Crónicas de Escárnio e Maldizer

Selecção de crónicas ditas na TSF 1997-98

Filhos da pide

Que em Portugal se passam coisas estranhas, difíceis de entender por qualquer cidadão de inteligência média, não é novidade para ninguém.
Mesmo assim, de vez em quando não consigo deixar de me surpreender com alguns dos insondáveis desígnios com que a Divina Providência ou alguém por ela nos brindou.
Só no curto espaço de um século tivémos, entre outras curiosidades, um milagre de Fátima, um ditador que criava galinhas no quintal, um primeiro ministro que não lia jornais e até um Alberto João para quem a Madeira mais do que um jardim, é uma autêntica coutada.
TSF | 18.Fev.1998

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Terrorismo de faca e garfo

O ataque terrorista de que foi alvo o ministro António Costa, há menos de oito dias, passou à margem das grandes discussões políticas que marcaram a última semana. Entretidos a distribuir referendos como se dessem milho aos pombos, o Conselho de Ministros, a Assembleia da República e restantes forças mais ou menos vivas do país não ligaram nenhuma ao sucedido durante a visita de António Costa a Guimarães, onde o ministro dos Assuntos Parlamentares foi agredido com uma posta de bacalhau demolhado – a provar aos mais incrédulos que Portugal não é um lugar invulnerável à prática desta nova espécie de terrorismo de rosto humano.
TSF | 11.Fev.1998

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Falando assédio

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Quando não têm uma guerrazinha com que se entreter, os americanos são capazes de tudo. Até de transformar em notícia as possíveis aventuras extraconjugais de Bill Clinton. Tudo começou com uma vulgar acusação de assédio sexual - essa brilhante invenção norte-americana deste fim de milénio. Pessoalmente, devo dizer não tenho nada contra o assédio sexual - seja no local de trabalho, na rua ou mesmo em casa. Acredito até que, sem assédio, a humanidade acabaria por se extinguir, por manifesta falta de assunto.

TSF | 28.Jan.1998

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Ler jornais é saber demais

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Cada vez me custa mais a entender aquela teimosa mania que o professor Cavaco tinha de não ler jornais. É verdade que os jornais, por regra, estão cada vez mais pardos e menos interessantes. E é um facto que certos jornalistas são tão vergonhosamente ignaros e tão desprovidos de sentido ético, que até já pensei requerer a nova carteira profissional na categoria de «artista de variedades».
Mas ainda assim, eu, que sou teimoso, continuo a ler jornais. Será um vício, talvez, mas o que hei-de fazer? Ontem mesmo, por exemplo, fiquei a saber pelo Diário de Notícias que a polícia não serve só para reprimir, de acordo com o terá dito o ministro Jorge Coelho. O que significa que, lá no fundo, a polícia deve ter alguma utilidade, ainda que ninguém, nem sequer o ministro, saiba dizer em rigor qual é.

TSF | 21.Jan.1998

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Que grande pedra

+  Que grande pedra

Pela leitura da última edição do Expresso, ficámos a saber que «o Presidente Jorge Sampaio propôs na última semana aos líderes dos quatro maiores partidos a realização de um almoço comum contra a droga.»
Confesso que a notícia me encheu de curiosidade, quanto mais não seja porque, apesar de já ter assistido a corridas contra o racismo, manifestações contra as propinas, e até a marchas contra os canhões, nunca tinha imaginado que fosse possível fazer almoços contra a droga.

TSF | 14.Jan.1998

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Pipi de camarão

Mais de 15 toneladas de supostas moelas de galinha estão, desde a passada segunda-feira, retidas no porto de Leixões por suspeita de serem oriundas de Hong Kong, segundo noticiou ontem o Público.
De acordo com a notícia, um total de 15 mil 447 quilos de miúdos de frango terão sido descarregados de um navio vindo de Roterdão e foram retidas pelas autoridades portuguesas por suspeita de estarem contaminados com o virus H5 N1, responsável pelo recente surto da chamada «gripe das aves» que provocou vários mortos em Hong Kong.
Notícia posterior, divulgada ontem à tarde por algumas estações de rádio, revelava que, afinal, as moelas eram camarões e a sua origem era a Améria do Sul e não a antiga colónia britânica na China.

TSF | 7.Jan.1998

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Pizza hurt

+  Pizza hurt

Afinal, a tão comentada publicidade do ex-líder soviético às pizzas norte-americanas tem também uma versão televisiva, revelando-nos desconhecidas capacidades cinematográficas de Gorbatchov (...) Vários cidadãos russos foram também chamados a dizer de sua justiça a propósito do referido anúncio e da actuação do seu ex-presidente. As opiniões eram muitas e divergentes, mas ficou-me sobretudo a daquela jovem que dizia acreditar que, da próxima vez, Gorbatchov deveria dedicar o seu talento publicitário a uma qualquer marca de pensos higiénicos.

TSF | 31.Dez.1997

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Espírito de Natal

+  Espírito de Natal

O Natal já não é o que era. Primeiro foi o 25 de Dezembro, usurpado pelos comunistas desde que, faz amanhã exactamente seis anos, o ex-presidente Mikahil Gorbatchov reconheceu oficialmente a extinção da União Soviética.
Depois apareceram as mega-lojas de brinquedos, que deixaram o Pai Natal à beira do desemprego. E agora até o ministro Ferro Rodrigues já se faz passar pelo venerando ancião pólo-nortista e desata a distribuir benesses sociais.

TSF | 24.Dez.1997

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O poder e o local

+  O poder e o local

Os portugueses foram a votos, desta vez para eleger os representantes do chamado «poder local» – designação que só se compreende se aceitarmos que há poderes não localizáveis, o que é tanto mais verdade quanto maior é a sua dimensão.
Por exemplo: alguém sabe onde fica o FMI? E o Banco Mundial, alguém lhe conhece uma agência que seja, ou mesmo uma simples caixa de multibanco? E no entanto ninguém duvida de que são eles, os donos do dinheiro, quem realmente manda no nosso destino colectivo, deixando para gente simples como António Guterres e Pinto da Costa a ilusão de uma autoridade que já não existe sequer nas super-esquadras.

TSF | 17.Dez.1997

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Animais nossos amigos

+  Animais nossos amigos

A pacatez da vida política portuguesa foi abalada há poucos dias com um curioso debate parlamentar em torno dos escalões do IVA a aplicar às comidas de cães e gatos, bem como a certas espécies de moluscos como as ostras.
Na origem da interessante discussão esteve uma proposta, apresentada pela parlamentar socialista Rosa Albernaz (...) no sentido de descer de 17 para 12 por cento a taxa do IVA a aplicar aos "produtos alimentares para alguns animais da classe dos vertebrados", segundo explicou a deputada.

TSF | 19.Nov.1997

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A solução final

+  A solução final

«Enxertos da cabeça de macacos no corpo de outros macacos, realizadas com êxito numa universidade norte-americana, poderão um dia dar origem a uma espécie de transplantações de corpo inteiro em seres humanos.» A notícia, que acabei de transcrever ipsis-verbis, foi manchete no «Público» de anteontem e está a causar uma compreensível agitação entre os cientistas de todo o mundo. A partir de agora, pelo menos em teoria, passa a ser possível que alguém, sofrendo de uma doença incurável mas que tenha o cérebro em bom estado, receba o corpo de uma pessoa em situação de morte cerebral.
É aquilo a que os médicos chamam o «transplante radical» ou «transplante de corpo inteiro» e que, a ser um dia aplicado em seres humanos, permitirá a um cidadão - ou, melhor dizendo, à sua massa cinzenta - viver muito para lá dos limites actuais.

TSF | 5.Nov.1997

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O general casernícola

+  O general casernícola

O candidato da coligação PSD-PP à Câmara Municipal do Porto, general Carlos Azeredo, está a revelar-se uma autêntica caixa de surpresas. Num país tão carecido de ideias, ele corre o risco de se tornar o estratego-mor da extrema-direita mais boçal e troglodita, órfã de pai e mãe desde que o professor Salazar entregou as botas ao Criador.
Primeiro foi o célebre artigo sobre o «ouro nazi», onde este militante da ordem unida se desdobrava em considerações sobre o carácter naturalmente agiota dos judeus – o qual, está-se mesmo a ver, esteve na origem do Holocausto. Entre aspas, na versão branqueadora de Azeredo.
Ao que parece, o estado-maior do PSD não viu nisto nada de mais, o que se compreende: afinal, Hitler limitou-se a exterminar seis milhões de judeus, uma insignificância. Se a «solução final» tivesse sido concluída (ou seja, se em vez de apenas seis milhões, tivessem morrido todos) não haveria hoje ninguém para reclamar a verdade sobre o ouro roubado, o que seria um descanso para os anti-semitas em geral e para Carlos Azeredo em particular.

TSF | 29.Out.1997

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O fado das águias

+  O fado das águias

O Benfica está em crise e o país real acompanha, ansioso, as angústias, as dúvidas e o sofrimento das águias da Luz. Vão longe os dias em que «ser benfiquista era ter na alma a chama imensa», como cantava o incomparável Luís Piçarra. Mas isso era no tempo em que quem não era do Benfica, não era bom chefe de família. Agora, com a instituição familiar em notório declínio, como poderia o Benfica navegar noutras águas que não as do desencanto?

TSF | 15.Out.1997

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Brancos costumes

+  Brancos costumes

Uma sondagem publicada na última edição do «Expresso» revela que a maioria dos portugueses é favorável à reciprocidade de direitos entre cidadãos nacionais e brasileiros, mas está contra a extensão do mesmo princípio aos africanos oriundos das antigas colónias.

TSF | 8.Out.1997

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Insondáveis designíos

+  Insondáveis designíos

O Papa foi ver um espectáculo de Bob Dylan. Poucos anos atrás, uma notícia deste tipo seria, no mínimo, uma brincadeira de gosto duvidoso. Na melhor das hipóteses (isto é, se a notícia fosse verdadeira) seria motivo de manchete em quase todos os jornais do planeta. O Papa? Num espectáculo de Bob Dylan? Eu sei que o mundo está a mudar e que as verdades absolutas de ontem deixaram de o ser às primeiras horas da manhã de hoje. Mas, ainda assim, não deixo de sentir um estremecimento ao ver Sua Santidade ouvindo «Knockin' On Heaven's Door» como se escutasse «Queremos Deus Homens Ingratos» ou o clássico «Miraculosa, Rainha dos Céus».

TSF | 1.Out.1997

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Putas à europeia

+  Putas à europeia

Uma recente sondagem encomendada pela SIC e pelo Tal e Qual demonstrou que a esmagadora maioria dos portugueses considera que a prostituição deveria ser legalizada. Estarão os brandos bons costumes lusitanos em irremediavel processo de dissolução, ou será este apenas um primeiro sinal da nossa integração no pelotão da frente da União Europeia?

TSF | 17.Set.1997

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Mais sugestões de leitura

  • Silly season Open or Close

    Dizem-me que a culpa é do tempo instável que se tem feito sentir. Talvez seja. Mas este mês de Agosto tem sido pródigo em novos conceitos e frases espirituosas de alguns actores da grande comédia que é o mundo actual. Não, não falo de George Bush nem da sua mais recente alarvidade - até porque, ao contrário do que sustentam os jornais, não foi uma gaffe: o presidente dos EUA quis mesmo dizer o que disse quando afirmou que «os nossos inimigos não param de pensar em formas de prejudicar o nosso país e o nosso povo, e nós também não». É o que se chama sinceridade.

    Para Consumo da Causa | 18.Ago.2004

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  • Entrevista ao Portugal Rebelde Open or Close

    "O Zeca morreu há 22 anos, mas de certo modo está hoje mais vivo do que nunca. Creio que a nova geração já o descobriu, pelo menos em parte, e a prova disso está em que nos últimos dez anos foram gravadas tantas versões de músicas dele como as que foram feitas ao longo das duas últimas décadas do século passado."

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  • Uma bibliografia da MPP Open or Close

    Opúsculo editado em 2001 por iniciativa da organização do Festival de Música Popular Portuguesa da Amadora. A bibliografia seleccionada e as fichas de leitura apresentadas não pretendem ser uma selecção exaustiva, mas sim um conjunto de referências que permitam compreender a música popular Portuguesa, no seu sentido Tradicional e Contemporâneo.

    Música Popular Portuguesa: Uma bibliografia
    CMA 2001

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  • Era uma vez uma Nina Open or Close

    Era uma vez uma menina nascida num país que já não existe. A história de Nina Govedarica poderia começar assim, mas a sua biografia está bem longe de ser um conto de fadas. Os olhos dela já viram mais do que à generalidade dos humanos costuma ser concedido, e nem tudo o que viu foram coisas belas.
    Nascida em Zagreb no início dos anos 70 do século passado, Nina Govedarica licenciou-se em Engenharia, mas seria na pintura que encontraria o caminho e a razão de ser da sua vida.

    Do catálogo de Contos sobre a floresta, ..., de Nina Govedarica | 2011

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