A vida em alta velocidade

© Fernando Negreira

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O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer.

Discípulo da escola brechtiana de teatro vivo e actuante, Mário Viegas fez tudo o que de melhor se pode fazer nas artes de palco. Sem claudicar. Mais do que «apenas um actor de teatro», como gostava de se definir, foi um interveniente, um recriador de palavras. Vinícius de Morais comoveu-se até ao arrepio quando ouviu a sua interpretação de “Trópico de Cancer”, Almada Negreiros morreu sem imaginar que o seu “Manifesto Anti-Dantas” havia de renascer um dia com tanto vigor, Mário-Henrique Leiria deve boa parte da popularidade que alcançou postumamente ao talento deste Mário Viegas que um dia trocou Santarém pela cidade grande e se tornou no maior actor e recitador de poesia da sua geração.

Os últimos anos de vida dedicou-os, por inteiro, à Companhia Teatral do Chiado, instalada na sala-estúdio do Teatro São Luiz, um projecto que «nasceu da ideia de fazer uma companhiazinha com meia dúzia de tarecos e sem dinheiro». Com três mil contos atribuídos pela Secretaria de Estado da Cultura para a montagem de uma peça de Miguel Rovisco, “Um Homem Dentro do Armário”, Viegas acabou por levar à cena quatro espectáculos. Depois deitou contas à vida e chegou à conclusão de que «mesmo com as casas permanentemente esgotadas, o dinheiro não dá para pagar a toda a gente». Mas não parou de trabalhar e de sonhar.

Assim, quando nos encontrámos para esta entrevista, em meados de Fevereiro de 1992, o actor estava a preparar a estreia de “A Tersseira Classe” (assim mesmo, com dois esses), uma peça ao jeito de todas as produções de Mário Viegas, provando que, mesmo sem meios grandiosos e com montagens “pobrezinhas” (“A Birra do Morto”, por exemplo, custou 38 contos, o preço do caixão) é possível fazer um teatro de grande humor e muita qualidade, «a pensar nas pessoas normais e não naqueles que já pensam saber tudo.»

“A vida em alta velocidade” foi o título, quase premonitório, que na altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer. Desconcertante até na morte, partiu a 1 de Abril de 1996, dia das mentiras, com 47 anos, deixando aparvalhados os amigos e a legião de admiradores do seu talento e da sua verticalidade. Como herança, deixou a sua memória de uma arte que reinventou com invulgar mestria de cada vez que subiu ao palco. Fosse na pele de “D. João V”, de “Baal”, ou “À Espera de Godot”, no cinema onde criou o memorável “Kilas”, fosse ainda como divulgador de poesia, onde teve um papel só comparável ao de João Villaret, deixando disso testemunho em mais de uma dúzia de registos discográficos e em duas séries de programas de televisão que deram a conhecer também o grande humorista que sempre foi.

Algum tempo antes de morrer anunciou a sua candidatura à Presidência da República, cujo programa foi apresentado no espectáculo “Europa, Não! Portugal, Nunca!” – uma genial provocação a favor de “uma política sem máscaras”, que só a doença impediu de levar até ao fim, mas que ficou como derradeiro exemplo de insubmissão. Total, radical, verdadeira, absoluta. A doer, como a vida.

– Não é comum um actor ter tanto trabalho como tu tens agora. Como é que isto aconteceu?

– Olha, calhou. No ano passado fiz várias coisas que me deram muito trabalho, mas que só este ano terão os seus eventuais “lucros” artísticos. Uma foi o filme do Manoel de Oliveira, “A Divina Comédia”, no final do ano. Foi a primeira vez que trabalhei com o Manoel de Oliveira...

– E gostaste?

– Muitíssimo. Só o conheci pessoalmente no primeiro dia de filmagens. E, quando acabei o filme, estava completamente fascinado por ele, como pessoa. É um homem duma vitalidade extraordinária, duma simpatia humana, duma educação exemplares. Há nele um grande gosto de trabalhar com os actores, uma segurança até aos mais pequenos pormenores que faz com que as pessoas realizem mesmo o que ele quer. Do ponto de vista de trabalho e de contacto humano, fiquei fã máximo do Manoel de Oliveira.

– E o filme?

– Acho que vai resultar: o argumento é muito bonito, os diálogos são muito engraçados. E reuniu-se ali uma equipa de actores e de técnicos com um enorme respeito pela obra e pelo passado do Manoel de Oliveira. Vai ser, com certeza, mais um filme polémico e, até, diferente daquilo que ele tem feito. Foi uma honra muito grande ter trabalhado com ele. E, para mim, que, estava habituado a trabalhar de outra maneira, com outro tipo de cineastas, (principalmente com o José Fonseca e Costa, meu querido amigo, até já estávamos a ficar “conotados” um com o outro), este era um mundo diferente, uma nova estética. E isso, profissionalmente, foi muito bom para mim.

– Entretanto criaste a Companhia Teatral do Chiado...

– Foi mais ou menos ao mesmo tempo. A formação da Companhia surgiu na “ressaca” de uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa “Palavras Vivas”, realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a ideia – penso que, até agora, feliz – de formar a Companhia com um grupo de amigos e de jovens actores.

– E vens parar ao São Luiz...

–... porque sabia que havia aqui um “buraquinho” aberto – aliás, fechado – e que os serviços culturais da Câmara queriam dinamizar o Teatro Municipal. De facto não há fome que não dê em fartura: neste momento, há no São Luiz imensos espectáculos de jazz, bailado, ópera, despedidas de cantores... E há esta sala-estúdio, que eu já conhecia, sabia que tinha havido aqui teatro infantil, o “Teatrinho Branca Flor”. Então fiz a proposta de apresentar nesta temporada de 1990/91 seis espectáculos diferentes. Foi um trabalho muito exaustivo, não só porque os encenei a todos como ainda participo como actor.

– Em todos?

– Quase. Só não entro no espectáculo infantil e na “Tersseira Classe”. Além disso, tinha já um compromisso com o João Lourenço, do Teatro Aberto, para entrar novamente na peça “O Suicidário”, de que fui protagonista há oito anos. Portanto, neste início do ano, vou estar em cena simultaneamente em quatro espectáculos: quatro papéis diferentes por semana, como actor, e em dois teatros diferentes. Ou seja: à segunda-feira que é o dia de folga, faço na sala-estúdio do São Luiz o monólogo “Mário Gin Tónico Volta a Atacar”, com novos textos e inéditos de Mário-Henrique Leiria. Além disso tenho duas representações com “A Última Badana de Krapp” (uma das peças dos “Três Actos” de Samuel Beckett, que estou a fazer com a Carmen Dolores), mais três espectáculos com “A Birra do Morto”. E depois vou a correr para o Teatro Aberto ensaiar “O Suicidário”, que tem estreia prevista para Março...

– E consegues conciliar isso tudo?

– Até agora sim. É uma situação um bocado louca. Mas penso que aguentarei isso tudo, não só física como psicologicamente, porque como me sinto melhor é a fazer teatro...

– O regresso do “Mário Gin Tónico” está a ser um êxito. E tu tens uma predilecção grande pelo Mário-Henrique Leiria...

– Durante anos, sempre trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que gostaria de ter escrito... Depois, na minha passagem pelo Teatro Experimental do Porto, aconteceu ser necessário fazer mais um espectáculo. Mas, porque só estava lá como encenador, achei que era melhor fazê-lo sozinho. Aí reuni uma série de textos do Mário-Henrique e construí um espectáculo com uma hora e quarenta e cinco minutos, só com palavras dele. Depois fui acrescentando mais textos, aquilo foi aumentando e quando me dei conta o espectáculo estava já com três horas...

– É aquilo a que pode chamar-se um grande espectáculo...

– ... em grande parte porque fui descobrindo umas coisas que ele tinha escrito, com os pseudónimos de Vovô Gasosa e Wilson Gasosa, no jornal “O Coiso” e no “Pé de Cabra”: eram receitas de cozinha, contos para crianças, umas fábulas, aquelas coisas que ele fazia. O espectáculo foi uma bola de neve, acabei por andar durante dois anos a correr o país. E aconteceram noites memoráveis... Agora, que tive de apresentar um conjunto de propostas para fazer no estúdio do São Luiz, o mais fácil era repor este espectáculo. Que tem a particularidade de ser sempre um espectáculo diferente, já que os textos todos que eu reuni do Mário-Henrique davam para quatro horas e eu acho que o tempo certo devem ser duas horas. Portanto, todas as segundas-feiras, vou tirando do bolso este ou aquele texto, conforme o público e de acordo com a minha disposição...

– Isso já acontecia na primeira vez...

– Pois, mas agora acontece mais, até porque descobri outros textos inéditos. Durante a gravação do “Palavras Vivas” – um dos programas é dedicado precisamente ao Mário-Henrique – confirmei aquilo que já sabia: que na Biblioteca Nacional se encontra um espólio dele muito importante, com colagens e textos inéditos que deviam ser publicados. E eu sei, por exemplo, que o Manuel de Brito, da Galeria 111, tem várias coisas do espólio do Mário-Henrique Leiria e está, penso eu, totalmente aberto a quem esteja interessado em publicá-las. Ele já morreu vai fazer onze anos e creio que era necessário editar um novo livro. Poderiam ser os “Novíssimos Contos do Gin” ou os “Contos Póstumos”, qualquer coisa assim... Porque ele é, de facto, um humorista extremamente original. Não é um autor menor nem é só um contador de histórias, mas também um poeta, com grande qualidade, ligado ao surrealismo. Penso que valia a pena fazer isso...

– Conheceste bem o Mário-Henrique?

– Conheci–o, ocasionalmente, em 1978. Já conhecia os livros dele, claro, sobretudo os “Contos do Gin Tónico” e os “Novos Contos do Gin”, mas a partir daí passei a dizer mais coisas dele. Nunca fui muito íntimo do Mário-Henrique Leiria, mas tivemos uma cumplicidade imediata pelos copos, pelo convívio, pelo sentido de humor... Ele achava muita graça à maneira como eu dizia os seus poemas – que ele, aliás, dizia de uma maneira muito diferente... E sei disso não só porque o ouvi, algumas vezes, mas também porque há duas gravações que conheço, uma delas uma entrevista autobiográfica, extraordinária. A outra, feita antes do 25 de Abril, foi a que me deu a ideia deste espectáculo. É um documento um pouco trágico-cómico, em que ele se vai embebedando progressivamente, tal como eu faço no espectáculo (quer dizer: eu finjo que me embebedo, ele embebedava–se mesmo...), à medida que diz os textos

– Voltando ao teu programa na Televisão. Que poetas privilegiaste?

– Eu é que fui privilegiado por ter a oportunidade de dizer esses poetas. Escolhi só portugueses que já morreram, para que os vivos me não chateassem. E escolhi vários, sobretudo do nosso século: Fernando Pessoa, é óbvio, com “A Tabacaria”, o Almada Negreiros, a quem me sinto muito ligado até por ter gravado o “Manifesto Anti-Dantas” e “A Cena do Ódio”, o Mário-Henrique, o Pedro Oom, o Miguel Rovisco... Mas sobretudo procurei poetas com quem tenho afinidades sentimentais ou pessoais. O programa é assumidamente muito pessoal: falo de mim, das minhas ligações, das minhas primeiras leituras e das minhas amizades com alguns poetas que tive o prazer e o privilégio de conhecer e de conviver, casos do José Gomes Ferreira, Zeca Afonso, Raul de Carvalho, Pedro Homem de Melo, etc. É mais ou menos um programa sobre amigos meus, uns que conheci pessoalmente, outros só através dos livros, e que me fizeram crescer como recitador e como actor. E que acabou por despoletar a descoberta dos imensos espólios literários. Sempre que se fala de espólios ou de defesa do património pensa-se logo num pedregulho que cai, nos Jerónimos ou numa igreja não sei aonde. Mas os papéis são, de facto, mais frágeis do que as pedras...

(Este é o Mário Viegas que eu conheci. Actor de teatro e cidadão, homem preocupado com o seu mundo e com a nossa memória colectiva, tão fascinado pelas palavras como pelos pedaços de história viva que elas lhe revelam. O trabalho é, assim, não só um prazer, mas também um acto de cidadania, assumido com o mesmo empenhamento com que fez tudo aquilo a que se propôs. Siga a prosa e a conversa:)

– Um dos programas é dedicado ao Camilo Pessanha, esse genial poeta da literatura portuguesa, que tem, na Biblioteca Nacional, os poemas da “Clepsidra” escritos todos com a letrinha dele, que é lindíssima – o que dá uma extraordinária “foto-grafia” do Camilo Pessanha e da sua poesia. Aliás, quando estava a gravar, mexia naquilo com muito cuidado e até tive ocasião de dizer a um técnico que achava graça ao meu respeito: “Olhe, cada folhinha destas dava–lhe para comprar um andar ou um automóvel de luxo...” Mas não foram só papéis e arcas como a do Pessoa ou fotografias como as do Sá Carneiro ou do António Pedro que descobri na Biblioteca Nacional. Foram também gravações e filmes. É o caso dos arquivos da RTP onde, ao procurar imagens para o programa, fui encontrar no meio de uma série de milhares de horas ainda por catalogar, filmes e documentos visuais inestimáveis: com o Zeca, o Raul de Carvalho ou o José Gomes Ferreira. Coisas que foram apresentadas logo após o 25 de Abril, em “Artes e Letras”, ninguém deu por elas no meio daquela confusão toda e nunca mais foram vistas. Outras estão perdidas no meio de bobines que é preciso identificar... Por exemplo: ao procurar, numa longa bobine, o poeta Raul de Carvalho encontrei, misturado, o antigo actor Raul de Carvalho, do Teatro D. Maria II. E atrás dele, encontrei mais uma série de coisas. Até me descobri a mim, dizendo uns poemas n'A Barraca, com o Zeca Afonso, num encontro sobre a vinda a Lisboa do Paco Ibáñez...

– Quer dizer: foste uma espécie de “arqueólogo literário”...

– Mais ou menos. Aliás, há histórias curiosas. Como sabes, eu tive durante cinco anos um programa de poesia na Rádio Comercial. Um dia, telefonou-me uma senhora a dizer que tinha uma gravação do Mestre Almada a dizer o “Manifesto Anti-Dantas”. Ainda pensei que era uma senhora perturbada ou confusa, que tivesse ouvido o meu disco, mas não. Era uma grande amiga do Almada, a casa de quem ele ia todos os domingos depois do almoço passar as tardes e que um dia, já velhote, dois anos antes de falecer, gravou o “Manifesto Anti-Dantas”, que é um documento fundamental na história do humor do nosso século. E mais: à conversa com a senhora e o marido, ia contando como tinha nascido o “Manifesto”. Só esta gravação daria um extraordinário disco... E provavelmente ter-se-ia perdido se a senhora não tivesse telefonado.

– Mas nunca ninguém o editou...

– Eu sei que o filho dessa senhora contactou várias editoras. Mas parece que nenhuma se mostrou interessada... Essa é mais uma das surpresas de “Palavras Vivas”: a voz do Almada a dizer, comigo, o “Manifesto”. E mais coisas: há dezenas de fotografias e de quadras inéditas do António Aleixo, no Algarve... Quer dizer: pensa-se que alguns poetas já estão “fechados”, que já está tudo feito, quando, afinal, está tudo em aberto, por descobrir e por defender. E se, de facto, nós temos alguma coisa que valha a pena defender é a nossa cultura, os nossos poetas. Pese embora o que alguns dizem, nós temos uma das poesias mais originais de toda a Europa.

– Mas entre nós há uma certa tendência para o “deixa andar”, não é?

– Pois é. Olha: na Rua da Conceição, em plena baixa lisboeta, há uma placa na casa onde nasceu o Mário de Sá Carneiro que tem um número da data enganado. Eu sei, é uma coisa que não interessa nada: ele nasceu a 19 de Maio e está lá a dizer que foi a 10. Aparentemente não tem importância nenhuma...

– É uma questão de rigor.

– Claro. E não custa nada mudar a placa. Ainda por cima, no ano passado houve o centenário do Mário de Sá Carneiro. Houve tanta conferência, tanto colóquio, tanta coisa e, afinal, ninguém ligou a um pormenor tão elementar. Ou o caso da casa do Fernando Pessoa em Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, onde filmei um dos programas. É uma casa que estava completamente destruída, a maior parte das pessoas nem sabia do que se tratava. “Ah, é a casa onde viveu um tempo o Fernando Pessoa”, pensam. Mas não foi “um tempo”, foram 20 e tal anos. É a casa onde ele criou o fundamental da sua obra e de onde só saiu para o Hospital de Saint Louis, três dias antes de morrer. É o verdadeiro mundo do Fernando Pessoa! Felizmente alguém dos serviços culturais da Câmara já conseguiu tornar aquilo património municipal, vai haver ali um museu sobre o poeta e o Orfeu. Mas, antes disso, era uma coisa patética: havia revistas pornográficas no chão e sinais de que era um sítio frequentado por pessoas que iam ali para se drogar ou fazer outro tipo de coisas. E saber-se que era a casa do nosso maior poeta depois de Camões.. Ou o jazigo de Cesário Verde, que teria sido destruído, se a Câmara não tivesse agido a tempo*... Até parece que estou a querer “engraxar” a Câmara Municipal de Lisboa, mas estas coisas têm que se dizer...

– Entretanto gravaste um disco com a Manuela de Freitas.

– Foi. “Poemas de Bibe”, produção da UPAV. É um dos discos que mais prazer me deu: eu e a Manuela, estilo paizinho e mãezinha, a lermos, muito calmamente, umas dezenas de pequenos poemas, que podem ser ouvidos por meninos e meninas, de preferência com menos de dez anos. Porque são poemas muito ingénuos, muito simples e que abrem janelas e portas aos miúdos, despertando-os para a poesia. E também tivemos a preocupação de pôr uma grande lista de poetas, para que aqueles nomes fiquem já nas cabeças das crianças. É um disco extremamente didáctico e agradável de ouvir, não só para crianças como para adultos. Muito calmo, muito sereno, está muito bem gravado. É o décimo terceiro disco que eu gravo, os outros estão todos esgotados, e é talvez aquele que mais gozo me deu fazer.

– Tu tens, normalmente, uma relação fácil com as crianças?

– Não, nem por isso. Nunca fiz teatro infantil, não tenho filhos... Não tenho assim uma relação muito íntima com elas...

– Mas lembro–me de um programa teu, “Peço a Palavra”, feito com miúdos, que dava um pouco essa ideia...

– Foi um programa que me deu um prazer muito grande, uma experiência muito bonita e que me enriqueceu muito como actor. Mas, mesmo assim, não tenho uma grande experiência de trabalho com crianças. Não é que não goste de crianças, muito pelo contrário. Tenho muito respeito por elas e acho que não são atrasados mentais nem anões – isto sem querer ofender os anões, por quem tenho muito respeito. Até já trabalhei no teatro com um, o senhor Lúcio, que era uma pessoa extraordinária. Foi na peça “Baal”, no Teatro do Mundo... Lembro-me até de ter dito, nessa altura, a um colega teu, que era urgente fazer-lhe uma entrevista, era um homem com imensas histórias para contar. Por exemplo, o modo como foi utilizado, pela propaganda oficial no tempo do fascismo: lembras-te daquela fotografia em que se vê o Salazar morto, na urna, com um anão e aquele gigante de Moçambique, que morreu há pouco tempo?

– O Gabriel Mondjane?

– Esse mesmo. O anão da fotografia era o senhor Lúcio... A tal entrevista nunca foi feita, é mais uma das histórias que ficaram por contar...

– Ainda é vivo?

– Não, já faleceu. Morreu, salvo erro na Mitra, na miséria, completamente desconhecido...

– Tudo isso a propósito das crianças...

– Pois. Como eu estava a dizer, as crianças não são nem anões nem atrasados mentais em crescimento. Tenho um grande respeito pelas crianças, pela opinião delas e este disco não tem nada de paternalista. Não adianta pensarmos que as crianças não vão perceber, porque elas percebem muitíssimo bem e têm uma grande sensibilidade em relação à poesia. Eu tenho feito vários recitais que os miúdos ouvem e de que gostam muito. Aquelas imagens que, às vezes, para nós são misteriosas, para eles não têm mistério absolutamente nenhum. E mesmo que tenham, como dizia um grande criador, fica um “buraquinho negro” na cabeça delas e, se calhar, anos mais tarde, o “vírus” da poesia vai-se despoletar: “Ah, afinal o que aquele tipo quis dizer, quando eu tinha dez anos, era isto...” É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes, percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada dele e só tendo lido algumas “caganças” sobre o assunto.

Recentemente fizeste regressar o “Bucha e Estica”. Qual é o público que reage melhor a esse espectáculo?

– É o público que ronda os setenta anos. Porque o Laurel e o Hardy eram os heróis da infância deles. E os miúdos. Nós temos aqui ao sábado e ao domingo, um espectáculo com a Maria Vieira contando histórias, fazendo jogos, lendo poemas e convidando vários artistas. Cada semana é diferente. É um cantinho dela, em que dá largas à sua imaginação e ao seu talento junto dos miúdos e que está a resultar muito bem. Chama-se mesmo “O Cantinho de Maria”, mas esteve para se chamar “Simplesmente Maria”...

– E a Carmen Dolores, como é que ela aparece na Companhia Teatral do Chiado?

– Eu estreei–me como encenador num espectáculo chamado “Confissões numa Esplanada de Verão”, que era constituído por quatro peças em um acto: uma de Strindberg, outra de Tchekov, outra de Pirandelo e outra de Beckett. E nessa altura convidei a Carmen para fazer a do Strindberg, um monólogo de vinte e tal minutos chamado “A Mais Forte”. Ela aceitou imediatamente e eu fiquei-lhe sempre muito grato. Depois trabalhámos juntos no filme do Zé Fonseca, “A Mulher do Próximo”, dei-me sempre muito bem com ela. Agora convidei–a outra vez. A razão é simples: por um lado, pela grande amizade que tenho por ela, pelo seu grande talento. E também porque a Carmen é muito mandriona, estava há dois anos e tal sem fazer teatro e acho que não tem o direito de fazer isso. Também lhe faltava ainda representar um autor como o Beckett e ficou fascinada pelo texto. Chama-se “Balanceado”, é muito bonito, com tradução do Luís Francisco Rebello. É uma peça pré-gravada, que vive muito da voz. E a voz da Carmen é uma voz milagrosa, em que acontecem várias coisas, tanto mais que ela fez teatro radiofónico durante muitos anos.

– Depois de todos estes anos a fazer teatro, o balanço tem mais recordações boas ou más?

– A maioria são boas. Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei principalmente fora de Lisboa, por norma as menos publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo antes do 25 de Abril. “O Manifesto Anti-Dantas”, do Almada Negreiros, “O Operário em Construção”, do Vinícius de Moraes... Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis. E tive a oportunidade, graças ao meu trabalho como divulgador de poesia e recitador, de contactar com milhares e milhares de pessoas por todo o País e de ter convivido, de ter acompanhado, de ter crescido como cidadão e como artista com as pessoas da nova música portuguesa, como são os casos do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Carlos Paredes. Foi, para mim, uma experiência extraordinária. Paralelamente, tinha uma carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por causa da censura. Aí, no teatro, não me sentirei tão realizado. Porque, evidentemente, estando integrado numa companhia, mesmo que essa companhia seja dirigida por mim, é muito mais difícil fazer tantas digressões e contactar com o público tão facilmente como numa colectividade de recreio ou numa escola. Mas todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro ou à recitação de poesia.

– Uma vez, numa entrevista, definiste-te como “um anarquista de esquerda”. Essa “loucura” de que falas não tem nada de premeditado?

– Não. Nem é loucura nenhuma. Vim para Lisboa com 17 anos e, nessa altura, em vez de me dedicar ao futebol ou a outra coisa qualquer, comecei a interessar-me pela política. E fiz da política, do antifascismo e dos movimentos contra a guerra colonial e o regime, uma grande bandeira. E tinha as minhas referências: o Zeca, pelo seu comportamento, era e continua a ser uma referência fundamental para mim. Outra era a Maria Barroso. Lembro-me que a vi actuar pela primeira vez em Alpiarça, localidade que era um grande baluarte do Partido Comunista Português e da Oposição, antes do 25 de Abril. Nunca mais me esqueço que as duas primeiras filas da plateia estavam ocupadas por agentes da Pide e da GNR. Eu também queria fazer aquelas coisas todas. E fiquei com o mito da Maria Barroso, que era uma mulher que, de facto, dizia muito bem e que empolgava as pessoas.

(À medida que fala, Mário Viegas vai desfiando memórias, lembranças de outro tempo que é também o seu tempo, encantos perdidos e achados, desencantos e anedotas de si mesmo. Um nome, uma imagem, um episódio perdido algures no tempo. Histórias sempre com gente, muita gente, toda a gente:)

– Há dias descobri uma carta que escrevi aos meus pais, quando vim para Lisboa, e onde lhes dava muitos pormenores sobre o que fazia, aquilo que via, as coisas que me aconteciam. E uma das que lá conto tem a ver com uma festa da Associação de Estudantes de Medicina que acabou com uma intervenção violenta da polícia de choque e onde eu tinha ido recitar uns poemas. Ninguém sabia quem eu era, mas estavam lá, lembro-me perfeitamente, o Sinde Filipe, de quem mais tarde me tornei muito amigo, o Carlos Paredes e a Maria Barroso, que foi ali dizer vários poemas. Disse um de que me lembro muito bem, chamado “Liberdade” de um velho poeta comunista, o Armindo Rodrigues. Isso impressionou-me tanto que, no primeiro disco que gravei, o primeiro poema da face A é exactamente o poema “Homem Abre os Olhos e Verás” do Armindo Rodrigues. E eu, na carta aos meus pais, lá mandava dizer que a Maria Barroso era “uma mulher extraordinária, casada com o grande poeta Mário Dionísio”... Estás a ver a minha ingenuidade da altura! Um dia destes vou-lhe enviar uma fotocópia dessa carta (já passaram as eleições, não é nenhuma “engraxadela”), que demonstra até que ponto ela foi para mim uma referência muito grande. E eu pus sempre esses valores à frente, antes e depois do 25 de Abril. Tanto que, quando eu fiz a tropa... Eu fui posto à força na tropa em 1971, e foi uma coisa, essa sim, que marcou muito a minha vida pessoal e a minha vida artística, porque estive três anos sem poder fazer teatro nem actuar em público, apesar de actuar às escondidas...

– E aprendeste alguma coisa na tropa?

– Hmm... Sim... Quer dizer: agora, com 42 anos, a gente começa a ver à distância e tem é saudades de não ter 22 anos, que era a minha idade quando fui para Mafra. Mas sim, aprendi alguma coisa. Do mal também nasce o bem... Pelo menos deu-me uma certa energia e uma certa disciplina que, afinal, eu tenho – porque se não fosse assim eu não aguentava estar a fazer quatro peças ao mesmo tempo. Mas, pronto, aprendi algumas coisas. Não sou cem por cento anti-militarista. Sem falar, claro, daquela estupidez da hierarquia militar. O que eu te quero dizer é isto: hoje em dia, entre a malta mais nova, não há estes “grandes mestres” que teve a geração que tem agora 40 anos: o Zeca, o poeta Raul de Carvalho, o José Gomes Ferreira, o mestre Almada, que eu não tive a honra de conhecer, o Zé Carlos Ary dos Santos, com quem tanto convivi, nas suas loucuras, nas bebedeiras e tudo isso... São pessoas que eram referências, eram mitos que, hoje, a malta mais nova não tem...

– Isso talvez tenha a ver com a queda dos mitos que se verifica um pouco por toda a parte...

– Sim. Mas olha que talvez não seja bom. Isso de se dizer que os jovens estão muito mais libertos... Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é aquela coisa ultrapassada e passadista, “lá vêm os quarentões, lá vêm os anos 60”. De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem, era com um objectivo “anarqueirante”, era contra o regime, tudo isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17 anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. Eu, por exemplo, passei o 25 de Abril na tropa, fui um militar do MFA, e até acabei por “meter o chico” por mais seis meses, uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça... Se calhar está a nascer uma nova ideologia, que é a ideologia do vazio, da despolitização absoluta, da falta de respeito pelas pessoas que criaram coisas. E é isso que leva a que muitos jovens não tenham respeito por nada. A verdade é que tenho ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões sabem quem é...

– Começa a haver uma falta de memória preocupante, é isso?

– Sim. Mas olha que não estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações de “A Birra do Morto”, quarenta por cento dos bilhetes que vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à “onda” de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia, tal como há no “Mário Gin Tónico”, e que passa por brincar com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez chegaram a sê-lo), isso não me interessa nada...

In Bocas de Cena | Ed. Campo das Letras, 2003 (Primeira publicação n'O Jornal Ilustrado | 1992)

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    Lembro-me das casas e das flores silvestres, do canto recatado à beira-ria por onde fugíamos à cavalgada na noite, das mulheres jovens que sorriam envergonhadas aos nossos devaneios. Lembro-me de como éramos belos e tontos, convencidos de que o mundo só avançava porque nós assim o desejávamos, crentes de que poderíamos fazer parar o tempo com as palavras mágicas do amor. Lembro-me de ouvir o rugido do mar e não ter medo. ...

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  • Brancos costumes Open or Close

    Uma sondagem publicada na última edição do «Expresso» revela que a maioria dos portugueses é favorável à reciprocidade de direitos entre cidadãos nacionais e brasileiros, mas está contra a extensão do mesmo princípio aos africanos oriundos das antigas colónias.

    TSF | 8.Out.1997

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  • A formiga que canta Open or Close

    Lisboa, 25 de Março de 1982. Faltam dez minutos para as onze da manhã e Léo Ferré espera-me no átrio do hotel onde combinámos encontrar-nos. Uma vez perguntaram-lhe: «Então tu dizes que és anarquista, mas cumpres horários e páras nos sinais vermelhos?» E ele: «Precisamente porque sou anarquista.» Apenas outra forma de dizer o que já tinha escrito: «Le désordre c’est l’ordre moins le pouvoir.» Pois é.

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  • Segundo andamento: dos fados Open or Close

    – Tens noção da importância que tiveste para as pessoas que não gostavam de fado e que acabaram por lá chegar através de ti?

    – Não terei essa noção plena, mas chegam-me regularmente comentários muito simpáticos. O que é que acontece? Eu tenho feito isto de uma forma muito serena, a minha conduta em termos do mundo do espectáculo é uma conduta serena. Eu não sou propriamente aquele cidadão que gosta de dizer a si próprio: «Ah, se eu não fosse português, teria feito isto e aquilo.» É mentira. Tenho feito aquilo que tenho podido, não me sinto mal com aquilo que tenho feito, não me sinto mal por ser português, bem pelo contrário. Mas eu acho que a gente, na vida, colhe muito do que semeia. E eu estou numa fase de colher o que semeei. E como, ao longo da minha vida, isto foi sempre uma permuta que fiz com as pessoas, e é uma coisa muito afectiva, as pessoas também sentem necessidade de conversar comigo.

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