Três contos de reis

1.

Quando lhe disseram que o trono era seu, nem queria acreditar. Havia tantos anos que sonhava com aquele momento, e agora que ele ali estava, sentia-se infinitamente pequeno, tanto que por instantes pensou que ia fraquejar. Então levantou os olhos na direcção de seu velho pai, e perguntou:

– Senhor, será que eu posso sentar-me sem medo nesse espaldar de tanta responsabilidade?

O velho sorriu, sereno. E respondeu:

– A Constituição é omissa quanto à possibilidade de o cargo ser exercido por imbecis. Fica pois tranquilo, meu filho, que num lugar onde já sentaram os cus tantas e tão destituídas bestas, ninguém dará pela diferença.

2.

O pessoal do gabinete ficou num alvoroço quando o imperador anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo

– Tive uma ideia

e ordenou a convocatória imediata de todos os conselheiros, assessores, mordomos e um número não determinado de generais. Os primeiros cruzavam olhares tímidos com os segundos, os mordomos esforçavam-se por parecer impassíveis, os generais arregalavam os olhos incrédulos. O Almirante Lloyds, em coro com o Marechal Banks, jurava pela própria mãe que Sua Excelência era incapaz de tal coisa.

A calma só regressou quando o imperador quebrou o silêncio com uma gargalhada:

– Era uma piada, claro.

Os conselheiros e os assessores riram alto, os mordomos continuaram estoicamente impassíveis e os generais suspiraram. O imperador continuou:

– O que eu quero mesmo é fazer uma guerra.

Os generais bateram palmas.

3.

Correu mesmo bem, aquele encontro com Sua Senhoria. É verdade que, a princípio, custaram a entender-se, mas assim que lhe revelou as verdadeiras intenções, Sua Senhoria mandou entrar dois criados com uma grande garrafa em forma de míssil que fazia sempre muito efeito junto dos estrangeiros, e passou às questões estipuladas para o interesse de todos. No final, despediu-se com um hasta la vista que era mais do que uma despedida, era a promessa do reencontro.

Ficou tão feliz com o bom acolhimento de Sua Senhoria que quis logo levar a boa nova ao seu povo. A única chatice foi os guardas do aeroporto suspeitarem do míssil. Perguntaram-lhe o nome, obrigaram-no a descalçar-se e mandaram-no para Guantánamo, sem sequer lhe dizerem hasta la vista.

Esquerda | edição experimental | 25.Abr.2003

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