Pizza hurt

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Na semana passada, a propósito do Natal, falei aqui da conversão de Mikahil Gorbatchov à economia de mercado, consubstanciada numa polémica campanha publicitária de fast-food, que lhe terá rendido a módica receita de um milhão de dólares - cerca de 180 mil contos ao câmbio actual.

Volto hoje ao assunto já que, graças à TV Cabo, este folhetim trágico-cómico ganhou nos últimos dias novos contornos e permitiu-nos conhecer um pouco mais sobre a nova actividade do antigo presidente da defunta União Soviética. Afinal, a tão comentada publicidade do ex-líder soviético às pizzas norte-americanas tem também uma versão televisiva, revelando-nos desconhecidas capacidades cinematográficas de um Gorbatchov sorridente e indiferente às vozes, presentes no filme-anúncio, que o acusam de ter lançado a Rússia no caos e o povo na miséria.

Na reportagem divulgada pela TV Cabo, vários cidadãos russos foram também chamados a dizer de sua justiça a propósito do referido anúncio e da actuação do seu ex-presidente. As opiniões eram muitas e divergentes, mas ficou-me sobretudo a daquela jovem que dizia acreditar que, da próxima vez, Gorbatchov deveria dedicar o seu talento publicitário a uma qualquer marca de pensos higiénicos.

O antigo presidente soviético justificou a sua atitude pela necessidade de angariar dinheiro para a Fundação que dirige desde que a URSS passou à história. Os seus detractores afirmam que, por este andar, o homem da mancha na testa vai acabar a fazer reclames de hamburgueres, refrigerantes ou garrafas de vodka.

No entanto, creio que o mundo não compreendeu o verdadeiro alcance do gesto magnânimo de Gorbatchov. Ao oferecer pizzas ao povo, ele não estará a fazer mais do que autocriticar-se pelo precário estado actual dos estômagos dos seus concidadãos. E se, como acreditam os seus inimigos, o antigo presidente acabar os seus dias como funcionário da McDonald's ou da Coca Cola, será apenas por solidariedade para com o seu povo: se a plebe é obrigada a comer mal e beber pior, os seus ex-dirigentes têm a obrigação de dar o exemplo.

Foi, aliás, o que fez Boris Ieltsin, que há dois dias prometeu aos russos que 1998 será um ano melhor do que aquele que hoje termina. Para que ninguém duvide, ele mesmo começará, já na próxima segunda feira, um período de 15 dias de férias. O que, naturalmente, enche de júbilo os seus concidadãos. Afinal, estando longe do Kremlin, há pelo menos a certeza de que Ieltsin não será protagonista de nenhum dos seus já populares disparates que tanto têm contribuído para aumentar o famoso anedotário russo.

Já agora: alguém me sabe explicar por que razão Gorbatchov não tira férias há mais de seis anos?

TSF | 31.Dez.1997

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