António Pinho Vargas

© Isabel Pinto

Compositor
Tinha 22 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia no Porto

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Um homem que fala através de um piano. Foi assim que há muitos anos conheci o António, éramos os dois algo mais jovens e talvez menos intranquilos. Tenho ideia de que na altura ele tocava na banda do então recém-descoberto Rui Veloso, mas já tinha vivido uma mão-cheia de experiências noutros grupos de diferentes tendências. Era, como é, um tipo discreto e já um nome conceituado da música que se fazia em Portugal. Do jazz fazia, nesse tempo, o seu meio de expressão mais comum, mas nunca o único, e a sua marca fez-se sentir muito cedo. Com ele passou a haver uma maneira portuguesa de fazer e sentir o jazz, de fazer e sentir a música. A maneira de António Pinho Vargas.

Era um homem e um piano. E nunca deixou de ser isto, sendo agora porém muito mais. A música, a que se entregou mais do que a tudo, e através dela o que se conta, o que se descobre, o que se inventa. No seu caso, a busca começou cedo, ainda nos tempos do liceu, e nunca por caminhos fáceis: tocou com Jorge Lima Barreto, Sérgio Castro, José Nogueira, Mário Barreiros, muito do que de melhor a música foi tendo entre nós. No final dos anos 80, princípios dos 90, passou algum tempo repartido entre Portugal e a Holanda. Ao curso de História que tirou na Universidade do Porto uns quinze anos antes, junta então um diploma em Composição pelo Conservatório de Roterdão.

A partir daí, começa a dedicar mais tempo à música erudita contemporânea, mas não deixa de frequentar outros sons. Chega a trabalhar com Amália, mas diversos contratempos impedem o disco projectado de se concretizar. Escreve música para filmes e peças de teatro. Colabora em grandes projectos culturais. Mais jazz. Uma ópera de câmara. Festivais de música. Ensaios sobre música e sobre gente. E Os Dias Levantados, a homenagem ao tempo de todos os sonhos: «O 25 de Abril foi ilegal, indisciplinado, incoerente, injusto, insuficiente, por vezes ridículo, mas maravilhoso e inesquecível. Gostava que a minha peça, que tem certamente todos estes defeitos, tivesse algum rasto destas qualidades.» Isto diz ele, e eu acho que a ópera o confirma sem possibilidade de ressalva como um dos maiores compositores portugueses. Mas eu sou apenas um tipo que gosta de música.

– Vejamos então se me podes ajudar a encontrar o 25 de Abril: por onde é que ele tem andado?

– Há algumas das coisas da vida, em geral, que eu sei que existem em Portugal porque aconteceu o 25 de Abril. Mas pensar nisso quase que reclama um esforço de memória comparativa com o que era antes, o que significa que não é evidente. Eu tenho de pensar no que se passava antigamente, por exemplo, num café, onde a certa altura nós estávamos a discutir furiosamente política ou qualquer coisa, e a certa altura alguém dizia: «Eh, pá, falem baixo, cuidado que aquele gajo talvez não seja de confiança!» Isto era o medo desse tempo, o medo da PIDE, concretamente. Ou tenho de me lembrar que, em Outubro de 1969, com 18 anos, eu e dois amigos meus estávamos a colar uns cartazes (nem eram da CDE, eram da CEUD, a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, de que o pai de um dos amigos, o Chico Coelho dos Santos, era candidato), estávamos a colar os cartazes relativamente perto da Câmara de Gaia, e de repente aparecem três tipos que deviam ser da PIDE e dizem para nós irmos lá dentro, que queriam falar connosco. E a gente lá foi, depois de resistir, cheios de medo, «isto é legal, estamos em eleições», mas lá fomos, estivemos meia hora à espera – não sei se posso dizer exactamente presos, mas se não era isso era parecido – e depois fomos chamados a um gabinete dum tipo que só nos perguntava donde é que nós éramos, quem eram os nossos pais, o que é que faziam... E eu e um dos amigos tínhamos pais apolíticos, e portanto estávamos cagadinhos de medo. O outro, como o pai era da Oposição Democrática, à partida tinha uma circunstância familiar mais sólida, e portanto era ele que respondia, já sabia como é que se evitava um interrogatório desse género. E, claro, tenho de me lembrar das correrias que tive de fazer muitas vezes nas manifestações, quer em Lisboa, em 71, quando estive em Direito, quer depois no Porto, onde continuei em História. Se eu fizer esse esforço de memória, reconheço que o 25 de Abril está no facto de já não haver isto...

– Portanto ele anda por aí...

– Andam por aí várias consequências do 25 de Abril. O mundo mudou muito, entretanto, e algumas coisas não correram se calhar como nós pensávamos naquela altura. Não sei se queres que eu fale sobre isso...

– Quero, quero...

– Eu, talvez por causa dos meus trabalhos dos últimos tempos, tenho feito alguma investigação sobre as artes de vanguarda na Europa Ocidental, o prestígio que elas tinham, e a mudança que actualmente se verifica nos discursos do poder político e do poder cultural, aquela conversa contra a arte subsidiada, a participação do Estado... E nós hoje temos que pensar a realidade de maneira diferente porque efectivamente a nossa visão do mundo mudou depois do período da Guerra Fria. Eu estou a falar de mim, mas também de toda uma geração que, naquele quadro, se colocava à esquerda, do lado dos chamados regimes socialistas – embora desde 1972 eu tenha alinhado, com maior ou menor distância, dentro da extrema-esquerda, e portanto não propriamente a favor daquilo que se imaginava ser a vida nos países do «socialismo real»: não era apoiante da União Soviética, e por causa da minha ligação à arte também não era maoista. Eu tinha tomado conhecimento de que os artistas, quer na União Soviética do tempo do Estaline, quer na China, eram fortemente condicionados no seu trabalho pelo regime, que dizia que a arte deve ser assim e não daquela maneira, porque senão «é pequeno-burguesa», ou «é reaccionária», ou «não contribui para a construção do homem novo» – discursos deste tipo. E por causa disso eu estava numa zona muito particular da extrema-esquerda, que também não era trotskista – e fundamentalmente houve dois partidos em Portugal que estiveram de alguma maneira ligados a essa visão das coisas, o MES e o PRP, muito influenciados pelas ideias da Rosa Luxemburgo, da democracia de base, de crítica aos regimes de partido único, justamente por causa destas questões. Eu estava ligado ao PRP. Ou seja, mesmo antes do 25 de Abril, já não tinha ilusões em relação ao socialismo tal como ele existia nos países do bloco de Leste e na China, a minha visão não era optimista. No entanto, podemos dizer que a Revolução de Outubro, e tudo o que ela significava, ainda era uma ideia operativa, para nós todos. Pensávamos que era possível que uma coisa daquelas acontecesse. E de uma certa maneira o 25 de Abril foi uma espécie de Revolução de Outubro, teve algumas componentes. Ou uma Revolução Francesa, se quiseres: uma coisa que começa de uma certa maneira, que avança progressivamente para a esquerda, e que de repente tem um volte face, a chamada contra-revolução, que resulta numa nova situação política. Isto aconteceu na Revolução Francesa, de alguma maneira aconteceu na Revolução Russa de Outubro, e a nossa não fugiu à regra. E talvez por isso eu me afastei do PRP ainda antes do Verão Quente: no dia 25 de Abril de 75, o dia das primeiras eleições, eu e um grupo de trinta amigos escrevemos uma carta, na redacção da qual eu tomei parte, e saímos do PRP, dizendo que aquilo não tinha democracia interna e que portanto era um bocado estranho defender uma democracia participativa, conselhos de base, conselhos operários, quando dentro da própria organização havia uma espécie de vício leninista, centralista, muito centralista. No entanto, aquele período foi inacreditavelmente exaltante, e eu tive que regressar a ele – além daqueles regressos afectivos que cada um de nós faz aqui e ali – quando compus a ópera, em 98, porque tive que pensar sobre os acontecimentos, falar com o Manuel Gusmão, ver o texto dele, e de alguma maneira isso permitiu-me e obrigou-me, simultaneamente, a um mergulho na memória daquele período. E essa memória foi comovente e nalguns dias de trabalho, durante a ópera, as lágrimas vinham-me aos olhos: por causa das palavras tão belas que o Manuel Gusmão escreveu sobre o assunto, mas também por causa do «mergulho afectivo» no passado, por assim dizer. Naquela altura, de facto, nós todos discutíamos tudo e mais alguma coisa, e por isso a memória mais exaltante que as pessoas devem ter daquele período é que foi um tempo cheio de expectativas, de vontade de participar, de ter opiniões, de discutir, de pôr em causa. Em casa, na rua, nas faculdades, nas fábricas, nos vários sítios, toda a gente tinha alguma coisa a dizer, por mais disparatada que fosse. Mas essa sensação de participar do destino colectivo, isso já lá vai!

– Eram mesmo «os dias levantados»...

– Eram. Esse é talvez o aspecto mais triste da nossa vida actual que, ao contrário desse período, nos deixa a sensação inversa, que é: façamos o que fizermos, nada adianta nada!

– Votamos de quatro em quatro anos...

– Exactamente. E depois vai para lá um governo que faz mais ou menos o que fazia o anterior... E isso remete para a outra questão de que falámos antes: o mundo mudou muito. E mudou porque efectivamente aquela maneira de pensar, no quadro da Guerra Fria, com dois blocos que aparentemente tinham capacidade de confronto e eram plausíveis no tipo de sociedades que propunham, essa ideia acabou. Mas curiosamente eu acho que cada vez se sente mais qualquer coisa a que pode chamar-se uma oposição direita-esquerda. Acho que começa a ter outra vez razão de ser, depois daquele cataclismo da União Soviética e da desorientação que a seguir tomou conta da esquerda toda. E talvez volte a fazer sentido recolocar alguns dos problemas que desde então estavam entre parênteses. Portanto o mundo mudou, e até houve aquele, o [Francis] Fukuyama que escreveu um livrinho sobre o fim da história... Há momentos na história da humanidade em que as pessoas pensam: «Isto agora está ok, foi um passo decisivo, daqui para a frente vai ser tudo bestial, está adquirido que não se vai voltar atrás». E subitamente emergem coisas que as pessoas pensavam adormecidas, pensavam que já não existiam. O que aconteceu depois de 1990 é um extraordinário exemplo disso: regressaram nacionalismos inexplicáveis, coisas que aparentemente estavam mais do que resolvidas, oposições entre pessoas, croatas, sérvios, bósnios, muçulmanos, e guerras civis por milhares de razões diferentes em diversos países de África, com massacres sinistros... E agora a questão do terrorismo islâmico!

– Que surge como uma espécie de «guerra santa»...

– Sim, sim. Ou seja: outra coisa que parecia mais do que arrumada no caixote do lixo mais profundo da História – para usar a expressão que era querida da escola marxista, que utilizava o termo «caixote do lixo» para classificar uma visão antiquada. E o caixote do lixo estava cheio de coisas vivas, coisas que pareciam mortas, mas estavam simplesmente adormecidas, e algumas delas são absolutamente terríveis e têm lados barbáricos que estavam latentes. O equívoco do Fukuyama foi pensar que a democracia liberal ou formal estava garantida como visão do mundo triunfante. Não era assim.

– A democracia é uma coisa que, nos últimos anos, nos habituámos a ver como algo inquestionável. Mas será que é mesmo?

– Não, e já no 25 de Abril o que se discutia era a democracia burguesa, tal como dizia a esquerda de então, e a democracia profunda, não apenas política mas participativa. E a posição da Rosa Luxemburgo era importante porque preservava o conceito da democracia política – ao contrário da visão leninista, com a famosa teoria do «centralismo democrático», que consistia na tomada do poder por um partido, e portanto o exercício do poder sem democracia, nem formal nem coisa nenhuma. Apesar da existência dos sovietes, era um domínio piramidal: havia um topo da pirâmide e esse domínio exercia-se sobre o todo social. Eu acho que, dê por onde der, é preciso preservar a democracia formal, mas há que repensar muitos aspectos que entretanto se foram tornando evidentes enquanto problemas. Por exemplo: a democracia é uma ideia que começa a formular-se na Magna Carta de Inglaterra, mas fundamentalmente o nosso sistema deriva da Revolução Francesa, é quando a burguesia toma o poder que se instalam regimes democráticos. E progressivamente foi-se alargando o leque de participantes, até chegar ao sistema «um homem, um voto» – como é sabido as mulheres só começaram a votar mais tarde, por isso é que era «um homem, um voto», não era «uma pessoa, um voto»... [risos] Portanto, aparentemente, essa democracia terá que existir. Simplesmente, eu acho que o capitalismo, como sistema de funcionamento económico, é uma espécie de monstro sem cabeça. Lembro-me de já há uns anos ter dito isto, ainda no tempo do Bill Clinton: vamos imaginar que o presidente dos Estados Unidos, e portanto o homem mais poderoso do mundo, decidia acabar com as diferenças entre o Norte rico e o Sul pobre. Não tinha qualquer hipótese de aplicar essa política, porque aquele sistema económico – que, com o passar do tempo, me vai parecendo autofágico, parece que aquilo vai comer o mundo, por assim dizer – esse sistema tem uma racionalidade específica que é a produção do lucro, e face a essa racionalidade não há obstáculos. E um obstáculo que era importante ter em conta é a resistência do próprio planeta a um sistema que o desgasta, que esgota recursos, que desequilibra relações ecológicas fundamentais e que, a longo prazo, põe em causa a própria existência do planeta!

– Se calhar, fazia-lhes bem pararem para pensar que o planeta também é um ser vivo...

– Ora, como estas reflexões não fazem parte da tal racionalidade interna desse sistema, eu julgo que o capitalismo tende para se autodestruir levando consigo o planeta e as pessoas! E creio que já está para além da capacidade dos políticos – dos políticos com poder neste quadro – a possibilidade de agir para transformar esta situação de alto a baixo. É impossível! E, se eu pensar nas políticas do Bloco de Esquerda, por exemplo – que, de alguma maneira, é uma formação política à qual eu me sinto ligado nalguns pontos de vista, mas noutros não – se reparamos, as políticas do Bloco de Esquerda são eminentemente defensivas. E mesmo as do PC e do PS são sempre posições de regulação. No caso do PS, controlar os despedimentos, fazer com que haja uma melhor distribuição da riqueza – no essencial, é esta a diferença entre o PS e os partidos da direita. Passa-se o mesmo com o PC, mas tentando preservar alguma legislação que ainda resta de 75: tem uma posição reactiva em relação, por exemplo, à liberalização do desemprego, à nova visão dos empresários que querem contratos a prazo para poderem contratar e despedir com a mesma facilidade, em nome da tal racionalidade económica que perseguem. E o Bloco de Esquerda defende coisas que têm a ver com as minorias ou com questões que afectam grupos minoritários, e muitas vezes marginalizados, da sociedade: as pessoas com sida, questões relativas às minorias sexuais, à liberalização das drogas... Repara que, em tudo isto, em todos os partidos de esquerda não há uma afirmação de alguma coisa, há apenas a tentativa de defender um problema que num dado momento é isolado como um problema frágil em relação ao qual é preciso ter atenção.

– Achas que a esquerda deixou de ter uma visão para o futuro?

– Deixou, pelo menos aqui em Portugal. Enquanto a direita, que num determinado período da sua história criou regimes totalitários como os fascismos e os nazismos como forma de exercer o poder, hoje aparentemente não precisa disso e está bem instalada na democracia formal. Chega-lhe. Justamente porque a democracia formal não põe em causa o funcionamento da economia nos termos actuais – e, aliás, se assim não fosse, eu não sei bem o que é que aconteceria à dita democracia formal... Isso foi uma das coisas de que tomei consciência, a propósito do 25 de Abril, na altura em que estava a trabalhar na ópera. Por causa de alguns discursos que estavam ali à minha frente, ou no texto do Manuel Gusmão ou na minha memória sobre aquele período, eu podia pensar «que ridículo, o que as pessoas diziam nesta altura», mas é preciso não esquecer que o golpe de estado do Pinochet que derrubou Salvador Allende, um presidente democraticamente eleito, tinha sido meio ano antes do 25 de Abril! Ou seja: naquela altura pairava sobre nós o perigo do golpe de estado militar da direita. A esta distância pode parecer uma coisa inverosímil, mas não era, tinha acontecido na democracia mais antiga da América Latina, como toda a gente sabe. No entanto aquele receio que existiu de que Portugal podia ser como Cuba, uma espécie de «espinho» do bloco socialista cravado no Ocidente, não se veio a verificar, e não sabemos o que teria acontecido. Mas, se calhar, ainda bem que não se verificou, porque no quadro da Guerra Fria as consequências não seriam lá grande coisa... Agora, embora eu pense isto sobre o 25 de Novembro, em última análise estou a falar do que estava em jogo naquele dia: julgo que de um lado estava uma ilusão de uma vida melhor, se calhar cheia de erros, cheia de coisas obsoletas e impraticáveis, e do outro lado estava uma espécie de realismo pouco exaltante. E portanto, se eu tenho um grande afecto de memória em relação ao 25 de Abril, devo dizer que não tenho afecto nenhum em relação ao 25 de Novembro, apesar de pensar hoje que se calhar aquele desenlace político terá sido eventualmente mais positivo do que se tivesse sido o inverso. Mas, em rigor, a gente não sabe o que teria acontecido. Não seria eventualmente obrigatório que houvesse guerra civil, embora fosse uma forte possibilidade, ou que em Portugal se instalasse um regime absolutamente idêntico aos da Europa de Leste. Não é liquido que assim fosse, mas, enfim, não interessa fazer futurologia a esse respeito.

– Resumindo: houve «os dias levantados», e depois caiu-se no cinzentismo da normalidade. Entretanto o mundo mudou, a globalização alastra... Como é que te sentes perante a realidade de hoje?

– Eu penso que nós estamos numa fase de transição para qualquer coisa que ninguém sabe exactamente o que é...

– Em Portugal, no mundo, ou nos dois?

– No mundo, em primeiro lugar. E digo «no mundo» porque acho que Portugal é um país pouco importante, politicamente. E no entanto nós vivemos aqui, e é aqui que temos de tomar posições. Mas, face ao estado das coisas, é interessante verificar que se algo se tornou importante nos últimos tempos foi, por exemplo, o facto de haver a possibilidade de se marcarem manifestações por sms ou por e-mail, e isto acontecer em vários países do mundo simultaneamente. E, portanto, se a globalização é um facto, a procura da globalização alternativa, como se costuma dizer, é também um facto. Ainda me lembro da minha perplexidade em relação àquelas manifestações – acho que as primeiras foram em Seatle, não foi? Julgo que toda a gente foi mais ou menos apanhada de surpresa. Porque, de repente, houve uma fortíssima contestação à Cimeira dos Ricos, não era assim que se chamava? E aquilo alargou-se, e agora, de cada vez que há uma cimeira, há espantosas manifestações! Existe efectivamente uma procura da globalização alternativa. Há alguns filósofos que gozam com isso, como se quem fala assim fosse um nostálgico do comunismo à moda antiga. Eu acho que não, já ninguém sonha com o comunismo à moda antiga, mas há claramente uma sensação de mal-estar. Como é que eu me sinto? Eu sinto uma grande impotência, por um lado, porque vislumbro uma espécie de combate entre aquela coisa que já descrevi há pouco, que é o capitalismo – com a sua racionalidade própria e o seu funcionamento anónimo, como um sistema que funciona – e vejo, por outro lado, a globalização alternativa como qualquer coisa ainda em construção. É um movimento feito por pequenos passos, por pequenas tentativas, que procura no mundo inteiro preservar e defender certas coisas, chamar a atenção para alguns problemas de fundo como a ecologia, tentar controlar a questão do ozono – como se fez na cimeira de Porto Alegre – mas também aí há sobretudo uma atitude defensiva: vamos tentar proteger o que é possível, defender, preservar, mas continua a não haver uma ideia alternativa verdadeiramente sólida. Se calhar ainda bem, porque quando apareceram as ideias globais alternativas o seu resultado foi muitas vezes sinistro, não é? De repente aparece um filósofo a dizer «está aqui, já descobri o que é que vai acontecer e agora vamos todos fazer assim», e o resultado não costuma ser grande coisa. Não sei, as minhas angústias têm a ver com o facto de aqueles nossos sonhos, que eu partilhei intensamente... Tu falaste há pouco do cinzentismo, e sabes que eu tive vários desapontamentos graduais com algumas pessoas que conheci, de esquerda, ao verificar que, apesar do discurso, aquilo que estava verdadeiramente entranhado como valor era a assunção individual daquilo que é a essência do capitalismo, que é a concorrência. O facto de as pessoas, sobretudo a partir dos anos 80, terem começado a cortar a torto e a direito, atropela aqui, pisa acolá, esmaga além – e aí tanto fazia ser de direita ou de esquerda... Lutas pelo poder, na plena acepção da palavra, que atravessavam o social de alto a baixo. E aqui, de uma certa maneira, comecei a duvidar: que não havia esquerda nem direita, havia pessoas. E havia pessoas honestas na sua vida quotidiana e pessoas que tinham sido mordidas, digamos assim, pelo vírus mortal da concorrência a qualquer preço...

– A tal competitividade...

– Tão elogiada, não é? Nesse período eu andava tristíssimo porque parecia que não havia nada a fazer. E alguém dizia, eu li algures, que se calhar o sucesso do capitalismo explicava-se por estar tão justamente adequado à natureza humana e à sua bestialidade inata! Nós temos aqui um conflito entre cada um de nós: entre a parte culta, a parte que se quer elevar, civilizar, e a outra parte animal, que quer matar, que quer destruir, que quer esmagar. E o capitalismo efectivamente funciona de acordo com esta regra, e com uma espécie de intuição de que esta regra é captada pelas pessoas – enquanto que o socialismo de Estado falhou porque verdadeiramente ninguém considera aquilo, o bem comum, como uma coisa que lhe diga respeito. Parece que no interior do ser humano o colectivismo não é uma boa ideia... Enquanto que o individualismo, sim, aí toda a gente percebe: eu, eu, eu. Daí o sucesso da coisa no seu todo, justamente por causa da correspondência entre cada um de nós no seu combate interior e a adequação ao novo tipo de selva. Mas aqui entra a surpresa de Seatle e o que se seguiu: e no entanto as pessoas não estão bem, e protestam, e dizem «queremos outra coisa, isto está mal», e há milhares de pessoas no desemprego, e há milhares de excluídos, pessoas que não têm bens nenhuns! Os últimos anos em Portugal são terríveis a esse respeito, mas se pensarmos a nível do mundo, então ainda são mais terríveis! Eu li um livro, aqui há uns anos, que me impressionou muito: Na Fronteira da Guerra Civil, do Hans Magnus Enzensberger, em que ele traça um quadro das guerras civis que rebentaram depois do fim da União Soviética nas mais diversas partes do mundo, a maior parte delas guerras ferocíssimas, com massacres terríveis; e depois fala de uma espécie de guerra civil latente no interior do próprio Ocidente, entre o centro rico – a grande cidade onde o rico vive em condomínio fechado, às vezes quase com guardas de metralhadora à porta – e depois uma turba nos arredores – de imigrantes, de trabalhadores nalguns casos, de desempregados noutros, de minorias rácicas e religiosas – como que à espera do fim do Império Romano, quase como bárbaros, à espera que o edifício se desmorone para realizarem o ataque final! Essa visão do Enzensberger é muito dura, e ao mesmo tempo qualquer pessoa que leia aquilo percebe a correspondência entre esta perspectiva e o real. Eu fui tocar a Pretória, na África do Sul, e depois fui apanhar o avião em Joanesburgo, e vi casas – imagina aqui aquele bairro do Restelo, em Lisboa – casas iguais àquelas mas com grades de vinte metros de altura e com letreiros a dizer «cuidado, não trepe, morrerá imediatamente electrocutado», coisas assim! Isto é o condomínio fechado, é o rico que já tem de pôr letreiros a dizer «não trepe» em frente às grades! Vivem numa ilha...

– É um gueto ao contrário!

– É, é um gueto ao contrário, verdadeiramente ao contrário! Este tipo de coisas está a espalhar-se por todo o mundo ocidental: Paris, Nova Iorque, Londres, Madrid, até já em Lisboa, de alguma maneira... Outra coisa que me preocupou, outro dia, foi saber que só 30 por cento da população americana é que vota nas eleições! E espanta-me: como é que um sistema que tem na base da sua legitimação, politicamente, a democracia formal, consegue viver com 30 por cento da população a votar? É caso para dizer: afinal eles estão-se nas tintas, por acaso aqueles 30 por cento são os que lhes interessam. Mas, então, e os outros 70 por cento? Não votam? Porque é que não votam? Que raio! Nem sequer formalmente se pode dizer que esta democracia é minimamente eficaz. Depois dizem que os Estados Unidos são um país muito particular, têm um sistema eleitoral muito esquisito...

– Pois é, há muitos problemas! [risos]

– Deixa-me só dizer-te uma coisa boa. Há relativamente pouco tempo passaram uns programas na televisão, a propósito do 25 de Abril, e então eu tive necessidade de explicar aos meus filhos algumas coisas sobre o que se vivia antes. E percebi como era bom que eles não tivessem vivido aquilo! E percebi que, apesar de tudo o que ainda há para resolver – e haverá sempre coisas para resolver –, a minha dificuldade em explicar a crianças de sete anos algumas coisas, só por si, foi um bom sintoma. Significa que já quase não se imagina como aquilo era! Agora, trata-se de interpretar o real tal como ele é hoje, e questionar a possibilidade de um cavalheiro – que por acaso tem uma rede de televisão, e por acaso é proprietário de uns jornais, e também de um clube de futebol – decidir dedicar-se à política e de repente tornar-se primeiro-ministro. Ou seja: pensar até que ponto é que o actual sistema mediático perturba aquela visão oitocentista de «um homem, um voto», até que ponto é que um homem e um império dos media, só por si, assegura a um homem um milhão de votos. E, nesse sentido, alguma coisa foi pervertida no sistema democrático. Esse é um aspecto importante, mas julgo que não há alternativa, que não se consegue sair dos media. Aí concordo com as ideias do [Manuel] Castells quando ele fala da sociedade em rede, que tudo o que irá acontecer agora se vai passar dentro do quadro dos media. Provavelmente é impossível saltar fora, até a Al Qaeda faz os seus comentários através de vídeos enviados para as televisões! E outra coisa de que o Castells fala e que me faz pensar é o progressivo afastamento entre as pessoas, em geral, e os representantes do poder político: porque é que a democracia representativa permite que o fosso entre o representante e o representado se vá cavando cada vez mais. Isto inclui um perigo enormíssimo, que é o discurso populista da extrema-direita infiltrar-se neste mal-estar e tirar proveito dele...

– Ou seja: não estás propriamente muito optimista?

– Não. Eu sou músico, mas fiz o curso de História, e dou aulas de História da Música, e por isso o meu próprio trabalho continua a ser pensar sobre como é que foi a vida até aqui, como é que viveram as pessoas. Leio imenso, cada vez leio mais. E eu sei que a realidade humana é uma realidade conflitual, estamos permanentemente uns contra os outros em torno de uma coisa qualquer, e essa coisa vai mudando. E acho que o mundo tal como ele é hoje tem sintomas alarmantes, mas também tem alguns sintomas que deixam no ar alguma expectativa positiva.

Achas que alguma vez voltaremos a viver «os dias levantados» como aqueles que vivemos há trinta anos?

– Não. Daqueles, já não há mais, como dizia o Vasco Santana. Não, aquilo foi uma situação muito particular. Digamos que, para voltar a haver aquilo, tinha de haver antes 40 anos iguais aos anteriores. Portanto não é muito provável que, nas décadas mais próximas, haja assim nada de comparável. Agora, há momentos nos quais, às vezes, se criam algumas expectativas... Eu, por exemplo, participei nos Estados Gerais do PS. Durante muitos anos estive afastado de qualquer acção directamente política, mas aderi. E tive um desapontamento que não queiras saber! É das coisas de que mais me arrependo, de facto. Porque houve um momento em que, de repente, parecia que um partido político tinha ali um projecto, que queria abrir o partido aos independentes, como eles diziam, à sociedade em geral... E houve muita gente que aderiu àquilo! E o resultado foi pavoroso!

In Contas à Vida | Sete Caminhos | 2005

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