Luta de clics

b_500_400_16777215_00_images_actual_telemus1.jpg

O ministro Sousa Franco anunciou esta semana ao mundo que o elevado nível de vida dos portugueses é uma realidade estimável pela quantidade de telemóveis em circulação.

A revelação é sem dúvida surpreendente e arrisca-se mesmo a pôr em causa os conceitos de bem estar definidos, uns por Marx, outros por Adam Smith, mas todos eles vulgarmente aceites como verdadeiros pelos economistas de todas as tendências.

Com Sousa Franco, ficámos a saber que o mundo não se divide  em classes, mas em redes telefónicas.
No entanto, com o fim anunciado da História e, sobretudo, com o avanço imparável da tecnologia,  levantam-se algumas questões que podem obstar à aplicação do novo paradigma do progresso social defendido pelo ministro das Finanças.

Segundo este conceito, os utentes da rede fixa corresponderão à outrora chamada classe operária?
Mas, a ser assim, qual o papel das modernas e dispendiosas centrais digitais, manifesto sinal exterior de riqueza de uma certa burguesia intemporal? Não será mais correcto reduzir o proletariado aos utilizadores exclusivos de cabines telefónicas?

E então, se o uso e posse de telemóvel são sinal de boa qualidade de vida, será correcto comparar o explorado utente de um pré-pago – desses que dão por nomes tão curiosos como Mimo, Boomerang ou Vitamina T – ao privilegiado assinante de classe executiva?

Definitivamente, as telecomunicações não parecem ser o forte da sabedoria de Sousa Franco. E, a menos que marque outro indicativo, o mais certo é que acabe como as chamadas de valor acrescentado: só no fim, na hora das contas, é que se percebe o que custou.

RCS | 17.Nov.1998

Mais sugestões de leitura

  • Um velho espírito de Natal Open or Close
    No Natal, o Rossio transforma-se numa espécie de presépio gigante (...) onde os reis magos foram substituídos pelos agentes da Casa da Sorte e os pastores ganharam a forma de polícias sem rosto. Os meninos do presépio do Rossio andam pelas ruas do Metro a vender pensos rápidos, alimentando-se na esperança de uma estrela qualquer que os guie a novo destino. E São José, na encosta do Martim Moniz, aguarda pacientemente a chegada dos bêbados e das putas ...
    Se7e | 30.Dez.1981
    Ler Mais
  • Um golpe de mestre Open or Close

    Não há melhor meio de desvalorizar uma mensagem do que descredibilizar o mensageiro. E é isso, em primeiro lugar, que sobressai do triste folhetim natalício desenvolvido a partir do alegado currículo inventado do não menos alegado professor Artur Baptista da Silva.

    Jornal do Fundão | 10.Jan.2013

    Ler Mais
  • Enquanto houver estrada pr'andar Open or Close

    Desculpem, leitores, mas ele há regras! E a verdade é que nem o Jorge Palma nem o relator desta conversa se sentem, nos dias que correm, com vontade ou paciência para entrevistas formais, ao estilo dos seriíssimos diálogos entre jornalistas-culturais e escritores-em-franca-ascensão, comentadores-político-sociais e ex-ministros, futuros-ex-ministros ou candidatos a. E foi talvez por isso que, quando repórter e músico decidiram dar conta da conversa que se segue, escolheram a serenidade da casa do capitão da Zambujeira do Mar, de frente para o Atlântico, numa tarde tranquila de finais de Julho, quando os camones não tinham ainda chegado em força e os portugas permaneciam nas cidades, a braços com o aumento do iva e as propostas do ministro da televisão que animaram os últimos dias antes das férias gerais.

    MPP - Revista do Festival de Música Popular Portuguesa da Amadora | Set 2002

    Ler Mais
  • Cantar ao Sul Open or Close

    Com a tranquilidade que sempre o caracterizou, Janita Salomé não desiste de levar por diante a sua música, feita de muitas memórias antigas misturadas com novas sensações. Na certeza de que "existe uma linguagem própria, nossa, e essa é que é necessário procurar, preservar e recriar". Por uma questão de identidade, contra a estética totalizante do hamburguer. Porque, como se percebe ao longo desta conversa, a música é como os vinhos: os mais divulgados e mais consumidos não são necessariamente os melhores.

    MPP | Set. 2001

    Ler Mais