Mãos de fala

© Joaquim Lobo

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Tem uns olhos grandes, profundos, penetrantes. E as mãos. As mãos que, em palco, criam um espaço próprio dentro do cenário, tornam-se, à conversa, num elemento do diálogo, tão intenso como cada vocábulo, cada sorriso, cada momento. Tem uns olhos grandes e chama-se Juliette Greco. Ou Jujube, segundo a sua autobiografia. É uma latina orgulhosa, e canta. Boris Vian, Jacques Brel, Prèvet, Ferré. “Canto sempre aquilo de que gosto e, por isso, não tenho canções preferidas”, frisa.

De uma senhora não se revela a idade, mas Greco nunca escondeu ter nascido no mesmo ano em que Lindbergh fez a primeira travessia solitária do Atlântico Norte e Trotsky foi expulso do partido comunista soviético: a 7 de Fevereiro de 1927, em Montpellier, de pai corso e mãe bordalesa. Chovia, reza a lenda. “A chuva ajuda todas as plantas a crescer, mesmo as venenosas”, diz.

Em plena II Guerra Mundial, frequentou o Conservatório de Paris, durante a ocupação alemã. Nos anos que se seguiram à Libertação, Juliette vai percorrer as noites loucas de Saint Germain des Prés e contactar de perto com as maiores figuras da vida artística e intelectual parisiense: Jean-Paul Sartre, Simone Beauvoir, Albert Camus, Jean Cocteau, Jean Marais. E Boris Vian, de quem dirá ser o seu “irmão incestuoso”.

Nos anos 50, conquistou Hollywood e quase foi uma estrela de cinema, contracenando com mitos como Tyrone Power, Mel Ferrer ou Ava Gardner. Mas a fábrica de sonhos era demasiado falsa para a sua autenticidade e regressou a Paris e à música, afirmando-se por conta própria, na França e no Mundo, através de um repertório criterioso que inclui Georges Brassens, Charles Trenet, Léo Ferré. E Jacques Brel, que encontrou pela primeira vez em 1952, quando o belga era ainda um jovem desconhecido, e de quem foi a primeira intérprete.

A primeira vez que veio cantar a Portugal foi ainda antes da revolução dos cravos, que acompanhou à distância, com ternura. Dessa passagem efémera pelo Casino do Estoril, em fins dos anos 60, ficaram as saudades e uma doce recordação em todos os que a ouviram. Imparável, enfrenta o êxito com o mesmo vigor com que reage perante as mundanidades que não suporta – e que, no final da década de ouro, quase a levaram ao suicídio, de que foi salva graças à amiga Françoise Sagan e à filha Laurence-Marie.

Juliette Greco voltou a Lisboa no princípio de 1986, já avó. Para homenagear Brel, o amigo, o poeta, o companheiro de várias lutas nem sempre gloriosas, que antes de morrer fez questão de a ouvir dar voz a “Voir Un Ami Pleurer”. Veio cantar aquilo de que gosta, e a cidade foi vê-la e ouvi-la. Pelo palco passou a memória querida de Grand Jacques, num espectáculo que teve as suas canções recriadas por alguns portugueses que o amaram, por ideia do Instituto Franco-Português.

Aula Magna cheia, corações repletos. E Greco, Jujube, inconfundível, fazendo novas as velhas canções do seu amigo belga e dos outros: “Voir Un Ami Pleurer”, “On n'oublie Rien”, “Parlez Moi D'Amour”, “Les Feuilles Mortes”, “Paris Canaille”, “J'Arrive”. De corpo e alma. De olhos abertos e mãos de fada. Mãos de fala.

– Qual a sensação de voltar a Portugal tantos anos depois, Juliette?

– É óptima! [ri-se] Penso que foi muito positivo este regresso. Pelo menos parece-me que o público gostou. Mas você é que viu, você é que deve dizer... De qualquer modo, creio que o que aconteceu na Aula Magna provou que a canção francesa não está em crise...

– A canção “clássica” talvez não. Mas o que se passa com os novos cantores?


– O público gosta muito do seu trabalho. Penso que a canção francesa está cada vez melhor...

– Em França, talvez. Mas em Portugal, por exemplo, os trabalhos de Jacques Higelin, Maxime Le Forestier, Catherine Ribeiro e muitos outros continuam praticamente desconhecidos...

– Pois é. E, da mesma forma, em França nós desconhecemos quase tudo o que vocês fazem aqui, e é pena. Mas eu acredito que, agora, graças ao Instituto Franco-Português, será possível dar alguns passos no sentido de um melhor conhecimento mútuo. Segundo me disseram, há algumas iniciativas já programadas que poderão ajudar a desbloquear este “impasse” cultural...

– O Maxime Le Forestier disse-me, há pouco mais de um ano, numa entrevista, que o predomínio da canção anglo-americana, a que actualmente assistimos em toda a Europa, representa ainda uma consequência do Plano Marshall. Está de acordo?

– Infelizmente sim. O poder do dinheiro, o imperialismo exercido pelas culturas norte-americana e inglesa é uma realidade, por muito que nos custe. A alternativa? Não desistir, ir aos sítios, como eu faço. Eu e outros, claro... [pausa] Isso não chega, evidentemente até porque muitas vezes não depende só da nossa vontade. Eu, por exemplo, há vários anos que não cantava em Portugal, por razões que ignoro, mas que, pelo menos desde 1974, não são de carácter político...

– Que significa, para si, participar, em Portugal, numa homenagem a Jacques Brel?

– É, em primeiro lugar, uma coisa muito bonita. É a recusa da morte, do esquecimento. É a vida que continua porque nós assim o desejamos. E Brel, para mim, continua vivo.

– Ele era um homem difícil, nas suas relações pessoais?

– Comigo não. Mas julgo que, para algumas pessoas sim, poderia sê-lo. Mas eu também sou e, por vezes, todos nós somos, até porque temos um ofício muito duro. Em certos momentos temos medo e, assim, tornamo-nos exigentes, ficamos nervosos. Especialmente antes de um espectáculo. Eu, por exemplo, preciso de um tempo de silêncio, de recolhimento, antes de entrar no palco...

– A Juliette tem medo?

– Sim, um medo terrível. E é por isso que preciso desses momentos de concentração, de ficar sozinha uma ou duas horas antes do espectáculo. Depois, fica tudo bem...

– Você é também, uma mulher. Isso tem influência no seu comportamento de artista?

– É muito difícil ser mulher! Num mundo de machos, como este! Mesmo quando se é artista, é difícil...

– Mas agora ou nos anos 50?

– Penso que era mais fácil nessa altura. As pessoas eram mais toleradas, pelo menos em França. As pessoas eram... menos racistas. Durante algum tempo, principalmente com os existencialistas, não havia a distinção entre jovens e velhos que hoje se verifica. Por uns dois ou três anos viveu-se nesse “estado de graça” extraordinário. Depois as coisas mudaram...

– A Greco continua a sentir-se feminista?

– Sim. Aliás, creio que o sou desde os meus três anos... [ri-se] Eu sou pelo direito à diferença, amo a diferença. Mas não sou uma feminista organizada. Já participei em manifestações e tudo, mas hoje não...

– O Léo Ferré, quando esteve em Portugal pela primeira vez, afirmou que considerava os movimentos feministas como organizações de mulheres mal “amadas”. Comente.

– Bom, ele é um homem! [gargalhada] Mesmo os mais inteligentes, às vezes, portam-se como imbecis. Mas não é muito grave. Nós gostamos deles, mesmo assim. Julgo que o Ferré disse isso simplesmente porque é uma pessoa que gosta de agredir, de provocar. Ele gosta das mulheres, não pode viver sem elas, toda a vida as adorou. E disse isso, certamente, para se divertir. Só pode saber se as mulheres são bem ou mal “amadas” quem fez amor com elas. Ah!, o Ferré! Gosto muito dele!

– Qual vai ser, em sua opinião, o futuro artístico e social da Europa?

–Não sei. Sinceramente não sei. Por mim, quero resistir. Eu sou pequena, bem sei, não passo de um grão de areia. Mas vou resistir. Quanto ao resto... Por vezes, quando olho para os anúncios da televisão, confesso que fico assustada! É extraordinário como, actualmente, tudo é feito a pensar na uniformização das pessoas e, principalmente, dos gostos dos mais jovens: é o mesmo blusão, a mesma calça, a mesma música, os mesmos sapatos, a mesma banda desenhada. Isto é grave, muito grave. Os jovens, como toda a gente, têm o direito à diferença...

– E que podem os adultos fazer por esse direito?

–Sei lá! Uma revolução! [ri-se] Não sei. Mas creio que são eles próprios, os jovens, que têm de encontrar a solução. E vão encontrá-la. Olhe para o que está a acontecer em vários países: eles começam a zangar-se, a não querer aceitar o estatuto que querem atribuir-lhes. Já há sinais de mudança, cada vez mais visíveis.

(Uma nota quase marginal de pé de página, só para dizer que, pelo menos até 1986, Jacques Brel estava vivo e gozava de excelente saúde. Exílio, cancro de pulmão, morte discreta em Bobigny oito anos antes, tudo não era senão um boato sem fundamento, mesmo se amplamente divulgado pelos jornais e pelas televisões. Eu sei porque o vi, exuberante, a encher o palco todo. Ali, entre o piano do João Lucas e o acordeão do Baíco Salomé, entre a ternura e a provocação, vivo.

Eu sei: o cronista deve ser fiel aos factos, deve saber controlar as emoções, deve manter-se distanciado do objecto da notícia. Deve? Provavelmente sim. Mas é um facto que a Aula Magna foi palco e cenário de um espectáculo tremendamente bonito, dominado por emoções fortes do primeiro ao último minuto. Negá-lo, seria distorcer a notícia. Registem-se então, para quem já esqueceu ou lá não esteve, apenas os tópicos dos acontecimentos excepcionais que se viveram naquele dia 31 de Janeiro de 1986, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Primeiro, foi Sérgio Godinho e “Les Bonbons”, “Les Vieux”, “Jef”, o princípio que Brel merecia, a interpretação soberba. Depois, José Mário Branco com “Les Bourgeois”, “Mathilde”, a recriação que só um grande cantor sabe fazer. Foi, ainda, Teresa Silva Carvalho: “Le Plat Pays”, “Ne Me Quitte Pas”, a coragem de uma aposta difícil. E Janita Salomé, com o arranjo vocal e instrumental soberbo de “La Ville S'endormait” e “Amsterdam”. E foi também Vitorino, o espectáculo e a ternura em “Bon Dieu” e “La Chanson des Vieux Amants”. E Carlos do Carmo, incomparável em “Prénoms de Paris” e “La Valse à Mille Temps”. E as cantigas em dueto: Vitorino e Janita, Zé Mário e Carlos do Carmo, Godinho e Teresa Silva Carvalho. E, todos juntos, no apoteótico “Quand On n'a Que L’amour”.

Foi assim. Foi também, ainda e sempre, Greco: a transfiguração total, a emoção, a voz. E, uma vez mais, as mãos. Brel vive, eu sei. Esteve na Aula Magna que o aplaudiu de pé. “Comme quand on était beaux/ Comme quand c'etait le temps/ D'avant qu'on soit poivrots”.)

In Bocas de Cena | Ed. Campo das Letras, 2003 (Primeira publicação no Se7e | 1986)

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