Outros textos

Ficções e outras escritas dispersas. Selecção muito incompleta

Cantata em azul

Lembro-me das casas e das flores silvestres, do canto recatado à beira-ria por onde fugíamos à cavalgada na noite, das mulheres jovens que sorriam envergonhadas aos nossos devaneios. Lembro-me de como éramos belos e tontos, convencidos de que o mundo só avançava porque nós assim o desejávamos, crentes de que poderíamos fazer parar o tempo com as palavras mágicas do amor. Lembro-me de ouvir o rugido do mar e não ter medo. ...

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Três contos de reis

Quando lhe disseram que o trono era seu, nem queria acreditar. Havia tantos anos que sonhava com aquele momento, e agora que ele ali estava, sentia-se infinitamente pequeno, tanto que por instantes pensou que ia fraquejar. Então levantou os olhos na direcção de seu velho pai, e perguntou:
– Senhor, será que eu posso sentar-me sem medo nesse espaldar de tanta responsabilidade? ...

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Que há-de ser de nós?

Éramos muitos, mais de um milhão. Éramos jovens e pensávamos que mudar o mundo era uma tarefa ao alcance das mãos. A poesia estava na rua, ali mesmo ao nosso lado, e a revolução era para já.

Combate | 1996

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A quinta dimensão

Era o mês de Outubro, em Lisboa e no resto do mundo. Nessa manhã de pouco sol, Aristides acordou com vaga sensação de que a Terra inteira estava a enlouquecer à sua volta.

Se7e | 1988

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Mais sugestões de leitura

  • Elogio e memória do Parque Mayer Open or Close

    Isto que aqui vedes já foi um lugar sagrado. Não que aqui se adorasse uma divindade qualquer, ou que houvesse neste intramuros espaço para o sacrifício de que os deuses, todos, parecem sempre tão sequiosos. Não. Por aqui passaram gerações inteiras, aqui se viveram muitos momentos de ilusão e de glória, que são, como se sabe, faces irmãs da mesma moeda. A casa que, teimosa, insiste em manter-se de pé no meio deste quase-nada em que o Parque Mayer se transformou é um símbolo vivo desse tempo. Aqui mora ainda hoje o Mário Alberto, pintor e cenógrafo, anarquista e lutador, militante do prazer e sumo-sacerdote da vida. Com sorte poderíamos cruzar-nos com ele numa qualquer tarde – nunca de manhã, que essa fez-se para aplacar o corpo e preparar a alma para a noite que se seguirá – subindo ou descendo a Avenida, em passo lento mas firme e determinado, olhando as mulheres que passam.

    Zoot | Primavera 2006

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  • Rei Roberto leal a Cavaco Open or Close

    «Aderi ao PSD porque confio no dr. Cavaco Silva. Se vou fazer campanha? Não sei. Mas se eu for consultado, pela primeira vez poderei dizer que o nome do dr. Cavaco Silva é um nome recomendado.» Nasceu em Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros, há 39 anos, mas viveu no Brasil os últimos 28 e ali se tomou conhecido e rico. Regressou a Portugal, ao que diz, para ficar. E, «após um ano vivendo aqui, me confundindo com as pessoas», converteu-se a Cavaco. Chama-se António Joaquim Fernandes, mas o público só o conhece como Roberto Leal.

    O Jornal | 25.Abr.1991

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  • Insondáveis designíos Open or Close

    O Papa foi ver um espectáculo de Bob Dylan. Poucos anos atrás, uma notícia deste tipo seria, no mínimo, uma brincadeira de gosto duvidoso. Na melhor das hipóteses (isto é, se a notícia fosse verdadeira) seria motivo de manchete em quase todos os jornais do planeta. O Papa? Num espectáculo de Bob Dylan? Eu sei que o mundo está a mudar e que as verdades absolutas de ontem deixaram de o ser às primeiras horas da manhã de hoje. Mas, ainda assim, não deixo de sentir um estremecimento ao ver Sua Santidade ouvindo «Knockin' On Heaven's Door» como se escutasse «Queremos Deus Homens Ingratos» ou o clássico «Miraculosa, Rainha dos Céus».

    TSF | 1.Out.1997

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  • Segundo andamento: dos fados Open or Close

    – Tens noção da importância que tiveste para as pessoas que não gostavam de fado e que acabaram por lá chegar através de ti?

    – Não terei essa noção plena, mas chegam-me regularmente comentários muito simpáticos. O que é que acontece? Eu tenho feito isto de uma forma muito serena, a minha conduta em termos do mundo do espectáculo é uma conduta serena. Eu não sou propriamente aquele cidadão que gosta de dizer a si próprio: «Ah, se eu não fosse português, teria feito isto e aquilo.» É mentira. Tenho feito aquilo que tenho podido, não me sinto mal com aquilo que tenho feito, não me sinto mal por ser português, bem pelo contrário. Mas eu acho que a gente, na vida, colhe muito do que semeia. E eu estou numa fase de colher o que semeei. E como, ao longo da minha vida, isto foi sempre uma permuta que fiz com as pessoas, e é uma coisa muito afectiva, as pessoas também sentem necessidade de conversar comigo.

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