Silêncio, que vai falar um homem

Que fique claro desde já: este livro não é uma biografia de Carlos do Carmo, cuja vida (e obra) está longe de poder esgotar-se numa tarde de conversa. Porque o que a seguir se apresenta a julgamento público é apenas isto: uma conversa, longa e descontraída, numa tarde de Verão. Ou, se preferirem, uma entrevista a propósito do Prémio José Afonso, este ano muito justamente atribuído a Carlos do Carmo e ao seu disco «Nove Fados e Uma Canção de Amor».

Sublinho este facto, porque ele ajuda a perceber, e talvez até a justificar, tanto a eventual circunstancialidade da prosa como as próprias circunstâncias em que foi escrita. Esta 16ª atribuição do Prémio aconteceu num ano em que o Festival de Música Popular Portuguesa, por contingências diversas, viu o seu orçamento seriamente abalado – o que gerou uma convergência de boas vontades entre alguns intervenientes no processo e outros que lhe eram alheios, no sentido de assinalar o acontecimento de forma digna e mais ou menos duradoura.

É claro que o Prémio atribuído a Carlos do Carmo se refere a um disco – um belo disco de fados –, mas não é menos verdade que a escolha premeia de facto toda uma carreira coerente e sem paralelo no universo musical português. Daí a decisão de registar esta entrevista em formato de livro – que não pretende mais do que lembrar a quem sabe e apontar pistas a quem desconheça o percurso humano e artístico do premiado. Para mais, num tempo em que se abatem inutilmente tantas árvores em nome dos mais incríveis disparates paraliterários, torna-se imperioso fixar o discurso de homens que têm coisas importantes para dizer. Como é o caso de Carlos do Carmo.

Trata-se, então, de uma conversa que teve um objectivo preciso, bem localizada no tempo, mas que não se esgota, creio eu, nos seus limites temporais. Porque do que aqui se fala é dos fados de todas as épocas, histórias da História recente, da música e das pessoas, dos sentimentos e das cumplicidades, do mundo que deixaremos a filhos e netos. Carlos do Carmo percorre as canções que criou, os poetas que trouxe para o fado, dá conta das dúvidas e põe em causa as certezas. E fala, sem complexos, das mudanças que se verificaram na sua maneira de encarar o mundo depois de ter estado, por duas vezes, literalmente às portas da morte.

Carlos do Carmo é o décimo sexto vencedor do Prémio José Afonso, e o primeiro fadista a quem é concedida esta distinção. Não porque, entre os jurados, haja qualquer má vontade de princípio contra o fado, bem pelo contrário – e a prová-lo está a quantidade de discos de fado que todos os anos são seleccionados para apreciação pelo júri do Prémio –, mas simplesmente porque, por uma questão de elementar justiça, Carlos do Carmo tinha de ser o primeiro.

Porque, sejamos claros, Carlos do Carmo não é um fadista qualquer. Ao longo dos últimos 40 anos, ele esteve sempre na linha da frente da renovação do fado e, por consequência, é um protagonista activo do rejuvenescimento da música portuguesa. Do seu património fazem parte muitos dos actuais clássicos do fado, de «Canoas do Tejo» a «Lisboa Menina e Moça», passando por «Um Homem Na Cidade», «Os Putos» ou esse espantoso «Estrela da Tarde». Em todos eles, Carlos do Carmo nunca optou pela facilidade, como nunca abdicou de procurar novos rumos. E essa capacidade de renovação permanente, sem nunca atraiçoar a sua origem fadista, justificaria por si só a distinção que lhe foi atribuída.

Filho da referencial Lucília do Carmo e do empresário de restauração Alfredo de Almeida, Carlos do Carmo nasceu e cresceu a ouvir o fado. Aos oito anos já cantava o fado, e há disso testemunho em gravação caseira, com o lendário Carlos Ramos no papel de acompanhante... Após completar o ensino liceal, foi estudar gestão hoteleira para a Suíça e, embora já gostasse de cantar, estava longe de se ver como fadista – e menos ainda empresário de casa de fados. Mas a morte prematura do pai, em 1962, levou-o a tomar conta dos destinos de O Faia – e reaproximou-o do fado. Foi assim que concretizou a primeira gravação, um tema que tinha sido popularizado por sua mãe, incluído num 45 rotações do Quarteto de Mário Simões – «Mário Simões e o seu Quarteto Apresentando Carlos do Carmo» era o título do disco, «Loucura» a canção interpretada pelo jovem Charmoso – como seria anos mais tarde alcunhado pelo poeta José Carlos Ary dos Santos, com quem manteve uma longa e criativa parceria.

Iconoclasta do fado, Carlos do Carmo rapidamente ganhou numerosos admiradores – e também os primeiros detractores, que não lhe perdoavam as referências extra-fadistas que marcam desde sempre a sua música e que abrangem um vasto leque de géneros e de estilos. Admirador confesso de Brel, Sinatra, Elis Regina, Zeca Afonso e Chico Buarque, o cantor nunca se preocupou grandemente com o que dele diziam os puristas do fado, incapazes de compreender que a música só se mantém viva quando traz em si a capacidade de renovar. E é por isso que o podemos ouvir cantar, com a mesma paixão, «La Valse à Mille Temps» de Brel, a «Pedra Filosofal» de Manuel Freire, a «Pequeña Serenata Diurna» de Sílvio Rodríguez, ou «I’ve Got You Under My Skin» de Sinatra. Sem nunca deixar de ser fadista.

Ao longo destes anos, Carlos do Carmo ganhou quase todos os prémios a que um artista português pode aspirar: entre muitas dezenas de distinções, recebeu a Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de Mérito da Cidade de Lisboa, é cidadão honorário do Rio de Janeiro e membro do Claustro Ibero-Americano das Artes, foi agraciado pela Sociedade Portuguesa de Autores e pelo Senado de Rhode Island, pelo contributo que deu para a divulgação da música portuguesa nos Estados Unidos. O Prémio José Afonso é, como ele próprio diz, «a cereja em cima do bolo».

A juntar a tudo o que ficou dito, soma-se uma outra razão, de carácter afectivo, para justificar este livrinho. Quando cheguei a Lisboa, em fins dos anos 70, decidido a fazer do jornalismo o meu modo de vida, Carlos do Carmo foi uma das primeiras pessoas que entrevistei. Encontrámo-nos uma noite, no seu escritório adjacente a’O Faia, no coração do Bairro Alto, e creio não exagerar se disser que não foi preciso muito tempo para nos darmos bem. O tempo encarregou-se de solidificar a união.

É verdade que, feitas as contas, nos últimos vinte anos não nos teremos encontrado duas vezes vinte vezes – como, a propósito de Zeca Afonso, escreveu o meu amigo e mestre Fernando Assis Pacheco. Mas tanto eu como o Carlos sabemos que não é necessariamente a assiduidade que faz os amigos. É sobretudo o respeito mútuo, a compreensão, o estar lá – tudo aquilo a que vulgarmente se chama cumplicidade. E, essa, creio que nunca deixou de existir, tanto nas pontuais noites de copos que partilhámos como nas belas discussões que tivemos – e algumas bem acesas, porque isso faz parte das regras da amizade.

Venho duma época em que Portugal era, dizia-se, dominado por três éfes: Fátima, o futebol e o fado. Trinta anos passados sobre a manhã de todas as esperanças, a diferença é que o futebol se transformou numa nova religião, cujos deuses, mitos e interesses coabitam tranquilamente com os de Fátima. Ao fado, muitos querem que reste não mais que a função puramente recreativa. Não é esse, nunca foi, o caso de Carlos do Carmo, e por isso a sua música, sendo fado, é também uma música do mundo. E sendo universal, continua genuína e generosamente lusitana.

Publicar este livro é, pois, um acto de justiça a sublinhar um prémio mais do que merecido. Mas é também o testemunho de um reencontro, o balanço de uma carreira sólida dedicada ao que há de melhor na música portuguesa, e talvez mesmo um ponto de partida para a compreensão plena da arte maior de Carlos do Carmo. Que vem do fado e vai para o fado, sem nunca fechar as portas a todos os sons do mundo. E agora, silêncio, que vai falar um homem.

In Carlos do Carmo, do Fado e do Mundo | Edição Sete Caminhos, 2003

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