Mário Alberto

© Pedro Loureiro

Pintor e cenógrafo
Tinha 48 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Lisboa

Baptista-Bastos chamou-lhe «um predador com asas de anjo, um ser cada vez mais raro». E Joaquim Letria assinala-lhe «a franqueza de quem nunca foi hipócrita e é sensível às coisas importantes da vida». Os amigos, todos eles, e até os inimigos, sabem que é verdade. Nasceu em Lubango, Angola, cresceu no Alentejo, e viveu a maior parte da vida no Parque Mayer, cujos segredos conhece como poucos. Antifascista irredutível, militante do sarcasmo e heterossexual assumido, habituou-se a praticar o humor e o amor com igual intensidade e o mesmo empenhamento.

Quando, no início dos anos 70, alguns autores tentaram uma renovação do teatro de revista, ele lá estava: É o fim da macacada, primeiro, É Pró Menino e Prá Menina e Tudo a Nu, logo a seguir, foram pedradas no charco da produção teatral desse tempo. Mas, antes e depois disso, as aventuras deste pintor anarco-surrealista decilitrante e indomável foram todas as que possam imaginar-se: lavou pratos na Holanda, foi bolseiro de Beatriz Costa na Academia Grande Chaumière de Paris e pauliteiro de Miranda em digressão pela Turquia, praticou a coreografia do amor de todas as maneiras e nos lugares mais impróprios, meteu-se em brigas – sempre atento e frontal como já não se usa.

O que se segue é uma conversa ao sabor da brisa da noite, numa esplanada de Lisboa, em que o mote abrilista acabou por ser apenas o ponto de partida para uma pequena acção guerrilheira. Uma punitiva, das antigas, que o Mário Alberto não pede licença a ninguém para dizer o que lhe vai na alma, e não é um homem fácil: fala em tons fortes e não teme ser excessivo como as personagens dos seus quadros. Exagera? Talvez, mas o exagero não é senão uma forma eficaz de realçar a verdade, que é o alimento e a essência da sátira – como explica outro grande mestre do humor, José Vilhena. Não se espantem, pois, com as respostas eventualmente chocantes da cavaqueira que se segue. À cautela, e para evitar eventuais danos pelos quais o autor não se responsabiliza, os mais respeitadores da moral de Abril e dos bons costumes de Novembro deverão passar adiante e fazer de conta que não está aqui ninguém...

– Ainda te lembras do 25 de Abril?

– Então não lembro? Foi o dia mais feliz da minha vida!

– E de que é que te lembras mais?

– Eh pá!, tenho saudades daquelas coisas todas com que nós sonhamos, e que se frustaram...

– O que é que foi o 25 de Abril para ti?

– Foi uma grande esperança, um grande triunfo da esquerda, dos gajos como nós, que sempre estivemos na oposição. Mas agora o 25 de Abril é uma coisa amorfa, uma tristeza...

– E por onde é que ele anda?

– Eu acho que está na gaveta, segundo a versão de um político do PS, que foi Presidente da República...

– Esse foi o dr. Mário Soares e o que ele meteu na gaveta foi o socialismo...

– Meteu o socialismo e o 25 de Abril. Era uma época diferente, havia o Carlucci, um revolucionário americano que estava aqui exilado. Ri-te, ri-te...

– Isto está a dar para o torto, já percebi...

– Eu acho que isto está a dar para o direito. Isto é muito engraçado: o professor Freitas do Amaral, correligionário do Dr. Oliveira Salazar, hoje é um tipo da extrema-esquerda. Isto é o país real, pá! O 25 de Abril... Eu digo-te, agora acho graça. Eu acreditei, e fui um privilegiado. Apareceu o 25 de Abril e gozei, uns dias... Mas agora...

– Foi um sonho lindo que acabou?

– Exactamente. Foi um sonho lindo, como dizia o meu admirado José Mário Branco, homem de grande talento. O Zeca Afonso, hoje, se fosse vivo também estava muito triste. Quem mais é que podia ficar triste? A Natália não, isso era uma burlona, uma aldrabona... Depois diziam que era poetisa. Uma aldrabona, pronto. Poeta era o patrício dela, lá o açoriano, das palavras, o professor...

– Vitorino Nemésio...

– Sim. Era um homem que ninguém sabia se era católico, se era de esquerda... Católico parece que sim. Agora isto está uma pouca-vergonha. Oh, Viriato!, isto agora só lá vai agora com banhos de semicúpios... Ou com pachos de borato de sódio nos colhões: colhão da esquerda, colhão da direita, vira para a esquerda, vira para a direita... Eh, pá!, isto é a realidade política!

– Isso quer dizer que estás desencantado?

– Porra, se estou! Isto foi muito grave, o que se passou! A gente estava à espera, e depois o Otelo... O grande gajo da revolução – chamemos-lhe revolução – foi o Salgueiro Maia, o outro é um charlatão, fez-se prender para ser herói, estás a perceber? Isto está muito mau, acredita! Tu és muito novo, não te dou conselhos, mas hás-de chegar a uma conclusão, daqui por mais dez anos que isto foi uma grande vigarice, o 25 de Abril foi uma grande burla. Olha, tem uma coisa boa: o restaurante lá em cima, no Bairro Alto, a Associação 25 de Abril...

– Quando tu dizes que o 25 de Abril foi uma burla, vamos lá a ver: o 25 de Abril foi um movimento de libertação...

– Eh pá!, de libertação relativa… Acabaram as guerras coloniais, isso tudo. Mas depois… Isto fez jeito à América, ao Salazar...

– O Salazar já tinha morrido...

– Pois, é defunto, mas o espírito dele ainda anda por aqui. Pergunta ao Marcelo Rebelo de Sousa se não anda. O rival do Santana Lopes. Comentaristas...

– Comentaristas sérios, não é?

– Patuscos...

– No 25 de Abril, tu ainda não tinhas cinquenta anos...

– Sim, para aí...

– E entretanto viveste mais trinta, como todos nós. Disso tudo, o que é que ficou?

– Pouca coisa. Vou-te explicar: ficou o triunfo do futebol, dos treinadores, dos balúrdios. O que é que ficou mais? A censura já existe outra vez na imprensa... O que é que ficou mais? Um parlamento amorfo... Olha, é um parlamento que o Camilo Castelo Branco chegava lá e desancava aquilo tudo à paulada! O que é que ficou? Pouca coisa, pá...

– Mas houve uma mudança de mentalidades, apesar de tudo, ou não?

– Havia mentalidades que eram de direita e de repente diziam-se da esquerda...

– Tu foste sempre um libertário, um tipo fora das normas instituídas.

– Procurei estar sempre.

– E, naturalmente, isso reflectiu-se na tua vida pessoal...

– Em relação ao trabalho, por exemplo: eu abandonei o teatro com fortes razões. Evidentemente que o 25 de Abril acabou com a censura, já foi uma grande benesse. Eu tive quadros em revistas do Parque Mayer – não fiz só Parque Mayer, fiz teatro universitário, fiz teatro amador – e a censura cortava, por dá cá aquela palha cortava. Portanto, claro que ganhámos uma liberdade, mas também ganhámos muita estupidez, sabes o que é? Eu vou dar-te um exemplo, deixa-me pensar para não dizer disparates. A televisão, no estado em que está não é melhor nem pior do que a que havia. Uns concursos miseráveis, os mesmos gajos que manobram os concursos, aquela mulher – esqueço-me do nome dela – que faz interrogatórios aos presos que saem da prisão, deves saber como se chama: teve um programa em que entrevistava os presos, tratam-na também por doutora...

– A Júlia Pinheiro?

– Essa, a Júlia Pinheiro. O 25 de Abril também dá Julias Pinheiros, dá Teresas Guilhermes, quem mais?

– Mas também há coisas positivas, ou não?

– Há, isso há. Olha, há um gajo bom, que escreve bem, é um cronista notável... Um gajo que é do Porto, e «doente» do Futebol Clube do Porto...

– O Miguel Sousa Tavares?

– Sim. É um gajo bom, a gente vê o que ele escreve, vale a pena ler. A sério, é um tipo com tomates. Depois, o que é que há mais? O Partido Comunista, que eu apoio – não sou militante, mas apoio – está muito amorfo. Quer dizer, não é carne nem é peixe, estão para ali...

Queres tu dizer na tua que o país ficou cinzento…

– Cinzento escuro. Muito escuro!

– E pode mudar de cor?

– Acho muito difícil, a América não o deixa mudar de cor. Tu vês as cores que há na América Latina, os americanos é que mudaram a cor àquilo, eles põem a cor que querem, são uns cabrões! Tu sabes o que é ferrar vacas e bois? Eles põem as estrelinhas da Cat'rina, e está tudo fodido! É verdade! O que se tinha que fazer aqui era, primeiro que tudo, acabar com a América. Não é a América dos índios, percebes tu?, não é a América do partido comunista americano, que existe. Mas a América à maneira do Carlucci, do chewing-gum, das Madonnas... A América ia p'rò caralho, toda! Um tremor de terra na América...

– Mesmo depois do 11 de Setembro?

– O 11 de Setembro foi uma brincadeira... Eu estava na Figueira da Foz, com um amigo meu e teu, o António Macêdo. Estávamos em casa do Lucas Serra, um apartamento que ele nos cedeu, e estávamos ali a preparar um almoço, uns carapaus de escabeche. E o filho do Macêdo telefonou, «pai, pai, liga a televisão». Ainda vimos aqueles bombardeamentos, foi uma alegria! Mas foi pouco. Eu acho que a América devia ser toda bombardeada de baixo para cima, de cima para baixo... Norte, Sul, Este e Oeste, tudo!

– Mas, coitados, os americanos não têm culpa...

– Têm. Têm culpa porque são americanos. E só é americano quem quer. Eu sou de Angola. Tu és americano?

– Não...

– Tu és de Ílhavo, a terra do Castrim. Porra!, e eu sou de Angola, eu nunca quis ser americano. Só é americano quem quer.

– Achas que os americanos querem ser americanos?

– Querem. Eles são doidos, têm borbulhas na cara... Casam virgens, aqueles filhos-da-puta, estás a perceber? É um país idiota, analfabeto. Ora, quem tens tu de jeito na América? Os não americanos. Os grandes realizadores de cinema não eram americanos. Americano, naturalizado, foi aquele filho-de-puta, o Elia Kazan, que denunciou a esquerda americana, lembras-te? Eu acho que a América era para experiências nucleares. Com crianças e tudo. E tu dirás: ah, mas se há guerra as crianças morrem. Pois, mas então não se fazem guerras. Eu acho que se fazem as guerras até para matar crianças...

– Aliás, estão a morrer no Iraque...

– Aí é que já fico muito perturbado... Quem está a matar as crianças no Iraque é o sacana do imperialismo americano. Isso é que já me faz dor de dentes...

– Voltemos ao nosso 25 de Abril: o que é que faltou?

– Faltou um acordo, penso eu. O Partido Socialista foi inventado à pressão pelo Willy Brandt e pelo Mário Soares, que ficaram impressionados pela única força concorrente e organizada, que era o Partido Comunista Português... Faltou uma unidade que não houve. Depois seguimos os piores exemplos, até nos slogans – «El pueblo unido jamas será vencido» – de revoluções falhadas, como a do Chile. E havia aí uns gajos que em vez de gritarem «unidade, unidade», diziam «humidade, humidade»... Tu, que és um tipo muito mais novo do que eu, deves ficar um bocado desiludido com estas minhas atitudes. Mas isto é verdade. E mais tarde chegas lá, tu és um gajo duma esquerda progressista...

– Mas, vamos lá a ver, nem tudo é assim tão mau...

– Não, há gente que eu admiro muito: olha, ao nível do cancioneiro, por exemplo, gosto muito do Fausto, do Zé Mário Branco, do Sérgio... Do Zeca então nem se fala.

– Mas há mais...

– Deixa cá ver... Depois, de mulheres, já viste?, é só merda! Há aí uma Não-sei-quê Veiga, uma gaja roufenha, que não sabe cantar, é uma desgraça! Olha, pronto, é o país real... Eu acho que este país está a precisar de uma chuva de merda, mas não é merda raleira, é uma coisa que rompesse guarda-chuvas, volumétrica...

– Isso é uma grande merda!

– Tu brincas, Viriato, porque ainda és um optimista. Tens fé, esperança e caridade, mas eu não.

– Não estás optimista...

– Não. Só à bomba! Até o Alentejo está morto. Está podre como as espigas de trigo, as papoilas saltitantes que o Piçarra cantava, foi o hino do Glorioso. O que é que a gente há-de dizer mais disto? Isto é um país que só lá vai à pedrada!

– Em todo o caso estás disponível para outro 25 de Abril?

– Ah! Mas desta vez era a sério. Eu juro-te uma coisa: eu não sei nada de armas, mas agora, se me dessem uma, ia logo à caça dos malandros. Palavra de honra! Ia à caça desses gajos, pá! E ainda pode haver um outro 25 de Abril...

– Achas que sim?

– Começa a haver fome, não há habitação, o serviço hospitalar é uma merda, como tu sabes. Se amanhã tens uma gripe, vais ao hospital e dão-te uma aspirina; mas depois apanhas uma pneumonia e estás fodido, já tens que ir aos tubarões! Uma cáfila! Salazaristas. O que é que a gente pode dizer mais deste país?

– Perdeu-se a esperança?

– A esperança, a fé e a caridade. Olha o Benfica: «ser benfiquista é ser bom chefe de família». Eu acho que isso não está a resultar muito. O Sporting também tem a mesma filosofia...

– Se calhar até o Porto...

– E o Porto, pois. Mas o Porto é uma instituição, porra! Eu acho que o dr. Pinto da Costa é que dava um bom Presidente da República. Depois do mandato do... Como é que ele se chama?

– Sampaio. Jorge Sampaio.

– Eu acho que o sucessor dele, mas assim já numa linha mais progressista, era o Pinto da Costa.

– Portanto votavas no Pinto da Costa...

– Eu já voto. Quando vou votar, de quatro em quatro anos, eu escrevo lá «Pinto da Costa». É um voto inútil, mas merecido. O Pinto da Costa é o grande descobridor, um cientista... Depois dele, há um outro rapaz no desporto que fala muito bem, o Octávio, um gajo de Palmela: um português muito civilizado, nada agressivo... De quem é que a gente pode falar mais?

In Contas à Vida | Sete Caminhos | 2005

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