A poesia na Revolução

© Perfecto Romero

 

Este livro exige a paixão do leitor porque é um acto moral, e ler (assim como escrever ou viver) sem paixão é absolutamente imoral. Actor de uma leitura em movimento, o leitor tem nas mãos um texto que recusa o jornalismo voltaico e a literatura de efeitos especiais. Viriato Teles propõe-nos a interpretação de uma personagem, e que personagem!, não a assunção de uma crença. De certa forma, os capítulos de que este volume se constrói, recompõem uma época, uma esperança – e uma utopia.

Che Guevara foi isso tudo, e muito mais. Ele representou um ideal específico, no qual a poesia se situava ao lado da modificação social das formas e dos conteúdos. Não há mito algum na grandeza de um homem, porque todos os homens são grandiosos quando tornam incandescentes as monotonias do viver quotidiano. Viriato Teles avisa-nos disso. E para escorar a afirmação, consultou livros, pesquisou nos tombos, conversou com pessoas, interpretou o tempo, tentou decifrar os sinais, escutou os sons, ouviu os poemas.

E não esquece de lembrar que o guerrilheiro lutou, antes de tudo, contra os efeitos mais vulgares dos nossos saberes e das nossas pobres certezas. A ruptura começa em nós próprios: ser de Esquerda não nasce de uma convicção – obedece a um comportamento que, dia a dia, vamos aprendendo e, porventura, melhorando-o. Também isso Viriato Teles no-lo diz. Sem precisar de se servir das «mitologias» barthesianas para estabelecer o confronto entre aquilo que Che Guevara desejou e aquilo que as circunstâncias determinaram.

É um livro admirável, escrito num português admirável. O que não é nada despiciendo num país onde muitos escritores e outro tanto de jornalistas tropeçam no pronome, vacilam na preposição e estatelam-se no advérbio. Viriato Teles legitima a atitude de reactivar a reflexão sobre Guevara, respondendo à relação radicalidade/fascínio com argumentos que me parecem extremamente inovadores. Há capítulos decisivos para se perceber o itinerário de um homem, afinal comum, que os impulsos da História transformaram num protagonista incomum. Neste caso, os «Discursos Directos» complementam páginas anteriores, como as canções e os poemas nascem dessa circulação que os une.

O Homem que Aprendeu a Voar» ou «Uma Esperança para o Mundo» são dois dos capítulos fulcrais do desenvolvimento do discurso jornalístico. Porque «A Utopia Segundo Che Guevara» é um livro de reportagens, escrito por um dos grandes repórteres portugueses e, certamente, o melhor da geração a que ele pertence – tomando o conceito de geração com todas as precauções devidas. Viriato Teles faz parte do reduzido grupo que tenta reabilitar a grande tradição da Imprensa portuguesa: aquela que nunca enjeitou a «participação» afectiva sem desleixar a qualidade da prosa e sem ignorar a ética do ofício. Este livro (a associar às centenas de páginas pelo autor assinadas, e que jazem, tumularmente dispersas, nos tombos de numerosas e inauditas publicações) é disso eloquente testemunho: ele não vai em reticências, não teme aplaudir e não se surpreende com ressentir.

Ei-lo a dizer: «Agora, que o mundo se normalizou e o salve-se quem puder dita a ordem e o progresso da comunicação global, que futuro pode haver para um projecto alternativo de organização social? (...) O socialismo por que lutou Guevara não era o dos tanques de Praga, Budapeste ou Tiannanmen. A cidade sem muros nem ameias que Zeca cantou e foi o propósito da luta do Che, mesmo dissimulada pelas incertezas quotidianas, permanece – ai de nós se assim não fosse! – como objectivo maior no horizonte da Humanidade.» Subscrevo, por inteiro, estas frases, porque elas regressam aos passos em volta dos melhores de todos nós.

Os nossos sorrisos foram lágrimas – não o esqueço. Quem os não compreendeu ou não quis decifrar, mostra que também nós vivemos em universos paralelos. De aí que este belo livro reponha em circulação, inclusive, a profunda metamorfose do que fomos, do que esperámos com ansiedade, e daquilo que foi a flâmula mais ardente de todas as fraternidades aspiradas.

No espaço das grandes experiências ideológicas e morais (para mim não existe uma sem a outra) a figura de Ernesto Che Guevara inunda-nos de estímulos, até porque nos esclarece sobre a necessidade de ser-se, simultaneamente, singular e colectivo, negando essa abjecção histórica a qual impunha o esvaziamento total do indivíduo em benefício do geral. Deu no que deu. Como nos recorda Viriato Teles, nem Fidel nem o Che eram grande apreciadores do projecto soviético, ambos embalados por uma outra intelecção que tivesse em conta o «improviso» latino-americano. É uma apaixonante aventura intelectual e política que toma a sério a produtividade intermundana dos sujeitos activos, e que propicia ao homem o entendimento urgente de que ele próprio é um criador – se não o criador.

Esse posicionamento central é observado, com rigor, por Viriato Teles, que firma os argumentos na convicção filosófica de que os dois revolucionários desejavam tomar uma posição imparcial para com as ciências sociais, então estabelecidas como dogmas. Improvisar, sim, consoante as alterações instantes, mas esse improviso sustentado em teorias e em opções. Fidel, na Sierra Maestra, lia Montesquieu; Guevara frequentava os mestres da Escola de Frankfurt. Não o esqueçamos.

Quem hoje pretender retomar os motivos que explicam e justificam Ernesto Che Guevara e a sua representação encontra, neste belo livro de Viriato Teles, um excelente viático para a jornada. O homem cuja face grandiosa lembra a de um Cristo estigmatizado, ainda hoje faz tremer muita gente, ainda hoje faz estremecer o coração de milhões. Havia nele algo de divino porque era simplesmente um homem.

Prefácio de A Utopia segundo Che Guevara | Campo das Letras | 2005

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