Crise? Qual crise?

1. Para além do disco de 1975 dos Supertramp, a interrogação que dá título a esta crónica remete-nos também para o episódio que constituiu a gota de água para a demissão, há 30 anos, do primeiro-ministro britânico James Callaghan. A Grã-Bretanha vivia então o seu “inverno do descontentamento” e a frase, utilizada em título de primeira página pelo The Sun e atribuída a Callaghan, provocou a ira de milhares de ingleses que sentiam na pele os efeitos da crise económica que se arrastava desde os primeiros anos da década de 70. Dois meses depois, o governo de Big Jim sucumbia a uma moção de censura no parlamento, e os trabalhistas teriam de esperar quase duas décadas para regressarem ao poder.

O mais curioso é que Callaghan nunca disse a tal frase assassina. O título foi, afinal de contas, uma síntese alarmista de uma resposta em que o PM inglês pretendia apenas explicar que, comparada com o resto do mundo, a Grã-Bretanha nem estava assim tão mal. Mas, como se sabe, em política, o que parece, é. E aos ingleses, nesse ano de 1979, não foi necessário saber se, como e porquê o PM tinha dito a frase que lhe era atribuída. Bastou-lhes a convicção de que ele realmente a dissera. Em consequência, o Reino Unido viveu quase 20 anos de política neo-liberal thatcheriana – a que se seguiram mais dez de tonyblairismo, uma prática, no essencial, não muito diferente daquela que a antecedeu.

2. Vem isto a propósito do escândalo que, nos últimos meses, tem monopolizado as atenções de boa parte dos jornalistas e políticos em Portugal, e que atinge outro primeiro-ministro – neste caso o português José Sócrates – cujo nome surgiu ligado a um hipotético caso de corrupção envolvendo a empresa inglesa que, há cinco anos, inaugurou nos arredores de Lisboa um dos maiores centros comerciais da Europa.

E em que se baseiam as suspeitas lançadas sobre o PM português? Essencialmente nas declarações de um dos acusados, um tal Charles Smith que durante alguns anos funcionou como elo de ligação entre os empresários ingleses e as autoridades portuguesas. Disse Smith – e há até uma gravação em dvd para o comprovar – que pagou uns largos milhares de euros a «um ministro português», para que o projecto fosse autorizado. Ora, à data dos acontecimentos, José Sócrates era ministro do Ambiente – e a zona onde os ingleses pretendiam construir o shopping encontrava-se nos limites de uma área protegida e, como tal, o projecto só poderia avançar com a autorização do gabinete do ministro.

Daí a que o actual PM passasse a ser olhado por boa parte dos seus concidadãos não apenas como suspeito, mas muito concretamente como um comprovado corrupto, foi um pequeno passo. E nem o facto de as afirmações de Smith terem sido feitas em jeito de justificação para o desaparecimento do dinheiro que estaria à sua guarda foi suficiente para lhe dar o benefício da dúvida: neste momento, para muitos portugueses, com ou sem provas, Sócrates é culpado. Ponto final.

3. Devo dizer que não tenho particular simpatia pelo actual primeiro-ministro português. Não votei nele, nem tenciono fazê-lo, e acho mesmo que, tal como Blair, Sócrates não passa de um neo-liberal travestido de socialista, pelo que gostaria muito de o ver afastado da gestão dos destinos do meu país.

Mas isso não pode significar uma diminuição dos seus direitos, quer como líder político, quer enquanto cidadão. E é um facto que, à luz dos mais elementares princípios do estado de direito, Sócrates é inocente até prova em contrário. Como é também um facto que, à luz do mais elementar bom senso, as declarações de Smith não são propriamente um exemplo de credibilidade. Mas será isso suficiente?

Já os antigos diziam que à mulher de César não basta ser séria – é igualmente necessário que o pareça. Sócrates pode ser, e não tenho razões objectivas para acreditar que não seja, um cidadão honesto e um político sério. Mas que tudo à sua volta se conjuga para dar dele a imagem contrária, isso é igualmente inegável. Com a agravante de que, sendo o sistema judicial português tradicionalmente lento e frequentemente ineficaz, o mais certo é que tudo acabe por ficar mesmo assim, e uma vez mais a culpa venha a morrer solteira.

4. O mais dramático é que nada disto parece afectar grandemente o resto dos portugueses. À suspeição levantada sobre o PM, a generalidade dos meus concidadãos reage não com a indignação que seria normal numa situação destas, mas com um encolher de ombros, como se uma acusação de corrupção ao mais alto nível fosse qualquer coisa de banal. Pior: como se ser corrupto fosse uma condição natural dos homens públicos.

Esta descredibilização geral da política e dos políticos é preocupante. Não tanto pelas consequências para os envolvidos, porque já se percebeu que a maioria deles passa incólume a tudo o que o cidadão comum possa dizer ou pensar a seu respeito. É preocupante sobretudo porque foi assim que germinaram todos os fascismos e se implantaram as piores ditaduras do século XX.

É preocupante também porque não se trata de um fenómeno isolado, exclusivo deste pequeno país à beira-mar. Que o digam os britânicos, que por estes dias têm de lidar com mais uma guerra suja entre os dois principais partidos de Sua Majestade. Ou os italianos, que nos últimos quinze anos demonstraram uma inusitada tendência masoquista ao escolherem por três vezes para primeiro-ministro uma figura tão indescritível como Sílvio Berlusconi. Ou os sobreviventes do império soviético, onde a realidade de uma sociedade sem classe ocupou o espaço antes destinado à miragem de uma sociedade sem classes.

É, de resto, sintomática (e reveladora do estado a que chegou a ética política na Velha Europa) a maneira como o Ocidente lidou com a injustamente chamada «transição democrática» de boa parte da Europa de Leste: o estado privatizou-se na pessoa dos seus dirigentes, mas alguém se importa? Os comunistas de ontem são os ladrões de hoje, e fazem-no com tal despudor que qualquer capitalista da velha escola, ao pé deles, parece uma criança inocente.

5. Dizia eu que esta descredibilização é preocupante, sobretudo numa situação como a que vivemos, em que se adivinham tempos agitados e com consequências sociais imprevisíveis. Porque, meus caros, a crise de que tanto se fala ainda só agora começou. Esperem para ver.

Ora, já se sabe, é em tempos difíceis que melhor se pode avaliar a verdadeira natureza dos dirigentes políticos. E, olhando em volta, não encontro grandes motivos para me animar.

Por razões que me escapam, os governantes europeus parecem mais interessados em manter a névoa sobre as suspeições generalizadas que pairam sobre eles do que em criar mecanismos de credibilização do sistema democrático. Se assim não fosse, o enriquecimento ilícito, por exemplo, já teria sido criminalizado – coisa que, em Portugal, tem sido sistematicamente recusada pela maioria governamental, apesar das várias propostas apresentadas nesse sentido tanto pela esquerda como pela direita.

Acontece que, como se vê, o sistema político, em Portugal e na Europa, parece não apenas incapaz de gerir a crise, como também de lidar com os vícios instituídos ao longo das últimas décadas. E o povo, essa entidade abstracta em nome da qual tudo parece ser justificável, mostra-se tão inábil nas escolhas que faz como aqueles que o dirigem. Um amigo meu diz que os políticos têm os povos que merecem, e vice-versa – e temo que tenha razão.

Só isso explica, por exemplo, como é que um autarca que está a ser investigado por corrupção e ainda não conseguiu explicar a entrada misteriosa de alguns milhões de euros em dinheiro vivo nas suas contas bancárias da Suíça conseguiu ser reeleito pelo voto popular, mesmo depois de afastado pelo partido a que pertence. Ao que parece, tal como os ex-comunistas soviéticos, o povo também já perdeu a noção de decoro…

6. Este despudor que tomou conta do nosso quotidiano atinge as raias da indignidade quando se ouve, como eu ouvi recentemente, um economista e ex-ministro defender o congelamento dos salários como solução para a crise – e entretanto sabemos que o mesmo senhor recebeu quase meio milhão de euros por quatro meses de, chamemos-lhe, trabalho na administração de um importante banco.

Definitivamente, parece que alguns dos nossos homens públicos perderam de vez o sentido da realidade. Estamos, neste aspecto, pior do que o Salina de Lampedusa (e, depois, também de Visconti e de Burt Lancaster) quando afirmava ser necessário que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma: aqui e agora, nem sequer essa pequena mudança parece fazer falta.

Claro que há sempre a possibilidade de estarmos todos enganados e tudo isto ser apenas produto da nossa imaginação. Do mesmo modo que a crise pode ser apenas mais uma invenção mediática para nos entreter, estrategicamente posicionada entre a telenovela de fim-de-tarde e o cão-de-água português de Barak Obama.

Pode, mas tenho dúvidas. Sobretudo depois de ter ficado a saber que, após várias semanas de profunda reflexão sobre a situação económica do mundo, o governador do Banco de Portugal chegou à conclusão de que «o desemprego pode provocar um aumento da pobreza». Brilhante. Como é que nunca ninguém tinha pensado nisso?

Zoot | Verão 2009

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