Polícia de rosto humano

A Associação Profissional da Polícia revelou na semana passada que dez por cento dos mais de 20 mil agentes da PSP estão a ser alvo de processos disciplinares. Significa isto que um em cada dez agentes da autoridade não cumpre as leis de que, por definição, deveriam ser os guardiões.

Não se pense, no entanto, que os 2100 cívicos a quem foram instaurados processos são agentes menos válidos ou que, lá porque estão a braços com os regulamentos internos da instituição policial, se tenham tornado delinquentes comuns.

Provavelmente, as razões que levam um polícia a prevaricar são até muito simples: confunde-se o amador com a coisa  amada – ou, para sermos mais rigorosos, mistura-se o prevaricador com a coisa prevaricada. E o resultado é o que se vê: instados a aproximar-se do povo, os nossos agentes vão-se humanizando cada vez mais.

Humanizam-se tanto, que até já actuam como as pessoas normais. E por isso não resistem, de vez em quando, a pisar o risco que separa o que é legal do que é ilegal, como é próprio de qualquer cidadão que se preze.

Mas há mais: segundo o mesmo relatório da Associação Profissional da Polícia, as agressões de civis aos agentes da autoridade têm vindo a aumentar e, só nos primeiros cinco meses deste ano, registaram-se 184 casos.

Provavelmente, este é ainda um reflexo da célebre manifestação dos “secos e molhados” que, há alguns anos, animou o Terreiro do Paço: quando polícias batem em polícias, o cidadão comum sente-se, naturalmente, no direito de fazer rigorosamente o mesmo.

Não se pense, no entanto, que isto significa um menor respeito por parte do nosso povo perante os homens da farda. Pelo contrário, tudo não passa de mais uma prova do estado de simbiose entre polícias e não polícias que se vive no nosso país.

Por este andar, um destes dias será mesmo muito difícil distinguir um polícia comum de um cidadão banal. E então, sim, poderemos finalmente estar certos de ter “em cada esquina um amigo”...

RCS | 6.Out.1998

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