O homem que queria ser comum

dn_zeca3.jpg

Não fosse a intervenção do dr. Salazar e provavelmente a obra de José Afonso não teria atingido a dimensão que alcançou e que fez dele um dos grandes vultos da música popular do século XX. Dito deste modo, pode soar a provocação. Mas a verdade é que foi por ter sido expulso do ensino, por ordem do governo da ditadura, que o criador de «Grândola» se profissionalizou como músico e passou a gravar com regularidade. Deus a escrever direito por linhas ínvias, diriam os crentes. Curiosas ironias da História, dirão os outros.

O facto é que, até à publicação de Cantares do Andarilho, José Afonso não tinha qualquer pretensão de se dedicar por inteiro às cantigas. «A minha actividade como cantor era um sucedâneo daquilo que eu era como professor», disse-me numa entrevista, vão lá mais de 30 anos. Vários dos temas que integram o primeiro álbum que publicou, Baladas e Canções, nasceram justamente como complemento da sua acção lectiva, a que se entregou de corpo e alma a partir de 1956 – quando, por razões económicas, interrompeu o curso de Ciências Histórico-Filosóficas e foi dar aulas para Mangualde:

«Habitava nessa altura uma casa do Beco da Carqueja, em Coimbra. Beco da Carqueja, número dois. Lembro-me que a minha primeira aula foi dada de capa e batina e estive para aí uns cinco dias sem dormir, a pensar como é que iria ter lata e sabedoria para enfrentar uma turma, como é que eu poderia empinar e explicar a História do ‘evangelho segundo São Mattoso’. E creio que nunca cheguei a resolver bem esse problema...»

Por essa altura, o jovem dr. José Afonso, entretanto casado e pai de dois filhos, passava por uma fase particularmente dura que já o obrigara a trabalhar como revisor no Diário de Coimbra, «para poder comer e dar de comer aos filhos» e à primeira mulher, Maria Amália. O ensino surge, então, como uma oportunidade de melhorar a vida, e Mangualde será o primeiro dos muitos lugares por onde andará até ser expulso e impedido de leccionar.

Nessa peregrinação pelo país toma contacto com «uma realidade vagamente boçal» em que os próprios pais o incitam à prática da violência física sobre os alunos: «Lambada em carne fresca é que é preciso. Arreie-lhe, sô professor…» Não há memória de que Zeca alguma vez tenha seguido o conselho.

«O professorado fascinou-me, sobretudo as aulas da noite, onde conheci indivíduos, entre os meus alunos, que vieram a ser meus companheiros de luta, como o Matias, que foi um dos fundadores da LUAR, mais tarde assassinado pela Pide, e outros. No Algarve fazia uma vida muito ligada à natureza e não pensava em cantigas, embora fizesse uma ou outra, de vez em quando. Fazia uma vida ‘pagã’, andava pelos bailaricos das colectividades e conheci uma população muito interessante que hoje, em contacto com o turista, está a desaparecer. Pode dizer-se que exerci aí uma certa militância, através do ensino.»

 Dos futebóis e dos fados

À música, Zeca chegou como muitos outros jovens do seu tempo, quando ainda era estudante. Na breve «autobiografia» que publicou como introdução a Cantares (onde, em fins dos anos 60, reuniu um primeiro conjunto de canções e poemas), conta como eram esses primeiros tempos de Coimbra:

«As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas da Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas. O velho Flávio Rodrigues continuava a ser o ‘Mestre’, venerado por um pequeno discipulado de guitarristas e acompanhadores que com ele se reuniam numa pequena casa do bairro de Celas, onde acabou os seus dias minado por uma doença fatal.»

Ainda aluno do Liceu D. João III, chega a sonhar ser jogador de futebol («havia um tipo, o Zé da Merda, no campo de Santa Cruz, que alugava bolas à malta») e, tenta a sua sorte nos juniores da Académica. «Só que praticamente não aguentava vinte minutos em cada jogo, não tinha estaleca para aquilo. Cheguei também a treinar basquete nos Olivais, no tempo do ‘Teórico’ Martins, até que um belo dia, depois de um treino, ele me disse que eu parecia um cavalo de cortesias e nunca mais lá apareci…»

Nessa altura, Zeca era o Cerqueira (apelido, herdado por via materna, dos seus ancestrais aveirenses), e só quando começa a dedicar-se aos fados passa a ser conhecido por José Afonso, por analogia como o irmão mais velho, João Afonso, que também praticou a canção coimbrã. Entre estas atribulações, marcou presença no Orfeão Académico e na Tuna, ajudou a fundar o Coral de Letras, frequentou «o meio quase funambulesco das repúblicas» em andanças boémias para as quais a cidade se tornava pequena.

«Tentava safar me saindo de Coimbra, cidade que a partir de certa altura me atrofiava e que eu já não suportava. E ‘raspava me’, fazia as minhas deambulações por aí. Dormia ao relento, muitas vezes, sozinho ou com outros gabirus. Fiz muito ‘auto stop’, de capa e batina... Houve até uma vez um tipo que me viu num comboio e ficou espantado: ‘Tu, aqui? Pensava que nunca utilizavas isto…’ Foram deambulações muito importantes para mim, excepto no facto de eu ter agravado a minha sinusite. E uns focozitos reumáticos...»

A hipocondria de José Afonso manifesta-se desde cedo. Os músicos que com ele trabalharam recordam-se de muitos momentos em que, por ocasião das gravações, Zeca se queixava de tudo e de nada, desde inusitadas dores de barriga a crises de sinusite, afonias, faltas de ar. Os problemas, reais, que o afectavam, eram muitas vezes potenciados, pondo à prova a paciência do próprio e dos que o rodeavam.

O essencial, porém, era a ânsia permanente da descoberta, de si mesmo e do mundo. Passa por «uma fase mais ou menos franciscana» após a leitura do Hino ao Sol, de São Francisco de Assis, que se manterá, de resto como uma das suas referências morais até ao fim. «Embora eu não fosse católico, tinha uma simpatia enorme por aquela atitude nova representada pelos franciscanos, aquelas coisas do amor à natureza, bastante realistas e bastante revolucionárias para o tempo. E cheguei mesmo a pensar: ‘Qualquer dia reduzo me ao essencial e piro me para uma terra qualquer, no cimo de uma montanha...’»

Data dessa altura o Tecto na Montanha, tema que virá a incluir no primeiro álbum gravado para a etiqueta Orfeu, em 1968: ‘Num lugar ermo / só no meu abrigo / aí terei meu tecto / e meu postigo’. «Era frequente em Coimbra trocar de camisa com outros gajos. Era um símbolo, um testemunho de amizade. E eu tinha planos de estudo que pensava que iam durar toda a vida. Planos do diabo...»

 Da arte de roubar livros

Os seus amigos, por esses tempos, eram tudo menos exemplos de gente normalizada: «Havia o António Guarda Ribeiro, que ia comigo aos futebóis, o Eduardo Valente da Fonseca, que era de Aveiro e escrevia muito, um tipo chamado González, que bebia uns copos, o Luís Pignatelli, que acabou por ser proscrito em Coimbra, numa fase respeitável da Academia.»

Pignatelli – que com Zeca virá a assinar (sob o nome de nascimento, Luís de Andrade) os textos de dois temas fundamentais da sua obra, ‘Elegia’, em Baladas e Canções, com música de Rui Pato, gravado também por Adriano Correia de Oliveira, e ‘Era de Noite e Levaram’, em Cantares do Andarilho, já depois de ter sido o autor, não da letra, mas da música de ‘Pombas’, editada em disco de pequeno formato no início da década de 60 – acabaria por iniciar Zeca na arte de roubar livros em lugares improváveis, actividade que sempre assumiu com um misto de orgulho e de gozo:

«Ele [Pignatelli] trabalhava lá nas Águas, numa secção da Câmara Municipal, chateadíssimo», conta Zeca, em entrevista a José António Salvador, publicada no livro ‘Livra-te do Medo’. «Tinha problemas vários e foi sempre bastante meu amigo em períodos muito difíceis que vivi em Coimbra. Às vezes surripiávamos uns livritos, eu por uma banda, ele por outra, mas creio que o tipo me bateu aos pontos. Eu frequentava umas livrarias, sobretudo a Coimbra Editora que diziam ser do Salazar, do presidente da Assembleia Nacional e do [Cardeal] Cerejeira. Com tais proprietários, foram-se-me os últimos escrúpulos.»

Como recorda noutra ocasião, «às tantas era só pelo risco»: «Tinha a mania de ir à biblioteca dos padres, onde, além de castiçais e relicários, havia livros. E a certa altura optei pelo ‘mais difícil ainda’: punha-me a falar com o livreiro e no momento exacto metia a mão por baixo...»

As amizades de José Afonso alargam-se a outros então frequentadores de Coimbra, como Herberto Helder, Fernando Assis Pacheco, António Quadros (Pintor), Manuel Alegre – todos eles pouco dados a particular veneração pelo tradicionalismo que, em inícios da década de 60, imperava na cidade, nomeadamente no que toca à canção dita local: o fado-de-capa-e-batina proclamando amores fatais e saudades eternas por uma mitificada vida académica.

Os primeiros discos que publicou, em princípios dos anos 50 (1953, ao que se supõe, embora não existam registos totalmente fiáveis no que se refere às datas das primeiras gravações), eram ainda em 78 rotações e incluíam ‘Fado das Águias’, de sua autoria, ‘Solitário’, de António Menano, ‘Contos Velhinhos’, de Ângelo Araújo e ‘Incerteza’, de Tavares de Melo. Nessa altura, a música do Dr. José Afonso (como foi designado em todos os discos que antecederam Cantares do Andarilho) seguia ainda os padrões estabelecidos para o fado coimbrão. E o mesmo acontece com o primeiro registo em 45 rotações e formato EP (discos em vinil de sete polegadas, com duas faixas de cada lado), provavelmente nos finais da década de 50, onde regravou ‘Solitário’, juntamente com outro tema de Menano, ‘Aquela Moça da Aldeia’, e ainda ‘Mar Largo’, de Paulo de Sá, e uma ‘Balada’ com música de Zeca sobre um texto popular açoriano.

A edição de ‘Balada de Outono’, em 1960, apontava já num outro sentido, embora se mantivesse ainda fiel aos cânones do género, com acompanhamento à guitarra (por António Portugal e Eduardo Melo) e à viola (Manuel Pepe e Paulo Alão) e um repertório adicional a condizer, onde não faltavam os tradicionais ‘Vira de Coimbra’ e ‘Amor de Estudante’. Mas desde logo o tom e a sua interpretação do tema-título do EP causaram alguma incomodidade entre os meios mais tradicionalistas.

 Da viola e do puto

O corte definitivo com «a choradeira» do fado tradicional da cidade, como se lhe refere a certa altura, em carta ao irmão, acontece a partir de 1962, quando publica ‘Menino de Oiro’, primeiro, e ‘Os Vampiros’, logo de seguida. Desde o movimento popular que envolveu a candidatura presidencial de Humberto Delgado, em 1958, que Zeca procurava novas formas de intervir política e socialmente, através de algumas actividades isoladas e tentando ‘enviar recados' através das aulas e do contacto humano.

Na música que praticava, parecia-lhe assim necessário dar a primazia à palavra, o que o levará rapidamente a abandonar a guitarra, e experimentar novos cruzamentos com a música tradicional, à semelhança do que, anos antes, tinha já sido tentado por Edmundo Bettencourt.
Rui Pato, hoje um reputado médico pneumologista em Coimbra, que acompanhou José Afonso entre 1962 e 1969, recordou recentemente na Antena 1, entrevistado por António Macedo, o dia em que José Afonso apareceu em casa do pai, Albano da Rocha Pato, jornalista da delegação local de O Primeiro de Janeiro, para lhe mostrar «umas canções novas». A primeira delas era o ‘Menino de Oiro’. Rui Pato, à época um adolescente de 16 anos, sentou-se no cimo das escadas da casa, a ouvi-lo.

«O Zeca, na viola, só conhecia três posições: primeira, segunda e marcha-atrás», ironiza Rui Pato. «E eu, a certa altura, não me contive e perguntei se podia acompanhá-lo. Ele passou-me a viola para as mãos, e eu comecei a improvisar os acordes da introdução. Ele cantou e, no final, disse: ‘É o puto que me vai acompanhar’. E pronto, a minha vida mudou, assim, dum momento para o outro.»

A colaboração entre ambos nasce deste acaso, mas consolidou-se também devido à recusa da maioria dos instrumentistas da cidade em participar num tipo de música que, de algum modo, representava uma afronta ao fado tradicional. Mesmo alguns dos amigos próximos de José Afonso, como António Portugal, olhavam com desconfiança estas ‘experiências’. E Zeca, cada vez mais afastado da cidade, procura também aprofundar a distância que o separa dessa tradição que já não lhe serve.

«Designei as minhas primeiras canções por ‘baladas’, não porque soubesse exactamente o significado do termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação», dirá, em 1970, numa entrevista a José Armando Carvalho, para o Comércio do Funchal. Porém, nos discos que grava surge ainda com o título académico a anteceder o nome, não por vontade própria, mas por opção do editor, que entedia tratar-se de uma boa estratégia comercial, tal como a presença na capa da costumeira iconografia coimbrã – a torre da Universidade, o Mondego, a ponte de Santa Clara.

No entanto, por essa altura, José Afonso já só esporadicamente viajava até Coimbra. Depois de Mangualde, passa por diversos colégios, liceus e escolas técnicas, em lugares tão distintos como Alcobaça, Aljustrel, Lagos, Fuzeta ou Faro. No Algarve frequenta um grupo de amigos de que fazem parte, entre outros, António Barahona da Fonseca, Luiza Neto Jorge, Manuel Pité, António Bronze e José Louro, amantes da poesia e da vida ao ar livre. Dessas deambulações nascem canções como ‘Senhor Poeta’ (escrito juntamente com Barahona e Manuel Alegre e com uma estrutura semelhante à que, anos mais tarde, utilizará de novo em ‘Senhor Arcanjo’) ou ‘No Lago do Breu’, que já nada têm a ver com o passado.

 Da descoberta do mundo

O casamento com Maria Amália havia terminado alguns anos antes. Com dificuldade em cuidar dos dois filhos de ambos, José Manuel e Helena, Zeca envia-os para Moçambique, ao cuidado dos avós. Junta-se-lhes em 1964, já casado com Zélia, que conheceu entretanto, quando era professor na Fuzeta.

«Quando em 1964 fui para Moçambique», contará, «estava interessado em conhecer as pessoas e o país em que ia trabalhar. Porque eu já considerava aquilo um país, com a identidade própria que o caracterizava. Tinha a vaga percepção de que era uma realidade intocável, diferente da nossa, e que aquela é que estava certa naquele meio e naquele ambiente. E fui tentando fazer umas coisas, tanto para quebrar a barreira existente como para tentar saldar essa espécie de dívida moral que tinha para comigo e para com eles.»

Em Moçambique, Zeca dá aulas de Geografia, sucessivamente nos liceus Pêro de Anaia, na Beira, e António Enes, em Lourenço Marques. A experiência na então designada ‘província ultramarina’ do Índico revela-se traumática, pelo contacto directo com o pior da realidade colonial. Mas é também um período de intensa criatividade, tanto pela proximidade com as formas musicais de Moçambique (que a partir de então surgem quase sempre presentes, de uma forma ou de outra, em todos os seus discos), como pela colaboração com colectividades locais, como o Teatro Amador e o Cineclube da Beira.

É neste tempo e deste outro lado do mundo que compõe diversas canções que irá incluir em vários discos, até 1975. A primeira terá sido ‘Vejam Bem’, escrita em 1965 para o filme ‘O Anúncio’, do cineasta amador José Cardoso – que virá a estrear na ‘metrópole’ dois anos depois, no primeiro Festival Nacional de Cinema de Amadores, realizado na cidade natal de Zeca, onde obtém o ‘troféu de ouro do Clube dos Galitos para o melhor argumento, melhor mensagem humana e melhor interpretação’.

Ainda em 65 compõe, em Lourenço Marques, a sua ‘Canção de Embalar’, uma «toada medievalesca em tom menor» inspirada na tradição local, como conta o próprio Zeca, em nota publicada no livro Cantares: «A estrela d’alva surge acima do horizonte para os lados de Xipamanine com a cumplicidade das restantes. Quando os adultos dormem e as luzes se apagam nas janelas os meninos levantam-se e vão cumprimentar as estrelas.»

No ano seguinte, aceita o desafio do Teatro de Amadores da Beira, que se prepara para levar à cena A Excepção e a Regra, de Brecht (representado aqui pela primeira vez em território nacional, em tradução de Luís Francisco Rebello), e compõe cinco canções para outras tantas cenas da peça: “A Caminho de Urga”, “Coro dos Tribunais”, “Eu marchava de dia e de noite (Canta o comerciante)”, “Ali está o rio” e “Canta o Juiz”. A primeira foi publicada em Eu Vou Ser Como a Toupeira, a segunda e a terceira em Coro dos Tribunais, e a quarta em Enquanto Há Força. “Canta o Juiz” nunca teve edição em disco.

A apresentação de Brecht na antiga colónia não foi pacífica. O irmão de Zeca, João Afonso dos Santos, recordava em 1983 a José António Salvador, as peripécias que levaram o censor de serviço a autorizar a peça: «Havia a tal associação que resolveu promover as comemorações da Tomada da Bastilha como se estivéssemos em Coimbra. A direcção mandou fazer uma réplica da fachada da Sé Velha, em cartão ou madeira, para montar na praça onde se faria a sessão comemorativa. No programa incluíram-se fados e guitarradas – cantaria eu e o meu irmão – uma peça do Brecht, A Excepção e a Regra, e um tipo, que por coincidência também era o censor da Beira, fazia uma aula com uns doutores vestidos de ‘babydol’ a apanhar violetas. O doutor da censura resolveu cortar Brecht e em alguns cortes permitiu-se mesmo ‘reescrevê-lo’ à margem, propondo modificações ao texto. Perante isto, o meu irmão, e depois eu, disse logo: ‘se não há Brecht, eu não canto fados’. Isto uns dias antes da festa. Ora sem fados não haveria espectáculo e o censor não poderia fazer o seu número da aula das violetas… De modo que teve de dar o dito por não dito e autorizar a representação da peça. Foi assim que o Brecht apareceu pela primeira vez no império colonial.»

 Do regresso e da mudança

O regresso de Moçambique, em 1967, foi um choque: «Sofri bastante, quando regressei, não conseguia aceitar isto. E foi aí que começaram as perseguições. A malta começou a convidar-me para cantar, a partir das canções que sabiam que eu tinha feito. Apanhei um esgotamento logo no primeiro ano, quando era professor em Setúbal, e quando me recompus mandaram-me um bilhete a dizer que estava expulso do ensino. Tive de me dedicar às explicações, em casa, com a Zélia, que aliás já me tinha ajudado bastante em Moçambique, onde dávamos explicações a africanos pelo preço que eles quisessem pagar. Ou gratuitas. Mas, a bem dizer, aquilo não dava sequer para os tamancos...»

A profissionalização como músico torna-se, assim, quase uma inevitabilidade. Assina o primeiro contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade, e compromete-se a gravar um disco por ano. Ficará ligado à histórica editora do Porto até 1980, e ali deixa registado o essencial da sua obra: 11 dos 15 álbuns que publicou têm a marca da Orfeu.

A relação de José Afonso com o editor Arnaldo Trindade nem sempre foi pacífica, fosse por suspeita de irregularidade nas contas ou por questões técnicas que se reflectiam no produto final. Em 1973, a primeira edição de Venham Mais Cinco teve uma prensagem tão deficiente que o cantor ameaçou mesmo rejeitar e denunciar publicamente o trabalho editado se não fossem recolhidos e substituídos todos os exemplares colocados à venda. Os compradores que não trocaram o disco, possuem hoje uma raridade, porém dolorosamente inaudível.

Ainda assim, e pesem embora todos os desencontros, Arnaldo Trindade soube ser cúmplice e solidário com Zeca em distintas alturas da sua vida – como, aliás, o foi com Adriano Correia de Oliveira e outros artistas que não eram propriamente bem vistos pelo regime – o que com certeza justifica a longevidade da relação profissional entre ambos. De resto, a leitura de um dos contratos firmados entre o cantor e a editora – este datado de 1 de Março de 1974, menos de dois meses antes do 25 de Abril – dá conta de um tratamento que, para a época, pode considerar-se de algum modo privilegiado: Zeca comprometia-se a gravar dois discos nos 24 meses seguintes, pelo que receberia «um mínimo de 75 mil escudos, salvo no caso de desvalorização da moeda, em que este quantitativo será acrescido proporcionalmente da percentagem da desvalorização».

Além disso, José Afonso passava a ser «consultor musical» da editora, pelo que receberia mensalmente a quantia de dez mil escudos (numa altura em que o salário médio em Portugal rondaria metade desse valor), em troca do compromisso de «dar parecer sobre a qualidade musical das composições sempre que isso lhe for pedido» e «prospeccionar possíveis valores musicais no sentido de obter a sua colaboração para a firma». De resto, ficava apenas «obrigado a deslocar-se mensalmente e em dia à sua escolha à sede da firma Arnaldo Trindade & Cª Lda. a fim de contactar com os seus serviços, sendo as despesas de deslocação e instalação a cargo desta última». Tendo ainda assegurada expressamente a possibilidade de escolher o local, o horário, os métodos e as formas de trabalho, não era propriamente o que poderia chamar-se um trabalho penoso.

O fac-simile deste contrato, em duas páginas, vem incluído nos dois discos já republicados, e ajuda-nos talvez a perceber um pouco melhor a natureza da relação que se estabeleceu entre José Afonso e Arnaldo Trindade. É um elemento novo, e sem dúvida uma das mais-valias dos discos agora reeditados.

 Da obra revisitada

O merecimento maior das novas edições que a Art’Orfeu Media disponibiliza a partir de agora em versões remasterizadas é, no entanto, a recuperação dos sons originais, como um rigor nunca antes conseguido nas sucessivas edições digitais dos discos de José Afonso. A avaliar pela ‘amostra’ que constituem os já disponíveis Cantares do Andarilho e Contos Velhos, Rumos Novos, tudo leva a crer que esta seja a edição mais cuidada de sempre da obra de Zeca.

Não espanta que assim seja, tendo em conta que a remasterização dos originais foi entregue a António Pinheiro da Silva, engenheiro de som dos mais competentes da história da indústria discográfica portuguesa. Porque além de técnico também é músico, a sua sensibilidade particularmente apurada torna-o também co-criador de muitas das suas produções – e isso está bem patente no trabalho que realizou ao longo dos anos com nomes como António Variações, o Trovante, Dulce Pontes, a Banda do Casaco, Rui Veloso, os Madredeus, Jorge Palma, e a bem dizer quase todos os nomes importantes da música portuguesa, e até outros dos menos importantes.

Rui Pato garante mesmo que «nem nas edições em vinil sentiu tanto esta aproximação ao som original feito em estúdio». Além disso, os textos que acompanham e enquadram cada edição, assinados pelo jornalista Gonçalo Frota, são também peças de grande rigor, dando conta das circunstâncias em que surgiram as canções e relatando episódios que rodearam cada gravação. Como a revelação da participação de Francisco Fanhais, a tocar bombo, no tema ‘San Macaio’, de Contos Velhos, Rumos Novos, naquela que foi a estreia do então Padre Fanhais na gravação de um disco – e que nem sequer ficou assinalada na ficha técnica. A omissão, de resto, mantém-se na capa do CD, que reproduz fielmente a capa original da segunda edição em vinil.

(Em parêntesis, permita-se-me a sugestão de, em casos óbvios como este, ser feita a correcção devida – a não ser que o ‘erro’ tenha sido manifestamente opcional e as razões que o justificaram se mantenham válidas. De contrário, não parece lógico persistir neles se a própria qualidade da gravação original foi entretanto melhorada.)

Omissões e erros existem, aliás, nas fichas técnicas de vários álbuns de José Afonso. As fotos, por exemplo, nem sempre foram devidamente atribuídas aos respectivos fotógrafos – como no caso da foto de Zeca em Fados de Coimbra e Outras Canções, que desde a primeira edição, em 1980, nunca viu creditado o nome do seu autor, o repórter-fotográfico Fernando Negreira. Esperemos que, com a reedição em curso, pelo menos algumas dessas pequenas imperfeições sejam também corrigidas.

Do homem que queria ser

Uma obra como a de José Afonso, repartida por trinta anos de música e poesia, possui uma dimensão maior do que ela própria. Tudo o que criou antes e depois de se tornar ‘oficialmente’ músico não passou por qualquer lógica de ‘carreira’ ou ‘profissão’. «Sou um homem que, entre outras coisas, canta. E acabo por estar mais ligado a isso do que ao resto», dizia. «Mas as minhas preocupações não estão centradas na música. Em geral, a minha vida vagueia por outro tipo de ofícios e de preocupações. É por isso que, sobretudo quando tenho uma actividade mais assídua, começo a sentir me ‘emprestado’.»

Um outro modo de dizer: «Se, por um lado, gosto de fazer música, por outro lado sou obrigado a fazê la, devido a um contrato. De modo que aquilo que tenho feito ultimamente é um pouco compulsivo: faço música como quem faz um par de sapatos, isto é, tento alinhar sons e torná los coerentes entre si, como quem faz um utensílio. E o mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduz me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta ‘irmandade’ progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que têm determinado tipo de preocupações…»

Era esta a essência da vida e da actuação de José Afonso. As canções, os discos, tudo isso era menos importante do que as pessoas. Sendo que era com as canções, e por causa delas e do que elas representavam, que as pessoas se juntavam à sua volta. Mas o papel de «artista» não lhe assentava bem, preferia ser um entre iguais – ainda que perfeitamente sabedor daquilo que, enquanto artista, queria fazer.

Se as preocupações com o mundo que o rodeava determinavam o que fazia, o inverso também foi verdadeiro, e a música de José Afonso mudou mesmo a vida de todos nós. E não foi só por ‘Grândola’, nem pelas incomparáveis crónicas da Revolução que registou em Com As Minhas Tamanquinhas, nem pelos milhares de quilómetros percorridos para partilhar connosco a sua música. Foi mesmo pelo que nele havia de mágico, como criador e como ser humano.

Ainda assim, pouco antes dos recitais de despedida, em 1983, garantia: «Actualmente, falarem me de música ou de óleo de rícino é rigorosamente a mesma coisa. Se eu tivesse meios dedicava me a outra coisa, a uma actividade mais solitária, sei lá... Gostava de voltar a estudar Filosofia, como nos velhos tempos. Estudei mal, mas enfim...» E depois, no palco do Coliseu, foi a emoção que se viu.

E apesar disso, continuou a viver como se não quisesse ser mais do que um homem comum: «Sou uma decepção para os músicos. Tento fazer o melhor que posso na altura em que estou a fazer uma música, ou quando estou num estúdio ou com o pessoal em cima de um palco. Mas, mal acabo um espectáculo quero arrancar para essas situações todas, ver o que ficou correcto, o que ficou da vida que já se viveu. É uma espécie de recusa do fim, da decadência... Apetece-me, às vezes, acordar a chamar-me, por exemplo, António Silva Fragata Qualquer-Coisa Smith, a viver uma situação diferente, noutra terra, e não me habituar à minha personalidade, pública ou privada. Mas isso é cada vez menos possível: a gente agarra-se a uma carcaça, à biografia que nos atribuem, e ficamos indissoluvelmente ligados a isso.»

As reedições dos discos de José Afonso que vão suceder-se nos próximos meses e até ao princípio do ano que vem, ajudam a perceber melhor esta personalidade tão simples e tão complexa que, 25 anos depois de ter partido, continua a exercer uma influência tão grande e tão positiva entre os seus contemporâneos. Essa é a maior grandeza da sua obra, a maior grandeza de si mesmo. Como o definiu Sérgio Godinho: «O Zeca era um génio. Não gosto de empregar esta palavra levianamente, no sentido norte-ou-sul-americano do termo. Somos todos geniais. Pois. Mas o Zeca era mesmo genial. E muito queria que isto não fosse um consenso, mas um dado adquirido. A diferença é subtil, mas fundamental.» Pois é.

QI | Diário de Notícias | 28.Abril.2012

Mais sugestões de leitura

  • Troikas e baldrocas Open or Close
    A imparável troika voltou a Lisboa para deduzir o óbvio: que a receita da austeridade é um fracasso, com a quebra do consumo a aumentar na razão directa do assalto à mão desarmada com que os cidadãos estão confrontados, resultando numa diminuição dos proventos reais do Estado. ...
    Jornal do Fundão | 6.Set.2012
    Ler Mais
  • Coerência interventiva Open or Close

    Quando se abalançou ao jornalismo, o jovem Viriato (tinha então 15 anos) escolheu bem: o Suplemento Juvenil do República, um diário que se impunha em Portugal graças a uma linha editorial avessa aos compromissos com o poder. Estava-se em 1973, a revolução dos cravos não fazia sequer parte do imaginário português, e essa era a altura em que o lápis azul da censura atacava forte, sem cerimónias, a produção dos homens dos jornais. (...) Das centenas de entrevistas realizadas, Viriato Teles seleccionou as dez que vai ler a seguir. Estiveram para ser doze, não por qualquer analogia com Cristo e os seus 12 apóstolos e a sua Última Ceia. Muitas foram, aliás, as últimas ceias de Viriato Teles (...)

    Ler Mais
  • Fernando Relvas Open or Close

    Vai, de certeza, implicar comigo porque lhe chamei «autor de banda desenhada», e se calhar tem razão. Porque a arte de Relvas não se limita às histórias aos quadradinhos que durante anos iluminaram algumas páginas da imprensa portuguesa. Mas ainda não se leva a sério o suficiente para se julgar pintor – e faz mal, porque é isso que realmente é. Pronto, digamos então artista plástico. Mas nunca de plástico. Fernando Relvas é também, ou sobretudo, um contador de histórias. Com meia dúzia de traços consegue fazer-nos viajar pelas rotas das caravelas ou pelos subúrbios da grande cidade, sempre com um humor acidulado onde se cruzam ora um hiper-realismo estonteante, ora uma forte carga erótica, ora ainda a mais pura crónica de actualidades.

    Ler Mais
  • Luta de clics Open or Close

    O ministro Sousa Franco anunciou esta semana ao mundo que o elevado nível de vida dos portugueses é uma realidade estimável pela quantidade de telemóveis em circulação. Com Sousa Franco, ficámos a saber que o mundo não se divide  em classes, mas em redes telefónicas.

    RCS | 17.Nov.1998

    Ler Mais