Enquanto houver estrada pr'andar

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Desculpem, leitores, mas ele há regras! E a verdade é que nem o Jorge Palma nem o relator desta conversa se sentem, nos dias que correm, com vontade ou paciência para entrevistas formais, ao estilo dos seriíssimos diálogos entre jornalistas-culturais e escritores-em-franca-ascensão, comentadores-político-sociais e ex-ministros, futuros-ex-ministros ou candidatos a. E foi talvez por isso que, quando repórter e músico decidiram dar conta da conversa que se segue, escolheram a serenidade da casa do capitão da Zambujeira do Mar, de frente para o Atlântico, numa tarde tranquila de finais de Julho, quando os camones não tinham ainda chegado em força e os portugas permaneciam nas cidades, a braços com o aumento do iva e as propostas do ministro da televisão que animaram os últimos dias antes das férias gerais - e que serviram de aperitivo para as badaladas festas sauditas do jet set a banhos no Algarve, com o estatuto de acontecimento nacional, como se viu.

Nessa tarde, entre alguns cigarros e uns aicetis - que o Jorge Palma decidiu dar uma folga à decilitragem, já que o corpinho, ao contrário dos discos e dos livros, não pode aspirar a uma segunda edição - conversámos de tudo o que nos apeteceu. E viajámos pelos trinta anos de cantigas e de experiências de vida do Jorge. Sem roteiro nem guião prévio, à semelhança do tempo em que não pensava duas vezes entes de dizer té já e partir com uma viagem na palma da mão, rumo a Copenhaga ou a Paris, ao Mundo. Hoje, com 52 anos cadastrados no BI, diz que está mais calmo, mas não rejeita uma incursão punitiva ao lado errado da noite, quando lhe apetece.

– Vamos começar por onde? Pelo princípio, não?

– Ou pelo fim, tanto faz...

– Seja, então, pelo fim. O Prémio José Afonso é a tua última «conquista»...

– É um prémio especial que me deixa muito contente., como é óbvio. É um prémio que tem muito significado, quer pelo espírito, quer pelas pessoas envolvidas, que constituem o júri, porque são pessoas inteligentes, pessoas cultas e sensíveis...

– Obrigado pela parte que me toca...

– De nada... E o facto de me terem escolhido conforta-me.

– O disco que está na origem deste prémio – já que isto não é um prémio de carreira, é um prémio atribuído ao teu disco mais recente, independentemente de qualquer disco nunca poder ser apreciado sem ter em conta todo o percurso do autor, já que nenhum criador pode desligar-se daquilo que já fez...

– Com certeza que há sempre uma apreciação global do trabalho feito, e a própria forma de estar deve contar um pouco... Aliás, isto está tudo ligado...

– ... este disco é diferente de todos os outros, embora seja também, obviamente, a continuidade dos que já fizeste...

– Creio que todos os meus discos tem uma certa continuidade e todos eles são diferentes porque reflectem estados de espírito e aventuras diferentes, em contextos diferentes....

– Os teus discos são sempre discos de histórias...

– É, e de diferentes influências que estou a sofrer na altura, coisas de que gosto mais, ou menos...

– E embora os teus discos não sejam autobiográficos, parece-me que seria relativamente fácil reconstruir a história da tua vida através das tuas canções...

– Não é autobiográfico, mas passa muito pelos meus passos. Realmente pode-se traçar o meu percurso, pelo menos a partir dos vinte e poucos anos...

– O teu percurso, que nunca foi um percurso muito bem comportado...

– Não... Nunca fui um menino-de-coro... [risos] Mas tudo isto é relativo... Estou agora a reler «Os Dias Tranquilos em Clichy» do Henry Miller, se eu comparar as minhas vivências em Paris com as do Henry Miller, as minhas são de menino-de-coro, sou muito bem comportado... [mais risos] Mas aquilo que queres dizer ... não me tenho colado muito a etiquetas. Nem etiquetas de conduta, nem etiquetas partidárias...

– Nunca te deixaste institucionalizar...

– Acho que não. Nem partidarizar de mais. Continuo a ser tanto quanto possível independente, mantenho a minha liberdade de movimentos, as minhas decisões mais ou menos precipitadas, às vezes...

– Tens-te arrependido muito dessas decisões? E não falo só das políticas...

– Não. Há coisas que eu faria de maneira diferente agora, mas... Nós temos tendência para nos culparmos, quando as coisas correm pior, faz parte da nossa tradição judaico-cristã, mas, vendo bem, acho que não há razões para me culpar muito. Houve coisas que podiam ter corrido de outra maneira, com menos gente magoada, menos dores... Mas tudo isto faz parte da vida. E houve atitudes que eu tomei e que, eventualmente, magoaram pessoas, mas não foram situações premeditadas, não foram coisas maquiavélicas, perversas. Foram, quanto muito, desastradas e fruto do desconhecimento, de inexperiência, sei lá! Eu, agora, faria melhor algumas coisas. Mas não estou arrependido dos passos que tenho dado, dos caminhos que tenho tomado...

– Quando eu te conheci tu ainda vivias repartido entre Paris e Lisboa, ainda tocavas no metro de Paris se fosse preciso, ou nas ruas de Lisboa. Lembro-me até duma capa do Se7e em que estavas a tocar, salvo erro ao pé do Teatro Dona Maria...

– É. Em frente da "Ginginha"...

– Tu, hoje, ainda eras capaz de pegar numa guitarra e ir tocar para a rua?

– Ah!, capaz era, mas...

– ... não te apetece... [risos]

– Não me apetece muito... Os anos também pesam um bocado... E o próprio ambiente... Eu por exemplo, ainda recentemente tive que ir a Paris, e a certa altura passou-me pela cabeça: "E se eu agora pegasse na guitarra e fosse aqui para o metro?..." Vi alguns gajos, mas aquilo agora está muito murcho! Eu apanhei uma época de ouro, em que havia muita gente e boa gente a tocar no metro de Paris. E agora não encontrei assim nada de interessante.

– Nessa altura, o metro de Paris era um local de culto, assim uma espécie de "coliseu do dark side"...

– Era, era. Eu agora achei Paris muito menos interessante, nesse aspecto. Porque, de facto, nessa altura encontravam-se, ao virar de cada esquina, no metro ou à superfície, encontravam-se coisas muito boas. Desde mimos até grupos de jazz e grupos de câmara, gajos a tocar e a cantar muito bem. Agora não vejo ambiente para isso, Paris nesse aspecto está mais cinzento. Em Portugal sempre foi. Principalmente em Lisboa, houve sempre uma certa mentalidade retrógrada, sobretudo por parte das autoridades, dos gajos fardados, que confundiam esse tipo de actividade com a mendicidade. Eu tive problemas, estava sempre a ser interrompido e chateado, e acabei por desistir. Estou a falar de anos 70, ainda. Achei que não valia a pena estar-me a chatear, e como também não tenho necessidade de sobreviver dessa maneira, olha... Mas, “lata” ainda tenho, em Paris ou em qualquer lado... [risos]

– Aliás, uma grande "lata" foi coisa que nunca te faltou.

– Nada. Mas às vezes é preciso. E muitas vezes era necessidade mesmo: quando um gajo estava cheio de fome e havia uma esplanada cheia de gente, com licença!, aí não é preciso "lata" nenhuma...

– Sendo tu um tipo claramente influenciado pelo espírito dos anos 60, e sobretudo dos 70, não ficaste a "viver", digamos assim, nessa época, ao contrário de alguns tipos que a gente conhece – que pararam no Quartier Latin em Maio de 1968 e parece que ainda lá estão. E alguns são gajos porreiros, sabes ao género de pessoas a que me refiro...

– Sim, sim. E normalmente são de facto gajos porreiros, um bocado azedos, amargos... Eu procuro encarar cada dia como um dia novo, mesmo, e ver o que se me depara, analisar. Às vezes nem sequer me debruço o suficiente sobre a actualidade política e social, mas de qualquer maneira ela vem até mim. E eu procuro reagir em função do que está a acontecer, sem grandes saudosismos... Mas há o "sopro do coração", como diz a cantiga... E há alguma nostalgia, há recordações. Mas isso é bom, não fico é a lamuriar-me...

– Não és dos estilo dos que dizem “no meu tempo é que era bom” - aquelas coisas que nós já temos idade para dizer...

– Completamente. Já temos idade para ter juízo... Eu já ultrapassei o meio século...

– Será essa tua lógica de vida que justifica o teu penso que bastante razoável sucesso junto da malta mais nova?

– Tenho reparado nisso...

– No fundo, tu tens um público que continua a ter a mesma idade do teu público de há vinte anos, que por sua vez continua também...

– Vão-se acumulando... Sem perder os “fiéis” antigos, tenho conquistado gerações mais jovens - e isso é porreiro! Tenho-os visto nos concertos e tenho-os visto entusiasticamente a “lutarem” por mim... Activamente, na internet por exemplo, eu vi-os quando foi dos coliseus: o grande impulso foi devido aos “palmaníacos” que se correspondem através da net, organizaram-se, fizeram imensa força para que eu fizesse os coliseus, e estiveram lá...

– Eu creio que conseguiste ser aquilo que poucos conseguem em Portugal: tornaste-te um músico de culto, desculpa lá o palavrão...

– Não acho, não. Eu reconheço que há um certo cultivo da minha história, que tem sido transparente para todos os efeitos, e que os gajos que têm agora 18, 20 anos conhecem, provavelmente através dos pais, só pode ser. E vão ouvindo os discos e divulgando coisas mais velhas do que eles! E pelos vistos gostam da postura, de uma certa maneira de estar... Acho que se identificam com a irreverência, é uma forma de bater o pé ou dizer não às teias de aranhas...

– E há sempre uma dose grande de espírito de provocação nas tuas coisas que supostamente agradará aos mais jovens...

– Sim. Eu criei este "calo", esta maneira de ser e de reagir, ainda nos tempos do Salazar. Eu era puto, a minha formação foi feita ainda no Estado Novo, na noite fascista... O 25 de Abril deu-se aos meus 24 anos, o meu carácter, a minha formação básica já estava feita - e foi feita no meio da censura, de regras obsoletas, pardas, que eu aprendi a contornar, a evitar...

– Ainda continuas a encontrar-te regularmente com Jeremias o Fora-da-Lei, por exemplo?

– [ri-se] Em sonhos, às vezes... São imagens mais ou menos caracterizadas, mais ou menos de banda desenhada, que eu procuro não perder de vista. É o que dá cor à vida. Não há pachorra para o senhor administrador, burocrata, que está ali sentadinho... Prefiro o desassossego, a incerteza, mas com o folguedo entre os pontos de tensão...

– Isso vai muito contra a lógica do pensamento único, o politicamente incorrecto...

– Pois, uma coisa muito irritante. American way, já dei...

– Não sei se alguma vez te passou isto pela cabeça, mas de repente, uma canção como esta de que falávamos, o Jeremias..., corre o risco, no mundo pós-11 de Setembro, de fazer com que te chamem terrorista...

– Terrorista cultural... [risos] Não, creio que ainda não há esse risco! E penso que, cada vez mais, está a haver mais gente a questionar-se e a perceber que de facto há vidas que não nos interessam. E a optar: prescindindo, às vezes, de uma vida mais cómoda, de maiores garantias do ponto de vista económico, a favor de uma vida mais livre, mais genuína. Estou cada vez a encontrar mais pessoas, de todas as idades, a mudarem de vida, a considerarem novas opções, novas maneiras de viver...

– E há coisas novas que começam a surgir, nomeadamente na internet, que já está a tornar-se numa fonte de informação alternativa...

– É verdade. Eu ainda sou um grande "nabo" nisso, mas esse tipo de aldeia global é extremamente interessante...

– ...o que significa que, se calhar, o futuro não vai ser assim tão negro...

– É, acho que não. Acho que a gente acaba por ter um certo bom senso, lá muito no fundo...

– Tu nunca perdeste o teu lado optimista, pois não?

– Não. Se perdesse, a vida não valia a pena... Mas sou também cada vez mais realista, e sei que não é fácil lutar contra um sistema com tentáculos tão enraizados. Mas, também, quando se chega a um ponto em que, como eu li no jornal outro dia, há crianças da Palestina que aparecem armadilhadas... É já o ponto a que chega quem já sente que não tem mesmo nada a perder, é o desespero absoluto do "antes a morte que tal sorte". E isso está a começar a alertar as pessoas: é muito chato, morrem muitos inocentes, mas morrem muitas mais todos os dias, lá nesses sítios. E às vezes é preciso um “bofetão” destes para que as pessoas se interroguem sobre o que se passa. Nós estamos aqui sossegadinhos, à conversa...

– ... com um mar magnífico à nossa frente, numa tranquilidade de fazer inveja...

– ... mas essas são imagens que estão cada vez mais presentes. E há sempre o travo amargo, mesmo quando se tem uma vida regalada, de saber que há pessoas neste momento a sofrer como o caraças, e que não têm a mínima hipótese, não tem o que comer, não têm cama, não têm nada. E cada vez temos isso mais presente...

– E é ainda pior quando tomamos conhecimento de algumas realidades, como por exemplo o facto de um por cento da população mundial deter mais riqueza do que todos os outros, ou a crescente virtualização da economia, quando "a produção, transporte e venda de coisas concretas só ocupa cinco por cento da economia mundial, enquanto o resto se refere simplesmente à compra e venda de valores ou de moedas". Quem o disse foi Inácio Ramonet, e ninguém o desmentiu...

– O mundo não pode continuar assim, tudo isto tem que ser reequacionado. É um disparate, é irracional, é obsceno...

– Bom, mas já nos estamos a dispersar...

– Vamos voltar à música, é melhor...

– Tu que andaste pelo "lado errado da noite", viveste no "bairro amor" e fizeste uma porção de coisas, tens aquilo a que pode chamar-se um discurso transgeracional, cantas aquilo que, numa ou noutra altura da vida, pode suceder a qualquer um. Mas foste sempre reequacionando isso, colocando as mesmas questões de um modo novo.

– Se calhar. Há muito diálogo comigo próprio e também com os outros, numa linguagem contemporânea, mas que eu tento que não seja muito datada. E há aquelas situações que se vão repetindo, problemas que se mantém inalterados há milhares de anos...

– Penso, por exemplo, numa canção como o “Portugal, Portugal”, que fala de coisas que eram actuais há vinte anos e continuam a sê-lo... O que me leva a outra questão: nós já sabemos que há um espírito fatalista muito vincado entre os portugueses, mas às vezes parece-nos que ser português é mesmo uma fatalidade. Será?

– Eu tenho muita confiança no pessoal que tenho conhecido, a malta que está a acabar a adolescência e a passar para a idade adulta. São realistas, sem grandes utopias, mas firmes, decididos e com um optimismo saudável. Estou a gostar da maneira das pessoas se interessarem pelas coisas, de serem activos. Tenho conhecido muita gente nova assim, e isso faz-me acreditar no futuro. Têm uma maneira de serem portugueses sem serem demasiado nacionalistas ou saudosistas, sem estarem a sonhar com impérios mais do que discutíveis. Acho que há um positivismo muito saudável nesse pessoal novo...

– Tu sempre tiveste alguns livros como referências fundamentais. Continuas a ler bastante?

– Isso depende, é por fases. Eu passei agora um tempo largo em que praticamente não consegui ler, por questões do meu quotidiano, que tem sido muito agitado. Do ponto de vista profissional e não só: a minha maneira de estar tem sido muito saltitante, com muitas mudanças e alguma confusão na minha vida privada... Houve alturas em que li muita coisa, de géneros diferentes. Quando acabei o Conservatório lia muitos ensaios, biografias, mas varia muito. Agora estou outra vez a pegar em leituras que já fiz, mas também me apetece fazer leituras novas, ouvir sons novos...

– Imagina que isto era um inquérito de Verão e eu te perguntava quais são o disco e o livro da tua vida, aqueles que mais te marcaram...

– Eh, pá!, isso é tramado! São tantas, que é como pescar uma pérola num mar de coral...

– Tens estado atento ao que se faz de novo, nas música?

– Sim, e de vez em quando tenho surpresas, ouço coisas porreiríssimas que se fazem pela Europa, em Itália e na Alemanha...

– Mas que cá, ninguém conhece. A Europa tem esse problema: a música que cá se faz, com raras excepções, não passa de Badajoz. E nós também não conhecemos a música que se faz lá fora, à excepção da norte-americana e de alguma inglesa...

– O problema é que a música que se faz em Portugal muitas vezes não é conhecida em Portugal! Os franceses e os italianos e os nossos hermanos ouvem a música deles na rádio. A nossa rádio chegou a um ponto intolerável, é o provincianismo total...

– À excepção da Antena 1, quase ninguém passa música portuguesa...

– É um absurdo. E não se justifica, há tanta coisa boa a ser feita por aí! Há grandes bandas, instrumentistas, vozes do caneco! Vai ter que se tomar uma atitude...

– E a televisão também não ajuda, mesmo agora com quatro canais...

– Não há um programa de música. Quando havia só um canal existia, pelo menos, um programa de uma hora, agora só se ouve música nos talk-shows, em play back... É uma questão de mentalidade, comodismo, sei lá...

– Como esta é uma entrevista de trás para a frente, está na altura de irmos ao princípio das coisas. Tu és músico desde miúdo...

– Desde que me conheço, nunca me imaginei de outra maneira...

– Quase se pode dizer que começaste a fazer música quando começaste a ler...

– Sim, ou ainda antes. Naturalmente, a bater nas teclas do piano que havia lá em casa, foi um brinquedo fundamental...

– O piano é o teu primeiro instrumento, que vieste a trocar pela viola e a que mais tarde regressaste...

– Sim, mas, aí, já de uma maneira consciente e fundamentada. Mas no meio, entre esses dois momentos, há sempre a guitarra e o convívio, uma “esponja” sempre a absorver tudo o que havia, musicalmente e não só. Mas sempre a tocar, sempre a aprender, sempre a comunicar através da música.

– Quando é que sentiste que ias mesmo ser músico?

– Houve uma altura que eu estava no segundo ano de Engenharia e aquilo já não tinha consistência para mim. Por um lado estava a começar a fazer dinheiro com a música, que dava para me aguentar. Sempre incerto, como continua a ser, mas nessa altura muito esparso, completamente sem rede. Mas a verdade é que o dinheiro ia aparecendo: uma orquestração aqui e ali, umas canções, os primeiros direitos de autor, e comecei a desinteressar-me de Engenharia. Mas eu gostava de algumas coisas do curso: a matemática foi fundamental, as línguas também, ainda no tempo do liceu, e que depois fui aperfeiçoando com as minhas vivências, com os livros e os discos e as conversas, com as viagens... Mas a música foi sempre tão parte de mim, tão interiorizada, que nunca me imaginei sem fazer música... Mas nem sequer nunca houve aquele momento em que tivesse que dizer "agora vou ser músico, não vou ser engenheiro"...

– Em todo o caso, o "engenheiro Palma" foi-se embora...

– Foi-se completamente embora. Nem sequer cheguei a entrar no Técnico, fiquei-me pela Faculdade de Ciências, chumbei, e ao chumbar sabia que ia ser chamado para a tropa. Ainda não tinha acontecido o 25 de Abril, não tinha sequer a hipótese de dizer "ok, chumbei este ano por faltas, mas ainda vou tentar outra vez". Não, porque ia para a tropa quatro anos, com a guerra e tudo isso. Foi o golpe de misericórdia no curso...

– E então...?

– Então, Dinamarca, conhecer pessoas... Fui daqui para Copenhaga, porque eu tinha trabalhado já no teatro com um gajo dinamarquês, encenador, numa tentativa de fazer o “Godspel”. Já sabia que ia ser chamado para a tropa, ainda vacilei um momento, mas decidi que não ia. E como tinha essa porta aberta em Copenhaga, atirei-me para lá...

– E daí partiste para o mundo...

– Eu já tinha feito umas viagens... E sempre com a música, uma viola na mão. E como eu era bastante tímido, a música ajudou-me a ir pela primeira vez aos Estados Unidos, ao Brasil...

– A ideia da viagem está sempre muito presente na tua vida e nos teus discos...

– "Uma Viagem na Palma da Mão" foi o primeiro. Começou a ser feito na Dinamarca, em inglês, para o que desse e viesse. Mas depois vim para cá e reconstrui aquilo em português. Tinha tido uma experiência extremamente enriquecedora com o José Carlos Ary dos Santos...

– Com quem, aliás, gravaste um disco, um EP, com quatro canções...

– Sim, duas com letras dele e duas minhas, mas directamente influenciado por ele. Trabalhámos durante um ano e meio, quase todos os dias estávamos juntos, aprendi muito com ele... Tinha um sentido de humor enorme, e um talento muito grande...

– E trabalhaste como arranjador de gente muito diversa, desde o Paco Bandeira...

– ... e a Amália, fiz muitas orquestrações para ela. Isso e o trabalho de estúdio, trabalhar com orquestras grandes, sempre a escrever, isso deu-me uma rodagem e uma familiaridade com a escrita musical, com as sonoridades. Fui ganhando “calo” e fui sempre ouvindo muita música, muito jazz, houve uma altura em que estive apaixonado pela música country... E, depois, em Paris, conheci muita gente a tocar bem...

– Tu tiveste um percurso um tanto kerouakiano...

– Pois. E as leituras também foram acompanhando isso tudo, os Cohens, os Kerouaks, os Ginsbergs, o Dylan...

– Apesar das tuas experiências serem em grande parte europeias, parece-me que tu foste talvez mais influenciado pela cultura anglo-americana...

– Sim. Antes das viagens, do contacto físico com outra culturas, a minha descoberta de França foi sobretudo através das leituras, mais do que da música. Eu só entro no Jacques Brel, no Léo Ferré, mais tarde. Primeiro foram os escritores: o Camus, o Boris Vian, o Baudelaire... Mas com o auge dos Beatles e dos Stones eu, que tinha 13, 14 anos, pus de lado o Mozart e o Chopin e comecei a virar-me completamete para o rock. E isso marcou-me muito...

– Foste muito influenciado pelo espírito vigente do sex, drugs and rock’n’roll?

– Completamente. Há momentos em que eu costumo dizer que é preciso filosofar um bocadinho, pensar, porque isto aos 50 anos não é só sex, drugs and rock’n’roll... [risos] Sex, sempre; rock’n’roll também; quanto a drugs, é preciso ter mais cuidado...

– Pois...

– A mais duradoura foi o álcool e agora, como sabes, estou a aguentar os cavalos. Há que sublimar um bocadinho esse apetite, esse vício, gerir o tempo de outra maneira...

– Tu foste acabar o Conservatório quando tinhas 40 anos. Não és dos que acham que isso da formação académica para um músico dito ligeiro é uma treta...

– Não, não é treta. Eu não penso que precisasse de lá andar para fazer canções, porque já as fazia e não noto grande diferença dos processos. Sei é o que estou a fazer. Mas não deixo que as regras me atrofiem. As regras são para subverter...

– ... mas é preciso conhecê-las. O Mário Dionísio, que foi meu professor na Faculdade de Letras, dizia isso mesmo da gramática...

– E o Schöenberg dizia da música. Não, o Conservatório não me fez mal nenhum...

– Nestes anos todos tenho-te visto como alguém que segue um pouco aquela máxima lenininista: “Aprender, aprender, aprender sempre”. Se calhar foi isso que te levou a tirar o curso aos 40 anos...

– Foi, foi uma teimosia minha. Um bocado tardia, se calhar, mas acho que aconteceu na altura certa. Se fosse agora não sei se teria pachorra para estudar aquilo tudo e para estar tantas horas do piano. Que, aliás, devia estar mais. Mas eu sou um bocado preguiçoso...

– Sempre assumiste bem esse teu lado...

– O Vitorino diz que é mais preguiçoso do que eu, ele e o Janita, mas eu não estou de acordo: acho que sou pelo menos tão preguiçoso como eles... Mas não me fazia mal nenhum estar mais tempo ao piano, à guitarra. Se bem que eu não páro, mesmo quando estou em silêncio, estou a pensar coisas, a imaginar harmonias. E tenho tido a sorte de trabalhar com muito bons músicos. Nos discos estão lá desde o Rão Kyao ao Carlos Zíngaro, o Guilherme Inês, o Vítor Mamede, tenho tido a sorte de, nos discos ou nos palcos, ter os melhores que temos tido aí. E alguns com quem não cheguei a tocar, como o Carlos Paredes, mas que tive a sorte de conhecer. Ou o Zeca. E absorve-se, aprende-se, ao conhecer essas pessoas.

– Essa é capaz de ser a grande vantagem de estar neste meio...

– É. Já cumprimentei o Leonard Cohen... [risos] Já tive o [Lawrence] Ferlinghetti em minha casa. Dedicou-me um poema, “Os Elevadores de Lisboa”, e por causa disso foi lá o José Cardoso Pires, uma vez, porque tinha lido no El País que o Ferlinghetti tinha escrito um poema inspitado no elevador de Santa Justa e no meu elevador. E às tantas já falava do Salazar, "o homem com olhos de peixe"...

– Tens esse poema contigo?

– Há-de estar lá em minha casa, mas não sei bem onde. Ainda hei-de musicar isso, mas é muito grande, tem uma métrica lixada...

– Sendo um tipo essencialmente urbano, dá-me a ideia que gostas muito de sair de Lisboa, vir para a beira-mar...

– Claro que gosto. Mas acho que ainda não era capaz de fazer como alguns fazem e de vir viver permanentemente num sítio assim, com esta tranquilidade. Acho que ainda preciso de pontos de tensão. Estou convencido de que, daqui a quinze dias, tenho que inventar uma desculpa para ir a Lisboa... Aliás tenho que lá ir, tratar do novo disco...

– Estás a caminho da dúzia...

– Sim, acho que já vou em onze. Agora sairá o disco ao vivo com os espectáculos do Teatro Villaret, a solo. E tenho estado a gravar com o pessoal do Rui Grande, um outro projecto, com letras do Carlos Tê em vez do João Monge e músicas que não são só do [João] Gil, também há umas do Rui [Veloso] e creio que o Tim também escreve uma. E estou a escrever. Não sei se vou gravar ainda este ano, logo se vê. E também há os espectáculos...

– E tens ainda muitos discos para fazer?

– Acho que sim. Há histórias, outras perspectivas... E mesmo o facto de não estar a beber tão assiduamente como estava também me cria uma outra perspectiva perante as coisas...

– Tu sempre foste uma pessoa dada a alguns excessos...

– É verdade. Mais ou menos controlados, mas houve muitos desequilíbrios. Isso também tem a ver com a minha vontade de experimentar coisas, com o gosto pelo risco...

– Uma certa atracção pelo abismo, será?

– Um bocadinho, mas com um forte instinto de sobrevivência, também. Mas gosto, tenho desafiado muito o perigo. Só que às vezes estamos a pisar o risco sem darmos conta. Aconteceu-me com o álcool, já estava a chegar a um estado um bocado estúpido: já não era a experiência do desconhecido, era um deixar-me estar que não me levava a lado nenhum. Pelo menos a nenhum lado bom. E nessas alturas é preciso travar um bocadinho.

– O teu futuro preocupa-te?

– Às vezes. Depende do meu grau de fragilidade, de segurança ou de insegurança. É evidente que quanto mais seguro me sinto, no plano interior e afectivo, melhor me predisponho para o futuro. Mas é evidente que, quando me ponho a pensar muito, às vezes é assustador. Para já, porque temos a morte pela frente. Eu agora já acredito que ela existe, mas houve um tempo que pensava que não. Ou que, pelo menos, a mim não me acontecia. E é assustador pensar que se pode ter uma doença, e que trabalhamos quase sem rede. Não me tenho preocupado demasiado com isso, mas se calhar não fazia mal em ter um bocadinho mais de cuidado com a conta bancária...

– Ainda te hei-de ver a fazer um PPR...

– Um quê?

– Um “plano de poupança-reforma”.

– Ah! Hmm, sou capaz de não chegar a tanto. Quero sobretudo fazer mais coisas, coisas porreiras... Porra, eu não estou velho! Tenho coisas para fazer, muitas coisas, experiências. Agora está-me a apetecer fazer um disco cheio de instrumentos, acho que o próximo vai ser muito orquestral...

– Muito bem. E agora?

– Agora vou tomar um duche. Podes ir acendendo o churrasco...

MPP - Revista do Festival de Música Popular Portuguesa da Amadora | Set 2002

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