fdmsb400.jpg

Infelizmente, ainda não foi desta. Apesar de anunciado com algumas centenas de anos de antecedência, o fim do mundo que muitos esperavam voltou a ser adiado. Pelos vistos, os maias são como a Maya e o sinistro Gaspar: não acertam uma.

E como eu gostava que o mundo tivesse acabado. Não propriamente o meu, nem o dos caríssimos leitores, mas este mundo imundo de coelhos e relvas e cavacos e portas e borges e merkls e troikas. E também o dos (in)seguros, dos idiotas, dos patos-bravos, de todas as adultas e descompassadas bestas que tresmalham as nossas vidas e assassinam os nossos sonhos.

Sou da geração privilegiada que é suficientemente jovem para ter vivido Abril ainda na flor da idade e antiga quanto baste para continuar a ter memória plena da repressão fascista. Ou seja: sou daqueles que têm consciência de que a Liberdade não é um dado adquirido e irreversível, e que por isso é necessário tomar conta dela e defendê-la todos os dias, a vida inteira.

E a verdade é que nunca, desde a restauração da Democracia, a sensação de um iminente regresso ao passado se me fez sentir de um modo tão forte como nos dias que correm. Com um governo, uma maioria e um presidente apostados em reduzir a Constituição a uma simples figura de retórica, o País regride a um ritmo avassalador, cada dia que passa.

Contra isto, o que se pode fazer? Nada, diz o governo colaboracionista, empenhado em fazer-nos crer que a miséria e a fome são tão inevitáveis como a noite que segue ao dia e que só assim Portugal conseguirá sair do buraco negro para onde o empurraram. Muito pouco, diz a oposição soft-left, ciosa do seu «sentido de responsabilidade» e do papel que lhe cabe enquanto poder-que-segue-dentro-de-momentos. Tudo, dizem os outros, e são cada vez mais, cientes de que só com uma alteração radical das estruturas do poder e da economia, em Portugal e na Europa, será possível voltar a acreditar num mundo melhor.

A gravidade da situação faz com que em causa não esteja já uma mera divisão da sociedade entre as perspectivas tradicionais da Esquerda e da Direita, mas antes entre as pessoas de bem e as outras. Por isso são cada vez mais as vozes que, de distintos e por vezes antagónicos sectores da vida pública, se levantam contra a irracionalidade vigente. Mas Passos e o resto do bando, do alto da imensa arrogância que é característica dos medíocres, continuam a acreditar que a melhor maneira de ajudar um náufrago é obrigá-lo a nadar para longe da costa. E o pior é que são bastantes os que, mesmo entre os já quase afogados, acham que o caminho só pode ser esse. Não é preciso ser sobredotado para perceber que, de tão mal contada, esta história só pode acabar mal. Muito mal.

A responsabilidade pelo acriticismo conformista que tomou conta de parte significativa da população reparte-se em doses proporcionais pelos sucessivos (des)governos, os agiotas e os sabujos de todos os matizes que diariamente nos entram casa adentro a anunciar a inevitabilidade do apocalipse. Mas cabe também aos jornalistas que trocaram o quarto poder pelo quarto do Poder, aos empresários manhosos para quem os fins justificam todos os meios, aos professores que aceitam sem resistência ser meras correias-de-transmissão da ideologia dominante, aos conformados e desistentes de todas as cores e feitios.
Para travar esta alucinante descida aos infernos, talvez seja mesmo necessário acabar de vez com este mundo e, desse desejado dilúvio, construir enfim uma outra realidade em que o Homem volte a ser a medida de todas as coisas. Vai doer, claro, como é próprio de qualquer processo de crescimento. Mas não há outra maneira.

Jornal do Fundão | 27.Dez.2012

Mais sugestões de leitura

  • O mundo segundo Carlos Paredes Open or Close

    Tenham a bondade, senhoras e senhores. Instalem-se bem. Depurem os tímpanos e afaguem a alma, para que não percam uma só nota daquilo que vão ouvir. Estes sons raros e delicados vêm de uma antiquíssima galáxia povoada de gente boa, onde o mais importante são os Amigos e as infinitas formas de partilhar com eles os sentimentos, os afectos, as emoções. Os Amigos, então. São eles, mais do que a própria guitarra que tanto venera, aquilo que acima de tudo importa no universo de Carlos Paredes. À volta da música surge a conversa, sempre em busca de um superior conhecimento do mundo. Para Mestre Paredes, as coisas são tão simples como respirar: «As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e eles aderem. Não há mais nada.»

    Introdução ao CD O melhor de Carlos Paredes | 1998

    Ler Mais
  • Macacos à solta nas ruas do mundo Open or Close

    Quem os ouve pela primeira vez não pode deixar de sentir um estremecimento prazenteiro. É impossível catalogar estes sons, simultaneamente tão estranhos e tão familiares, que revolvem o nosso imaginário misturando as lembranças de filmes antigos, histórias e memórias, tradições e sentimentos. À semelhança das filarmónicas tradicionais, preenchem qualquer ambiente festivo onde se encontrem, mas tal como qualquer jazzband vão sempre mais além na execução da música que dão a ouvir.

    Nota introdutória ao CD Macacos das Ruas de Évora | 2002

    Ler Mais
  • Animais nossos amigos Open or Close

    A pacatez da vida política portuguesa foi abalada há poucos dias com um curioso debate parlamentar em torno dos escalões do IVA a aplicar às comidas de cães e gatos, bem como a certas espécies de moluscos como as ostras.
    Na origem da interessante discussão esteve uma proposta, apresentada pela parlamentar socialista Rosa Albernaz (...) no sentido de descer de 17 para 12 por cento a taxa do IVA a aplicar aos "produtos alimentares para alguns animais da classe dos vertebrados", segundo explicou a deputada.

    TSF | 19.Nov.1997

    Ler Mais
  • Esquecer Abril Open or Close

    Ao escolher os seus entrevistados, é nítido que o autor teceu uma teia de afectos que nos enreda à medida que vamos mergulhando neste livro com o vagar das coisas que realmente dão prazer. Mais do que o papel do entrevistador, Viriato Teles encarna o mestre de cerimónias de uma festa que já só acontece na memória de quem aceitou sentar-se a falar. Como num encontro de velhos amigos, há ternuras e rancores antigos, confissões, relatos do que se passou desde o último encontro. E percebemos que os entrevistados, muitos deles protagonistas da revolução, formam um caleidoscópio de palavras que é também a memória que o perguntador quer pintar da «sua revolução». Jornalista e poeta de generosidades, Viriato Teles só pode relatar o seu 25 de Abril nas palavras dos outros e fá-lo com arte e minúcia próprias de mestre ourives. Se vamos esquecer Abril, que seja com este livro.

    Ler Mais