Falando assédio

Falando assédio

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É sabido que, quando não têm uma guerrazinha com que se entreter, os americanos são capazes de tudo. Já se sabe que a carne é fraca, sobretudo num país especializado em «fast food» como os Estados Unidos. Mas será que isso chega para transformar em notícia as possíveis aventuras extraconjugais de Bill Clinton?

Segundo uma sondagem recente da Time, mais de um terço dos norte-americanos acha que a vida privada do seu presidente lhes diz directamente respeito. Deve ser por isso que a mesma Time dedica nada menos que 30 das 72 páginas da sua última edição às alegadas incursões marialvas de Clinton.

Tudo começou, como se sabe, com uma vulgar acusação de assédio sexual - essa brilhante invenção norte-americana deste fim de milénio. Pessoalmente, devo dizer não tenho nada contra o assédio sexual - seja no local de trabalho, na rua ou mesmo em casa. Acredito até que, sem assédio, a humanidade acabaria por se extinguir por manifesta falta de assunto. Mas os americanos não pensam assim.

Clinton vê-se, pois, metido numa alhada monumental que faz as delícias do povo norte-americano em geral e dos advogados de Washington em particular. Paula Jones, a assediada original, aproveita para subir a parada indemnizatória que, de um milhão de dólares já passou para mais do dobro - e a procissão ainda vai só na sala oval da Casa Branca. É tudo, portanto, uma questão de preço.

Nos episódios mais recentes, esta curiosa novela começou a baixar de nível e a subir de interesse quando surgiu a notícia de que outra mulher, Monica Lewinsky, também terá tido um «affaire» com o presidente. Neste caso, porém, tudo se terá resumido a alguns telefonemas «picantes» e à prática do sexo oral - o que, segundo um alto funcionário da Casa Branca, não é o mesmo que sexo propriamente dito.

Ficamos assim a saber que Clinton não só é um viciado em telefonemas eróticos como se entrega a práticas sexuais que, vá lá saber-se porquê, estão proibidas por lei em muitos estados norte-americanos.

Resta decobrir, claro, se o presidente foi participante activo na prática sexoralista ou se, pelo contrário, se limitou a usufruir das eventuais habilidades da jovem Monica.

Confesso que não alimento particular simpatia por este ou por qualquer outro presidente dos Estados Unidos, mas nem por isso serei eu a atirar-lhe a primeira pedra. A não ser, eventualmente, por uma questão puramente estética. Um homem que, entre 120 milhões de norte-americanas, escolhe Paula Jones como objecto de assédio é, no mínimo, uma pessoa de gosto muito duvidoso.

TSF | 28.Jan.1998

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