Alberto Pimenta

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Professor universitário e poeta (ou vice-versa)
Tinha 36 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Heidelberg

Nasceu no Porto, viveu na Alemanha e está em Lisboa. Em 1977 deu-se em exposição numa jaula da aldeia dos macacos no Jardim Zoológico de Lisboa. Catorze anos depois colocou-se à venda, no Chiado, por conta de uma «divisão de recursos humanos do Estado». E catorze dias mais tarde fez um auto-de-fé de O Silêncio dos Poetas na Feira do Livro de Lisboa. De todos os seus livros, esse é aquele que os intelectuais dominantes mais levam a sério, e fazem mal. Deveriam ler também Labirintodonte, Os Entes e os Contraentes, Ascensão de Dez Gostos à Boca, Discurso Sobre o Filho-da-Puta, Terno Feminino, A Visita do Papa, Deusas Ex-Machina. E os outros, todos, que publica com a regularidade possível desde 1970.

Ao regressar em definitivo a Portugal, três anos depois do 25 de Abril, Alberto Pimenta falou sobre A Arte de Ser Português numa série de televisão tão notável quanto efémera. Para o electrodoméstico com imagens compôs ainda Seis Árias Para Cesário, um processo de construção-desconstrução em forma de poema audiovisual. E também esteve nas primeiras semanas d'A Noite da Má-Língua, onde deve ter-se sentido como um piloto de fórmula 1 numa corrida de cadeiras de rodas. Retirou-se discretamente do programa, e ainda bem para ambos. Também trabalha em poesia visual e fonética, happenings e performances, edições incómodas.

Depois do auto-de-fé de 91 já se passaram outros catorze anos, e Alberto Pimenta continua intransigente com todas as mediocridades, e por isso não o encontram na televisão e só raramente aparece nos jornais. E no entanto ele move-se, como Galileu, mas sem abjurar – e há quem não lho perdoe.

Ultimamente é visto com frequência na Universidade Nova e no bairro da Mouraria, mas também noutros lugares. Não o confessa, mas permanece efectiva e afectivamente dividido entre Portugal e os países normais, onde aliás os seus livros são lidos com outra atenção. Sabe muito bem o que aconteceu no 25 de Abril e depois. Continua à procura de um triângulo de quatro lados. Que é como quem diz: «A traços largos, não desisto.»

– Tu sabias que uma "comissão da família" do Ministério do Trabalho fez uma agenda de 2004 onde o 25 de Abril não consta?

– Não consta? Passaram do 24 para o 26?

– Não, o dia está lá. Mas não consta como nenhum dia especial...

– Ah!, não consta como dia especial... Não, não sabia. Mas tem assinaladas as datas das celebrações?

– Sim, estão lá todas, menos o Dia da Liberdade: o Dia da Mãe, o Dia do Pai, o Dia do Avô...

– O Natal, a Páscoa...

...o Entrudo. Até o Dia do Trabalhador. Só no 25 de Abril não há nada...

– Estou a ver. Naturalmente, a primeira coisa que vem à cabeça é que foi um lapso, um lapso freudiano. Um daqueles actos falhados em que, enfim, o símbolo substitui o acto: queria-se acabar com uma coisa, não se pode acabar com ela, queria-se matar uma pessoa, não se pode matar a pessoa... Não se pode ou não convém. E então rasga-se a roupa, proíbe-se o véu, por exemplo. Os símbolos são muito importantes: nas batalhas, capturar uma bandeira vale mais do que matar vinte ou trinta. Acho que a primeira tentação é pensar nisso. Mas permito-me supor que não tenha sido lapso, que tenha sido propositado. E sabes porquê? Porque as revoluções desse tipo ficam normalmente conhecidas pelo dia em que aconteceram. É o que aconteceu com o 5 de Outubro, o Primeiro de Dezembro, o 31 de Janeiro, o 14 de Julho. E o 25 de Abril, claro. Aliás, esse tipo de agendas normalmente é feito por uma pessoa só. Isso é oficial, não é? É de um ministério?

É de uma comissão nacional gerida por um ministério.

– Uma comissão. Passa pelas mãos de várias pessoas que, naturalmente, nalgumas datas não terão dúvidas: não precisarão de pensar ao chegar ao Natal, está interiorizado, é quase impossível. Agora, outras talvez tenham de ir ver, as móveis, principalmente. A Páscoa e o Carnaval têm de ir ver. Agora o 25 de Abril não é móvel... Este ano calha a um domingo, isso talvez seja um álibi…

– Pode ser…

– …mas é só um álibi, parece-me. Acho mais plausível que tenha sido voluntário. E que tenha sido um modo de, de repente, apequenar, dar pouca importância...

– Que é como quem diz que até já nem nos lembramos dele...

– Isso, até já nem nos lembramos dele. E ao mesmo tempo passa por lapso, claro: é evidente que se fores perguntar toda a gente diz que foi um lapso. Bom, acho que ninguém se esquece do próprio aniversário ou dos aniversários do pai, da mãe. Não é normal, a menos que se esteja zangado, muito zangado. Seria agora o caso, não é?

– Provavelmente estão zangados com o 25 de Abril...

– Provavelmente estão zangados. Claro que, num certo sentido, e para quem gosta de reflectir pondo hipóteses – e até hipóteses no passado, «se tivesse sido assim, se...», o que eu acho um dos absurdo do nosso pensamento: «Se eu tivesse feito isto, se tivesse acontecido aquilo...» É tentar que se refaça a história ao nosso gosto, não é?

– Como naquele velho exemplo do non sense popular: «Se a minha avó não morresse, ainda hoje era viva...»

– É absurdo, de uma lógica absurda! É claro que, dentro desse tipo de lógica que entra em conta com as probabilidades, é muito plausível dizer que se não tivesse havido aquele momento, isto hoje seria mais ao menos o que é. À semelhança da Espanha, por exemplo, onde não houve revolução. Podia ser, podia não ser... Mas isso são puras especulações, e eu acho que não era. Não era, até por uma razão: porque passou a existir – não é no imaginário, é nos factos e nos símbolos da comunidade – passou a existir uma data que foi uma libertação. Por mais que se tenha esfumado, em termos de consequências, daquilo que em primeiro lugar queria, realizou-se. Para mim, mais do que uma revolução, aquele é um movimento de libertação, como afinal acabaram por ser a Revolução Francesa e a Revolução Russa. E ninguém nos tira o facto de ter sido possível haver quem, neste país de sonhadores, tivesse passado à acção, e o tivesse conseguido naquela data. Isto dá uma força enorme, dá uma alegria enorme, embora naturalmente a gente saiba que também eles não tinham programa político. Nem podiam ter, por muitas razões...

– E por isso não foi o que muitos desejavam...

– Depois aconteceu o que acontece em todas as revoluções deste mundo: a revolução devora os filhos, e a nossa foi-os devorando a pouco e pouco, ou vice-versa. De maneira que não adianta passar por cima, fazer de conta que não existiu. É uma tentativa de dar um salto por cima de uma corda, mas que bateu na corda. Porque senão nós nem estávamos a falar nisto agora: o 25 de Abril conseguiu que nós falássemos nisto e é isso que me parece importante.

– Aliás, se não fosse o 25 de Abril, tu hoje eras alemão...

– Bem, isso é um facto tão pessoal que não tem importância nenhuma em termos gerais, é um daqueles mil factos pessoais sem importância... a não ser para a pessoa.

– Isso é o que tu dizes, mas à conta disso é que continuaste a ser português...

– Pois foi. Eu já nem gosto de repetir a história, porque já a contei várias vezes: estava a trabalhar na Alemanha, o consulado de Portugal tinha-me retido os documentos, e como não podia pedir asilo político – só se pode pedir asilo político vindo de fora, e não estando lá dentro – em fins de setenta e dois, começos de setenta e três, pedi a naturalização. Pedi até para ganhar tempo, é sempre um processo muito longo, e que não tem recurso. Isso tem um nome na jurisprudência, é um acto de graça ou qualquer coisa assim. Este durou menos até que o costume, e a 23 de Abril chegou-me uma carta a dizer «foi-lhe concedido, venha à Câmara Municipal para os procedimentos». E eu não fui a 24, tinha um mês para o fazer. Dia 25 aconteceu o 25 de Abril, e eu pedi seis meses de reflexão, porque não sabia que espécie de movimento era: aparecia o nome de Spínola, e outros, tinha havido o 16 de Março, e era tudo muito confuso. Pedi seis meses de reflexão. E foi-me concedido!

– Se, nas primeiras horas, o 25 de Abril foi confuso para quem estava cá, imagino para quem estava lá...

– Pedi os seis meses de reflexão, e ao fim desse tempo agradeci com sinceridade e continuei com a nacionalidade portuguesa. De maneira que o 25 de Abril, na minha vida, teve de facto um peso muito especial. Mas se calhar teve na vida de milhões! De maneiras diferentes: uns foram para o Brasil, fugiram; outros ficaram aflitos; outros ficaram cheios de esperança; outros ficaram primeiro cheios de esperança e depois desiludidos. E aconteceu talvez como na peça de Peter Weiss em que todos estavam à espera da revolução para lhes resolver os problemas todos: aquele que tinha os sapatos que apertavam esperava que a revolução lhe resolvesse os sapatos, aquele a quem a mulher corneava esperava que a revolução lhe resolvesse a mulher e os cornos. E não resolveu. A revolução gera descontentes, desses que imaginam que a revolução é individual. Não é. É sempre uma coisa colectiva e todos os movimentos colectivos são como cilindros, e...

– ...e depois as revoluções normalizam-se.

– É claro que as revoluções têm que se normalizar, até porque se chamam revoluções. É por isso que o verdadeiro anarquista não quer o poder. Ele quer fazer a revolução, ele quer pôr em causa o poder, mas ele não quer o poder porque o poder obriga a tantos compromissos que... Não obriga forçosamente a perder a consciência, mas obriga sempre a perder pureza. Porque o exercício do poder é um exercício de equilíbrios de forças, e a própria revolução tem de acabar por estabilizar de alguma forma, criando uma certa segurança. Porque a ideia de segurança é fundamental para viver em paz. Quando não se vive em paz fica-se agressivo, deprimido, tudo ao mesmo tempo. É preciso uma paz relativa, exterior. Essa ideia do respeito pela justiça eu creio que já é do Platão, vem do medo de se poder sofrer a injustiça: precisamente porque se tem medo de poder sofrer injustiças, respeita-se a justiça como aquilo que vai impedir que se sofram injustiças. Agora quando se chega a um ponto, que é aquele onde hoje estamos, em que a própria justiça pode meter medo, então o respeito pela justiça passa a ser medo da justiça, ou melhor, da injustiça da justiça, ou vice-versa.

– Ultimamente apercebemo-nos de que, em Portugal, as prisões preventivas podem durar dois anos...

– Ai sim?!

– É uma coisa estranha em democracia: o tempo de prisão preventiva é maior do que o que era permitido no tempo da ditadura, salvo quando se tratava dos chamados «crimes políticos». E hoje, supostamente, já não há crimes políticos...

– Supostamente não há crimes políticos, mas tudo é político, de uma ou de outra maneira. Por isso há uma variação na bitola das penas e por isso as penas previstas para os crimes que lesam a propriedade são tão graves. E já há uns dois ou três ou quatro anos havia um jornal que comparava uma pena de prisão para alguém que falsificou cheques e uma pena de prisão para alguém que matou: eram equivalentes. Isto é uma aberração do ponto de vista da ovelha Dolly. É uma total aberração. E o homem sente, e sente com razão, que o principio da tosquia está acima do princípio da lã.

– Estou a lembrar-me por exemplo, da revelação feita há uns tempos por Sarsfield Cabral no Diário de Notícias: que, em 2002, os administradores de um banco ganharam cinco milhões de euros, cerca de um milhão de contos! Já não é uma lógica kafkiana, revela mais um certo «surrealismo institucional»...

– Não, coitado do surrealismo! Nós, que temos alguma responsabilidade, devíamos evitar certas metáforas e certas figuras, como por exemplo essa do surrealismo...

– Tens razão.

– Mas repara: ficando na literatura, houve um homem em Portugal que não está esquecido, tem sido representado, mas merecia muito mais – e em países que cultivam o próprio teatro, representando todos os anos os seus clássicos, ele teria o seu lugar, por muitas razões –, que é António José da Silva, o Judeu, que foi queimado pela Inquisição. Nas Guerras do Alecrim e da Manjerona, ele tem uma frase posta na boca do criado que eu acho genial: “Neste mundo somos todos homens de ganhar, o modo é que desautoriza”. Porque somos todos homens de subsistir, e devemos subsistir o mais dignamente possível, e para isso exigem-nos contribuição, trabalho. Porque para subsistir com dignidade é necessário dinheiro, mas a partir de um certo ponto o dinheiro deixa de ser um meio para ser um fim em si mesmo. Esta sociedade – com o seu mercantilismo, com os seus bancos com o seu princípio empresarial e do aumento da riqueza – transformou o dinheiro num fim: deixou de ser um meio, não é meio para coisa nenhuma, é um fim em si mesmo. É necessário mais produção! Porquê? Porque sim, como as crianças! É uma sociedade infantilizada, é como uma criança que quer brinquedos até ao infinito, e chora se lhos não derem! Ou será senilizada?

– Só que aqui não há um infinito, porque estas coisas têm de ter um limite...

– Estas coisas hão-de ter um limite, que nós não podemos imaginar qual é. Mas que, pela violência que têm, se pode supor que terá de ser um pouco catastrófico, que não poderá ser por uma espécie de inversão do pensamento. Porque a ética – a ética que em certos momentos pactuou tanto com tantos interesses, mas que de qualquer maneira sempre era travão a muita coisa – as várias éticas acabaram. A filosofia acabou, as bases do pensamento acabaram, ninguém justifica o porquê de qualquer política, de qualquer economia, que não seja o fim em si mesmo. Porque sim, porque é necessário mais lucro, mas não há nenhuma base humanista, nenhuma argumentação desse tipo. Isso não existe porque na cabeça de toda esta gente foi apagada a ideia do ser humano...

– Pelo contrário, agora vale a rentabilidade, a competitividade...

– A competitividade é um princípio contrário ao da fraternidade, que era o princípio dos irmãos, dos sócios, da sociedade: são os sócios que elegem, que escolhem, dentre eles, um que presida, para que não sejam rompidos os laços. Essa fraternidade levaria ao exercício de um poder cuja função, em grande medida, era corrigir as diferenças da natureza: há os que nascem mais pobres, outros nascem mais ricos, uns nascem menos inteligentes, outros mais inteligentes, outros nascem fracos, outros nascem fortes... Então o gestor, dentro do princípio da fraternidade, tentava corrigir isso, o melhor possível, como foi analisado por alguma filosofia. Agora a este poder, hoje, nem sequer lhe passa pela cabeça uma coisa dessas! A ideia é simplesmente favorecer e promover os que produzem mais, aqueles que já têm melhores condições para isso. É selectivo, é competitivo. E das duas uma, ou estamos satisfeitos com isso ou não estamos satisfeitos com isso. Dizem-nos que se não estamos satisfeitos com isso, o defeito é nosso, porra!

– E então onde é que está o 25 de Abril?

– O 25 de Abril está para Portugal como a Revolução Francesa está para a França, como a Revolução Russa está para a Rússia. Acho que tem mais importância como a tal libertação que foi, uma libertação que deixa espaço para um edifício, mas não começa ainda a construí-lo. Ou começa a construí-lo já com forças diferentes – e a construção que veio a seguir já foi uma construção feita por muitos pedreiros, uns mais livres outros menos livres. Logo a seguir ao 25 de Abril quantos partidos havia? Vinte e não sei quantos...

– Ou mais! Era uma alegria...

– Pois! Eram forças mais a sério ou menos a sério, ligadas a interesses ou desinteresses vários que depois foram tomando conta de um certo espaço, é um processo que não acabou ainda. Apesar das remodelações que já houve, a Constituição Portuguesa que saiu de 1976, que saiu do 25 de Abril, ainda tem coisas que incomodam aqueles que queriam abafar esse 25 de Abril. Ainda se preparam para as fazer desaparecer, portanto ainda estão lá. É como os seixos na praia, a serem polidos para chegar ao consenso da areia. Polidos pelos calhaus grandes.

– É suposto vivermos numa democracia, e numa democracia é suposto respeitar justamente os princípios da fraternidade...

– Pois. A democracia é um conceito que vem dos gregos, e tem a ver com o exercício do poder por pessoas comuns, conceito em parte tão criticado por eles se arrogarem o direito de chamar bárbaros a todos os outros, como se tivessem eles inventado as soluções todas. Essa democracia, que era uma democracia selectiva, mas que se opunha à tirania, que se opunha à aristocracia, ao governo hereditário, não implicava ainda, talvez, a fraternidade. Isso é uma ideia da Revolução Francesa...

– Eu falava das democracias normalizadas da actualidade, como a nossa...

– O problema é que a democracia acabou por ser uma forma ou uma fôrma. Hoje em dia é um puro fôrmalismo, é um modo de modelar e remodelar. Ou de meter no molde: quando nós vamos votar – de quatro em quatro anos, somos chamados a exercer o direito de meter o dedo no molde e apalpar...

– ...ou vice-versa?

– Dizem que ainda não se inventou melhor... Talvez, mas também posso dizer que o automóvel polui e mata e ainda não se inventou melhor, ou que os telhados metem água e ainda não se inventou melhor. Tem graça que os telhados há três mil anos já eram assim, a telha não fez progressos. Vai-se à Lua, mas ninguém inventou um telhado que não meta água. Porquê? Porque não dá dinheiro. Porque inventar isso dá muito trabalho e não dá dinheiro, senão já se tinha inventado! De maneira que uma das coisas que incomodam mais na democracia é que os poderosos usam o termo tal e qual – não é parecido, é tal e qual, repito – tal e qual como os teólogos medievais usavam a palavra Deus. Não se discute.

– A democracia dá para tudo?

– Não. O problema é ser usado o termo e o conceito, não como algo que merece ser discutido em termos de substância e de forma, mas como algo que está no mesmo plano de Deus. E Deus é indiscutível, para um teólogo.

– Mas a democracia pode ser discutível, e se calhar deve sê-lo...

– Sim, mas para os poderosos não é! E daí esse argumento constante, teológico! Porque qualquer espécie de poder, seja pequeno ou grande, médio e assim-assim, usa essa fórmula como garante de uma indiscutibilidade de soluções, e de processos. Foi democrático, houve uma maioria, seguiram-se os trâmites que estão previstos na lei dos 51 por cento – como se a lei fosse Deus, 51 por cento para Deus e 49 por cento para o Diabo. Sem vice-versa.

– O Evangelho, para os que acreditam nele...

– Para aqueles que põem Deus como o criador de um Sumo Bem, que nós não alcançamos por causa da nossa insuficiência. A nossa insuficiência não nos permite, por exemplo, perceber o grande alcance do dinheiro investido nos estádios de futebol. É a nossa insuficiência que não permite isso, somos incapazes, Deus não nos iluminou! Aliás, a propósito: eu não sei ainda se os estádios já foram abençoados, mas espero que sejam. E já agora, ainda sobre esse calendário que não refere o 25 de Abril, deixa-me dizer que foram mais papistas que o Papa...

– Porquê?

– Porque o Papa, no dia 25 de Abril, beatifica uma portuguesa. Ou seja, o Papa tomou em conta o dia 25 de Abri, não foi por acaso que foi o escolhido. Ele, o Papa, sabe o que foi o 25 de Abril, e beatifica uma portuguesa que certamente se distinguiu em actos que se supõem piedosos. Não sei, isso é uma questão para pesquisar... Sei que é uma senhora da Póvoa do Varzim, não sei qual é o nome, e acho interessante que ele, Papa, escolha justamente o dia 25 de Abril, não como um dia diabólico e amaldiçoado (o Papa nunca o poderia fazer), mas como um dia abençoado para fazer mais uma beata lusófona cristã. Ou será cristã lusófona?

– Achas que o Papa está com o 25 de Abril?

– O Papa está um pouco acima dessas coisas, o que eu acho é que o dia 25 de Abril lhe merece uma consideração especial em relação a Portugal. Pelo menos neste momento merece-lhe essa consideração por ser essa a data escolhida por ele para esse acto tão solene que é uma beatificação. Ou vice-versa...

In Contas à Vida | Ed. Sete Caminhos | 2005

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