Um poeta na varanda dos deuses

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«Lisboa é como a vida: nós queixamo-nos, mas é muito bom andar por cá.» Dono de um aguçado sentido crítico e de um humor por vezes implacável, Alberto Pimenta reflecte em toda a sua obra uma grande atenção aos problemas do mundo actual, expressa com um rigor de linguagem que faz dele um dos nomes mais importantes, mas também mais incómodos, da poesia portuguesa contemporânea.

Nos mais de 40 títulos que publicou desde 1970, tal como nas numerosas performances que encenou, em Portugal e na Alemanha (onde viveu durante 17 anos), Pimenta nunca se deixou seduzir pela lógica da facilidade. «A cultura é o desporto da classe média», afirmou uma vez. Ainda hoje, há quem não lhe perdoe esta irreverência e a frontalidade dos gestos e das atitudes.

Alberto Pimenta é um poeta que vê as coisas de dentro das palavras: «Não parto das coisas para as palavras, mas sim das palavras para as coisas», diz. «Partindo das coisas, dá-se-lhes as palavras que lhes correspondem, produzem-se metáforas. Partindo das palavras, tenta-se chegar à verdadeira coisa que é ou que, normalmente, não é.»

Assim acontece também na relação do poeta com a cidade onde vive desde há 30 anos: «Lisboa é a cidade dos contrastes: o contraste do antigo e do moderno, o contraste do luxo e da miséria. E sobretudo os contrastes de cor e de luz: é uma cidade que agora pode ser azul e daqui a pouco já é cinzenta, ou amarela, ou verde, e esse é um dos seus aspectos mais fascinantes.»

Talvez por isso Alberto Pimenta tenha escolhido viver numa das sete colinas de Lisboa, no bairro da Mouraria, com vista para o castelo «de onde se vê tudo, como um deus que está sentado em cima de um muro e vê só o cenário, essas cores, essa luz.» E, do alto, é possível observar os diferentes tempos da cidade: «Passa-se de uma muralha medieval para o kitsch actual dos bairros pós-modernos e dos dormitórios – as novas muralhas, inexpugnáveis, sempre no estilo de gaiolas sobrepostas e onde há uma vida que é pouco vida, uma vida sem mistério nenhum», diz. «De cima vê-se tudo isso e não se vê o humano. Se nos misturamos com as pessoas vemos gente muito cansada, muito apressada…»

A relação de Alberto Pimenta com o mundo tem muito a ver com os anos vividos em Heidelberg, um tempo que o marcou bastante. Até hoje: «Às vezes até sonho em alemão», diz. «Continuo a ter uma grande relação com a Alemanha, até já publiquei um livro, na Áustria, Verdichtungen, que foi escrito originalmente em alemão. E a minha última namorada era uma alemã…»

Aliás, foi só por causa da revolução de 25 de Abril de 1974 que o poeta não adquiriu a cidadania alemã: «O governo português da altura tinha-me tirado o passaporte, eu pedi a nacionalidade alemã e foi-me concedida», diz. Mas dois dias mais tarde deu-se a Revolução dos Cravos, e algum tempo depois Pimenta decidiu regressar a Portugal: «Acreditei na utopia de que o meu país era outro país.»

Hoje, Pimenta confessa que pode sentir-se «alternadamente bem ou mal» em Lisboa. Mas reconhece que, apesar disso, «é muitas vezes agradável.» Principalmente vista do alto: «A cidade é boa da varanda, da varanda dos deuses.»

E é assim que vai reinventando as coisas com as palavras que entende mais adequadas. Como fez no seu livro mais recente, Marthiya de Abdel Hamid, onde se colocou na pele de um poeta iraquiano que descreve com incrível precisão os horrores da guerra. Porque, como afirma, «esta poesia não é inócua: trabalha para o mundo, não a partir dele, mas da nomeação dele.»

Mini International | Março 2007

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