José Mário Branco

© Isabel Pinto

Compositor e cantor
Tinha 31 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Paris

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Poucos dias passados sobre o 25 de Abril, ele foi o primeiro a definir quais deviam ser os cânones da canção de intervenção, numa reunião de cantores que integraram o Colectivo de Acção Cultural, nascido no alvorar da revolução, e que eram quase todos os que vinham da canção de protesto que marcou os últimos anos da ditadura. O exemplo do que deveria ser feito, agora que o fascismo estava derrubado e a liberdade fora alcançada, apresentou-o José Mário Branco nesse dia. Chamava-se Alerta e marcou a estreia da canção-de-combate após a revolução.
Exilado em França desde os princípios dos anos 60, José Mário Branco tinha 28 anos quando assinou os arranjos de um disco que é uma referência fundamental da música portuguesa do século XX: Cantigas do Maio está para José Afonso como Por Este Rio Acima está para Fausto, ou Sgt. Pepper para os Beatles: poderá nem ser o melhor de todos, mas é impossível falar de um sem pensar no outro.
Nesta linha podemos situar José Mário Branco perante o seu Ser Solidário, um dos discos mais marcantes para as gerações de Abril e que começou por ser um espectáculo que fez história: no Teatro Aberto, em Lisboa, nos anos de 1979 e 80, durante várias noites de sessões esgotadas para o ver e ouvir. FMI, o tema catártico que foi nessa altura oferecido como encore – e que nunca mais voltou a ser apresentado ao vivo – ajudou a sarar algumas feridas que permaneciam abertas, e provocou muitos nós de garganta.
Antes e depois, Zé Mário protagonizou alguns momentos-chave da nossa vida colectiva: Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades e Margem de Certa Maneira, no início dos anos 70, representaram o primeiro grande salto em frente da música portuguesa depois da «revolução baladeira» iniciada dez anos antes por José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. O GAC, que formou e de que foi alma mater, criou os melhores momentos da canção de intervenção.
De formação católica, José Mário Branco é um homem de roturas: primeiro com a Igreja, a seguir com o Partido Comunista, mais tarde com o maoismo. Porque nenhum deles correspondia à sua maneira de estar no mundo. Foi e continua a ser um radical, na medida em que não desiste de olhar para a raiz dos dramas que afectam a sociedade onde vive. Resistir é Vencer, o seu disco mais recente, é a afirmação dessa mesma radicalidade. Dessa mesma forma de estar vivo e de respirar.

– Há mais de vinte anos, fizeste uma canção sobre o 25 de Abril, em que dizias a certa altura: «foi um sonho lindo que acabou». O que resta hoje deste sonho?

– Resta tudo, e ao mesmo tempo não resta tudo. Ou seja, houve mudanças (isto já é um cliché da conversa) fundamentais com o 25 de Abril de 74, neste país e no nosso modo de viver, que são irreversíveis. Ou que, pelo menos, nós pensamos que são irreversíveis, se bem que grande parte das esperanças já não existam. E é evidente que hoje se voltou, não à estaca zero, mas a uma estaca muito baixa. E vai ser preciso fazer muitos mais vinte-e-cincos de Abril para se recuperar o que se perdeu e se avançar no sentido da felicidade e da justiça da sociedade. «Foi um sonho lindo que acabou» continuava com «houve aqui alguém que se enganou». Eu tentei exprimir que isto é uma caminhada que se faz – aliás, a canção chama-se Eu vim de longe, eu vou p’ra longe –, e em que nós, ao fazer o próprio caminho, vamos adquirindo experiência, e portanto vamos aprendendo a olhar a necessidade de mudar o mundo para melhor com olhos mais experientes, com mais bom senso. E, no meu caso, com mais radicalidade. Porque, se é verdade que o meu discurso de há trinta anos era um discurso ideológico mais ao menos com os mesmos valores e as mesmas referências que ainda hoje tenho, também é verdade que esse discurso, hoje, da minha parte, é muito mais ético do que ideológico. Até porque a ideologia entrou em crise, a ideologia à qual eu estava e estou agarrado.

– Continuas marxista, portanto…

– Continuo marxista, mais do que nunca, continuo comunista, mais do que nunca. E tive que resolver dentro de mim essa segunda grande derrota da minha vida que foi, depois da derrota que tive como cristão, a derrota que tive como comunista. E tive que perceber, como aliás afirmei no comício fundador do Bloco de Esquerda, que não fui eu que fui saindo dos partidos, os partidos é que foram saindo de mim. E quem diz os partidos diz as igrejas, diz essa outra «igreja» que era o Partido Comunista. Portanto, hoje, os valores no essencial são os mesmos, o discurso e a vivência desses valores estão muito mais próximos da vida, estão muito mais agarrados à realidade das coisas. Daí eu ter sintetizado isso quando digo que, para mim, ser de esquerda é não conseguir viver bem com o sofrimento da humanidade. É transportar esses valores do campo ideológico para o campo ético, e é também, de certa forma, fazer uma espécie de fusão entre aquilo que era – e é – uma ideologia marxista à procura de um caminho para a transformação da sociedade e um outro referencial muito forte na minha vida que é o referencial cristão original. É toda essa transformação que me permite dizer que, hoje, tendo os mesmos valores, eu estou ao mesmo tempo mais sereno, mas também mais radical, mais «pão, pão, queijo, queijo», mais humanizado, de certa forma. Porque quando se faz uma síntese dos ideais marxistas de transformação da sociedade, da própria análise histórica do marxismo, com a mensagem ética e afectiva do cristianismo – que, evidentemente, não tem nada a ver com as igrejas que daí resultaram – quando se faz essa síntese, a ideologia humaniza-se, as personagens dessa história deixam de ser números e classes sociais, mesmo que a gente pense em termos de classes sociais. São pessoas concretas que sofrem, que lutam, que estão aí ao nosso lado. Isto é uma caminhada que me levou a várias sínteses consecutivas, e todas elas têm a ver com a experiência do 25 de Abril, evidentemente. E com outras experiências, sobretudo outra experiência que eu tive o privilégio de viver em directo, que foi o Maio de 68. Tem a ver com a criação artística também, que é uma coisa muito típica da minha geração de criadores. A incapacidade de viver uma estética sem uma ética agarrada a ela foi quase sempre uma característica muito forte dos movimentos culturais em épocas de crise. Com o tempo, percebemos que as palavras não são só palavras: são seres vivos, têm a sua alma própria. E isso que é evidente na poesia, é também agora evidente no discurso político, no discurso ideológico. Assumo-me muito como testemunho, consciência moral da minha comunidade. Não sei funcionar de outra maneira.

– Por isso é que tu regressaste agora, nas tuas canções, a uma linguagem mais política?

– Exacto. Por causa da derrota de 91, que para mim já tinha sido a derrota de 64, quando participei na fundação do primeiro núcleo maoista português, em rotura com a direcção do PCP e com a União Soviética e todo aquele pesadelo em que se transformou a revolução bolchevique. Já aí, através da frescura do discurso maoista, à época da «revolução cultural», foi a busca de um caminho alternativo. É muito violento. Quem foi católico sabe isso bem, e quem foi comunista organizado num partido também o sabe: é muito violento ficar entalado entre um inimigo e outro pesadelo, que ainda é mais pesadelo porque se serve das palavras mais belas que há. Quem foi católico sabe isso em relação à história do Cristo, que é a história mais bonita que a humanidade inventou até hoje, e quem entrou em rotura com o comunismo oficial também sabe isso. Como é que em nome das coisas mais belas se pode estar a defender o horror? Ou seja, se pode estar a defender o inverso dessas coisas? Portanto, o que acabou foi realmente a dimensão do sonho…

– Acordaste, desceste à terra…

– Foi pôr os pés na terra. Esse «sonho lindo» é um bocadinho pejorativo, agora lido à distância, não é o Sonho com ésse maiúsculo, do Antero, dos poetas visionários, dos poetas que nos vêm dizer que as utopias são possíveis, mas o sonho fugaz, juvenil, generoso ao máximo. Mas isso não chega. Não podemos pensar que quando as massas populares se movimentam, mecanicamente, espontaneamente, por obra de um espírito santo qualquer, a sociedade se transforma rapidamente de um dia para o outro. Não é verdade, não é assim, não foi assim nunca na história. Tínhamos lido mal os livros, tínhamos lido poucos livros, tínhamos aprendido pouco com a experiência da humanidade, tínhamos sido algo levianos na maneira de olhar para a realidade, o que é típico da juventude.

– No entanto, aquilo que tu viveste não foi um erro de juventude.

– Não, a palavra erro aqui não cabe. Quando um puto começa a aprender a andar e cai, e faz uma ferida no joelho, isso é não um erro, é um passo para a aprendizagem. Estamos a falar num movimento que foi generoso ao ponto de ser pacífico, de ser um movimento praticamente sem derramamentos de sangue, sem extremos de violência, de barbárie…

– Há quem defenda que faltou alguma violência no 25 de Abril. Tu partilhas dessa opinião?

– Não sei, isso é mais do domínio dos profetas, do que dos poetas. É evidente que eu estou convencido, sendo marxista e comunista, que uma mudança efectiva e real da sociedade no sentido do bem-estar colectivo, da justiça, da igualdade, da liberdade, tem de ser feita à custa de algum sofrimento, à custa da luta – que por vezes pode ser uma luta dura e sangrenta. Lembro-me sempre da frase do Brecht: «Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem». A palavra violência foi sendo semantizada no sentido de lhe dar uma carga negativa, foi sendo progressivamente assimilada como uma característica menos digna, menos espiritual, da humanidade ou até dos bichos. Mas se começamos a falar da violência, então temos de perguntar o que é a violência. Eu não conheço nada mais violento do que o mundo em que a gente vive hoje. E onde é que está essa violência? Está no «big brother», com o seu alter-ego que se chama George Bush, está no sistema, está na raiz do sistema. Porque este sistema está construído em cima da necessidade absoluta de alguém se apropriar do que não é seu – e isso é evidente que é a raiz de toda a violência. Eu acho que só se pode lutar pela paz lutando pela sociedade comunista. Agora, para seguir esse caminho vai ter que ser preciso decidir, em certos momentos, se se justifica ou não justifica alguma violência para acabar com a violência. É um jogo perigoso, é um jogo que foi sempre perigoso ao longo da história, mas se for para acabar com a violência, pode ser uma violência libertadora.

– Afinal, já se fizeram guerras de libertação...

– Violência, para mim, é ver a desgraça que há pelo mundo quando olho para o telejornal. Isso é que é violência. E não é só a violência que estou a ver, é a que eu recebo, que eu sinto em mim próprio. Isso é que é violento.

– As guerras, os que têm tudo porque os outros não têm nada…

– Tudo isso. Íamos agora desfiar o rosário e ficávamos aqui até amanhã. Portanto, não foi um sonho lindo que acabou, foi um sonho lindo que cresceu, que amadureceu. E, para amadurecer, o fruto eventualmente cai à terra, depois apodrece, e depois sai de lá uma semente, é um ciclo.

– Muitos dos que foram teus camaradas em 74-75 estão hoje num lado oposto, e justificam-se por vezes dizendo publicamente que, enfim, tudo aquilo foi um engano, eram jovens, não pensavam… O que é que tu sentes quando lês esses comentários, quando ouves essas justificações?

– Tenho pena deles. Tenho bastante pena, e isto não é cínico, tenho mesmo pena. Porque essas pessoas tiveram um momento na vida em que poderiam vislumbrar qualquer coisa de grande – na nossa gíria, nós diríamos que tiveram a oportunidade de «ver Deus» – e preferiram ser anões. Preferiram, em vez de pessoas, serem uns enormes umbigos, o que esteticamente até é feio. E portanto reagiram à derrota juntando-se ao inimigo que estavam a combater antes. Isso aconteceu ao longo da história, muitas vezes, e em geral tem a ver com a complexidade da personalidade das pessoas, as suas qualidades humanas. Por exemplo: a sinceridade delas então, e a sinceridade delas agora. E tem a ver com uma coisa de que eu seria incapaz e de que essas pessoas são capazes, que é levantarem-se de manhã, olharem o espelho, e não sentirem vergonha. É, no fundo, aquilo a que os cristãos originais chamavam o pecado do orgulho: é uma espécie de egocentrismo filosófico, é a gente conseguir estar bem na vida criando barreiras que nos defendem dos neutrinos, que vêm da dor humana à nossa volta. Eu não vivo bem. Eu não sou feliz, não consigo. Tenho uma boa casa, tenho um Audi à porta, tenho o frigorífico cheio de comida, tenho filhos e netos que só me dão alegrias, e não sou feliz. Não sou feliz porque a humanidade não é feliz, e eu pertenço à humanidade e tiro daí todas as consequências, todas. E continuarei a tirar.

– Tens hoje mais dúvidas do que tinhas há trinta anos?

– Sim. O que é perigoso para o sistema são as dúvidas. Se fosse ao sistema tinha mais medo das dúvidas do que das certezas. Assim como a inteligência de uma pessoa, de um entrevistador, por exemplo, se pode medir pela qualidade das perguntas, não das respostas, não é? Os filósofos dizem isto: aprende-se é a perguntar, a duvidar, criticar e autocriticar. Por isso é que eu continuo a ser marxista, porque realmente a grande lição do marxismo, para mim, e que eu comecei a vislumbrar quase sem transição à saída da Igreja Católica e à entrada do Partido Comunista, a grande lição é essa: o espírito crítico, a independência, a liberdade de juízo, aquilo a que os cristãos chamam livre arbítrio. O que arrasta consigo uma coisa muito chata, e agora aqui é a ironia: se queres livre arbítrio também tens auto-responsabilização. Portanto, não somos salvadores, nem profetas, nem líderes de coisa nenhuma. Nenhum de nós, os criadores, as pessoas que em certos momentos podem sintetizar a consciência moral de uma comunidade. Nós somos isso: as vozes que se ouvem e podem incomodar, somos os que dizem que o rei vai nu, somos assim. E, portanto, isto que eu digo dessas pessoas de que falavas, de se olharem ao espelho e não sentirem um calafrio, é válido para qualquer um, não é só para eles. É válido para mim, é válido para ti, é válido para um zé-ninguém qualquer que há pouco viesse no metro ao teu lado: o que é que eu ando a fazer da vida, o que é que eu ando aqui a fazer?

– É o tipo de pergunta que cada vez menos pessoas fazem, parece-me que este «amolecimento» se vai generalizando cada vez mais. Estás de acordo?

– Sim, estou. Se bem que eu acho que esses fenómenos, historicamente, são enganadores. Nunca me esquecerei (não te estou a falar de livros que tenha lido, estou a falar de coisas que vivi), da paz podre que era a França em Fevereiro, Março de 68: estávamos desesperados, não víamos acontecer nada que valesse a pena, não se via saída para coisa nenhuma. Parecia que as pessoas estavam adormecidas, e de repente…

– Em Portugal, em 1974, parecia o mesmo…

– Ninguém esperava o que aconteceu. Penso que nem os próprios capitães de Abril contavam que Portugal explodisse num movimento social daquela amplitude – numa questão de horas, poucas horas – e que levasse tudo à sua frente, como uma maré terrível, como uma maremoto!

– É aí que surge, no fundo, o movimento revolucionário que se viveu. Aí, mais do que nos quartéis…

– Exactamente. Havia ali uma contenção de energias que hoje nós vemos manifestar-se nos estádios de futebol e em Fátima, no 13 de Maio. Sente-se essa energia, percebes? Como em Lisboa, com a vitória do Benfica na Taça, de repente tu sentes que aquilo não é bem só copos e parvoíce, há uma energia que tem de sair para algum lado. E que às vezes sai pelo lado certo, e as pessoas dizem: vamos mudar isto, queremos ser felizes, porra!

– Ao longo desta conversa, já falaste várias vezes das «igrejas» por onde andaste. Qual é hoje a tua relação com Deus?

– Se me estás a falar de um deus institucional, não é nenhuma. Se me estás a falar da fé numa entidade supra-humana, sobrenatural, que seja criadora e condutora de tudo o que existe, também não é nenhuma. Quando falo de Deus nas canções ou na conversa é, digamos, para tentar referir-me àquilo que há de transcendente na própria humanidade, talvez desde o primeiro gesto em que o macaco levantou as patas do chão para começar a colher frutos. Houve já aí um gesto transcendente, que lhe permitiu começar a falar, começar a sua longa e lenta caminhada para a espiritualidade, disso não tenho dúvidas. Portanto essa tendência para a espiritualidade, para a grandeza, aquilo que realmente é grande na humanidade, que está nos poetas, primeiro que tudo, será talvez o meu deus.

– O outro foi um deus criado pelo homem, à sua imagem e semelhança?

– Foi. E a beleza da história de Cristo é isso mesmo, é ter vindo dizer às pessoas que não há mistério nenhum, que o deus somos nós próprios. E ele diz mais, não fala só da alma, fala do corpo…

– Aliás, Jesus Cristo pôs em causa muitas das supostas leis divinas desse tempo…

– Deus está em ti e no teu corpo. Como é que ele não havia de ser morto rapidamente? Tinha de ser. E portanto, ao dizer isso, ele está praticamente a dizer o mesmo que eu, ou vice-versa. [riso] Sejamos modestos: estou eu praticamente a dizer o mesmo que ele, por outras palavras. Por que é que Marx dizia que «a religião é o ópio do povo»? Ainda por cima, religião é uma palavra que quer dizer ligar, religar. Mas aí está a falar-se das igrejas, não é de Deus. É do negócio que se faz com Deus à custa da ignorância, à custa da infelicidade das pessoas que sentem a necessidade de um arrimo, de uma crença qualquer para não se matarem e acabar assim, desistirem de estar vivas. Esse deus a que eu me refiro de vez em quando não é o deus do negócio, é uma convicção firme na grandeza da humanidade.

– Antes do 25 de Abril éramos o país dos «três efes»: Fátima, fado e futebol. Hoje não é muito diferente…

– Sim, isso não mudou...

– Ou se calhar mudou para pior: é verdade que o fado melhorou, mas Fátima é um negócio ainda maior do que já era. E então do futebol nem se fala

– A ditadura burguesa, hoje em dia, é mais requintada do que há trinta anos. Falava-se há pouco da ideologia. Existe uma ideologia dominante, que é a ideologia neoliberal, todos sabemos o que é que quer dizer: tem os seus vectores fundamentais na supremacia do lucro sobre a pessoa humana, por mais que eles digam o contrário nos discursos de conveniência…

– Até já nos serviços públicos os utentes passaram a ser consumidores, e nos hospitais os doentes estão a ser transformados em clientes. Porque tudo tem que dar lucro!

– A palavra produção também desceu de categoria, passou a ser a palavra negócio. E a palavra negócio também já começa a descer de categoria, agora a palavra mercado é que domina. Portanto essa ideologia existe: uma ideologia imperial que domina o mundo, que domina as pessoas, que domina os projectos das pessoas, a organização concreta dos países e dos povos, que domina a estrutura produtiva, a estrutura distributiva, a estrutura repressiva e a estrutura super estrutural! É a consciência das pessoas, a cultura vigente, os valores de referência. Existe essa ideologia neoliberal, que é drástica, que é poderosíssima, que é assassina, mesmo. Assassina a uma escala de milhões!

– Como é que se pode lutar contra isso, hoje?

– Não sei. Só sei que não estou pessimista. Por umas razões ou por outras, por razões de consciência ou por razões de sobrevivência, há cada vez mais milhões de pessoas a levantarem a cabeça, a juntarem-se para procurar o caminho, a resistir até vencer. Sendo que essa resistência, como eu tenho dito, já é em si uma vitória, já é em si vencer, provavelmente. E há outra coisa que também é importante: é a própria decadência do sistema. Porque este regresso muito rápido a uma barbárie de novo estilo, a que estamos a assistir mais ou menos desde que o neoliberalismo atacou em força na época do Reagan e da Thatcher – que foram Cavacos a sério – é realmente a decadência do capitalismo. Que é uma coisa mortífera, em todos os sentidos, no sentido de matar pessoas com armas, matar pessoas por falta de medicamentos, matar pessoas à fome, matar pessoas por propagação de vírus, matar pessoas pelo vazio, com a propagação em força da droga. É que o próprio capitalismo já não tem saída, não tem nada para oferecer a ninguém. Repara que até abdicou de produzir riqueza: o capitalismo hoje é financeiro, é especulativo. Noventa, noventa e nove por cento, se calhar, dos negócios que se fazem todos os dias são completamente virtuais.

– Pagou-se para que as pessoas deixassem de produzir! Multam-se os produtores de leite, no Minho, por produzirem leite a mais, é uma coisa estranhíssima!

– Enquanto outros, ao lado, ali uns quilómetros mais abaixo, estão a morrer por falta de leite, e de trigo. Chegou-se à mais completa irracionalidade, o que quer dizer que este regime teve aqueles trinta anos – os franceses chamavam les trente glorieuses années ao período depois da II Guerra Mundial, porque foram realmente anos de grande expansão produtiva que permitiu ao capitalismo uma certa redistribuição da riqueza, a criação de benefícios sociais, o welfare state. Agora já nem isso, ou seja: mesmo que houvesse um palhaço qualquer, estilo Guterres ou Tony Blair ou outras pessoas assim, que dissesse «vamos agora aqui redistribuir melhor a riqueza», já não há. Porque os mercados já são quase só puramente especulativos, é só dinheiro virtual para cá, dinheiro virtual para lá, sem qualquer olhar para a humanidade. Porque, apesar de tudo, uma senhora que decide fazer uma fábrica de calças, mesmo que esteja a roubar a mais valia às suas operárias, de certo modo, está a fazer calças para vestir pessoas, está a olhar para a humanidade. Agora o capitalismo até já essa característica original perdeu, está na total degeneração enquanto capitalismo mesmo, está a criar, de uma forma terrível, as condições para uma alternativa. Porque na história não há vazio.

– E a história ainda não acabou, ao contrário do que disse o Fukuyama…

– Por isso é que eu estou optimista. Optimista, com a consciência de que isto vai ser terrível. Vai ser terrível!

– «E sempre que Abril aqui passar / dou-lhe este farnel para o ajudar.» Ainda tens o farnel a jeito?

– Tenho. Tento cuidar dele, através daquilo a que eu chamo as minhas coisinhas, para que sempre que sejam precisas elas estejam cuidadas, como as unhas, para tocar viola como deve ser. Cuidar das unhas, cuidar da saúde, cuidar da minha ginástica moral, ou seja: uma pessoa não se pode distrair muito, não se pode entregar à preguiça. Sobretudo quem vive melhor tem de fazer a sua higiene, sempre. A higiene não é só corporal, é também moral: então, como é que isto está a correr, o que é eu que ando a fazer, o que é que eu vou ser um dia? O que eu gostava de ser está na última canção: só falar para dizer, ser igual, dar, receber. Quando fiz o Ser Solidário não me dei conta disso, só mais recentemente. Será porque a idade avança, há o nosso próprio envelhecimento, a morte começa a beliscar-nos cada vez com mais frequência, porque conforme o tempo passa vão morrendo mais pessoas que a gente conhece, é naturalíssimo. E nós, os ocidentais, não sabemos lidar com isso, temos uma relação problemática com a questão da morte – que não é tão problemática nos orientais, e menos ainda nos animistas africanos ou nos índios da Amazónia, que enquadram essa questão toda num ciclo mais natural da vida. Mas nós, com a nossa formação judaico-cristã, temos dificuldade em lidar com a questão da morte. E eu falei do Ser Solidário porque fui percebendo que quanto mais sou os outros, quanto mais nós formos sendo nos outros, quanto mais nós formos já sendo os outros, menos a questão da morte tem importância. E isto aplica-se a tudo, até aos Direito de Autor, às minhas concepções todas, não sei se me faço entender. Tem a ver com ser igual dar e receber, também. Foi isso que significou o coro daqueles putos no Coliseu [no espectáculo de Maio de 2004]. Não me estava a despedir de ninguém, estava só a dizer isto. Já não é problema para mim, foi porque fui educado da maneira que fui, nesta cultura que a gente tem, e que há cinquenta anos era bem pior. Mas quanto mais nós já formos os outros, menos essa questão tem relevância porque esta vida já não é bem a minha vida: já está integrada no Universo, na humanidade toda, já sou muito maior que eu próprio.

– Não estás, portanto, preocupado? Mesmo não acreditando na vida eterna…

– Não. Nada, porque já estou a continuar, já estou a ser eterno. Deve ser um bocado o que, enquanto bichos nós sentimos quando temos filhos, e depois netos, e depois bisnetos. Deve ser essa continuação que numa estrutura gregária familiar se sente: essa continuidade como forma de ultrapassar a questão da morte. Em mim é isso muito mais generalizado já. Não tem relevância, é mesmo a expressão correcta. É uma questão que não é relevante.

In Contas à Vida | Ed. Sete Caminhos | 2005

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