Brancos costumes

tsf3.jpg

Uma sondagem publicada na última edição do «Expresso» revela que a maioria dos portugueses é favorável à reciprocidade de direitos entre cidadãos nacionais e brasileiros, mas está contra a extensão do mesmo princípio aos africanos oriundos das antigas colónias.

Ou seja: a maior parte dos meus concidadãos não se importaria de ter um brasileiro como ministro, deputado ou juiz, mas já não veria com bons olhos o desempenho das mesmas funções por um caboverdiano, guineense ou angolano.

Ao contrário do que os meus caros ouvintes poderão pensar, esta atitude de mais de metade dos portugueses não tem nada a ver com racismo. Trata-se antes de uma muito compreensível preocupação com o futuro, não só o nosso, mas também o dos nossos irmãos de São Tomé, Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde.

Na verdade, a aplicação do princípio da reciprocidade a todos os luso-falantes, só iria causar chatices, tanto em Portugal como nos Palops. Se não vejamos: alguém consegue imaginar por exemplo, o dr. Savimbi no lugar do presidente Jorge Sampaio?

Além disso, para quê dar aos africanos a possibilidade de morrerem de tédio como deputados ou juízes, se podem ter uma vida recheada de emoções como trabalhadores das obras? Não sabemos todos, pelo menos desde Aushwitz, que «o trabalho liberta»?

Por outro lado, quem foi que disse que é melhor ser membro do governo do que participar na construção do ponte Vasco da Gama ou na edificação da Expo? «Se soubesses o que custa mandar gostarias de obedecer toda a vida», não era assim que dizia o extinto professor Salazar?

Deixemo-nos portanto de coisas e os africanos que fiquem como estão, que estão muito bem. Até porque alguém tem que construir as nossas casas, varrer as nossas estradas e cavar os túneis do nosso metropolitano. E já se sabe que se não forem eles, teremos que ser nós, o que seria bastante desagradável...

Não se diga, portanto, que é por preconceito racial que os portugueses não querem a reciprocidade para os africanos. Até porque, se é verdade que os africanos são geralmente pretos, os brasileiros também não são maioritariamente brancos: que me lembre, há pelo menos os mulatos, os índios e os dentistas, para já não falar dos actores de novela, que como toda a gente sabe são uma raça à parte. Ah!, e os futebolistas, claro, mas esses tanto servem vindos do Brasil, de Angola ou do Burkina-Faso, desde que saibam marcar golos.

Não, definitivamente os portugueses não são racistas. Apenas de quando em quando fazem lembrar aquele sujeito de raça branca que costumava dizer: «Racista, eu? Só não gosto é dos alemães, que prometeram acabar com os judeus e fizeram um trabalho de preto...»

TSF | 8.Out.1997

Mais sugestões de leitura

  • A razão de ser de um livro Open or Close

    Ao longo destas páginas reuni apontamentos, entrevistas e histórias, umas mais pessoais do que outras, procurando, através da junção desses episódios, retratar com a fidelidade possível Ernesto Che Guevara, o homem, e a realidade que criou, de modo a entender os contornos da sua utopia e da forma como lutou por ela, até à morte. (...) Para traçar o perfil de Guevara para além do mito consultei testemunhos antigos, confrontei-os com outros mais recentes, auxiliei-me de fontes oficiais e não oficiais, em Cuba e fora dela. (...) Que os leitores possam sentir-se minimamente compensados e talvez, perdoe-se-me a veleidade, um pouco mais informados com esta leitura, é quanto me basta. O resto será determinado, como sempre, pelas circunstâncias da História. E essas, dizem-nos os factos, passam sempre pela vontade de cada homem que cria a vontade de todos os homens. Sobretudo aqueles que acreditam no valor da tal dignidade que foi sempre tão cara ao comandante guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna, para sempre e por todos chamado O Che.

    Ler Mais
  • Cântico de alegria e raiva Open or Close

    Em 2005, o Chile ainda tinha cinco presos políticos: Hardy Peña Trujillo, Claudio Melgarejo Chávez, Fedor Sánchez Piderit e Pablo Vargas López, encarcerados na vigência do primeiro governo democrático... por terem atentado, anos antes, contra a ditadura militar. Ao mesmo tempo, apesar de já não estar no poder, Augusto Pinochet ainda se passeava pelo mundo. Foi assim que, a partir de Santiago, o poeta Luís Ariasmanzo lançou um apelo à solidariedade de escritores de vários países. O resultado foi o manifesto poético El Verbo Descerrajado, uma antologia que contou com a participação de oito dezenas de poetas das Américas e da Europa.

    El Verbo Descerrajado
    Ediciones Apostrophes 2005

    Ler Mais
  • Cantata em azul Open or Close

    Lembro-me das casas e das flores silvestres, do canto recatado à beira-ria por onde fugíamos à cavalgada na noite, das mulheres jovens que sorriam envergonhadas aos nossos devaneios. Lembro-me de como éramos belos e tontos, convencidos de que o mundo só avançava porque nós assim o desejávamos, crentes de que poderíamos fazer parar o tempo com as palavras mágicas do amor. Lembro-me de ouvir o rugido do mar e não ter medo. ...

    Ler Mais
  • Bom dia, tristeza Open or Close

    É uma cidade triste cheia de gente triste. Tão triste como o odor que se sente nas ruas, intenso e incomodativo. «Cheira a ciganos e a comunistas», explica-me Mihaela, com um sorriso igualmente triste. Como Viorel, Alexandru, Alma ou Teodor, Mihaela tomou parte activa na revolução de Dezembro e sente, agora, a desilusão própria de quem vê frustrados os seus sonhos. Uma viagem pela Roménia pós-comunista, em tempo das primeiras eleições livres. Ou quase.

    O Jornal | 1.Jun.1990

    Ler Mais