Só me calham Dukes

Só me calham Dukes

© Carlos Gil

Privei pouquíssimo com o Zeca, não fiz parte dos seus amigos mais chegados, a última vez que estivemos juntos foi em casa dele e havia o sentimento pesado da morte que entrava já pela varanda, bulindo com os cortinados.

Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso. Vou tentar fugir-lhe.

A primeira vez que ouvi falar do Zeca já se dizia assim mesmo, Zeca, e não José Afonso. Cantava esplendorosamente o reportório do fado de Coimbra. Eu costumava não me intrometer nessas conversas tribais em que outros eram aparentemente exímios e tiravam todo o prazer da evocação dos grandes tenores e barítonos da escola local. Havia mesmo quem coleccionasse velhos discos de gramofone comprados a preços altos. A mim tanto se me dava: estava a tirocinar para utente nocturno do programa de jazz da Voz da América, vício que convinha não revelar aos então companheiros de esquerda, por sinal hoje bandeados na sua quase totalidade para a comarca de onde vem papel, papel a sério, sendo que vários deles até deputam, ó meu Deus!

Bom, não importa, eu era capaz de gostar do Zeca e do Duke Ellington, à vez ou ao mesmo tempo. Um solo a introduzir o Perdido parecia-me tão rico e tão cheio de música como qualquer canção da Beira Baixa ou dos Açores arregimentada pelo fado da cidade. O que eu não fazia era correr a foguetes para um sarau da Queima das Fitas, e escusassem de me lembrar as serenatas ditas monumentais na Sé Velha porque a essa hora onde eu já ia.

Ao Zeca habituei-me. Foi de resto fácil: andava no Orfeon Académico e ele tinha por hábito juntar-se ao grupo nas excursões, actuando em fim de festa. Era simplesmente o melhor. A voz mais bonita, a interpretação mais inteligente. Aí eu calava-me muito bem calado, cedendo ao instante mágico. Mas nunca falámos disso. Para quê, se eu devia parecer-lhe o que realmente parecia à vista desarmada, um pernóstico sem cura.

Também não assisti à guerrilha da balada em Coimbra, pelo motivo bem mais prosaico de uns anos de tropa com que a Sagrada Família me entreteve, mas na hora de fazer as malas escolhi dois discos de 45 r.p.m. do Zeca para irem estagiar comigo em Nambuangongo e Zala, de onde voltaram tingidos de um castanho avermelhado que era a vera cor da guerra. Foram muito ouvidos nos dois aquartelamentos, até pelos srs. oficiais de carreira, que não eram propriamente surdos e agradeciam uma musiquinha de fundo para empurrar o quinto ou sexto brande à noite, pouco antes do chichi-cama.

E pronto, acabarm-se os tiros, voltámos todos ou quase, o Zeca também tinha ido veranear a África (Moçambique, no seu caso),vieram uns versos, veio a música dele, ele às tantas foi para Setúbal e eu remanesci em Lisboa. Em vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes. Mas tive ocasião de escrever sobre os discos dele, ou somente sobre ele, entrevistei-o em Caldas da Rainha, lá fui uma tarde a Azeitão com o Viriato Teles – a cena dos cortinados – e depois foi o fim.

Recordam-me duas histórias. Uma em 1960, em Paris, quando a meu pedido ele entrou numa livraria toda pinoca para requisitar gratuitamente a antologia do Maiakovski traduzida pela Triolet, que eu não tinha massas para comprar. Foi tudo rápido e brilhante e nem o Houdini teria feito aquele passe que o Zeca fez. Só faltaram as palmas.

A outra é o recital de despedida no Coliseu, insuportavelmente belo. Ele sobe ao palco, ajeita os óculos, baralha-se com os papéis, tenta descobrir ao longe – mas não é possível, as luzes cegam-no – uma cara conhecida com quem dividir a emoção do momento. A minha servia, mas o Zeca está longe e não me topa.

Digo-lhe adeus com a mão.

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