer substituiu em mim o enfado de possuir... depus finalmente a espada do meu tédio... Venceram-me, ferindo-me de amor...»

É neste cruzamento de amor e de morte - é do amor que nasce a vida, mas esta só é possível porque a morte existe - , é neste aparente antagonismo que o final da história da peça de Natália e da vida de Dórdio se assemelham. Este excerto de um diálogo entre Julieta e D. João poderia muito bem ser um epitáfio de Dórdio Guimarães dedicado à sua musa: «Os meus olhos seguiam-te do além, velados pela dor. Só eu sei com que terna piedade! A minha voz murmurava-te ''eu amor, estou aqui...' e tu perdias-te nas trevas, apalpando como um cego os rostos que me antecediam... cedendo pedaços do teu corpo aos abutres que habitam as sombras para que a tua alma viesse pura ao meu encontro».

Natália, que foi a Cynthia dos poemas de Dórdio, não era, porém, como D. João. Provavelmente porque preferia a sedução aos «jogos de caça». Mas também porque, por dentro da mulher imponente e viva, vivia também uma mulher, frágil como todos os seres. Já em 1955 ela fazia assim o seu auto-retrato: «Espáduas brancas palpitantes: / asas no exílio dum corpo. / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma. / E os olhos emigrantes / no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia. / Por vezes fêmea. Por vezes monja. / Conforme a noite. Conforme o dia. / Molusco. Esponja / embebida num filtro de magia. / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis. / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis.»

Dórdio Guimarães soube apanhar, um a um, esses pedaços. E, como o Romeu original, deixou-se morrer após o desaparecimento da sua Julieta. Porque ainda há quem morra de amor.

DNA - Diário de Notícias | 1999

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