Desabafos de um repórter que ainda acredita na paixão

Quando, em 1983, os jornalistas se reuniram pela primeira vez em congresso para debater a «liberdade de expressão, expressão da liberdade», o meu amigo e companheiro Fernando Alves provocou algum escândalo entre a classe ao anunciar que «os jornalistas portugueses estão a atingir o princípio de Peter da dignidade». Lembro-me do incómodo que causaram as suas palavras, feitas mais de interrogações do que de certezas, perante uma plateia que estava ali mais para se ouvir a si própria do que para encontrar caminhos novos.

Era um tempo em que, como então sublinhou o Fernando, os jornalistas eram «maioritariamente funcionários do Poder que está ou do Poder que segue dentro de momentos». Mas, apesar disso, era também uma época em que palavras e princípios como a solidariedade, o rigor e o pudor ainda tinham para muitos de nós algum significado prático. E, imagine-se, ainda havia jornalistas que acreditavam, à semelhança de Léo Ferré, que «as palavras são como metralhadoras» e, como tal, devem ser manuseadas cuidadosamente. Estávamos em 1983 e a liberdade era ainda uma criança.

Quinze anos depois, muitas coisas mudaram. O boom da rádio, no final dos anos 80, deu origem ao aparecimento de projectos inovadores, de que a TSF continua a ser o exemplo maior, como espaço de liberdade e referência fundamental do jornalismo português actual. O encerramento de publicações que, bem ou mal, ocupavam um lugar de destaque na imprensa portuguesa foi acompanhado, ainda que em proporção desigual, pelo aparecimento de novos projectos que, em alguns casos (poucos, mas ainda assim animadores), se revelaram uma lufada de ar fresco na informação que até então se praticava entre nós.

Entretanto, a guerra do Golfo, no princípio da década de 90, relatada em directo e a cores por Peter Arnett, tornou-se um paradigma da «informação de novo tipo» e deu origem a alguns dos mais monumentais e vergonhosos equívocos de toda a história da Comunicação Social. O neo-liberalismo aplicado à imprensa traduziu-se num sistemático conjunto de atropelos à dignidade dos jornalistas. E as dificuldades do mercado de trabalho fizeram com que muitos profissionais aceitassem passivamente todas as imposições.

Em Portugal, a classe cresceu e multiplicou-se. As escassas centenas de jornalistas encartados que, em 1983, se conheciam quase todos entre si, passaram nos últimos anos para um número cinco ou seis vezes maior. Mas significa isso que se pratica hoje um melhor jornalismo do que há quinze anos atrás? Em termos genéricos, parece-me que não.

Dizem-me alguns camaradas (hoje fala-se sobretudo em colegas, mas isso é apenas mais uma prova de que o meretrício se instalou definitivamente entre nós...) que a culpa é dos putos, ignorantes e mal formados, que ocuparam o lugar dos velhos repórteres sabedores e cheios de cultura. Mas a experiência diz-me que, se há responsáveis pela irresponsabilidade generalizada que todos os dias nos aparece, em letra de forma ou em forma de letra, escarrapachada nos jornais e gritada nas rádios e televisões, esses são sobretudo os velhos senhores, detentores de privilégios de que se recusam a abdicar. São esses (chefes desqualificados que apenas exercem o mister dirigente por manifesta incapacidade para alinhar o sujeito com o predicado; directores sem escrúpulos capazes de venderem a alma ao primeiro diabo que lhes apareça, em troca de uma cacha; patrões ignorantes que vendem notícias da mesma forma que venderiam salsichas do Montijo por alheiras de Mirandela; velhos redactores manhosos e sempre prontos para o chamado frete, o fellatio inconsequente do jornalismo) são esses, repito, os verdadeiros culpados pelo estado de indigência a que chegámos. Há excepções, claro, mas essas apenas confirmam a regra. E não é, certamente, por acaso que hoje se lêem menos jornais do que antes do 25 de Abril.

Por outro lado, a concorrência (tanto entre jornais como entre jornalistas) agudizou-se e criou uma inquietante promiscuidade entre a informação e o espectáculo. O Poder, sempre atento às movimentações da malta, criou novos artifícios de sedução e os jornais tornaram-se frequentemente meros veículos para troca de recados, jogos de bastidores e outras atribulações que nada têm a ver com a outrora nobre função de informar. E até já o SIS contrata uma «agência de imagem» (um eufemismo que, na maioria das vezes, serve apenas para designar as novas formas de filtragem de notícias) dirigida por um cidadão que já foi jornalista.

Olhando para trás, já não consigo contar quantos dos meus antigos companheiros das redacções se encaixaram nos cómodos gavetões do poder. Uns deram em assessores de ministros, secretários de Estado ou presidentes de Câmara. Outros tiveram direito a uma assoalhada em São Bento. Outros ainda tornaram-se administradores de empresas. O mais curioso é que, vendo bem, o estatuto socio-politico-profissional de todos estes figurões varia quase sempre na razão directa das respectivas incompetências.

Convertidos à «vidinha» de que falava o O’Neill, os jornalistas do meu país tornaram-se politicamente correctos e profissionalmente assépticos. Atentos, veneradores e obrigados, deixaram-se fascinar pela imitação de bem-estar que o Poder, qualquer Poder, sempre gosta de inocular nos seus servos.

E é assim que, olhando à minha volta, sou levado a concluir que uma estranha amnésia deve ter tomado conta de parte significativa dos meus camaradas de profissão, de repente transformados nos computadores alentejanos da anedota: em vez de memória, possuem apenas uma vaga ideia. E até há quem pense que a assustadora leviandade que tomou conta de muitas redacções é apenas um «fenómeno lateral» da informação rasteira que hoje se pratica.

O resultado são prosas como a que li há dois dias num jornal desportivo: uma entrevista com um pide daqueles a quem o governo do professor Cavaco atribuiu uma pensão por relevantes serviços prestados à pátria, onde, a certa altura, lhe é perguntado se há em Portugal, passo a citar, «uma vocação para marginalizar os ex-elementos da Pide». Parece-vos normal? A mim, não.

Gostava, uma vez que fosse, de ver um jornalista tratar um pide como aquilo que ele efectivamente é: um pide, um canalha, um verme. Em vez disso, ouço e leio coisas onde, na melhor das hipóteses, o pide mais rafeiro é tratado como uma simples camada de chatos: incómodo e desagradável, mas apesar de tudo inofensivo. E mesmo quando um trabalho como aquele que o Zé Pedro Castanheira publicou recentemente no «Expresso» vem (e ainda bem que veio) agitar a nossa consciência colectiva, mesmo assim acabo sempre por ficar com a sensação de que, se calhar, a função pedagógica (chamemos-lhe assim à falta de melhor designação) da reportagem não foi levada às últimas consequências.

Mas isto sou eu a falar, claro. Eu que, já agora, também gostava, nem que fosse só uma vez, de ler uma prosa que, a propósito da crise do Golfo, por exemplo, não se limitasse a repetir os lugares comuns da propaganda oficial e me desse conta das verdadeiras motivações que levam o Ocidente a fazer de Saddam Hussein o pai de todos os demónios - tratando-se, para mais, do mesmo Ocidente que, há pouco mais de uma dúzia de anos, tratou de fornecer ao Iraque todas as armas de destruição massiva que agora quer eliminar.

Tal como gostava que os jornais, as rádios e as televisões se preocupassem menos com os problemas sexuais de William Clinton e os amores fatais da Princesa Diana. E que, em vez disso, alguém se atrevesse a descrever, factualmente, que a política expansionista dos EUA não é uma fatalidade mas apenas um síndroma imperialista que é necessário denunciar e ao qual os jornalistas, como quaisquer outros cidadãos, têm a obrigação de resistir. Em nome da verdade, da independência e do futuro. Porque, como escreveu o Poeta, «é preciso, imperioso e urgente» dizer que a realidade é muito mais do que o espectáculo colorido da «Roda dos Milhões».

Por último, gostava de poder continuar a orgulhar-me deste ofício que eu escolhi e a que dei os melhores anos da minha vida. Gostava que continuasse a haver espaço para um jornalismo feito de paixão, em vez do cinzentismo que, a pouco e pouco, vai alastrando à nossa volta. E que, se não nos pusermos a pau, um dia destes nos tornará definitivamente incapazes de distinguir as diversas tonalidades da vida.

É por estas e por outras que, cada dia que passa, me sinto menos identificado com uma classe mais preocupada com a imagem que quer transmitir de si própria do que com a figura, tantas vezes triste, que faz aos olhos do mundo. Mas como, apesar de tudo, sou um optimista, quero crer que tudo isto não passa de uma doença passageira, provocada por um enigmático vírus para o qual, mais dia, menos dia, alguém há-de encontrar uma vacina eficaz. Caso contrário, terei de concluir que estou a mais neste universo e que, provavelmente, não passo de um artista de variedades que se enganou no camarim.

Comunicação ao III Congresso dos Jornalistas Portugueses | Culturgest | Lisboa | 1998

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