O sonhador de amigos

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"Um homem tem todas as idades, desde que o mundo existe, desde que a vida surgiu."

Carlos Paredes

Um homem está debruçado sobre a cidade, sereno e tranquilo e atento a todas as imagens e às outras que não estão lá, e nos seus olhos há um sonho que se constrói com mãos e com alma, como é próprio das coisas belas. É um alguém urgente, de cabeça solta no delírio dos pássaros que estrebucham no rasto de loucos espalhado pela cidade à sua frente. Ali em volta rodopiam mulheres quase invisíveis de cabelos luminosos como nos poemas banais, e ouve-se um som ligeiro, definido apenas quanto baste para ilustrar as lembranças duradouras dos mundos todos que o homem traz dentro da cabeça.

Sobre a cidade paira um fogo enorme de que apenas este homem atento e debruçado se dá conta. E olha em volta, mas quem passa leva mais em que pensar, pode ser o gás, a luz e o telefone, as facturas com três meses, um amor por consumar, ai de nós quando morrer a esperança e o fogo se extinguir. Diz o que diz, nunca fala por falar, porque sabe que há coisas que é preciso dizer, porque o silêncio mais terrível é quando o rumor da memória se apaga na mudez do esquecimento.

O homem sabe que há muito mais coisas no mundo do que aquilo que os olhos podem ver e os dedos podem tocar, cinco sentidos são poucos para tanta coisa extraordinária. É por isso que ao falar se perde e se encontra nos sentidos todos das palavras, porque as palavras nunca são simples conjuntos de letras ordenadas em conformidade com a morfologia e a sintaxe, as palavras são a expressão e a vida de todo o ser ou coisa, e tanto assim é que mesmo deus só existe porque podemos nomeá-lo.

O homem pensa tudo isto de modo desordenadamente claro, e sobre a cidade sorri ao mundo, para disfarçar a tristeza. Tempos houve em que amou mais do que aos humanos é consentido, sabe quão infinitos são os mistérios e as agruras do amor, melhor seria arrancar um braço como o poeta, e no entanto sabe também que desistir de amar seria apenas uma forma cobarde de desistir de viver e por isso preferirá dizer que amou até à exaustão, até ao desespero

– Até somente ser possível amar tudo

sabendo ele e sabendo nós que estas são palavras de homem sábio, palavras com o amor por dentro, os passos em volta e infinitos espantos pela rua, e por isso são com certeza mais verdadeiras do que as palavras comuns.

O homem está debruçado com a naturalidade de quem sempre soube de todas estas coisas, vivendo no meio de quem nunca deu por nada. Não se espantará pois se uma desconhecida o abordar e lhe pedir um beijo. Sem pretexto nem razão, apenas porque sim. Talvez altere o rumo dos planos para esse dia, talvez não vá ao encontro marcado para as seis, talvez endoideça e se deixe ir, atrás do beijo e do sorriso da mulher.

Ou talvez não. Provavelmente vai beijá-la como quem diz adeus e serenamente sussurrar-lhe com voz de mar e névoa há quanto tempo não nos vemos, e ela dirá se calhar nunca nos vimos, e ele pois não mas quem dera fosses Aquela por quem estive sempre à espera, e seguirão cada um o seu caminho

– Até tudo poder ser reencontrado

por dentro do amor, e esta história não acaba nunca porque é a mais bela de todas as histórias de paixão, total e redentora

– Tomai, isto é o meu corpo

e porque assim é, não sei por onde começar. Poderia dizer-lhe que tantas foram as vezes em que falámos destas coisas tão pequenas e tão simples e tão óbvias, que às vezes parece que ainda o vejo aqui mesmo à minha mesa, ou ali à frente, no meio da rua, tacteando a realidade impura dos homens sem ficar contaminado, deslumbrando-se perante um gesto, um sorriso anónimo, uma paisagem ou um som distante. Dizem que o homem, esse homem debruçado sobre a cidade de quem lhe falo, dizem que é músico. Outros dizem que é um ser fantástico, divinumano, julgando com isto explicar o que não tem explicação.

Pois quem poderá aferir a vida de uns e de outros, os seus actos e omissões, os seus feitos e os seus defeitos? Há muito mais perguntas do que respostas, o amigo sabe bem que nem todos os que olham são capazes de ver o que há do lado de dentro das coisas.

 

Quando o prenderam, por excesso de sonhos, o homem grande sorria. E continuou a sorrir, gesticulando sozinho na cela, dirigindo uma invisível orquestra de guitarras que pairava no seu cérebro. Os companheiros levaram tempo a perceber que se tratava de música, os polícias nunca entenderam que aquele homem seria sempre mais livre do que qualquer deles ou todos juntos. Porque a vida são mais do que cinco sentidos, o meu amigo sabe. E era por isso que o homem continuava a sorrir nessa tarde, tantos anos depois, em que voltou a debruçar-se sobre a cidade.

As palavras são como os sonhos, têm os significados que lhes damos e os outros, e até deus deixaria de existir se trocássemos as palavras, e onde está deus passasse a estar diabo, o mundo nunca mais seria o mesmo. Pena é que sejam tão poucos os que se deixam prender pelas palavras certas, e menos ainda os que entendem as infinitas sem-razões do amor, de amar assim, sem nada em troca, sonhando amigos. Pode alguém viver feliz com tanta dor em volta, tanta mágoa, tantas lágrimas?

Na cidade há um fogo imenso, mas quem passa leva mais em que pensar, o gás, a luz, o telefone, um amor que ficou pelo caminho, ai de nós quando morrer a esperança. Diz o que diz, mesmo sabendo que está tanto por dizer, que está tudo por fazer. Um dia, murmura, um dia virá em que os homens poderão viver como homens, e toda a gente descobrirá que o prazer de dar é maior que o de receber, mas até lá só nos resta o sonho feito com mãos e com alma.

Mãos, dedos, toques e magias – assim se vai desenhando a alma das coisas que o homem vê, do mundo que respira, dos amigos sonhados que surgem pelo caminho, sempre com música em redor e uma ilusão por perto. O que falhou no mundo melhor que quis ajudar a fazer, não sei.

– Sei que não passo de um homem, cidadão de todas as cidades, e trago comigo a única certeza de que a arte só existe com as pessoas por dentro, por isso gosto de abraçar a música como se abraça alguém que se ama. E se a música e a realidade estivessem em lados diferentes de mim, então estaria a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade.

Digo: não sou um homem de palco, mas também não me chega ser um homem de plateia. Gosto de ver, sentir, partilhar. Em palco, as mais das vezes só vemos as luzes à nossa frente, e é como se o brilho cegasse, deve vir daí essa imensa solidão angustiada do artista. Foi por isso que nunca quis ser mais do que um arquivista de retratos, maravilhas da técnica, milhares de fotografias tiradas por dentro dos corpos, e é pelo corpo que se chega à alma, eu sei. Só se pode olhar para os outros a partir deles próprios, e eu podia vê-los por dentro, aos nobres e aos pobres, ricos e plebeus, todos igualmente frágeis e verdadeiros. E o amigo não imagina quanto se pode viajar numa simples sombra, o que uma imagem elementar a duas cores nos dá a conhecer de um homem.

Poderia falar uma vez mais de amigos, doidos de paixão, adolescendo no amor que tudo explica. Pois que a idade de um homem não são cinquenta, nem duzentos, nem dez mil anos, a idade é o tempo todo que houve e haverá. É este o meu mundo, o universo que quis construir à imagem e semelhança do homem que reencontro nesta cidade

– Este é o meu sangue

como se fosse eu próprio, como se tudo fosse sempre tão simples como estar aqui. O homem debruçado sobre o mundo não tem como esconder um raio de tristeza no olhar atento, os dias não correm de feição para os poetas, mas é só uma questão de tempo. Dias virão em que o mundo aprenderá de novo o valor das coisas simples, como um sorriso, uma melodia de mendigos, um beijo.

À sua volta rodopiam mulheres iluminadas como nos poemas banais e ouve-se um som definido apenas o necessário para acender as lembranças dos mundos todos que o homem traz dentro da cabeça, solta no delírio dos pássaros que estrebucham na cidade à sua frente. Espera, talvez, que alguém o aborde somente para dizer há quanto tempo não nos vemos. E seguirão a pé o resto do caminho, lado a lado, como pássaros tacteando a realidade e os sentidos das palavras e das coisas.

In Movimentos Perpétuos - Textos para Carlos Paredes

Livro colectivo de tributo a Carlos Paredes | Textos de Clara Pinto Correia, Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho, Fernando Alves, Gonçalo M. Tavares, Jacinto Lucas Pires, Jorge Silva Melo, José Carlos Vasconcelos, José Eduardo Agualusa, José Jorge Letria, José Luís Peixoto, José Saramago, Luís Osório, Manuel Alegre, Manuela Gonzaga, Mia Couto, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Possidónio Cachapa, Regina Louro, Rui Zink, Sarah Adamopoulos, Sérgio Godinho, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura, Viriato Teles e Y.K. Centeno
Prefácio de Jorge Sampaio | Ed. Oficina do Livro, Lisboa, 2003
* Áudio: leitura de Sandra Bernardo, programa Filhos da Madrugada, Emissora das Beiras, 16.Fev.2006

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