O rasto do dinheiro

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1. Base das Lages, Açores, 17 de Março de 2003. Um primeiro-ministro de um país periférico europeu serve de conciérge a um trio de patifes que, três dias depois, dará início à invasão do Iraque. Ao país a que pertence e ao mundo que mal dá por ele o primeiro-ministro periférico jura que viu «provas inequívocas» da existência de um temível arsenal de destruição maciça na posse de Saddam Hussein. Meses depois, o primeiro-periférico é indigitado presidente da Comissão Europeia, e o mundo passa a conhecer-lhe o nome, já devidamente aparado para a ocasião: Barroso, José Barroso.

Lisboa, Janeiro de 2008. Mr. Barroso deixa-se entrevistar por uma rádio e um jornal de referência do seu país de origem. Do passado, reconhece que foi apressado no julgamento dos Açores, garante ter sido enganado pelas provas que lhe apresentaram e que, diz agora, afinal não o eram. Admite que a invasão do Iraque podia ter sido evitada. Não nomeia culpados, mas também não se penitencia particularmente por ter envolvido o seu país e o mundo numa guerra sem sentido nem fim. Ché la vie, como diria Bond, James Bond, na modalidade de Sean Connery.

2. Com uma impudência invejável, o presidente de todos os presidentes europeus atira rapidamente as culpas para o presidente de quase todos os norte-americanos, deixando pelo caminho os inevitáveis salpicos para o ex-primeiro ministro de uma data de britânicos. Ah, e também para o baixote Aznar, está claro, mas esse é espanhol, não seria de esperar outra coisa. Uns malandros, que o enganaram com provas falsas – é o que Mr. Barroso diz sem dizer.

Pelo caminho, e por causa deste engano, já morreu meio milhão de iraquianos, ao que parece, mas o que se há-de fazer? Como diria um amigo meu, eles não morriam sozinhos. E, além disso, a Organização Mundial de Saúde já garantiu que, afinal, nestes primeiros cinco anos de guerra só morreram 150 mil – o que, como se imagina, me deixou muito mais aliviado. Do terrível arsenal de Sadam é que nada. Pormenores colaterais, evidentemente.

O que verdadeiramente me intriga é como terão reagido, em privado, o presidente dos EUA e o ex-primeiro ministro inglês às palavras do periférico. No lugar de Bush, eu teria ficado perturbado:
«Barroso? Quem é esse?»
«O tipo dos Açores, sr. presidente.»
«Quem, o do bigode?»
«Não, o outro, o do olhar de boga.»
«Podemos bombardeá-lo?»
«Poder, podemos, sr. presidente. Mas fica caro.»

3. Dili, fim de Janeiro de 2008. O alegado presidente de Timor-Leste, José Ramos Horta, nobelizado pela Paz, propôs formalmente o ex-primeiro-periférico e actual big-one europeu para seu continuador na galeria dos agraciados. Não sei quem é o fornecedor de Ramos Horta, mas há ali fortes indícios de consumo exagerado de drogas maradas. A verdade, porém, é que, para nossa vergonha, Barroso se arrisca mesmo a chegar a Nobel da Paz. Horta foi claro: «É tudo uma questão de lobbying.»

O prémio para Mr. Barroso apenas fará sentido se, com ele, forem premiados os seus ilustres amigos Bush, Blair e Aznar, já que, como todos sabemos, é graças a eles que o Iraque vive hoje em democracia e o mundo alcançou a paz. Caso a Academia Sueca tenha em consideração este facto e decida premiá-los, será ainda uma rara oportunidade para reunir, num mesmo lugar e na mesma altura, um belo conjunto de canalhas. Até o ladino Horta lá estará. Faço, pois, votos de que ganhem e que alguém se encarregue de dinamitar a cerimónia de Estocolmo. Toda.

4. Europa, primeiros anos do século XXI. Um ministro de um governo atribuiu a concessão de um importante serviço público a uma empresa privada criada para o efeito. Algum tempo depois, cumprindo a lógica vigente da democracia de alterne, o ministro saiu do governo. Poucos dias mais tarde assumiu a presidência dessa empresa.

Numa cidade de província, um edifício público foi vendido numa manhã por 14 milhões a uma empresa privada. Às três da tarde desse mesmo dia a empresa privada revendeu o edifício por 19,5 milhões. Da administração da empresa privada fazem parte figuras locais importantes dos dois principais partidos.

Mais a sul, um promotor imobiliário pretendia fazer uma construção numa Reserva Ecológica Nacional. Após anos de espera, dois ministros, um deles do Ambiente, consideraram que o projecto tinha interesse público, e autorizaram o abate de algumas centenas de sobreiros, espécie protegida de árvore. Nesse mesmo dia, um milhão de euros entrou nos cofres do partido dos dois ministros.

O segundo ministro envolvido neste caso era o do Turismo que – foi por estes dias revelado – na madrugada do seu último dia no governo, já em meras funções de gestão corrente, assinou cerca de 300 despachos. Um deles caucionando a transferência da propriedade, do Estado para a empresa locatária, do edifício onde se encontra instalado um casino.

O prédio, construído há dez anos para uma grande exposição universal, situa-se na zona mais nova e nobre da cidade. A preços correntes, será coisa para valer um bom punhado de milhões de euros, mas uma assinatura de um ministro cessante foi suficiente para que a sociedade que explora a sala de jogo se sentisse no direito de tomar posse de um bem público, a troco de nada. Nada, para o Estado, claro. Quanto ao ministro, logo se verá, mas aposto que é dos que têm sorte ao jogo.

5. O país onde os eventos atrás descritos se passam poderia ser qualquer um, mas neste caso chama-se Portugal. Todos estes factos, recentemente denunciados pelo bastonário da Ordem dos Advogados, são há bastante tempo do conhecimento público dos portugueses. E outros também. Mas apesar disso o ex-ministro continua presidente da empresa privada a que previamente entregou a concessão de um serviço público; os 5,5 milhões de lucro do edifício público logo após a venda nunca entraram nas contas do Estado, e ninguém foi responsabilizado por isso; os dois ministros que receberam um milhão de euros por uma muito lucrativa reclassificação ambiental nunca foram presos, mas os sobreiros desapareceram; e o ministro que deu o jackpot ao Casino Lisboa diz que «não tomou nenhuma decisão» nesse sentido, «apenas tomou conhecimento». Pois.

Sempre me intrigou a facilidade com que tantos e tão democráticos dirigentes políticos se comportam como gangsters vulgares. Mas a justificação do ex-ministro dos casinos ajuda-me a compreender: afinal, eles não decidem nada, apenas ficam a saber que alguém decidiu por eles. Edificante.

Claro que a história não é particularmente abonatória para o sistema institucional português, mas também se conjuga, e por vezes ainda mais despudoradamente, em várias outras nações europeias e virtuosas. É isto, também isto, o «darwinismo social» – uma alucinada teoria da evolução da espécie humana da qual Darwin só muito lateralmente pode ser acusado: apenas os mais dotados sobrevivem. Assim na terra como no céu, assim na compra como na venda.

6. O que há de comum entre as indignidades de Bush, Blair e Barroso e os crimes denunciados pelo bastonário da Ordem dos Advogados? Aparentemente nada. Nada mais do que o essencial, já que todos os casos a que me refiro nesta crónica tinham os mesmos objectivos, apenas diferentes na forma, mas em tudo o resto semelhantes no conteúdo: a obtenção de enormes benefícios pessoais ou colectivos. É tudo, portanto, uma mera questão de dinheiro.

«Follow the money». A frase é velha, mas reencontrei-a recentemente num filme sobre o crime organizado ao mais alto nível que passou na Televisão: «Se quiseres saber quem está por trás de tudo, segue o rasto do dinheiro», dizia uma das personagens, a minutos de ser assassinada, ao protagonista que procurava deslindar a trama. O princípio, afinal, aplica-se a quase todos os crimes de patamar elevado.

«Existe uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade, e que andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar, e alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado.» São palavras do bastonário da Ordem dos Advogados de Portugal, Marinho Pinto. Que poderiam decerto ser ditas por qualquer outro magistrado, provavelmente em qualquer outro país da Europa e do mundo.

7.Money, guito, carcanhol, graveto, pilim. No meu país há um sem-número de sinónimos para designar uma coisa inominável: o dinheiro, pai de todos os vícios, senhor de todos os prazeres. O dinheiro está onde está o poder, e vice-versa. Por isso se fez a guerra do Iraque, por isso se fala em fazer o mesmo com o Irão. Por isso os EUA não hesitarão em criar um pólo de conflito na América Latina, directamente ou por interposta nação, se, por exemplo, Hugo Chávez insistir na sua tentativa de implantar o socialismo por via democrática.

As recentes tensões entre Caracas e Bogotá não aconteceram por mero acaso, todos o sabemos. Porquê? Porque Chávez é um ditador miserável? Porque a democracia bolivariana é um modelo que não está nos manuais? Porque a liberdade está em perigo? Não, é muito mais simples. A Venezuela é o maior produtor de petróleo da região, detentor das mais significativas reservas de crude do continente americano e as mais vastas do mundo fora do Médio Oriente.

Creio, portanto, que ao longo do que resta deste ano teremos a possibilidade de assistir, ao vivo e a cores, a um verdadeiro filme em que, com maior ou menor relevo, todos os supracitados terão um importante papel a desempenhar. Será, com certeza, um filme com um péssimo argumento, mas com um grande budget de produção. Entretanto, os iraquianos continuam a morrer. Nas ruas. Pela causa branca. Follow the money.

Zoot | Verão 2008

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