Entrevista ao Portugal Rebelde

prebeld.png

- O que podemos encontrar de novo na reedição de "As voltas de um andarilho - Fragmentos da vida e obra de José Afonso"?

- Além de algumas correcções de pormenor, acrescentei alguns outros textos e um novo conjunto de fotografias, incluindo algumas que até agora nunca tinham sido publicadas. Destaco sobretudo as fotos do Carlos Gil, um grande repórter fotográfico, meu amigo e do Zeca, infelizmente também já desaparecido. E as do Luís Paulo Moura tiradas durante o último espectáculo de José Afonso, em Maio de 1983 no Coliseu do Porto. São, na sua maioria, retratos que até hoje nunca tinham sido publicados. Além disso, incluí uma relação, tão exaustiva quanto possível, das versões de temas de Zeca gravados por outros intérpretes, desde os anos 60 até hoje. Consegui recensear à volta de 300 versões, incluídas em mais de 200 discos gravados por diferentes artistas de Portugal, Brasil, Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos. Na verdade, a obra de Zeca é muito mais universal do que se pensa, e este levantamento prova de que ele é seguramente um dos autores portugueses mais cantados pelo mundo fora. O que não espanta, se pensarmos naquilo que a “revolução dos cravos”, que é como o nosso 25 de Abril é conhecido fora de Portugal, representou para o mundo nos anos 70. Não é exagero dizer que foi um dos mais importantes movimentos revolucionários da segunda metade do século XX, e José Afonso, através da “Grândola” e não só, foi o seu mais genuíno porta-voz.

- Sei que seguiu muito de perto as voltas deste "andarilho". Que memórias guarda do homem e do músico José Afonso?

- Além do criador genial que todos podemos ainda hoje apreciar, era um ser humano de excepção e uma pessoa de grande coerência ética e estética. Tê-lo conhecido e ter privado com ele em alguns momentos da sua vida foi, obviamente, um privilégio e contribuiu muito para a minha formação. Guardo uma recordação muito viva do modo como se relacionava com o mundo, da sua inquietude permanente, do seu enorme sentido de humor. Tudo isso ajudou a fazer de mim aquilo que sou hoje. Porque nós somos quem somos, mas somos também fruto daquilo que nos rodeia e do que colhemos das pessoas que cruzam as nossas vidas, e nesse sentido eu reconheço que tive sorte, já que conheci algumas pessoas fantásticas. E não falo apenas de gente que conheci episodicamente no decurso da minha vida profissional, mas de alguns amigos que fui conquistando dentro e fora dos jornais, como o Adriano Correia de Oliveira, o Fernando Assis Pacheco, o Carlos Paredes, o Afonso Praça, a Edite Soeiro, o Miguel Serrano, o Luís Pignatelli – para citar apenas alguns dos que já partiram. Todos eles, cada um à sua maneira, foram importantes para mim.

- Como é que explica que as músicas de José Afonso de há 40 anos, mantenham a mesma frescura e modernidade que tinham quando foram escritas?

- Isso acontece porque, por um lado, “o Zeca era mesmo genial”, como muito bem explica o Sérgio Godinho no prefácio do meu livro. As canções do Zeca, mesmo as mais datadas, mostraram ser capazes de resistir ao tempo de um modo que só excepcionalmente acontece no mundo da música popular. Um ouvinte que chegasse agora de Marte poderia pensar que o “Cantigas do Maio” foi gravado na semana passada, porque não há nada nesse disco que acuse o “peso” da idade. E isso é o que distingue os génios dos criadores vulgares. Por outro lado, as próprias palavras que o Zeca canta mantêm, infelizmente, toda a actualidade, e isso também talvez seja uma razão para que muitas pessoas continuem a identificar-se com estas canções, que falam de problemas que nunca deixaram de existir. Porque ainda há muitos “meninos do bairro negro” e continuam a existir uma data de “vampiros”, mesmo que por vezes andem por aí de face oculta

- Que canções do "Zeca" escolhia como músicas da sua vida?

- Ui! São tantas que a escolha se torna virtualmente impossível. Dependendo da altura, poderia escolher o “Menino d’Oiro”, que é um tema referencial da minha infância, ou a “Canção de Embalar”, que foi a primeira música do Zeca que dei a ouvir ao meu filho. Ou o “Por Trás Daquela Janela” ou o “Fui à Beira do Mar” ou o “Maio Maduro Maio”, porque todas elas são das canções mais belas que conheço. Ou o “Nefretite Não Tinha Papeira” e o “Primo Convexo”, porque também gosto muito da vertente surrealista do Zeca. Sinceramente, é uma escolha muito complicada…

- "A música é comprometida quando o músico, como o cidadão, é um homem comprometido". Foi este o caminho que José Afonso nunca deixou trilhar?

- Sem dúvida. Ele manteve-se coerente e lúcido até ao fim, nunca deixou de lutar pela “cidade sem muros nem ameias”, a “capital da alegria” que foi, afinal, a razão de ser da existência de todos os que procuraram fazer do mundo um lugar melhor para se viver. E se, por um lado, estou de acordo com os que dizem que não se pode reduzir José Afonso à intervenção política – porque a sua música vale por si mesma, independentemente de outras razões – também creio que o oposto é igualmente redutor. Não se pode olhar para a música de Zeca e esquecer o resto, as circunstâncias que lhe deram origem. Ou seja: nem o revolucionário deve sobrepor-se ao artista, nem o músico deve fazer esquecer o militante. Se houve coisa que ele nunca quis ser foi uma unanimidade, e não podemos ignorar o carácter utilitário que ele sempre atribuiu à sua música, como factor de agitação de massas. Escolheu o lado esquerdo da vida, viveu e morreu nele, e é aí que deve continuar.

- José Afonso morreu há mais de duas décadas. Sente que há uma nova geração, que ainda não descobriu a vida e a obra deste "andarilho"?

- O Zeca morreu há 22 anos, mas de certo modo está hoje mais vivo do que nunca. Creio que a nova geração já o descobriu, pelo menos em parte, e a prova disso está em que nos últimos dez anos foram gravadas tantas versões de músicas dele como as que foram feitas ao longo das duas últimas décadas do século passado. Isso acontece pelas razões que apontei atrás: a modernidade que esta música continua a ter e que exerce um natural fascínio junto dos mais novos, mas também, julgo eu, porque muitos desses jovens se identificam com as preocupações expressas nestas músicas. Claro que nem todos apreendem o Zeca da mesma maneira, e não há mal nenhum nisso, bem pelo contrário. O importante é que quem hoje parte para a redescoberta das suas canções esteja disponível para ver não apenas a letra e a música, mas também a “alma” que existe em cada uma delas.

- O "Zeca" será recordado para sempre como um símbolo da liberdade?

- Mal estaremos quando assim não for. Espero bem que sim, porque o é, de facto. E não só em Portugal. Ainda há poucos dias, numa entrevista na RTP 2, o Luís Sepúlveda falava da importância que José Afonso e a revolução portuguesa tiveram para os chilenos, durante os tempos difíceis da ditadura de Pinochet, e que a “Grândola” era ouvida em segredo e cantada nas prisões, como um hino de resistência. Na pesquisa que fiz para este livro encontrei mais de 60 versões da “Grândola”, gravadas por artistas de pelo menos uma dúzia de países, desde Espanha à Finlândia, Brasil, Holanda, Chile, Alemanha, Suécia, Estados Unidos... Em versões instrumentais, corais, de jazz, rock, sei lá! Além das que nunca chegaram a ser gravadas e outras que provavelmente existirão e ainda não descobri. Isto ajuda a compreender a dimensão universal deste homem e desta obra. Em Portugal habituámo-nos a pensar em ponto pequeno, e por isso já ouvi dizer que o Zeca é «o nosso Pete Seeger» ou «o nosso Bob Dylan». Mas eu creio que é o inverso: com todo o respeito que tenho por ambos, eles é que são os Zecas norte-americanos…
 

Entrevista realizada por António Manuel Almeida
e publicada no blogue Portugal Rebelde | 29.Nov.2009

Mais sugestões de leitura

  • O homem que queria ser comum Open or Close

    Não fosse a intervenção do dr. Salazar e provavelmente a obra de José Afonso não teria atingido a dimensão que alcançou e que fez dele um dos grandes vultos da música popular do século XX. Dito deste modo, pode soar a provocação. Mas a verdade é que foi por ter sido expulso do ensino, por ordem do governo da ditadura, que o criador de «Grândola» se profissionalizou como músico e passou a gravar com regularidade. Deus a escrever direito por linhas ínvias, diriam os crentes. Curiosas ironias da História, dirão os outros.

    QI | Diário de Notícias | 28.Abril.2012

    Ler Mais
  • A poesia na Revolução Open or Close

    [A Utopia segundo Che Guevara] é um livro admirável, escrito num português admirável. O que não é nada despiciendo num país onde muitos escritores e outro tanto de jornalistas tropeçam no pronome, vacilam na preposição e estatelam-se no advérbio. Viriato Teles legitima a atitude de reactivar a reflexão sobre Guevara, respondendo à relação radicalidade/fascínio com argumentos que me parecem extremamente inovadores. (...) Um livro de reportagens, escrito por um dos grandes repórteres portugueses e, certamente, o melhor da geração a que ele pertence – tomando o conceito de geração com todas as precauções devidas. Viriato Teles faz parte do reduzido grupo que tenta reabilitar a grande tradição da Imprensa portuguesa: aquela que nunca enjeitou a «participação» afectiva sem desleixar a qualidade da prosa e sem ignorar a ética do ofício.

    Ler Mais
  • Francisco Louçã Open or Close

    Os amigos gabam-lhe a afabilidade, o sentido de humor, a clareza do discurso, a boa educação. Os adversários vêem nele um político frio e calculista. Mas todos lhe reconhecem a inteligência superior, a competência política, a combatividade. É o único dirigente político a quem os correlegionários tratam pelo diminutivo: o Chico, o camarada que dirige sem precisar de ser secretário-geral ou presidente. Um entre iguais, porém diferente de todos os outros. (...) Há 30 anos, acreditava que o mundo podia mudar num instante. Hoje, sabe que o mundo muda a cada instante. E tenta fazer a sua parte.

    Ler Mais
  • As voltas do professor Open or Close

    Há uns bons vinte anos, ele era o símbolo de tudo aquilo que não queríamos ver no poder. A candidatura de Freitas do Amaral à Presidência da Repúbica foi, sejamos claros, a última esperança dos velhos fascistas que ainda não se tinham adaptado à democracia. Na verdade, o confronto entre Mário Soares e Professor nas eleições presidenciais de 1986 foi marcado pela clarificação dos campos políticos que, bem ou mal, se afirmavam no terreno. E Soares, que começou a campanha apenas com o apoio de uma íntima fracção do PS, acabou por se sagrar Presidente, eleito pela Esquerda; ao passo que Freitas, apoiado em massa pelas forças da Direita, não conseguiu evitar a derrota na segunda volta.

    Para Consumo da Causa | 10.Mar.2005

    Ler Mais