Que gente é esta?

mrocha400.jpg

Leio espantado a notícia do Correio da Manhã de hoje: «O director do Conservatório de Música de Coimbra foi espancado sem razão aparente por um grupo de jovens, perto da estação de Coimbra B. Manuel Rocha, 48 anos, ficou ferido com gravidade, fracturando uma perna, e foi com o amigo até às Urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde está internado.
A cena de pancadaria ocorreu na segunda-feira, às 20h45, quando o músico esperava um amigo na estação ferroviária. Um jovem abordou-o, junto ao seu carro, e pediu--lhe lume para acender um cigarro. Manuel Rocha disse que não tinha, por não fumar, e após troca de palavras começou a ser agredido. A violência aumentou de intensidade quando amigos do agressor, entre eles uma mulher, se juntaram contra Manuel.»

Manuel Rocha, esse mesmo, desde há mais de 30 anos um dos pilares da Brigada Victor Jara, e um dos mais talentosos violinistas deste país. Foi a ele que calhou o miserável episódio, presenciado passivamente por vários transeuntes e utentes da estação ferroviária interurbana de Coimbra, como é relatado pelo próprio e na primeira pessoa:
«Estou vivo e não quero ter medo de ir a Coimbra-B. Queridos amigos! Boletim clínico: fractura do perónio e lesão na articulação da perna direita; escoriações muito ligeiras; sem mais lesões físicas ou morais; sono profundo e descansado.»
E prossegue:
«Descrição da ocorrência: abordagem por marginal à entrada da estação de Coimbra-B; impedimento, pelo dito, de fecho da porta do automóvel; reacção enérgica, minha, à prepotência do marginal; agressão primeira sob a forma de pontapé; reacção enérgica, minha, saindo do carro para desimpedir a via pública (revelando excesso de visionamento de séries norte-americanas nas quais o “bom” ganha sempre); confronto físico de exagerada proximidade; intervenção do resto do bando colocando-me em inferioridade numérica e física seguida de manobra de elemento feminino (demonstrativo de elevado profissionalismo) de inutilização do membro acima referido; pausa para retirar os feridos do campo de batalha (eu).»

Do sucedido, Manuel Rocha sublinha «a atitude demissionária e de assobiar para o ar de quem presenciou a ocorrência», que «não pode ser justificada pelo medo, ou não faria sentido evocar esse pilar da civilização ocidental que é o amor ao próximo.»

O Manel é um homem de bom feitio e melhor humor, o que se saúda. Mas este caso, o seu caso, é sobretudo revelador do estado a que chegou não apenas o país, mas sobretudo o povo que vive nele. Os que na segunda-feira passaram ao largo da agressão ao músico são da mesma massa dos que, na véspera, voltaram a escolher o cinzentismo e a mesquinhez em formato presidencial. Não, não é contra Cavaco que estou. Ele é apenas um mísero professor, coitado, ainda para mais agora forçado a exercer a presidência pro-bono. Não, o que me irrita é mesmo esse «Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa» de que fala o Baptista-Bastos. É essa, afinal, a mais triste evidência do episódio de Coimbra-B. A mão que elegeu Cavaco não foi a mesma que agrediu Manuel Rocha. Mas foi, com certeza, a que não se ergueu para o defender.

Mais sugestões de leitura

  • Um homem de carácter Open or Close
    José Vilhena, o mais importante humorista português contemporâneo, fez recentemente 85 anos. Mas, com excepção da meia dúzia de amigos e admiradores que estiveram presentes numa pequena homenagem organizada em Lisboa pelo Museu da República e Resistência, quase ninguém se deu conta da efeméride.
    Jornal do Fundão | 19.Jul.2012
    Ler Mais
  • O ano de (quase) todos os Zecas Open or Close

    Com a edição de “Com As Minhas Tamanquinhas”, neste final de 2012, ficam desde já disponíveis oito das onze edições que integram o plano de remasterizações em curso da obra de José Afonso. Um “lote” que abrange a totalidade dos álbuns gravados para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade, entre 1968 e 1981, ou seja: onze discos de originais num total de 14, o “essencial” da obra gravada do cantor. O trabalho de remasterização, assinado por António Pinheiro da Silva – não só um dos mais competentes engenheiros de som do nosso País, mas também um músico atento – é por vezes surpreendente.

    QI | Diário de Notícias | 15.Dez.2012

    Ler Mais
  • Sexto andamento: do medo Open or Close

    – Qual foi o teu pior momento em cima de um palco?

    – Foi em Vilar de Mouros, no segundo Festival de Vilar de Mouros. É uma história engraçada. (...) Quando cheguei ao palco... Só te digo que dificilmente a minha família terá sido mais insultada em toda a minha vida do que naquela noite! Mãe, pai, filhos – tudo o que era família minha foi insultada! Já para não falar dos insultos directos, mandarem-me com objectos estranhos... (...) Então passou-me uma coisa pela cabeça, olhei para os meus músicos e disse: «Vamos cantar uma canção, vamos cantar a Pedra Filosofal, vamos fazer aqui uma inversão.» Comecei a cantar, fez-se um silêncio enorme, calaram-se completamente, trautearam o final comigo e aplaudiram freneticamente. Aí, cheguei ao microfone e disse: «Vão bardamerda!». E fui-me embora.

    Ler Mais
  • Vasco Gonçalves Open or Close

    Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi o Primeiro-Ministro de Portugal, e esse foi o tempo mais gratificante da sua vida. Aos 452 dias iluminados que então viveu, mais de dez mil horas quase todas vividas de olhos abertos, juntem-se-lhe todos os outros e as noites e as madrugadas acesas que fizeram o ano e meio da Revolução. (...) Vasco, o Companheiro Vasco, foi o único ocupante do Palácio de São Bento a quem o povo concedeu o gosto de tratar pelo nome próprio. Os adversários e os inimigos vingaram-se, inventando o gonçalvismo – tentanto resumir num homem aquilo que para eles era a fonte de todos os medos, mas que mal ou bem nascia dos mais puros anseios de um povo que, pela primeira vez na história recente, tinha como chefe do Governo um homem que o escutava e, mais importante, o compreendia.

    Ler Mais