Carlos do Carmo, do Fado e do Mundo

Uma conversa em oito andamentos a propósito do Prémio José Afonso | Sete Caminhos 2003

Uma voz do mundo

«A importância de um país avalia-se pela sua capacidade de tirar partido e proveito dos seus valores, nomeadamente os culturais. (...) A única autêntica maneira de um português se realizar é considerar-se de alguma forma estrangeiro, é distanciar-se da Nação, é agarrar-se com todas as suas forças a conceitos superiores de universalidade. Carlos do Carmo é uma voz do mundo – e por isso salvou-se. (...) E, com ele, salvou-se também uma parte importante da música portuguesa – o fado – que passou a ser do mundo!» Testemunho de António Victorino d'Almeida

+ Uma voz do mundo

Silêncio, que vai falar um homem

Venho duma época em que Portugal era, dizia-se, dominado por três éfes: Fátima, o futebol e o fado. Trinta anos passados sobre a manhã de todas as esperanças, a diferença é que o futebol se transformou numa nova religião, cujos deuses, mitos e interesses coabitam tranquilamente com os de Fátima. Ao fado, muitos querem que reste não mais que a função puramente recreativa. Não é esse, nunca foi, o caso de Carlos do Carmo, e por isso a sua música, sendo fado, é também uma música do mundo. E sendo universal, continua genuína e generosamente lusitana.

+ Silêncio, que vai falar um homem

Primeiro andamento: das origens

– Quando começaste a cantar, em 1963, estavas numa área artística e movias-te num meio social que não era propriamente o mesmo do Zeca. Que influência é que ele acabou por ter em ti?

– Foi muito grande. Muito maior do que aquilo que eu na altura teria entendido, hoje tenho essa dimensão. Repara que eu venho de um meio muito específico, que é o meio do fado. Na altura não se sabia, mas hoje está provado que, durante o período de gestação, o bebé recebe todas as influências da mãe. Todas. E a minha mãe, por razões conjunturais da vida dos meus pais, teve de cantar até ao oitavo mês de gravidez. Cantava de xaile para disfarçar a barriguinha, mas foi um período muito difícil na vida deles. Isto são histórias que me foram contadas por ela e pelo meu pai. Eu nasci em 1939, estava a começar a guerra na Europa, havia muito desemprego, e o meu pai, que era um brilhante livreiro, esteve um período sem trabalho, sem qualquer trabalho. E portanto era necessário alguém sustentar a família, e foi a minha mãe que o fez. E lá estava eu, dentro daquela barriguinha, a ouvir fado, até ao oitavo mês. Eu sou oriundo disto.

+ Primeiro andamento: das origens

Segundo andamento: dos fados

– Tens noção da importância que tiveste para as pessoas que não gostavam de fado e que acabaram por lá chegar através de ti?

– Não terei essa noção plena, mas chegam-me regularmente comentários muito simpáticos. O que é que acontece? Eu tenho feito isto de uma forma muito serena, a minha conduta em termos do mundo do espectáculo é uma conduta serena. Eu não sou propriamente aquele cidadão que gosta de dizer a si próprio: «Ah, se eu não fosse português, teria feito isto e aquilo.» É mentira. Tenho feito aquilo que tenho podido, não me sinto mal com aquilo que tenho feito, não me sinto mal por ser português, bem pelo contrário. Mas eu acho que a gente, na vida, colhe muito do que semeia. E eu estou numa fase de colher o que semeei. E como, ao longo da minha vida, isto foi sempre uma permuta que fiz com as pessoas, e é uma coisa muito afectiva, as pessoas também sentem necessidade de conversar comigo.

+ Segundo andamento: dos fados

Sexto andamento: do medo

– Qual foi o teu pior momento em cima de um palco?

– Foi em Vilar de Mouros, no segundo Festival de Vilar de Mouros. É uma história engraçada. (...) Quando cheguei ao palco... Só te digo que dificilmente a minha família terá sido mais insultada em toda a minha vida do que naquela noite! Mãe, pai, filhos – tudo o que era família minha foi insultada! Já para não falar dos insultos directos, mandarem-me com objectos estranhos... (...) Então passou-me uma coisa pela cabeça, olhei para os meus músicos e disse: «Vamos cantar uma canção, vamos cantar a Pedra Filosofal, vamos fazer aqui uma inversão.» Comecei a cantar, fez-se um silêncio enorme, calaram-se completamente, trautearam o final comigo e aplaudiram freneticamente. Aí, cheguei ao microfone e disse: «Vão bardamerda!». E fui-me embora.

+ Sexto andamento: do medo

Oitavo andamento: da vida e da morte

– A proximidade da morte aproximou-te mais da noção de Deus?

– Não, continuo a pensar que Ele é um gajo porreiro, e mais uma vez me protegeu. Estou a falar de Cristo, é um tipo especial com quem eu dialogo, a gente dá-se bem um com o outro. Às vezes zango-me com Ele, quando vejo assim umas coisas feias à nossa volta, penso assim: «Eh, pá!, este tipo anda distraído!» E Ele depois conversa comigo e diz-me: «Ah, tu sabes que eu não chego para tudo, também preciso de descansar um bocadinho de vez em quando, não chego para as encomendas!» É um pouco irracional o que te estou a dizer, mas é o modo que eu tenho de funcionar. (...) Acho que Ele tem sido generoso comigo, não pertenço àquele grupo infindável dos que passam o tempo a lamentar-se.

+ Oitavo andamento: da vida e da morte

Mais sugestões de leitura

  • Que homem é este? Open or Close

    A campanha eleitoral foi marcada pela recusa de Cavaco em responder a quaisquer questões de algum modo melindrosas para a sua imagem. Interrogado pelos jornalistas sobre as dúvidas levantadas por alguns dos seus negócios, limitou-se a dizer que eram «calúnias». Tanta aparente cobardia só pode ter uma razão: a criatura tem mesmo telhados de vidro, e está com medo que os portugueses descubram a tempo de correr com ele de Belém. Mas esta campanha foi também reveladora quanto aos traços de carácter deste homem que se acha acima de todos os outros.

    Ler Mais
  • Saudosa tertúlia Open or Close

    Verdadeiro mestre de apresentações, Viriato Teles elabora, antecedendo as entrevistas, a descrição das personalidades, define-as biograficamente e expõem-nas no efeito que, presencialmente, lhe provocam . Também no decorrer das entrevistas, para além dos assuntos tratados, o jornalista faz o retrato dos entrevistados, retratos humanos totais, com alegrias e desencantos, projectos e nostalgias, ganhos e perdas. Como o autor já nos habituou, a prosa é quente, reveladora e cúmplice do leitor, como se também este fosse conhecido de Viriato Teles; mais um mistério só possível quando se tem a intuição de um grande escritor.

    Ler Mais
  • Desabafos de um repórter que ainda acredita na paixão Open or Close

    Quando, em 1983, os jornalistas se reuniram pela primeira vez em congresso para debater a «liberdade de expressão, expressão da liberdade», o meu amigo e companheiro Fernando Alves provocou algum escândalo entre a classe ao anunciar que «os jornalistas portugueses estão a atingir o princípio de Peter da dignidade».

     III Congresso dos Jornalistas Portugueses | 1998

    Ler Mais
  • Era uma vez em Havana Open or Close

    Era uma vez um povo e uma ilha, centro de um mundo encantado no coração das Caraíbas. Era uma vez uma gente nascida do cruzamento de outras gentes, fruto da inevitável mistura de raças e de culturas produzida pelos navegadores antigos. Era uma vez uma cidade e uma revolução.

    Ler Mais