Contas à Vida

Histórias do tempo que passa | Sete Caminhos 2005

Esquecer Abril

Ao escolher os seus entrevistados, é nítido que o autor teceu uma teia de afectos que nos enreda à medida que vamos mergulhando neste livro com o vagar das coisas que realmente dão prazer. Mais do que o papel do entrevistador, Viriato Teles encarna o mestre de cerimónias de uma festa que já só acontece na memória de quem aceitou sentar-se a falar. Como num encontro de velhos amigos, há ternuras e rancores antigos, confissões, relatos do que se passou desde o último encontro. E percebemos que os entrevistados, muitos deles protagonistas da revolução, formam um caleidoscópio de palavras que é também a memória que o perguntador quer pintar da «sua revolução». Jornalista e poeta de generosidades, Viriato Teles só pode relatar o seu 25 de Abril nas palavras dos outros e fá-lo com arte e minúcia próprias de mestre ourives. Se vamos esquecer Abril, que seja com este livro.

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Contas à Democracia

Não é filósofo, nem sociólogo, tampouco analista político. Viriato Teles é apenas um português embrenhado no seu tempo, que vive a vida interpelando-a, com o dom superior de saber ouvir vozes individuais para, registando-as na palavra escrita, as devolver, plenas e inquiridoras, ao colectivo a que pertencem. (...) São 20 conversas desatadas por entrevistas a personalidades de diversas áreas da sociedade nacional, que viveram a revolução com frémito e esperança; não lhes é perguntado onde estavam no 25 de Abril, mas onde está e para onde vai o 25 de Abril; são as parcelas da prova dos nove que nos desfralda uma verdade irrefutável: Abril está na prática quotidiana da denúncia da injustiça, no inconformismo e na luta pela felicidade, o combate que legitima o homem, agora e sempre.

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Entrevista a A Capital

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Um autor português de 47 anos já não sabia muito bem onde estava o 25 de Abril e resolveu fazer «contas à vida». À sua e à de nós todos. Juntou pontos - e não só de interrogação -, fez cálculos, recuperou memórias, e, após ser desafiado por uma editora, pôs mãos à obra. O livro está desde hoje nas livrarias com o título Contas à Vida - histórias do tempo que passa. São vinte conversas com vinte personalidades da vida pública portuguesa que têm algo a dizer - e dizem! - sobre o 25 de Abril.

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Contas sem ajuste

+  Contas sem ajuste

Contas à vida sem ajuste. Mais cansaço do que desalento. Mais sonho adiado do que utopias erradas. Mais que documentos são testemunhos estas vinte entrevistas: uns, mais intimistas; outros, mais interventivos. Encontramos neste livro um universo multifacetado, mas que tem uma matriz política, ética, estética e cultural, o 25 da nossa memória, como que pequenos afluentes que vão desaguar no grande rio.

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Onde é que está o 25 de Abril?

+  Onde é que está o 25 de Abril?

Desde já confesso: sou culpado. Culpado de ter vivido intensamente o 25 de Abril e os dias levantados que se seguiram. Estava em Ílhavo, quando tudo começou, mas ninguém é perfeito. Era jovem e pensava. Éramos imortais, e não queríamos perder tempo. Queríamos o mundo, e tínhamos o mundo. Em ano e meio, fizemos de um país tristonho uma pátria onde valia a pena sonhar. E sonhámos, e vivemos horas que ninguém nos tira. Depois, a vida real impôs-se e mostrou-nos que há um preço para tudo, até para os sonhos. Pagámos por isso, e muitos de nós continuam a pagar. E, afinal, qual é o preço da nossa culpa? Quisemos ser felizes. E isso é crime?

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Alberto Pimenta

+  Alberto Pimenta

Nasceu no Porto, viveu na Alemanha e está em Lisboa. Em 1977 deu-se em exposição numa jaula da aldeia dos macacos no Jardim Zoológico de Lisboa. Catorze anos depois colocou-se à venda, no Chiado, por conta de uma «divisão de recursos humanos do Estado». E catorze dias mais tarde fez um auto-de-fé de O Silêncio dos Poetas na Feira do Livro de Lisboa. De todos os seus livros, esse é aquele que os intelectuais dominantes mais levam a sério, e fazem mal. Deveriam ler também Labirintodonte, Os Entes e os Contraentes, Ascensão de Dez Gostos à Boca, Discurso Sobre o Filho-da-Puta, Terno Feminino, A Visita do Papa, Deusas Ex-Machina. E os outros, todos, que publica com a regularidade possível desde 1970.

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António Pinho Vargas

+  António Pinho Vargas

Um homem que fala através de um piano. Foi assim que há muitos anos conheci o António, éramos os dois algo mais jovens e talvez menos intranquilos. Tenho ideia de que na altura ele tocava na banda do então recém-descoberto Rui Veloso, mas já tinha vivido uma mão-cheia de experiências noutros grupos de diferentes tendências. Era, como é, um tipo discreto e já um nome conceituado da música que se fazia em Portugal. Do jazz fazia, nesse tempo, o seu meio de expressão mais comum, mas nunca o único, e a sua marca fez-se sentir muito cedo. Com ele passou a haver uma maneira portuguesa de fazer e sentir o jazz, de fazer e sentir a música. A maneira de António Pinho Vargas.

+ António Pinho Vargas

Baptista-Bastos

+  Baptista-Bastos

Se procurarmos a chave dos afectos de Armando Baptista-Bastos, chegamos sem esforço à palavra Dignidade. Assim mesmo, com D maiúsculo. É por ela e pelo que ela significa que esta personagem maior do jornalismo português pagou sempre um preço caro, mas não me lembro de ver nele uma réstia de arrependimento – e já o conheço há largos anos. O Armando, como lhe chamam os amigos, o Bastos, como dizem os colegas, o BB, como o conhecem quase todos, chamem-lhe o que entenderem, mas ele é assim, e não há nada a fazer. Intransigente, maroto, bebedor, brigão, são adjectivos que lhe ficaram colados à pele, como outros: frontal, corajoso, competente, leal. E ele é um pouco de tudo isso, e ainda mais.

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Fausto Bordalo Dias

+  Fausto Bordalo Dias

É um homem discreto e um artista exigente. Gosta de estar com os amigos e não volta costas a um arroz de lampreia nem a uma boa conversa. A música que faz situa-se num patamar superior do espectáculo, em Portugal e no resto do mundo, mas não é isso que o faz correr. (...) É assim o Fausto. Sereno, leal, intransigente em tudo aquilo que considera ser o essencial, tanto na vida como na arte – sendo que a arte é simplesmente uma forma superior de vida. É um homem de convicções – políticas, humanas, estéticas – mas nunca quis ser um homem de certezas. Amigo certo e adversário temível, mantém desde sempre uma relação de distância tanto com o poder político como com o poder mediático, e nunca se vergou perante nenhum. Porque há homens que não têm preço nem querem perder a honra: os homens dignos, como este.

+ Fausto Bordalo Dias

Fernando Relvas

+  Fernando Relvas

Vai, de certeza, implicar comigo porque lhe chamei «autor de banda desenhada», e se calhar tem razão. Porque a arte de Relvas não se limita às histórias aos quadradinhos que durante anos iluminaram algumas páginas da imprensa portuguesa. Mas ainda não se leva a sério o suficiente para se julgar pintor – e faz mal, porque é isso que realmente é. Pronto, digamos então artista plástico. Mas nunca de plástico. Fernando Relvas é também, ou sobretudo, um contador de histórias. Com meia dúzia de traços consegue fazer-nos viajar pelas rotas das caravelas ou pelos subúrbios da grande cidade, sempre com um humor acidulado onde se cruzam ora um hiper-realismo estonteante, ora uma forte carga erótica, ora ainda a mais pura crónica de actualidades.

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Francisco Louçã

+  Francisco Louçã

Os amigos gabam-lhe a afabilidade, o sentido de humor, a clareza do discurso, a boa educação. Os adversários vêem nele um político frio e calculista. Mas todos lhe reconhecem a inteligência superior, a competência política, a combatividade. É o único dirigente político a quem os correlegionários tratam pelo diminutivo: o Chico, o camarada que dirige sem precisar de ser secretário-geral ou presidente. Um entre iguais, porém diferente de todos os outros. (...) Há 30 anos, acreditava que o mundo podia mudar num instante. Hoje, sabe que o mundo muda a cada instante. E tenta fazer a sua parte.

+ Francisco Louçã

João Soares

+  João Soares

Este homem andou a enganar uma data de gente durante vários anos. Ou então foi uma data de gente que se enganou a si própria, talvez por culpa das circunstâncias e de alguns preconceitos. O certo é que, por bastante tempo, muitos o viram apenas como «um filho do pai». Até que um dia foi eleito para a Câmara de Lisboa, primeiro como vereador e depois como presidente. Ficou por lá uma dúzia de anos, e transformou a cidade num lugar onde vale a pena viver.

+ João Soares

José Mário Branco

+  José Mário Branco

Poucos dias passados sobre o 25 de Abril, ele foi o primeiro a definir quais deviam ser os cânones da canção de intervenção, numa reunião de cantores que integraram o Colectivo de Acção Cultural, nascido no alvorar da revolução, e que eram quase todos os que vinham da canção de protesto que marcou os últimos anos da ditadura. O exemplo do que deveria ser feito, agora que o fascismo estava derrubado e a liberdade fora alcançada, apresentou-o José Mário Branco nesse dia. Chamava-se Alerta e marcou a estreia da canção-de-combate após a revolução.

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Maria Teresa Horta

+  Maria Teresa Horta

Uma mulher que gosta de ser mulher e por isso não se conforma com aquilo que dizem ser o destino das mulheres. E por isso luta, e por isso escreve, e por isso grita. Eis Maria Teresa Horta, mulher e escritora que a partir dos anos 60 se afirmou como uma voz central da poesia portuguesa, pela coragem de romper com estereótipos e tabus que pareciam inquestionáveis.
O corpo, o prazer, o sexo, eram então coisas sobre as quais uma senhora não deveria falar, muito menos em público. E por isso quando, em 1972, se junta a Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa para a publicação das Novas Cartas Portuguesas, o escândalo foi tremendo: o livro foi apreendido e as autoras levadas a julgamento.

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Mário Alberto

+  Mário Alberto

Baptista-Bastos chamou-lhe «um predador com asas de anjo, um ser cada vez mais raro». E Joaquim Letria assinala-lhe «a franqueza de quem nunca foi hipócrita e é sensível às coisas importantes da vida». Os amigos, todos eles, e até os inimigos, sabem que é verdade. Nasceu em Lubango, Angola, cresceu no Alentejo, e viveu a maior parte da vida no Parque Mayer, cujos segredos conhece como poucos. Antifascista irredutível, militante do sarcasmo e heterossexual assumido, habituou-se a praticar o humor e o amor com igual intensidade e o mesmo empenhamento.

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Padre Mário de Oliveira

+  Padre Mário de Oliveira

Era capelão das tropas portuguesas na Guiné-Bissau, e nessa condição ousou pregar a Paz. Mas o tempo era de guerra, ainda que esta fosse uma guerra particularmente injusta. E Mário de Oliveira, o capelão pacifista, acabou com guia de marcha para a «metrópole», como então se chamava a Portugal continental. Não esteve mais de quatro meses no teatro de operações, mas foi o suficiente para perceber que, se queria espalhar a palavra de Jesus Cristo, teria de, como Ele, sujeitar-se à raiva e à incompreensão dos poderosos.

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Otelo Saraiva de Carvalho

+  Otelo Saraiva de Carvalho

À conversa, tende com alguma frequência a falar de coisas colectivas na primeira pessoa, mas que outra coisa poderá fazer o homem que delineou a «ordem de operações» e controlou todo o desenvolvimento do golpe militar de 25 de Abril? Não viveu a festa desse dia nas ruas, mas foi ele quem a tornou possível: do quartel-general do MFA, instalado no Regimento de Engenharia 1 da Pontinha, coube-lhe gerir cada passo dos capitães, desde a saída dos quartéis até à tomada do Carmo por Salgueiro Maia. (...) Fala com o coração, mas sabe modelar o discurso com a habilidade do actor que quis ser (...). Não chegou a concretizar esse desejo, mas coube-lhe em sorte o papel central na aventura que mudou as nossas vidas.

+ Otelo Saraiva de Carvalho

Vasco Gonçalves

+  Vasco Gonçalves

Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi o Primeiro-Ministro de Portugal, e esse foi o tempo mais gratificante da sua vida. Aos 452 dias iluminados que então viveu, mais de dez mil horas quase todas vividas de olhos abertos, juntem-se-lhe todos os outros e as noites e as madrugadas acesas que fizeram o ano e meio da Revolução. (...) Vasco, o Companheiro Vasco, foi o único ocupante do Palácio de São Bento a quem o povo concedeu o gosto de tratar pelo nome próprio. Os adversários e os inimigos vingaram-se, inventando o gonçalvismo – tentanto resumir num homem aquilo que para eles era a fonte de todos os medos, mas que mal ou bem nascia dos mais puros anseios de um povo que, pela primeira vez na história recente, tinha como chefe do Governo um homem que o escutava e, mais importante, o compreendia.

+ Vasco Gonçalves

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  • O grande poeta menor Open or Close

    Torrencial, apaixonado, firme, exuberante, truculento, corajoso. Qualquer destes adjectivos cabe em José Carlos Ary dos Santos, mas nenhum deles chega para qualificar plenamente o homem, o poeta, o militante. Em Ary, o todo é sempre mais do que a soma das partes, e estas nunca são estanques entre si: Ary foi o poeta que foi por ser o militante que era, e não poderia ser uma pessoa diferente sem trair tudo aquilo que constituía a sua própria razão de ser.

    Diário de Notícias | 18.Jan.2014

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  • Do lado esquerdo da América Open or Close


    Nascido em Nova York a 3 de Maio de 1919, Pete Seeger é desde há meio século muito mais do que um mito da história da “folk song”. Militante da música como forma de alertar as consciências adormecidas, Seeger permanece como um símbolo de várias gerações de “insatisfeitos”, acreditando firmemente que vale a pena resistir. Norte-americano por nascimento, ele é, no entanto, uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos.

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  • Crónica de uma morte antecipada Open or Close

    A vida é frequentemente injusta, sobretudo para aqueles que mais a amam. António Assunção era um desses, e nem o seu aparente mau feitio conseguia esconder esse grande gosto de viver que animou toda a sua existência. Homem e actor coerente com os princípios da justiça, liberdade e igualdade que tomou como seus desde muito novo, fez sempre questão de não ceder naquilo que considerava ser o essencial. Pagou por isso, claro. Com o ostracismo a que muitas vezes foi votado, apesar de ser unanimemente considerado no meio teatral como um dos seus praticantes mais talentosos. E, porque era de esquerda, convicta e assumidamente de esquerda, viu-se também alvo do desprezo dos vários poderes. Um desprezo, de resto, que de certa forma o divertia e que ele retribuía em dose reforçada.

    Grande Amadora | 28.Ago.1998

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  • O grito de guerra dos genes Open or Close

    Ernesto Guevara, chamado o Che, era um homem complexo e dinâmico — diferente de outros, lineares, cinzentos, sempre iguais de tão monotemáticos. Não falo do revolucionário, nem do homem de Estado, nem do pai de família, nem do amante, nem do aventureiro; falo do homem que continha em si todos esses homens... Repito: era um homem complexo, profundo, crítico e sumamente vital. O Che morreu muito jovem, mas morreu obcecado com a vida que ainda poderia construir-se; Fidel agarra-se à vida com unhas e dentes, ainda que apenas fale de morte.

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