© João Francisco Vilhena

A propósito dos 75 anos de Fernando Assis Pacheco

A banalização das palavras é um dos pecados mortais da comunicação dos nossos dias, sobretudo quando praticada por quem faz das palavras o instrumento principal do seu ofício. Porque as palavras não são nunca apenas aquilo que significam nos dicionários, mas sobretudo o que significam nas nossas vidas.

Irrita-me, assim, a leveza com que alguns conceitos são alardeados, por ignorância ou por pesporrência, nas falas e nas prosas de abundantes jornalistas, escritores, comentaristas e outros plumitivos.

É talvez por isso que boa parte da classe escrevente se rendeu, sem um ai, a essa aberração maior do nosso tempo que é o amalacado Aborto Ortográfico que ameaça transformar-nos a todos em espetadores recetivos, seja lá o que for que isso possa significar.

Curioso e paradoxal, mas igualmente significativo, é que seja precisamente entre os defensores mais cegos do AO que se encontrem as maiores resistências à evolução natural da Língua – como acontece com vários neologismos resultantes da mundialização, na última dúzia de anos, da comunicação em rede.

São estes puristas que, por exemplo, recusam o uso da palavra saite (embora aceitando o blogue como versão lusa de blog, vá lá saber-se porquê) com o argumento simplório de que temos para o efeito a palavra sítio – o que só prova que, além de não entenderem a dinâmica da língua pátria, não percebem nada de inglês, nem de internet. Mais que não fosse porque sítio pode ser qualquer lugar (ou uma chácara, no Brasil), quer em português quer noutra língua qualquer: website é a expressão inglesa para designar um sítio da internet, e só cabeças pequenas é que podem achar preferível escrever site para que se leia saite.

(Em parêntesis, deixem-me que vos diga: houvesse ainda no activo jornalistas e homens de letras como os que, nos anos 30 e 40 do século passado, se recusaram a falar de foot-ball e preferiram criar a palavra futebol, e não assistiríamos a tolices como a de ver num canal de televisão por cabo uma série titulada – na alegada versão portuguesa – como The Confession, outra chamada Lie To Me, outra ainda ostentando um pestilento Masters of Horror. Porquê?, se A Confissão e Mente-me são tão expressivos como os títulos originais, e Mestres do Horror não é com certeza pior nem menos mau do que a equivalente versão anglófona.)

Nada disto acontece por acaso, já se sabe. Como se dizia no tempo da Pide (e depois disse-o o Eduardo Guerra Carneiro, e depois ainda o Sérgio Godinho) isto anda tudo ligado.

Quem desconhece o valor das palavras, não sabe entender o seu significado. E pode facilmente aceitar como normal que um presidente se queixe de não ganhar para as despesas, ou que um governo apele ao êxodo dos seus governados, ou que um mário-crespo qualquer se espante ao ouvir falar de explorados, que ele julga ser uma espécie exótica já extinta.

Léo Ferré disse-me, já lá vão quase 30 anos, que «as palavras são mais perigosas do que as metralhadoras». Pois são. Por isso procuro ser rigoroso no uso das palavras. Por exemplo, quando falo dos meus Amigos. Porque não é o mesmo que falar dos meus amigos, por muito que igualmente os aprecie.

E se os Amigos me são, todos eles, preciosos e insubstituíveis (tal como algumas palavras), os que já irremediavelmente se foram não podem nunca deixar de estar presentes, na lembrança dos que em vida os partilharam, na memória dos actos e dos gestos e dos afectos e das palavras que nos legaram.

Se fosse vivo, Fernando Assis Pacheco teria feito hoje 75 anos. Haveria provavelmente púcaro n’Os Caracóis da Esperança (uma tasca das autênticas e que também já só existe na minha memória e na de outros como eu) e haveria também muito de que escarnecer, daquele jeito que o Assis sabia praticar como mais ninguém.

Difícil seria, hoje, escolher apenas um a quem dirigir uns versos assim:

Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas — e não pára!

Celebre-se, pois, o Assis, com as palavras certas. E porque a prosa já vai longa não vou acrescentar mais nada ao que noutras ocasiões já escrevi sobre o meu Amigo e Mestre. O melhor mesmo é passar às palavras dele. Vivas, ainda e sempre. E em muitos casos bem mais do que ele, tenho a certeza, desejaria:

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha.

 

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