Repórter no encalço do Che

che03_hav380a.jpg

A gente conhece o Viriato Teles há muitas luas, ou não fosse ele um andarilho inveterado dos jornais e com diversos saltos pelos livros. Tudo o que o Viriato escreve é para ler. Homem da cepa séria dos jornalistas que não se perverteram... Daqueles que não se deixam arrebitar pelas alcatifas dos gabinetes ministeriáveis, daqueles que não iludiram a sua condição de ser de esquerda, da esquerda mais utópica, que é essa mesmo que vale para nós!

Olho para o Viriato amigo e desato a pensar em todos os corifeus que após o 25 de Abril eram de esquerda – era bem – e hoje dão lições de social-democracia com copo na mão e pança avantajada assente na secretária. Por isso digo que os textos do Viriato são para ler na sua textura não serviçal. Autêntica.

Nestes termos da conversa podia entrar num capítulo para discutir... Um autor direitista é para escorraçar, mandar às malvas? Só consideramos os de esquerda? Qual quê! Primeiro interessa-me o peso da escrita e se o autor for da condição de não dobrar a cerviz, tanto melhor, direita ou esquerda. Quem pode renegar um Ezra Pound ou um Celine? Eu não.

Pois o Viriato acabou de lançar para a rua A Utopia segundo Che Guevara. A escrita é a de um repórter, como ele avisa em preâmbulo: «As páginas que se seguem não são mais do que o caderno de um repórter que não tem a pretensão de fazer História, mas simplesmente deseja relatar o que viu, o que ouviu e o que, eventualmente, descobriu na sua faina profissional.»

Com o dedo no índice... Um primeiro capítulo aborda as histórias de um país cercado, onde Hemingway, Marx e Rimbaud são chamados à colação. Seguem-se mais três grandes temas, desde a Utopia segundo Che Guevara, passando pelos discursos directos – Félix Guerra, William Gálvez, Aleida Guevara e Canek Sánchez Guevara –, para tudo ser concluído com um capítulo onde despontam vinte e cinco canções para o Che. E nós apostados em cantar.

Desta empreitada à maneira de Viriato consta ainda um prefácio rubricado por Baptista-Bastos. Palavras fortes de BB, como sempre bem nos habituou, e escolho esta passagem: «(...) A ruptura começa em nós próprios: ser de Esquerda não nasce de uma convicção - obedece a um comportamento que, dia a dia, vamos aprendendo e, porventura, melhorando-o. Também isso Viriato Teles no-lo diz. Sem precisar de se servir das "mitologias" barthesianas para estabelecer o confronto entre aquilo que Che Guevara desejou e aquilo que as circunstâncias determinaram.»

Este é seguramente um livro que não interessa a certa gentalha, como aquele cavalheiro que preside ao CDS que há pouco tempo alcunhava o Che de terrorista. Faço ainda minhas as palavras de Baptista-Bastos, nestes termos escorreitos: «O homem cuja face grandiosa lembra a de um Cristo estigmatizado, ainda hoje faz tremer muita gente, ainda hoje faz estremecer o coração de mihões. Havia nele algo de divino porque era simplesmente um homem.»

Epicur | Março-Abril 2006

Mais sugestões de leitura

  • Maria Teresa Horta Open or Close

    Uma mulher que gosta de ser mulher e por isso não se conforma com aquilo que dizem ser o destino das mulheres. E por isso luta, e por isso escreve, e por isso grita. Eis Maria Teresa Horta, mulher e escritora que a partir dos anos 60 se afirmou como uma voz central da poesia portuguesa, pela coragem de romper com estereótipos e tabus que pareciam inquestionáveis.
    O corpo, o prazer, o sexo, eram então coisas sobre as quais uma senhora não deveria falar, muito menos em público. E por isso quando, em 1972, se junta a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa para a publicação das Novas Cartas Portuguesas, o escândalo foi tremendo: o livro foi apreendido e as autoras levadas a julgamento.

    Ler Mais
  • Só me calham Dukes Open or Close

    A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!

    Ler Mais
  • Putas à europeia Open or Close

    Uma recente sondagem encomendada pela SIC e pelo Tal e Qual demonstrou que a esmagadora maioria dos portugueses considera que a prostituição deveria ser legalizada. Estarão os brandos bons costumes lusitanos em irremediavel processo de dissolução, ou será este apenas um primeiro sinal da nossa integração no pelotão da frente da União Europeia?

    TSF | 17.Set.1997

    Ler Mais
  • O primeiro dia Open or Close

    A manifestação que no último fim-de-semana terá juntado para cima de um milhão de portugueses, metade deles em Lisboa, num gigantesco protesto espontâneo e generalizado contra as comprovadamente ineficazes medidas de austeridade do governo (e) da Troika, devolve-nos uma parte da esperança. A partir de agora deixa de haver álibis para a cegueira do governo que, a coberto da tradicional ilusão dos «brandos costumes» lusitanos, o conduz ao maior servilismo perante todas as imposições do FMI, do BCE e da Comissão Europeia – a ponto de insistirem em «ir para além» daquilo que é prescrito por estes mandatários da agiotagem internacional, mesmo que já toda a gente tenha percebido que, para além disto, só há o abismo.

    Jornal do Fundão | 20.Set.2012

    Ler Mais