Francisco Louçã

© Pedro Loureiro

Prof. universitário, deputado e dirigente do Bloco de Esquerda
Tinha 17 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Lisboa

Os amigos gabam-lhe a afabilidade, o sentido de humor, a clareza do discurso, a boa educação. Os adversários vêem nele um político frio e calculista. Mas todos lhe reconhecem a inteligência superior, a competência política, a combatividade. É o único dirigente político a quem os correlegionários tratam pelo diminutivo: o Chico, o camarada que dirige sem precisar de ser secretário-geral ou presidente. Um entre iguais, porém diferente de todos os outros.
O que resta da extrema-esquerda de 74-75 está hoje maioritariamente encaixado nos gavetões do poder de alterne: uns foram ministros, outros esperam vir a ser, e os que optaram por ficar de fora estão regra geral esquecidos e silenciados. Francisco Louçã é um sobrevivente, e é mais do que isso: é também o responsável pelo abanão político que nos últimos anos do século XX evitou o marasmo absoluto em que ameaçava afundar-se a Esquerda portuguesa.
Ao recusar ser uma reminiscência do PREC, começou por demonstrar que um pequeno partido sem representação parlamentar pode fazer a diferença e mexer com a sociedade. A partir de meados da década de 80, o PSR apresentou uma nova proposta, a partir de uma ideia muito simples: a Esquerda não poderia renovar a sociedade enquanto não se renovasse a si própria. Era isso que propunha aquela pequena força política instalada num casarão ocupado da Rua da Palma.
Aos poucos, o PSR foi ganhando as simpatias dos intelectuais e dos jovens. O jornal do partido, o Combate, torna-se uma plataforma de discussão de ideias e de projectos. E o PSR evolui para o Bloco de Esquerda, que se propõe aglutinar todos os homens e mulheres que não se revêem nos partidos tradicionais. A UDP adere, a aposta resulta, e o Bloco vem-se afirmando cada vez mais como uma força política a ter em conta.
Essa é provavelmente a grande vitória deste professor de Economia que começou a fazer-se notar com apenas 16 anos ao ser preso durante a vigília de protesto contra a Guerra Colonial, levada a cabo por um grupo de católicos progressistas na Capela do Rato, no Ano Novo de 1973. E foi nesse mesmo ano que aderiu à LCI, de onde veio a sair cinco anos mais tarde para fundar o PSR.
Agora é deputado da nação, uma voz que se faz ouvir por mérito próprio e direito conquistado. Sem gravata nem cerimónias, o Chico diz o que pensa, e fá-lo de modo a que os outros ouçam. Há 30 anos, acreditava que o mundo podia mudar num instante. Hoje, sabe que o mundo muda a cada instante. E tenta fazer a sua parte.

– Tu pertences àquela geração que viveu o 25 de Abril «na flor da idade», como costuma dizer-se...

– Os melhores anos da nossa vida, dizia o Zeca Afonso...

– Qual é o balanço que fazes de tudo o que aconteceu desde então? O que é que se cumpriu e o que é que ficou por cumprir?

– Acho que estamos ainda, provavelmente, sem a distanciação suficiente, o que determina que ainda há uma divergência entre a leitura histórica e a leitura política. Isto é: já podemos começar a ver o 25 de Abril e os acontecimentos de 1974 e 1975 (ou seja: uma revolução como expressão social de uma confrontação popular importante, que dura do 25 de Abril até ao 25 de Novembro de 75), podemos vê-lo como um acontecimento histórico, cujos principais protagonistas ainda estão vivos, uns actuantes outros não, mas as instituições mudaram tão substancialmente que a análise histórica já é possível sem a interferência directa do efeito que tem a leitura desses acontecimentos. Mas essa análise histórica ainda não coincide exactamente com a análise política. Porque, quando pensamos no 25 de Abril, pensamos já não só na história dessa revolução contida nas fronteiras do tempo, mas num processo político de enorme consequência que é a criação de uma democracia por via revolucionária: a destruição de uma ditadura e a alteração (em alguns casos absolutamente superficial, noutros casos muito profunda) das relações políticas, institucionais, culturais e sociais em Portugal. Em certa medida temos este paradoxo de termos entrado no século XX em 1974, no princípio do último quartel do século, e termos chegado ao século XXI depois de um século XX curtíssimo, que foi aquele que nós tivemos. E portanto a modernização ainda é um problema de política social importante em Portugal. Em grande medida, creio que aquilo que nós sentimos hoje, a grande tensão, esta dilaceração, a vingança contra o 25 de Abril, tem a ver com o facto de que a modernização não foi, em grande parte deste período, hegemonizada pelo capital, por uma burguesia muito dependente do Estado. Primeiro do Estado fascista, depois o Estado subsídio-dependente da Europa, e agora ainda dependente de um Estado clientelar. Mas foi muitas vezes hegemonizada por um processo de transformação popular que deixa a marca do 25 de Abril, e creio que não se poderia compreender a amargura enorme que há em relação ao 25 de Abril por parte dos vencedores, a não ser nestas circunstâncias. Mas isto cria também um efeito muito paradoxal: quem é que venceu e quem é que perdeu? Os vencedores foram, obviamente, os homens que impuseram o Estado reforçado a partir do 25 de Novembro; mas perderam do ponto de vista cultural, perderam do ponto de vista da alteração da relação de forças. E se virmos bem, desde 75 até agora, é o tempo da recuperação da propriedade, mas também da cultura da propriedade, da cultura do exclusivo, da cultura da democracia limitada, da cultura da prepotência. E creio que, tendo um movimento popular tão frágil politicamente e tão pouco... tão pouco capaz de uma alternativa de pode, de facto não havia uma alternativa socialista para vencer em 1974-75. Havia mobilizações populares, havia confrontações, houve alterações ao regime de propriedade, mas não havia um caminho vencedor.

– Na altura acreditou-se numa «via original» para o socialismo...

– A «via original» era o discurso da grande confusão política. É claro que as ideologias da esquerda estavam numa situação de grande encruzilhada. É verdade que, em 1975, tínhamos o impulso da derrota dos Estados Unidos no Vietname, logo depois a abertura em Espanha, logo depois a queda do regime do Xá [no Irão], e a queda do Somoza [na Nicarágua]. Mas é certo que já vivíamos também uma crise geral dos modelos dos países de Leste, e da China também. Já se percebia que não havia nenhuma alternativa que não fosse essa. E a invenção de uma nova alternativa, que era a redescoberta do socialismo, a exigência da redescoberta do socialismo como força emancipatória e libertadora, não estava feita e está por fazer. E portanto desse ponto de vista havia um grande vazio que era preenchido com muitos discursos de banha-da-cobra, como a «via jugoslava» e muitas outras alternativas, quando é certo que dois anos antes tínhamos tido a derrota do Allende e o massacre da Revolução Chilena. E uma clarificação de que era muito difícil ter uma via de compromisso: o Allende nomeou Pinochet chefe de Estado-Maior e deu-lhe o comando, deu-lhe as tropas da região de Santiago do Chile. E apesar de toda a tragédia, e da coragem que ele teve, e da determinação que teve – que é uma coisa que deve ser sempre lembrada – o que é certo é que não teve a capacidade para desarmar e destruir as forças da reacção que depois impuseram aquele regime. Isso levantava uma grande ambiguidade estratégica em todo o discurso sobre o socialismo. Tanto mais que a característica principal da Revolução Portuguesa é que os ritmos da desagregação do aparelho do Estado foram muito mais acelerados do que os ritmos da formação de alternativas populares – assembleias populares e outras formas. As comissões de trabalhadores foram talvez o mais prometedor desse ponto de vista, até porque fugiam muito ao próprio controlo sindical e aos órgãos sindicais. Mas tudo isso eram alternativas de representação e não alternativas de poder. E como o aparelho de Estado se desagregava muito mais depressa, por força da divisão das Forças Armadas, do que a estrutura da alternativa política, surgiram no contexto dessa desagregação do aparelho de Estado muitos discursos que eram absolutamente sem nenhum sentido. Era o próprio aparelho de Estado a desfazer-se que falava da «via original para o socialismo» ou da «Aliança Povo-MFA» e de outros conceitos completamente confusos, como se viu...

– Toda a gente falava no socialismo...

– Exactamente. Aliás, o CDS e o PSD tinham «plataformas pelo socialismo» de que hoje o PS se envergonharia, provavelmente… [risos]

– Trinta anos depois, houve muita mudança também no próprio mundo em que vivemos. Hoje estamos num mundo unipolar e com ameaças que nós nem imaginávamos…

– É verdade, o mundo mudou imenso. Mas tenho um pouco a sensação de que isto é como a meteorologia: nós lembramo-nos sempre do último Verão que foi uma decepção e do último Inverno que foi muito desagradável. E temos sempre a sensação que é no nosso tempo que o tempo se tornou mais inconstante. Porque o efeito da memória que temos é vivermos com intensidade o nosso próprio tempo, o que é perfeitamente humano. Agora perguntemo-nos assim, ponhamo-nos trinta anos antes do 25 de Abril. E que grandes modificações não houve: o choque petrolífero, o princípio da recessão generalizada que se vai estendendo desde 1973-74 até hoje, o princípio da desagregação do Nixon com o Watergate, o Maio de 68 em França, o Outubro de 69 em Itália, as greves gerais em Espanha, o princípio de uma ressurgência europeia popular e estudantil que ninguém achava possível, porque se entendia que o mercado do consumo de massas tinha aplanado toda a sociedade e tinha feito de nós, em vez de cidadãos, meros súbditos consumidores à procura do segundo automóvel… Assim, creio que a segunda metade do século XX, e naturalmente o século XXI, tem sido um período de intensíssimas mudanças, e a característica que nós temos é que elas chegam a paroxismos. A globalização é – como aliás se provou no ciclo de guerras que nós temos vivido, na afirmação da estratégia da guerra infinita por parte dos Estados Unidos, e até nas próprias estratégias das contra-posições terroristas, e de outros confrontos – a globalização é sempre a afirmação do risco da contaminação imediata universal. E, desse ponto de vista, o alastramento dos perigos e dos conflitos e a intensificação dos dramas é muito maior. O que se passa nos Grandes Lagos, em África: o facto de ser praticamente ignorado no mundo que inúmeras catástrofes do género da tragédia das Torres Gémeas ocorrem cada mês na região dos Grandes Lagos com total indiferença. Nós hoje vivemos situações em que se criou a globalização de todos os perigos, de um mundo desregulado. Nesse ponto de vista é diferente, mas essa diferença impõe outra forma de pensar à esquerda, e de pensar num projecto socialista. E há também elementos interessantes: os fóruns sociais mundiais, algum movimento contra a guerra, em particular contra a guerra do Iraque. As manifestações mundiais contra a guerra são a expressão de um cosmopolitismo militante e interveniente que é também novo desse ponto de vista.

– Tu, há trinta anos, não te imaginavas certamente aqui neste sítio, neste gabinete, nesta casa...

– Não...

– Havia outras coisas para fazer, também. Mas geralmente há um pouco a ideia de que a esquerda esteve sempre mais preocupada em lutar contra o poder que estava do que por uma alternativa de poder. Já chegou a altura de se pensar numa alternativa de poder, ao nível da esquerda?

– Repara: toda a política é uma reflexão sobre o poder, mesmo que seja contra o poder, e eu sempre fui muito avesso a algumas ideias de algum anarquismo infantil (como o Toni Negri, hoje em dia), de que se pode cercar o poder pela indiferença e fazê-lo ruir como as muralhas de Jericó. O poder é uma forma de afirmação totalitária de interesses económicos fundamentais e de formas de dominação que nunca abdicam, que não se suicidam, e, pelo contrário, se reproduzem de uma forma extremamente inteligente, extremamente articulada. Hoje, o pensamento forte da esquerda tem de ser o conhecimento, a compreensão, o combate ao poder unipolar, ao poder global, ao poder da exploração, ao poder da democracia restringida, para afirmar um projecto de democratização e de emancipação. E isso é um projecto de poder. É um projecto de poder, um projecto de transformação radical, revolucionária, democratizando o poder, ou seja, permitindo que as grandes opções que afectam a vida das pessoas sejam transparentemente discutidas e decididas pelos interessados: sobre a produção, sobre a distribuição, sobre o acesso à educação, sobre os serviços públicos, que são os constituintes da democracia e tão fundamentais como é fundamental o direito de voto: a educação, saúde, o acesso à energia, o acesso às telecomunicações, o acesso à internet, o acesso ao conhecimento, o acesso ao tempo livre, o acesso ao prazer. Tudo isso são coisas tão constituintes do espaço democrático quanto qualificam as pessoas para serem, como parte de um todo, pessoas individuais, com a sua própria autonomia, com a sua própria capacidade de escolha. Creio que essa é a concepção do poder que a esquerda tem de ter, e acho que esse é que é um projecto de poder fundamental. Mas claro que esse projecto significa uma confrontação. E eu creio hoje que só um projecto de modernização socialista democrática é que pode enfrentar a modernização neoliberal do mundo espartilhado em que o apartheid é a regra de governação.

– E a lógica neoliberal aponta justamente no sentido oposto: é a competitividade contra a fraternidade.

– Com certeza. São confrontações fundamentais do ponto de vista da cultura, do ponto de vista do modo de ser, e creio que isso é o pensamento político que a esquerda tem de ter, tem de começar a avaliar. É claro que ele ganha força na medida em que ganhe significado social, que seja porta-voz de ideias e fruto de experiência social. E creio que é isso que hoje falta fundamentalmente. Houve experiências com cujos fracassos temos de aprender: porque é que a União Soviética foi derrotada por uma clique que a transformou numa prisão? E temos outras que enfraqueceram: repara que, há pouco mais de trinta anos, Amílcar Cabral dirigia zonas libertadas na Guiné-Bissau, e em muitos países coloniais e semi coloniais viveu-se a experiência de lutas armadas de libertação com grande sucesso, com correntes laicas, socialistas, democráticas, que na maior parte dos casos fracassaram ou foram absorvidas. Os sandinistas são hoje social-democratas de direita. A compreensão deste processo, que é o processo de reprodução do poder, é muito importante para pensar o socialismo como uma forma libertadora, e eu creio que esse projecto tem de estar na ordem do dia, na medida em que ele é fundamental para identificar uma ideia forte de uma esquerda que não se restringe a um rotativismo de alternância ao nível do governo. Caso contrário toda a nossa vida seria vivida entre Cavaco e Guterres, o que evidentemente seria um destino demasiado triste...

– Isso também contraria a lógica do «voto utíl», que é uma coisa que, quer no PSR quer agora no Bloco de Esquerda, sempre contrariaste. Aliás, é suposto os votos serem todos úteis...

– Sim, eu creio que o que caracteriza o direito de voto é que cada voto é útil na medida em que exprime aquilo que a pessoa pensa. Digamos que isso é a matriz essencial da própria democracia. Se a democracia não serve para a pessoa exprimir o seu ponto de vista, mas para fazer um favor a um partido que dele precisa tanto mais quanto a pessoa dele discorda, ou seja, para que haja uma abdicação da inteligência perante o interesse, bom, então nesse caso o voto útil é sempre uma perversão fundamental da democracia. Agora, é claro que o combate contra o voto útil é parte de um combate geral para dar vida à democracia. É um combate tão importante e decisivo como o combate para que as Comissões de Trabalhadores sejam representativas, sejam unitárias, para que haja organizações sociais e uma experiência de associativismo que ainda falta muito em Portugal. Para que haja uma opinião pública crítica sobre a comunicação social, para que haja deontologia profissional e objectividade dos jornalistas. Tudo isso é parte integrante do mesmo grande combate por uma sociedade aberta, uma sociedade de comunicação, em que as pessoas possam ter a sua própria autonomia. Há combates desses que se ganharam, ou melhor, em que se progrediu substancialmente, e outros em que se progrediu menos. Em relação ao «voto útil», creio que hoje é muito mais fácil fazer esse combate.

– O aparecimento do Bloco de Esquerda contribuiu para isso.

– Exactamente. Porque, hoje, quem hesita sobre a utilidade do voto sabe sempre que ao votar no Bloco de Esquerda elege deputados, e tem que decidir não pelo risco de eleger ou não eleger, mas pela utilidade do trabalho que esses deputados fazem, pela sua prestação de contas. E creio que é por isso que o Bloco de Esquerda sobe do ponto de vista eleitoral porque há um cansaço muito grande com um sistema político profundamente pervertido e profundamente corrupto: o que se passa ao nível da administração operacional da Justiça é uma expressão dessa corrupção generalizada, o que se passa ao nível do Serviço de Saúde também. A inacessibilidade de facto aos bons cuidados de Saúde pelos mais pobres, a inacessibilidade ao Direito, a inacessibilidade à Justiça, a dificuldade que há para se chegar a uma qualificação profissional ou académica, tudo isso são barreiras fundamentais de uma forma de apartheid soft que dirige a sociedade. E isso produz um cansaço, uma desilusão, uma amargura que tem de ser traduzida – e pode ser traduzida, como o Bloco pretende fazer – em energia, em mobilização, em resposta positiva. Em capacidade de contraposição, de denuncia, em primeiro lugar. Essa é uma batalha importante, mas há outras mais complicadas, hoje: a incidência totalizante da Televisão como atmosfera comunicacional predominante é mais forte do que há alguns anos, até porque é um instrumento muito mais perfeito. A Televisão já não é só um instrumento secundário de entretenimento, é um instrumento de envolvimento e de info-entretenimento permanente, em que desde a publicidade, ao concurso, à telenovela, ao próprio telejornal, há um contínuo de promoção de signos, ícones, sinais que procuram envolver a pessoa isolando-a perfeitamente.

– O Bloco congregou uma série de gente com lógicas à partida muito diferentes: pessoas unidas talvez nas coisas essenciais, mas que divergiam noutras. Não te preocupa que essa abrangência possa ser, às vezes, demasiado grande, que possa caber ali tudo?

– Eu acho que o desenvolvimento do Bloco deveria ainda implicar um alargamento mais significativo, e acho que o Bloco será tanto mais forte quanto mais amplo for. Por uma questão muito de fundo que é esta: os partidos que nasceram como formas de representação política de interesses sociais e de ideologias se foram afunilando, no século XX, em duas grandes categorias: partidos que se esvaziaram do ponto de vista político para serem uma imensa máfia de interesses, um cartel gigantesco de influências, e que vivem na expectativa do poder – e por isso não podem dele estar alheados durante muito tempo, ou estão no poder ou estão na eminência do poder, e portanto é a gestão do poder que os une em exclusivo e por isso são partidos imensos, tribais, são confederações de tribos, para ser exacto; ou outros partidos, completamente à margem da política real, basicamente preservando ideias, mas fazendo uma luta política muito ficcional, projectando ideias sobre a sociedade – o que é útil –, mas não fazendo uma política que mude a vida das pessoas. E esta divisão entre estas duas categorias de partidos acabou por esvaziar completamente a esquerda do espaço político. O que há no espaço político são partidos comunistas completamente institucionalizados e partidos social-democratas que são o centro desta alternância. E as ideias novas que surgiram na margem do sistema político conseguiam ter a sua vida e ter a sua repercussão social, mas não o impacto político significativo ao ponto de fazer cair governos, ou fazer cair ministros, ou impôr outras políticas alternativas e conseguir convergências maioritárias e políticas maioritárias.

– Intervir de facto...

– Intervir de facto. O Bloco procura responder à ideia de que é preciso criar um partido de uma forma completamente distinta destas duas categorias. É preciso recuperar toda a boa tradição de combatividade, generosidade e de verdade que havia nas organizações que se mantiveram à margem do poder, e projectar ideias socialistas, mas fazer delas vozes de intervenção política efectiva. Isso só pode ser feito com a mesma intenção fundadora de uma nova esquerda que houve quando se formou a Associação Internacional dos Trabalhadores no século XIX, ou quando, em função da I Guerra Mundial, os partidos socialistas se dividiram e se formaram os partidos comunistas, porque eram contra a guerra. Digamos: esses grandes movimentos fundadores que deram origem a uma nova política, e penso que a globalização e a guerra têm de dar hoje origem a uma nova política também. Estamos no terceiro grande movimento fundador, e aí acho que os partidos que nascem desse movimento fundador – como o Bloco e alguns outros: eventualmente a Refundação Comunista em Itália, a extrema-esquerda francesa, os socialistas escoceses, assim como movimentos do Terceiro Mundo – só podem ter uma estrutura de partido diferente da dos partidos anteriores. Porque os partidos anteriores, como viviam nesta eminência do poder, da rotação no poder, estavam tribalmente centralizados em função dessa lógica. Ora nós temos que ter uma lógica de reconstrução do espaço democrático, e ele tem que ser necessariamente plural. Ou seja: as ideologias não desaparecem do Bloco, o que elas têm é uma curiosidade suficiente para continuarem a aprender. O que é a principal característica da esquerda, entenda-se bem: quem pensa que Lenine, ou Gramsci, ou Trotsky, ou Che Guevara, escreveram tudo o que havia a escrever, perpetum seculorum, só pode estar enganado. Portanto a curiosidade é indispensável para as ideias mais fortes. Mas por outro lado o pluralismo é a condição natural de existência deste movimento. O surpreendente é que, quando surgiu o Bloco, a maior parte dos comentadores, e em particular os adversários, entendiam que com as características que ele tinha, só podia desaparecer porque teria que se dividir. Ora é arriscado fazer uma política em termos completamente novos, mas é uma questão de qualidade de direcção. É uma questão de saber se se constrói ou não uma cultura política comum de respeito, de intervenção, de entendimento, que concentra o movimento fazendo viver as suas diferenças como uma forma de aprendizagem, mas que o concentra sobre os objectivos essenciais. E desse ponto de vista creio que o Bloco é um movimento mais unido do que o PC – para já não falar do Partido Socialista, ou de qualquer outro partido: tem uma consciência mais clara do que quer, do que está a fazer porque é mais tolerante, porque é mais aberto, porque as pessoas se podem exprimir, podem dizer o que pensam, porque o fazem com naturalidade.

– A razão da minha pergunta tem a ver com o que se passou por altura da primeira Festa do Bloco: surpreendeu-me ver como participante, num painel sobre Literatura, uma escritora que poucos dias antes tinha defendido publicamente a guerra do Iraque e até a possibilidade da invasão de Cuba pelos Estados Unidos. Percebo que o Bloco seja uma organização democrática, mas tanto?

– Bem, isso são escolhas particulares. Não se trata de uma pessoa do Bloco mas de uma pessoa cuja opinião ouvimos. Repara: nós evitamos com algum cuidado classificações muito definitivas de pessoas a não ser perante factos fundamentais. A pessoa de quem estás a falar tem essa posição, mas também teve uma participação generosa na campanha pela legalização do aborto. Cada um de nós é tão multifacetado... Nós não convidaríamos o Pires de Lima, o porta-voz do PP, não convidaríamos o dr. Paulo Portas, apesar do interesse que isso pudesse suscitar para a assembleia.... [risos] Não o faríamos. Mas, enfim, não pedimos a ninguém um atestado de coerência porque sabemos que, vice-versa, podem entender que nós tomamos posições com as quais as pessoas não concordam. Creio que aí se trata de espaços de diálogo, trata-se sobretudo de espaços de intervenção. Mas trata-se também da ideia de que... O Bloco tem hoje 3-5 por cento. Quando tiver 10-15 por cento, quando representar uma força muito importante dentro da sociedade, e a organização social que lhe corresponda – porque aí não se trata só de ideias, ou de formas políticas, mas de criar estruturas de movimento popular renovado para renascer em Portugal como espaço unitário de mobilização e de intervenção – aí esta heterogeneidade e esta abertura será necessariamente maior. E só se pode fazer esse grande alargamento que transforme em profundidade a esquerda portuguesa obtendo energias novas, com jovens sem experiência política ou que fazem a sua experiência política agora, mas também com pessoas que fizeram experiências políticas noutros partidos ou noutros movimentos, ou de outras formas de intervenção política. Repara: na primeira campanha eleitoral do Bloco, a Lurdes Pintasilgo participou num comício e isso também surpreendeu muita gente – sendo ela uma mulher, de esquerda, comprometida como era com a sua própria história, que ela sempre manteve, e muito bem. Mas para o Bloco isso era muito importante e muito valorizado, porque era uma ponte de um diálogo frutífero com outras pessoas, e necessariamente será assim sempre que nos encontrarmos. Aliás aprendemos muita experiência aqui na Assembleia, pessoas com quem tínhamos divergências e convergências – lembro só duas pessoas que morreram, que eram grandes deputados, o João Amaral e o Lino de Carvalho. São pessoas que, fazendo parte do PC e estando aqui, à partida viam o Bloco com grande receio, pelo aspecto da concorrência e da confrontação, e até com enormes preconceitos ideológicos. E com quem eu, em particular, tive uma relação de amizade muito profunda, e foi lamentável o destino que acabaram por ter. Mas são exactamente o tipo de militante e de activista e de dirigente político que tem que fazer parte de uma grande corrente que renove a esquerda portuguesa.

– Aqui há uns anos, quando questionado a propósito do destino da Europa de Leste, o Carlos Paredes deu uma resposta curiosa: que o ideal não tinha falhado, mas que era preciso pensar, reflectir, e sobretudo ter um grande respeito pelos outros. É isso que o Bloco quer praticar, esse grande respeito pelos outros?

– Sim, nesse sentido exacto. Sabendo que a vida política é uma vida de confrontações e que esse respeito e esse entendimento e essa vontade de aprender e de conhecer é feita num contexto de confrontações. Ou seja: nós prezamos tanto a aproximação, a abertura e o diálogo com os outros sectores de esquerda, quanto afirmamos a nossa hostilidade a uma política de meias tintas e de meias palavras que muito tem existido em Portugal. Nós achamos que é preciso uma confrontação dura com a direita, clarificadora, e isso tem acontecido sempre que o podemos fazer. Aliás creio que isso é indispensável para que o parlamento não seja uma espécie, enfim, de jantar galante, em que não se discute rigorosamente nada e que a política fica esvaziada, mas o mesmo diremos em relação a todos os meios sociais em que nos parece indispensável haver esse tipo de vida colectiva.

– Estás pronto para mais trinta anos?

– Bom, espero vivê-los! [risos] Mas veremos, as circunstâncias políticas são o que são, e eu não sei fazer futurologia.

In Contas à Vida | Sete Caminhos | 2005

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