Que grande pedra

tsf11.jpg

Pela leitura da última edição do Expresso, ficámos a saber que «o Presidente Jorge Sampaio propôs na última semana aos líderes dos quatro maiores partidos a realização de um almoço comum contra a droga.»

Confesso que a notícia me encheu de curiosidade, quanto mais não seja porque, apesar de já ter assistido a corridas contra o racismo, manifestações contra as propinas, e até a marchas contra os canhões, nunca tinha imaginado que fosse possível fazer almoços contra a droga.

Espero que o repasto de Sampaio com António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa, Carlos Carvalhas e Manuel Monteiro se realize no Casal Ventoso - onde os convivas poderão mais facilmente discorrer sobre o assunto que irá juntá-los à mesa.

Na verdade, não creio que o restaurante panorâmico de Monsanto ou a sala de jantar do Palácio de Belém sejam lugares indicados para o mais alto dignitário da nação e os representantes de parte substancial do povo eleitor trocarem impressões sobre charros, chinesas e pastilhas de ecstasy.

Ao almoço, ainda segundo o Expresso, «deverão comparecer também os ministros com competências na área». Suponho que por lá passem a ministra da saúde e o tutor das polícias - dado que, como é sabido, em Portugal se continua a pensar que a toxicodependência se resolve com troca de seringas e de bastonadas, em doses mais ou menos equivalentes.

Ainda assim, para ser franco, confesso que me é difícil imaginar o que terão todos eles a dizer uns aos outros a respeito do nada pacífico tema da droga. Guterres poderá propôr uma solução de diálogo que pode passar, tal como José Luís Judas promete fazer em Cascais, pelo recenceamento dos arrumadores de automóveis - o que, está-se mesmo a ver, resolve de vez o problema da integração social dos drogadinhos.

O líder do PSD dirá, como é hábito, exactamente o contrário daquilo que disser o líder do PS. A não ser que a «viragem à esquerda» anunciada pelos sociais-democratas já tenha entrado em vigor e Marcelo decida reivindicar para si a legalização do haxixe e da marijuana.

Quanto a Monteiro, não se espera outra coisa que não seja a repetição da exigência de um referendo sobre o assunto, enquanto que Carvalhas poderá colocar a tónica no exemplo dos jovens comunistas que, graças à sua superioridade moral, nunca se drogaram nem voltam a drogar.

Perante este tristonho conjunto de previsões, espero que o padre Feytor Pinto não falte a este «almoço contra a droga» promovido por Jorge Sampaio. Com a sagacidade e o espírito lapalissiano que todos lhe conhecemos, o retirado líder do Projecto Vida poderá então reafirmar que o problema da droga se resolve quando os drogados deixarem de se drogar.

Não sei porquê, mas tenho a impressão que o presidencial «almoço contra a droga» vai acabar numa grandecíssima pedrada. E não será, com certeza, uma pedrada no charco.

TSF | 14.Jan.1998

Mais sugestões de leitura

  • Um violino sem telhado Open or Close

    «Somos um povo demasiado sério e que não acredita em si próprio.» Palavras de Carlos Zíngaro, músico e autor de banda desenhada, em vésperas de um concerto em Lisboa, em meados de Março de 1985. Afinal, parece que há coisas que nunca mudam.

    O Jornal | 15.Mar.1985
    Ler Mais
  • Um metro de vida bem medido Open or Close

    Podia começar por dizer-vos o óbvio: que não estou aqui hoje por outros méritos para lá do da amizade, o que poderia tornar suspeita a minha leitura deste «Um Metro de Vida». Mas se a amizade é longa – e, sobretudo, cheia de cumplicidades criadas nos percursos todos que já partilhámos – se a amizade é longa, dizia, então por maioria de razões tenho a obrigação de ser autêntico. O Nuno Gomes dos Santos escreve sobre pessoas vivas. Assim foi nos tempos do «Diário de Lisboa» e de «O Diário», do «Se7e» e do «Musicalíssimo», d’«A Capital» e d’«O Primeiro de Janeiro», jornais onde deixou marcas e uma parte importante da sua vida. Assim é nas canções que escreve e canta, e também nos livros que vem publicando desde há uma dúzia de anos.

    Apresentação de Um Metro de Vida, de Nuno Gomes dos Santos | 2004

    Ler Mais
  • Zeca em livro ao vivo Open or Close

    O José Afonso faria agora 80 anos. Mas este livro do Viriato Teles, em boa hora publicado em edição revista e actualizada pela Assírio e Alvim, não é uma homenagem póstuma. É um livro de José Afonso ao vivo, essencial para conhecer a vida, as ideias, a obra, (...) essencial para conhecer um homem singular: José Afonso. O homem que sonhava em cada esquina, um amigo, em cada rosto, igualdade. E a utopia de uma cidade sem muros nem ameias, capital da alegria.
    Leiam, divulguem, tratem bem este livro. O Viriato Teles e o José Afonso merecem.

    Ler Mais
  • Macacos à solta nas ruas do mundo Open or Close

    Quem os ouve pela primeira vez não pode deixar de sentir um estremecimento prazenteiro. É impossível catalogar estes sons, simultaneamente tão estranhos e tão familiares, que revolvem o nosso imaginário misturando as lembranças de filmes antigos, histórias e memórias, tradições e sentimentos. À semelhança das filarmónicas tradicionais, preenchem qualquer ambiente festivo onde se encontrem, mas tal como qualquer jazzband vão sempre mais além na execução da música que dão a ouvir.

    Nota introdutória ao CD Macacos das Ruas de Évora | 2002

    Ler Mais