Baptista-Bastos

© Luísa Ferreira

Escritor e jornalista
Tinha 40 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Lisboa

Se procurarmos a chave dos afectos de Armando Baptista-Bastos, chegamos sem esforço à palavra Dignidade. Assim mesmo, com D maiúsculo. É por ela e pelo que ela significa que esta personagem maior do jornalismo português pagou sempre um preço caro, mas não me lembro de ver nele uma réstia de arrependimento – e já o conheço há largos anos. O Armando, como lhe chamam os amigos, o Bastos, como dizem os colegas, o BB, como o conhecem quase todos, chamem-lhe o que entenderem, mas ele é assim, e não há nada a fazer.

Intransigente, maroto, bebedor, brigão, são adjectivos que lhe ficaram colados à pele, como outros: frontal, corajoso, competente, leal. E ele é um pouco de tudo isso, e ainda mais. É dos poucos jornalistas portugueses que deixa uma marca na escrita do século XX, só comparável à que Camilo deixou no século XIX: mais do que um estilo, BB criou uma escola. E continua a ser uma referência iniludível da arte de bem escrever.

Baptista-Bastos pratica um jornalismo em vias de extinção, um jornalismo que não vira a cara nem teme sujar as mãos. Num tempo dominado pelos compadrios e pelo triunfo da incompetência, ele é uma voz incómoda e que, por isso, muitos gostariam de silenciar. Mas não se cala. Escreve, protesta, grita, continua a indignar-se. E não se vende, porque faz parte de uma categoria de homens orgulhosos da sua honra.

Para a minha geração, Baptista-Bastos é – como a seu tempo o foram Afonso Praça, Assis Pacheco, Miguel Serrano, Jacinto Baptista, Adelino Tavares da Silva, para citar apenas alguns que me tocaram directamente – um símbolo do jornalismo que vale a pena. Sem retoques nem remoques, directo e verdadeiro, atento às palavras e, sobretudo, às pessoas. O que é o mais importante de tudo.

Mas o Armando Baptista-Bastos é também um grande, magnífico ficcionista. Provou-o cedo, n’O Secreto Adeus e n’O Passo da Serpente, e confirmou-o ao longo dos anos: com Cão Velho Entre Flores, publicado no ano da revolução, e depois com Viagem dum Pai e dum Filho Pelas Ruas da Amargura, Elegia Para um Caixão Vazio, A Colina de Cristal, Um Homem Parado no Inverno, O Cavalo a Tinta-da-China são grandes monumentos literários que vale a pena visitar. No Interior da Tua Ausência é o seu título mais recente. Um romance pessoalíssimo, contado como só ele sabe. E ele sabe.

Em 40 anos de literatura, Baptista-Bastos escreveu não mais do que oito romances. E reuniu em apenas sete livros uma ínfima parte da imensidão de prosa diária que produziu em cinco décadas de jornalismo. Porque não é um homem fácil, não cede na exigência de rigor, da palavra certa e certeira, do verbo exacto. Sabe que «podemos fugir, mas não nos podemos esconder». E ele não foge, nem se esconde.

– Começo com a pergunta de Jorge de Sena que usaste como epígrafe do teu romance Um Homem Parado no Inverno: «Que Portugal se espera em Portugal?»

– Neste momento, a minha perspectiva é particularmente pessimista porque a extrema-direita está a ocupar o espaço cultural que habitualmente pertencia à esquerda, nos jornais e, também nas televisões, em particular na RTP 2. Isso significa que a esquerda não tem tido resposta para isto, e a direita cavalga tranquilamente. E é uma direita perturbadora, porque se apresenta desprovida (ou aparentemente desprovida) de concepções ideológicas, mas representa, de facto, uma ideologia. Sob a capa do pragmático, sob a capa da necessidade de adaptação aos tempos e sob a capa da «modernidade» – três ou quatro palavrões que a estrutura dos poderes utilizam para nos manipular. Nós sabemos através da imprensa estrangeira, da própria CNN e da Sky News, o que está a acontecer nos Estados Unidos, mas a imprensa portuguesa não reflecte a grande inquietação que ali se vive sobre os acontecimentos do Iraque...

– Isso é preocupante...

– É. Mas, por outro lado, este meu cepticismo também pode encontrar fendas e estremeções, e o que aconteceu em Espanha foi significativo: todas as sondagens davam uma larga margem de vitória ao Aznar. E de repente há o despertar, entre os espanhóis, de uma consciência que eu considero muito mais importante do que a consciência ideológica ou política: é a consciência moral. Na nossa História isso também aconteceu, por exemplo em 1383, 1640, 1820, 1910, 1974: há uma consciência moral da população portuguesa que determina o seu próprio envolvimento na História. O que é que isso explica? Explica, no nosso caso, que em certas ocasiões o português decide ser sujeito da História e não quer ser o espectador passivo. É um interveniente na própria História. E isso é que me leva por vezes a considerar que a esperança tem sempre razão. Mas com a substituição de um governo do PSD por um governo do PS, eu penso que as alterações são mais epidérmicas do que outra coisa...

– Mas é suposto o PS ser um partido de esquerda...

– Repara que o primeiro governo do Guterres foi dos mais bem apetrechados que este país teve, eram pessoas com uma consciência de esquerda: tinha o João Cravinho, o Maranha das Neves, o Ferro Rodrigues, o Mariano Gago; tinha várias pessoas interessadas em dar a volta a estas coisas. E o Guterres correu com eles. O Guterres, cada vez que via um socialista ficava assustadíssimo! Aconteceu no parlamento, houve várias pessoas, socialistas sem aspas, que o Guterres afastou. Eu não sei o que é o «socialismo cristão», não faço a mínima ideia, nem sei se é uma categoria da ciência política; e quando o Guterres diz que faz o socialismo cristão, então não percebo mesmo nada disto! Este é um dos problemas portugueses. O PC está completamente esvaziado de conteúdo, não tem resposta para isto. Quer dizer: os intelectuais portugueses de esquerda, ou com pensamento de esquerda, lêem o [Jacques] Derrida, o [Jürgen] Habermas, estão a voltar a ler o Walter Benjamim, mas não chega, porque não há resposta para isto. Tínhamo-nos – eu próprio o fiz – tínhamo-nos socorrido do Pierre Bourdieu, porque para ver qual é a perspectiva, o que é que a gente tem que pensar sobre isto, temos que ir aos textos, evidentemente. Mas o Pierre Bourdieu morreu. E depois as coisas ficam... Basta ler os jornais, nós ficamos um bocado desasados: os jornais não têm debate, não suscitam reflexão. Mas suscitavam no tempo do fascismo...

– Se calhar é também por isso que hoje se lêem menos jornais do que no tempo do fascismo...

– Hoje lêem-se muito menos jornais. As pessoas que querem tapar o sol com uma peneira dizem que a culpa é da televisão. Não é nada da televisão! Uma das melhores televisões da Europa, senão a melhor, era a italiana, antes do sinistro Berlusconi. Com debates, com informação. A Itália é um leito de nações, tem problemas idiomáticos gravíssimos. E mesmo assim, com aquela televisão, a Itália tem o La Republica que tira muitos milhares de exemplares por dia, tem o La Stampa, o Corriere della Sera, tem revistas de teatro, de cinema, de literatura, de tudo! E há grandes debates em Itália. Basta ler o [António] Tabucci, no Diário de Noticias, verifica-se que há um grande debate em Itália. Que estão a tentar esmagar, mas que é difícil porque o debate é vivo. Aqui não há nada!

– O problema, se calhar, é que eles também têm jornalistas e nós cada vez temos menos. Aqui há uns anos, tu dizias que havia...

– ...trinta jornalistas e o resto eram simpatizantes! Agora é capaz de haver uns vinte e oito. Mas também há mais pessoas inscritas no Sindicato...

– Portanto haverá mais simpatizantes...

– Há quase quatro mil figuras que se dizem jornalistas. Nunca ninguém deu por isso, mas eles dizem-se jornalistas... Bom, mas a verdade é que, por exemplo, nós ouvimos o Pacheco Pereira, lemos o José Manuel Fernandes e outros trompetistas dos Estados Unidos, nós lemos aquilo e não acreditamos! No entanto, o Pacheco, nos últimos tempos, parece ter despertado de uma espécie de letargia e readquiriu a lucidez crítica.

– E ainda há o Luís Delgado...

– Esse é ilegível, porque é um rematado imbecil! Mas como é possível que o Pacheco Pereira tenha dito que a intervenção no Iraque foi necessária?! Não pode, é uma desonestidade intelectual que me leva à maior das indignações! E, vamos lá a ver, defenderei sempre a liberdade de opinião, e de forma alguma obstarei a que o Pacheco Pereira diga o que quiser. Estou é contra a desonestidade intelectual, que o tem impelido a dizer enormidades. O Nuno Rogeiro, por exemplo, fornece-nos uma massa de informação que nos possibilita reflectir sobre os factos e analisá-los. É uma pessoa conservadora, ele próprio diz que é um «nacionalista republicano» (também não sei o que quer ele dizer com isso), mas a verdade é que as intervenções dele são de molde a nós reflectirmos acerca do que está a acontecer. Porque as televisões não dizem nada do que está a acontecer no Iraque! Mas que raio de liberdade é aquela onde as pessoas andam a matar-se umas às outras? E tem de se dizer às pessoas quais são as Igrejas que estão metidas naquilo: neste momento, a Igreja dos Cristãos Renascidos, de que Bush é fanático assecla, tem cerca de 500 milhões de seguidores no mundo. O Bush é um «renascido»… Renasceu do álcool, como se sabe, e «purificou-se» numa agressividade fascistóide…

– Bom, já estamos a derivar para o mundo, mas deixa-me regressar ainda a Portugal. Já houve quem tentasse dizer que o 25 de Abril foi uma evolução em lugar de uma revolução. Afinal o 25 de Abril foi o quê?

– Continuo a pensar que foi uma revolução, apesar de tudo. Eu viajo muito pelo país, o meu editor pede-me para ir a várias escolas e eu gosto muito dessas coisas, de modo que, quando tenho disponibilidade vou, gosto de poder transmitir alguma coisa aos mais novos. E o que se verifica é que o país mudou, sobretudo o Norte. De Coimbra para cima houve uma alteração qualitativa nas mentalidades das pessoas: o que era aqui há anos uma área conservadora – e mantém, claro está, essa singularidade, mas há alterações qualitativa feitas da parte dos tipos mais novos. Aqui há tempos estive em Viseu na Escola Emídio Navarro (eles não sabiam quem era o Emídio Navarro, também ninguém lhes explica, os professores também não sabem, tive de lhes dizer que foi um grande jornalista, que era daquela zona...) e a páginas tantas estava perante cerca de quatrocentos alunos. Estive quatro horas a falar com eles! E fiquei extremamente jubiloso, se posso utilizar este termo, porque o conteúdo geral das intervenções dos alunos, quer de rapazes quer de raparigas, era assim: «Você está completamente enganado, isto aqui não é o Cavaquistão. Aqui há pessoas que são adeptas do Cavaco, ou daquilo que ele representa e significa, mas há uma parte das pessoas que não o é, e em particular nós». Bom, e o molde das perguntas era por exemplo este: «O que é que o senhor fez para alterar esta situação?» E eu tinha de me encolher, se calhar também sou culpado. E a minha geração é culpada, porque foi a minha geração que pôs estes gajos no poder, esta é que é uma verdade!

– Mas então a minha geração também é culpada, porque estes gajos são da minha geração...

– Pois é, é um bocado isso! A verdade é que há uma responsabilidade colectiva nisto. E não tenhamos dúvida, porque não é só a rábula do voto, é a falta de consciência social e moral. Mas eu tenho a impressão que isto está a estremecer, está a mexer. As pessoas já entenderam que não é só nos partidos que reside a luta pela democracia. Reside também, sei lá!, olha, nesta conversa que estamos aqui a ter, nas conversas que temos com os nossos amigos, na troca de ideias e de impressões, pois nós aprendemos com isto, não é? Agora, há coisas que me deixam surpreendido. Ou que, se calhar, não me deixam tão surpreendido quanto eu supunha, em função daquilo que eu penso. É o caso do Alentejo, que era tradicionalmente a zona da resistência, e está de braços caídos! É um bocado inquietante. No Norte, não: as coisas estão mais animadas e animosas, há núcleos de leitores de livros, são muito críticos em relação ao que se passa, por exemplo, na literatura portuguesa...

– Tu também és...

– Eu também sou muito crítico, acho que a literatura portuguesa está toda ela uma grande merda. Porque as pessoas estão a contar as suas vidinhas sem terem vidas para contar. E há aquelas mundanices da apresentação dos livros… Acho uma desonestidade haver escritores que publicam livros de dois em dois anos de duzentas e tal páginas! E alguns ainda fazem uns ameaços porque no meio publicam uns contos... Isto é impossível, ninguém o consegue fazer respeitando a ética subjacente à literatura! Porque, evidentemente, a experiência transforma-se sempre numa consciência, a consciência é um resultado da experiência. E que experiência tem esta gente? Eu duvido de escritores e escritoras que nunca tivessem tido dor de corno, que nunca se embebedassem, que nunca tivessem andado à porrada. Não são escritores, são «escritórios», com prosa genuflexa.

– Para escrever é preciso viver, não é?

– O Proust viveu intensíssimamente, ao contrário do que se diz. Não foi só dentro do quarto que ele mergulhou e começou a escrever, não é só isso: ele viveu intensamente. Até a própria dor, por ele dramaticamente sentida, de ser homossexual. Agora, a gente vê estas coisas... E isto tem tudo a ver com o 25 de Abril, porque o 25 de Abril continua a ser o dia do meu coração, é o dia onde nós fomos de facto protagonistas da História, estávamos ali a interpretar e a representar a História. E a fazê-la! E agora o que é que a gente vê? Lemos nos jornais coisas extraordinárias: no Diário de Noticias faz-se uma crítica literária que não tem pés nem cabeça, é um reflexo mimético da crítica que fazia o Gaspar Simões há cinquenta ou sessenta anos. Não tem significado, aquilo, não há uma linha cultural. Depois, vamos ler o Mil Folhas, do Público. É outra desgraça. Basta ver quem é que eles põem na capa do suplemento, as omissões gravíssimas que fazem! O Expresso? Bom, isso então é assustador! O Expresso já teve o descoco de pôr na capa da Revista a grande cantora Ágata, e não contente com isso uns meses depois fez o mesmo com a história do adultério do Jorge Nuno Pinto da Costa. Que é isto?
 
– Há quem ache que é o que vende...

– E depois eu pergunto: mas quem é um tipo chamado Lima, que escreve lá umas coisas absurdas e absolutamente injuriosas para as pessoas e para aqueles que atravessaram os cinquenta anos da vida portuguesa, durante o fascismo, com lisura exemplar? Quem é o senhor arquitecto Saraiva, que é um dos maiores medíocres que apareceu na imprensa portuguesa? Nunca vi uma coisa assim: de uma mediocridade assustadora e, por isso mesmo, uma criatura cheia de azedume, de rancor e de ressentimentos. Basta ler o livro dele, que me apressei a comprar porque pertence aos domínios dos meus divertimentos particulares: eu quando estou com dores de dentes vou ler o livro do José António Saraiva e fico logo sem dores de dentes porque me escangalho a rir. Aquilo não é megalomania, aquilo é tolice, é uma tolice desamparada! Ele não passa de um espinoteanto tolejo.

– Mas a tolice está instituída, e foi elevada ao grau de virtude...

– Eu sei que a tolice é o que está a dar! Mas depois eu não sei o que é que as pessoas pensam disto, as pessoas comuns: nós vamos aos cafés, vamos à praça e aos supermercados, e ouvimos tudo a queixar-se. Isto significa o quê, em termos de sociologia? Não faço ideia! Eu deixei de ir aos sítios porque me irrito. Deixei de ir às mundanices da literatura – aliás não era muito fadista para essas coisas – porque me irrita a arrogância de certos escritores e de certas escritoras. Já tenho uma vida, tenho setenta anos, e já assisti à nomeação de uma série de «grandes escritores» que depois deixaram de o ser rapidamente: grande escritor Vergílio Ferreira, grande escritor Alves Redol, grande escritor Cardoso Pires, grande escritor Abelaira, grande escritor Namora! E depois deixaram de o ser. Porque não são os jornais, esses instrumentos sinistros de uma falsa comunicação, que deificam os autores. É o público, assim como é o público que faz as vedetas do jornalismo. E até os próprios pares, o que resulta às vezes em grandes manifestações de inveja oculta. Mas as pessoas, quando têm talento ou quando têm qualquer coisa a dizer aos outros, sobressaem naturalmente.

– Mas às vezes leva muito tempo...

– Pode demorar tempo, mas sobressaem naturalmente. Isto para dizer o quê? Que a cultura deve ser uma disciplina da política e a política deve ser um dos interesses da cultura. A cultura deve estar interessada na política. Quando a gente ouve aí uns «escritórios» a dizer «eu não tenho nada a ver com a política», evidentemente que têm. Agora o que eu vejo é uns políticos (eu não sei o que é isso da «classe política»), uns tipos que vivem da política neste país e que são iletrados terciários! Alguns deles não sabem sequer interpretar os horários dos comboios! Há um tipo chamado Seguro, que foi o chefe dos socialistas no parlamento, pelo qual eu tenho um profundíssimo desprezo: é um tipo que nunca trabalhou na vida, começou nas jotas, que são um alfobre de malandros, como toda a gente sabe. Mas, aqui há anos, este rapaz Seguro deu uma entrevista ao Expresso, de uma página, que eu guardei religiosamente: «Estou muito cansado da política», dizia a besta. «Estou muito cansado da política, mas estou disponível para ir para o Parlamento Europeu». Isso também eu estou, olha que porra! [risos] Estou absolutamente disponível e trabalho há uma data de anos! A verdade é que ele foi para o Parlamento Europeu e eu não fui.

– É aquilo que se chama um emprego aliciante...

– Isto que te estou a dizer do tal Seguro disse-o várias vezes. Recordo-me de, logo a seguir, ter dito num programa do Júlio Isidro: «Eu também quero, primeiro estou eu que estou farto de trabalhar, também quero ganhar quatro mil contos». Que é um dinheiro que eu nem sei o que faria com ele! Ora isto é uma indignidade... São os jogos políticos e de poder que se estatuem em todos os partidos, desde o PC ao CDS.

– Mas os jornais não falam dessas coisas!

– E o que fizeram aos jornalistas mais progressistas, os saneamentos feitos – como é que eles dizem?, eles utilizam uma  expressão muito gira: rescisão amigável! Fizeram «rescisões amigáveis» com alguns dos jornalistas portugueses mais qualificados, porque mais politizados, e que por isso também são mais resmungões, mais incómodos. E eles não gostam porque há uma nova casta que se instalou nas redacções, que não tem tomates nenhuns. Sobretudo os homens, as raparigas ainda vão tendo mais coragem. Aliás, as grandes revelações no jornalismo, depois do 25 de Abril, são sobretudo mulheres: temos uma Ana Sá Lopes, uma Bárbara Reis, uma Alexandra Lucas Coelho, uma Cândida Pinto, isto para dar só alguns exemplos, que são grandes jornalistas, e têm consciência deontológica. Mas são casos isolados. Por exemplo, na província há grandes jornalistas, pessoas que estão ali esmagadas mas que fazem um trabalho muito importante. E o jornal dito regional é a grande alternativa a esta concentração dos meios de comunicação social que contraria todos os princípios democráticos. Contraria inclusive uma das perspectivas da revolução do 25 de Abril.

– Aliás, a imprensa hoje está muito mais concentrada do que estava antes.

– Pois está. E agora há essa coisa, que o Sindicato e todos aceitaram: as «sinergias», que é uma palavra que me lembra logo camisa-de-vénus. «Vamos fazer uma sinergia!» A gente pensa logo em coisas esquisitas, camisas-de-vénus, bacanais... É uma coisa escabrosa. Por exemplo, a SIC apresenta frequentemente aquilo a que eles chamam «uma reportagem SIC-Visão». Isto é o quê? É uma sinergia! É uma estratégia: as redacções estão todas nos mesmos sítios, e alguns dos melhores jornalistas portugueses estão a envelhecer, estão a ficar cada vez mais amargurados porque não estão nos sítios em que deviam estar. Para já não falar dos que pura e simplesmente não estão em sítio nenhum...

– Numa recente nota biográfica tua dizia-se que foste jornalista. Já não és?   

– Já não tenho nada a ver com o jornalismo. Continuo com a carteira profissional, mas não gosto nada dos jornalistas. Eu saí do Diário Popular por desgosto, porque comecei a ver, a partir de uma certa altura, que aquilo era outra plataforma de ambições. E eu e um grupo de pessoas tínhamos tido a ideia de fazer do Diário Popular uma espécie, não de escola, mas um ponto de partida para jovens jornalistas. Quem estaria envolvido nisso eram o Jacinto Baptista, o Abel Pereira, o Manuel Magro, de quem hoje ninguém fala, e era um homem excelente. Queríamos fazer daquilo o que tinha sido sempre aquele jornal. O meu pai foi fundador do Diário Popular, sei a história toda daquilo. O Popular tinha sido uma redacção muito aberta, onde não se perguntava às pessoas qual era a cor do partido, se era comunista ou não. Eu sou contratado para o Diário Popular em 1965, e o Brás Medeiros que era apoiante e simpatizante do regime, disse-me logo: «Você pode ter a certeza que os patrões nunca vão cortar aquilo que você escreve, isso é problema seu e da censura». E de cada vez que eu tive problemas, o Brás Medeiros pôs-se sempre ao meu lado. Um dia, o Mário Ventura Henriques foi preso à entrada do Diário Popular e o Brás Medeiros mandou o director ir à PIDE: «Vá lá, diga-lhes que não se prende um redactor assim». E mais: mandou arrombar a secretária do Mário Ventura, embrulhar os papéis que ele lá tinha, e pediu a um tipo chamado Costa Júnior que trabalhava simultaneamente no Diário da Manhã: «Oh Costa Júnior, leva isto para o Diário da Manhã que é o único sítio onde a PIDE não vai procurar». Bom, aqui há uma cadeia de cumplicidades e de honras, que convém assinalar: começa com o patrão, depois com o Costa Júnior que era todo salazarista mas defendeu o seu camarada. Havia uma incompatibilidade política entre ele e o Ventura, mas não eram inimigos. Hoje, é completamente impensável fazer-se isso.

– Os códigos de honra deixaram de existir?

– Deixou de existir a honra, a solidariedade, coisas admiráveis que havia. Quando eu fui corrido d’O Século, por estar envolvido na revolta de Beja, o João Coito moveu céus e terra para eu entrar no Diário de Noticias, no começo dos anos sessenta. Cheguei a falar com o Augusto de Castro, e só não entrei porque o Pereira Baptista mandava no país e disse: «Esse senhor? Nem pensar nisso, que é um perigoso comunista». O João Coito é um homem animoso, que diz bem do Salazar, mas é um homem de carácter, e é um grande jornalista.

– Há uns anos, tu falavas de Portugal como uma coisa com a forma de caixão vazio. Como é que está o caixão, hoje?

– Com a tampa já por cima, na minha opinião. Eu às vezes não gosto de dizer estas coisas porque parece que estou a fazer uma mancha de óleo negro sobre um oceano límpido, mas as coisas estão muito complicadas. Por exemplo, esta coisa das privatizações, assustadoras a todos os níveis, por causa do défice... Isto é de uma gravidade que todos os economistas dizem, até o Cavaco já disse isto, são privatizações a mais...

– Já só falta privatizarem o governo propriamente dito...

– Isso é que deviam privatizar, contratar uns gestores para tomar conta do país! Acaba-se com o parlamento, poupa-se um dinheirão! Está lá um gajo de cabelos brancos, do PSD, que anda lá há anos, acho que era presidente de uma Câmara qualquer... É uma figura que não é ridícula, é trágica: nunca abriu a boca, nunca fez nada, está ali para ganhar a vida. Está lá duas legislaturas, fica com uma reforma formidável, que eu nunca terei com cinquenta anos de trabalho! Não, não vejo isto com grande animação. Depois há outro aspecto, que é uma nova posição crítica da igreja. E não são só o D. José Policarpo ou o D. Januário Torgal Ferreira. Mas é, por exemplo, um homem de quem as pessoas habitualmente não falam, que é o D. Manuel Clemente, reitor do Seminário dos Olivais, que é uma das grandes cabeças deste país. Ele vai à televisão volta e meia, e a pretexto, sei lá, dos Evangelhos... Aqui há tempos ouvi-o falar no Evangelho de S. João, e a estabelecer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa.

– Nos últimos tempos, há gente da Igreja a tomar posições surpreendentes.

– Enquanto os sectores que deviam interferir na sociedade, jornalistas, escritores, cientistas calam-se.... Não há abaixo-assinados, não há protestos, já viste isto? E depois espantam-se porque acontecem as coisas mais maléficas neste país! Um tipo chamado Bagão Félix, que é do piorio, um dia citou o Santo Agostinho das «Confissões» e dizia: «eu sou como o Santo Agostinho, sou mais pelo ser do que pelo ter». E eu escrevi uma coisa a dizer: bom, o Dr. Bagão Félix então que entregue a casa onde vive – num dos maiores condomínios, senão o melhor condomínio de Lisboa – e as terras que tem no norte e no sul do país, e vá passar a ser o ser... É de uma hipocrisia insultuosa! E os escritores calaram-se, abdicaram.

– Os escritores calaram-se, os jornalistas estão mais ou menos calados também...

– Estão todos calados ou querem reformar-se. O país está completamente calado!

– Há uns tempos ouvi na televisão, num debate sobre o Ensino, um senhor de bigode, creio que era secretário de Estado, dizer que os professores não estão assim tão mal pagos, se comparados com outras profissões em Portugal – o que é uma coisa notável quando o país está como está: recebemos ordenados terceiro-mundistas, mas pagamos como europeus...

– Não, mais caro! Mais caro do que em Paris e em Espanha. São os carros, é o pão, é a gasolina, é a água... A água é mais cara do que a gasolina em Portugal, isto não lembra o diabo! Esta coisa do mercado livre nas gasolinas aumentou tudo outra vez: desde Janeiro até Abril, houve sete aumentos, sete ! Mas isto não vem nos jornais, os jornais não reflectem a realidade portuguesa. Não me recordo de ter visto na primeira página de qualquer quanto custa, por exemplo, uma casa em Lisboa, que é mais cara que em Nova Iorque!

– Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!

– O projecto do 25 de Abril era um projecto de amor, era um projecto cultural, era um projecto social. Era um projecto de afecto, de felicidade, no fundo a consequência daquilo que o Saint-Just, na Revolução Francesa, tinha dito: «A Revolução Francesa proclama que a felicidade é possível entre os homens. A Revolução Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa.» No fundo era a consequência disto, a nossa cultura, esta cultura que nós defendemos resulta do iluminismo. Mas a verdade é que estes tipos destróem o amor. A propósito dos professores: eu conheço casais que, estando um no norte e o outro no sul do país, se encontram às vezes aos fins-de-semana, quando têm dinheiro para isso, nos motéis do centro, para se deitarem um com o outro, porque não têm possibilidade de viverem juntos! O que é isto? Depois dizem que há um acréscimo de divórcios e um decréscimo de nascimentos, e o alcoolismo entre as mulheres está a subir assustadoramente. Pois, só pode! E agora vêm com essa ideia de que ainda bem que vêm os estrangeiros, para aumentar a natalidade... Mas os estrangeiros vêm cá pedir para fazer filhos? Parece que somos impotentes, que não somos capazes de fazer filhos às portuguesas... O que se passa é que as pessoas não têm dinheiro, há uma noção de que tudo é muito precário. E isso torna o amor, o afecto, que devia ser uma coisa sólida, torna-o uma coisa precária, módica e medíocre. Isto é extremamente grave, porque a base essencial de uma relação é isto, a amizade e o amor, o resto é conversa!

 – Acontece aí o reflexo do que acontece no resto da vida da pessoa: o emprego é precário, toda a vida passou a ser precária...

– Vamos lá a ver: instabilidade sempre houve. Mas agora não se trata da instabilidade tal como nós a conhecíamos, com uma economia aparentemente equilibrada. É mais grave, porque é uma instabilidade que atinge o emocional. Porque um tipo, quando fica desempregado, não é apenas a preocupação de saber como é que vai arranjar dinheiro: é a circunstância de ter quarenta anos e não saber para onde é que vai. Isto dá uma instabilidade emocional terrível. Evidentemente, isto advém do social, de uma política fértil em dar tiros em nós. Porque eles não gostam de nós, é preciso não esquecer. Agora, como é que se dá a volta a isto? Não faço a mínima ideia. Não acredito que seja pelo voto, mas também não há possibilidade, historicamente, no momento actual, de haver revoluções. Vai-se fazer uma revolução como? Não faço ideia!

– Há pouco referimos a Elegia para um Caixão Vazio, um romance que escreveste dez anos depois do 25 de Abril, e que terminas a dizer: «Creio que estou na idade de escrever um livro de amor». A mim parece-me que todos os teus livros são, de uma forma ou de outra, livros de amor. Estás de acordo?

– Sim, todos os meus livros são livros de amor. A intervenção cívica, a intervenção política é uma intervenção de amor, uma revolução é um acto de amor. Sendo um acto de cultura é um acto de amor. Porquê? Porque a revolução é uma actividade de relação, e sendo uma actividade de relação é um acto de amor. Todos os meus livros são de amor e todos os meus livros têm uma outra coisa, de que me apercebi aqui há tempos: é que põem a mulher não atrás mas ao lado dos homens, são as companheiras dos homens, ocupam o lugar que devem ocupar. Talvez porque eu vivi com poucas mulheres, fiquei sem mãe muito cedo, com seis anos, e o meu pai casou mais duas vezes. As mulheres iam morrendo, o meu pai já era viúvo quando casou com a minha mãe. Casou quatro vezes. E não havia mulheres, a minha família da parte da minha mãe vivia afastada, de maneira que eu fui promovido a homem muito novo. Tive um embate com as ruas, aprendi a defender-me, a defender-me até com os punhos, adquiri fama de brigão, e, ainda hoje, não levo desaforo para casa. Mas foi nas ruas que também aprendi a consciência da honra. E andei com a pior escumalha que possas imaginar! Vivi na Rua da Bombarda, paralela ao Intendente, que já era um coio de putas e de malandros. Conheci ali gajos sinistros, e sempre me dei muito bem com eles. E depois, na Ajuda, eram os ciganos. Ainda hoje gostam de mim, os velhos ciganos, que me chamavam «Armandinho», transmitiram esse afecto por mim aos seus filhos e netos. A minha gente era gente pobre, aflita, que não tinha dinheiro. E o meu pai jogava a batota, o que ainda era pior, perdia muito dinheiro como todos os jogadores. Mas era um ser admirável, um homem com a moral operária sempre presente, e por cuja memória tenho grande veneração. Ele ensinou-me as ruas. Andou comigo e ensinou-me a ver o Rossio, como é que o Rossio deve ser visto, e qual o melhor ângulo para se observar as ruínas do Carmo. Ensinou-me a ter coragem e a enfrentar o medo. Ensinou-me que homem e honra escrevem-se com agá. Ensinou-me, ensinou-me até ao remate final dos seus dias.

– E depois andaste na noite, também...

– E depois a noite. E mantenho o antigo respeito pela noite. Para andar na noite tem de se ter uma grande moral. Como para beber. Para beber é preciso ter-se moral. Aliás, desconfio dos tipos que não bebem: andam a esconder qualquer coisa. Andei na noite toda a vida, e, ainda hoje, sou um animal nocturno. Durante cinquenta anos andei a beber bebidas de guerra – não era cerveja, isso é coisa para mijar. Bebia uísques, vodkas, aguardentes, conhaques, absinto. E gostava. Porque a noite, o balcão de um bar, desencadeia mecanismos de cordialidade. O bar é uma espécie de confessionário moderno. A gente vai lá para encontrar pessoas, para conversar, e às vezes até para dizer coisas que não devia dizer, que têm a ver connosco. Não são omissões, são os tais segredos que cada pessoa tem.

– Isso também tem vindo a mudar?

– Hoje os bares são instâncias de violência e de agressão e de bêbedos premeditados. Eu vou ao Snob e só vejo pessoas que não percebem nada de jornais a falar de jornais, que não sabem beber, e bebem... E as pessoas foram-se afastando. A gente vai ali ao Juvenal, ao Pedro V, às vezes, com os amigos... Mas aquilo já não tem nada a ver comigo. Os sítios são as pessoas. E as pessoas vão desaparecendo. Tenho memórias do Rio de Janeiro e de Luanda, gosto muito destas cidades. Mas a última vez que estive no Rio de Janeiro já não era o meu Rio de Janeiro porque as pessoas tinham morrido. Os sítios são as pessoas e são as idades. E há idades para tudo, como diz o Eclesiastes: há um tempo para tudo. Agora aquilo deixou de me pertencer. O nosso mundo acabou. O teu também acabou, não é só o meu. Porque tu, como eu, tivemos esta sorte espantosa: é que andámos sempre com pessoas mais velhas. Não é desgraça, é sorte. A partir de uma certa idade tu vais ver isso, vai-te dar uma grande segurança. E um certo cinismo, que é muito bom. Porque o cinismo não é hipocrisia, o cinismo é uma arma da ironia. Vou-me defendendo da tristeza servindo-me dessa arma. E reavendo as vozes e os rostos dos meus camaradas. Não é mau envelhecer. Sobretudo para quem mastigou e bebeu a vida.

In Contas à Vida | Sete Caminhos | 2005

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