Primeiro andamento: das origens

– Em 2003 comemoras os teus 40 anos de carreira e recebes o Prémio José Afonso, depois de já teres ganho, diria eu, todas as distinções a que um artista português pode aspirar. Que significado tem para ti este prémio?

– É «a cereja em cima do bolo». É um prémio sério, um prémio muito sério. Não estou com isto a diminuir a seriedade dos outros, mas este é um prémio particularmente sério, dirigido à música, e tem o nome de uma pessoa por quem eu tive grande, grande admiração. E por quem senti ternura e respeito e alguma cumplicidade em determinados momentos que eu e ele tivemos, que foram com ele e irão comigo para debaixo da terra: cumplicidades pessoais grandes, mas motivadas sobretudo pelo respeito que eu tive pela figura do José Afonso. E depois há a outro factor, que é a minha grande admiração pelo trabalho dele. A obra do José Afonso é, para mim, uma obra cada vez mais intemporal, tem muito pouco a ver com o calendário: é uma obra pouco datada, felizmente, e isto é uma característica das pessoas especiais, aquelas que vão à frente do tempo, e o Zeca foi muito à frente. Naturalmente que as convulsões sociais vividas em Portugal terão levado a uma má compreensão do seu trabalho e até, quiçá, a algum afastamento, a algum silenciamento, a algum mau trato, tudo aquilo que a gente sabe e que é comum a estas grandes figuras. Se olharmos para a história dos povos, este tipo de pessoas foi normalmente maltratada, não é uma questão particular da história de Portugal. Mas o Zeca está muito acima disso. De modo que, com tudo isto que te acabo de dizer, talvez se perceba porque considero este prémio a cereja em cima do bolo: é o prémio que vem com o nome do génio.

– Quando começaste a cantar, em 1963, estavas numa área artística e movias-te num meio social que não era propriamente o mesmo do Zeca. Que influência é que ele acabou por ter em ti?

– Foi muito grande. Muito maior do que aquilo que eu na altura teria entendido, hoje tenho essa dimensão. Repara que eu venho de um meio muito específico, que é o meio do fado. Na altura não se sabia, mas hoje está provado que, durante o período de gestação, o bebé recebe todas as influências da mãe. Todas. E a minha mãe, por razões conjunturais da vida dos meus pais, teve de cantar até ao oitavo mês de gravidez. Cantava de xaile para disfarçar a barriguinha, mas foi um período muito difícil na vida deles. Isto são histórias que me foram contadas por ela e pelo meu pai. Eu nasci em 1939, estava a começar a guerra na Europa, havia muito desemprego, e o meu pai, que era um brilhante livreiro, esteve um período sem trabalho, sem qualquer trabalho. E portanto era necessário alguém sustentar a família, e foi a minha mãe que o fez. E lá estava eu, dentro daquela barriguinha, a ouvir fado, até ao oitavo mês. Eu sou oriundo disto. E tenho bem presente na minha memória o tempo em que ia pela mão dos meus pais, aos fins de semana, ouvir grandes figuras do fado – que nem sequer deixaram registo fonográfico – e que me maravilhavam. Depois fiz um trajecto normal, o período de escola primária e do liceu. Aos fins de semana, quando possível, continuava a ouvir aquelas figuras do fado. Portanto, aí fiquei com uma noção, vamos dizer, do que era o fado na primeira metade do século XX.

– E depois foste estudar para a Suíça...

– Sim, por desejo dos meus pais. Porque eles desejavam muito que eu soubesse línguas e me preparasse muito bem para a vida, provavelmente para fugir do meio do fado e para ter uma vida economicamente mais estável. E então, em vez de me permitirem a opção que eu desejava, que era estudar Direito, mandaram-me para a Suíça. A «manobra» foi muito bem feita e muito convincente, e eu de repente encontro-me num colégio suíço a estudar. E aí, durante uns anos, desligo-me completamente desta realidade e fico um menino snob, de ascensão social. Claro que os pais estavam na mesma, não é? – o pai empresário de casa de fados, a mãe fadista –, mas lá andava eu armado em campeão, todo menino bem, a armar aos cucos. E desligado do fado: entrei num período de contestação relativamente ao fado, achava aquilo um horror, uma canção menor. Depois regressei dos meus estudos e o meu pai morreu, precocemente. E de repente vi-me à frente d’O Faia, embora estivesse preparado para outra coisa que não para tomar conta de uma casa de fados. Mas a minha mãe não era capaz de o fazer sozinha, porque era o meu pai que geria a casa, a minha mãe era o cartaz. Então tive que retomar o contacto com aquela realidade. E ao fazê-lo tive ali um período de conflito comigo próprio...

– Isso acontece no princípio dos anos 60...

– Princípio dos anos 60, o meu pai morreu em 62. Tive ali um período de conflito comigo próprio que residia no seguinte facto: eu estava a tentar recuperar na minha cabeça o belo que vinha da minha infância e mesmo da minha adolescência, mas ao mesmo tempo estávamos na década de sessenta e eu tinha acabado de chegar de um país onde tinha recebido influências, musicais e não só, de todo o mundo. Estava num colégio onde havia alunos de umas cinquenta e tantas nacionalidades. Olha, tive como colega um irmão mais velho do Sérgio Godinho, o Fernão, que trabalha actualmente no Rio de Janeiro... E eu andava ali um bocado à procura da rolha dentro da minha cabeça. Não do ponto de vista da gestão da casa, porque, enfim, tinha acabado de tirar o meu curso na Suíça, e portanto tratou-se de pôr ali em prática todo um sistema rigoroso, profissional, que aliás resultou, porque O Faia foi uma casa de fados de muito sucesso, felizmente. O problema era a questão do fado. Porque gostar de cantar eu gostava, desde rapaz. Mas cantar o quê? De modo que andava ali à volta das canções do Sinatra, dos baiões do Luiz Gonzaga, da música do Dorival Caymmi, o primeiro cantor ecológico que conheci. E de algumas coisas do Brel, havia ali já um contacto com a musica francesa que me tocava particularmente, embora eu tivesse um «desvio» de Bécaud, houve uma altura em que aquelas canções-espectáculo de Bécaud me agradavam muito. Nunca fui muito de Aznavour, fui sempre mais de Bécaud. Aliás, em casa nós tínhamos uma «briga»: a Judite era mais apreciadora do Aznavour, eu era do Bécaud. E andava ali, depois, já no terreno do Ferré, do Ferrat e do Brel, interessado por aquele tipo de canção. Até que ouço um dos primeiros discos do Zeca Afonso, «Menino do Bairro Negro»...

– Está o Zeca em plena fase de ruptura com o tradicionalismo de Coimbra...

– Ouvi esse disco... e achei aquilo muito bizarro, era uma coisa estranha para mim: «Mas o que é que este homem quer? Isto é outro tipo de canção, isto não tem nada a ver com o que eu estou habituado a ouvir, nem com o fado nem com a canção que se canta normalmente em Portugal, a chamada cançoneta.» Com todo o respeito que uma coisa e outra me merecem, mas estou a falar à distância destes anos todos, analisando isto no tempo. De modo que eu pensava: «É estranho, isto, este homem tem uma linha estética que não tem nada a ver com o resto, isto é inovador.» Não me bastava isto, aparece-me mais um disquinho, agora do Adriano Correio de Oliveira. E eu: «Oh, diabo! Isto é mais complicado do que eu pensava, isto parece um complot.» Foi assim que eu senti isto. Por sorte, conheci o Adriano, ele gostava muito do fado de Lisboa, e fizemo-nos amigos. Tornámo-nos amigos, mesmo, e pude começar a perceber melhor o Zeca, através do Adriano. Porque o Adriano era uma pessoa que tinha uma grande fixação no Zeca, gostava muito dele. Falava-me do Zeca com uma grande ternura e um grande respeito. Curiosamente, quando conheci o Zeca constatei a mesma coisa: que o Zeca gostava muito do Adriano, gostava especialmente do Adriano. Recordo-me de, numa conversa normalíssima entre nós dois, o Zeca me dizer: «As pessoas andam para aí a falar na minha coragem, mas eu não tenho coragem nenhuma, coragem quem a tem é o Adriano...»

– Eu diria que eram ambos homens de uma coragem acima da média...

– E o Zeca enaltecia de uma maneira muito vigorosa o seu amigo Adriano. E até naquela altura em que os cantores se separaram – ou pseudo-separaram, porque uns eram de extrema-esquerda e outros eram do PCP – o Adriano nunca alinhou nisso, foi sempre uma pessoa muito fiel aos seus amigos. Isto tudo é um percurso em que eu fui ouvindo estas pessoas, tomando posição até, antes do 25 de Abril. Normalmente, por volta do 1º de Maio, a Pide fazia uma prisões, e numa dessas vezes prenderam o Zeca. E apareceram-me umas pessoas no Faia, com um abaixo-assinado dirigido ao então primeiro-ministro, que era o Professor Marcelo Caetano, pedindo para libertarem o Zeca Afonso. Que não era justo nem era correcto prender um homem, um cantor, uma pessoa tão interessante, um intelectual. E eu fiquei tão indignado ao saber que ele estava preso, que disse: «Mas não pode ser, estão a prender o Zeca Afonso! Um homem maravilhoso, que canta desta maneira... Mas o que é isto, estão a prendê-lo porquê?» E assinei. Ora, passado algum tempo, aparece-me o Zeca, com a sua boina, para me agradecer. Tivemos uma conversa, e aconteceu uma coisa giríssima: nessa noite, quem estava no Faia era o Zé Cardoso Pires, que sempre gostou de fado, sempre gostou muito de me ouvir. E eu acabei por apresentá-los um ao outro, foi interessantíssimo. E tivemos uma conversa que eu sou incapaz de transcrever, é uma vergonha para mim. Se eu te dissesse aquilo que disse ao Zeca, depois, quando ele me agradeceu... Uma vergonha! Tenho vergonha daquilo que disse ao Zeca. Mas ele foi muito tolerante comigo...

– Conta lá, que eu não digo a ninguém...

– Bom, eu «traduzo» isto sinteticamente. Eu para o Zeca: «Oh, homem, você é um grande artista, por amor de Deus, pare lá com isso, não se meta lá nessa coisa da política, você não pode ser preso!» A coisa mais ridícula que se possa pensar! Porque o Zeca, para mim estava acima disso tudo, como permaneceu. Este é o figurino que eu tenho da influência que a canção do Zeca tem sobre mim: comecei a ouvir com muita atenção, a tentar perceber o que ele pretendia, o grau elevadíssimo de qualidade e exigência, o seu inconformismo sensacional, e isso ajudou-me muito na minha inquietação fadista. Ajudou-me porque, com todo este universo (estás a ver: Brel e Sinatra, esta amalgama, depois o Chico Buarque...), com todo este interesse por todo este mundo, mas ao mesmo tempo tendo bem presente a raiz do fado de que eu gostei na minha infância, era só dar alguns passos em frente. Ou seja, respeitar as raízes, mas trabalhar no sentido de dizer assim: «Não, eu não posso estar nos anos sessenta a cantar como nos anos trinta». E assim sucessivamente. E tu, hoje, olhas para a minha discografia e compreendes que ela acompanha o tempo. Porque essa inquietação é o resultado do contributo que toda esta gente deu, mas onde está muito presente o Zeca.

In Carlos do Carmo, do Fado e do Mundo | Edição Sete Caminhos, 2003

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