A terra e a memória

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O dia começa a meter-se para dentro. Leva consigo as casas
de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias
com perfume. A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.

Herberto Helder, Retrato em Movimento

 

Tudo pode começar assim, memória vaga de um princípio qualquer, desejo irrequieto de manter viva uma lembrança. A gente e os lugares, o riso e a canseira, a paixão e o desencanto. De tudo isto se faz a história das cidades e dos mundos, que todos os sítios têm um passado para lembrar.

O passado é o espelho enevoado de tudo o que fomos. O futuro é a visão difusa daquilo que queremos. Entre os dois extremos do tempo, correm os dias, morrem os sonhos, cumprem-se os rituais. É assim em todas as terras. Até na minha, que é uma terra igual às outras, com a diferença que é a minha e por isso sou mais dela do que das outras, mesmo se muitas terras já os meus olhos viram e amaram.

Podem escolher-se os amigos, as causas, os ofícios. As terras não. Somos daqui porque sim, foi o lugar onde tudo começou. Crescemos com estas pedras, estas ruas, este mar, esta gente. Somos cúmplices das esquinas que foram o cenário das brincadeiras de infância, dos recantos onde trocámos os primeiros beijos. Revêmo-nos nas casas e nas pessoas, mesmo quando umas e outras envelhecem e morrem, destino último de tudo quanto existe.

É esta cumplicidade que nos identifica. A terra e a gente, sinais dos tempos e das coisas, vestígios de grandezas e misérias que nós somos, nada a fazer. A gente da minha terra foi desde sempre uma gente de partir e de chegar, raramente de estar. A sua relação com o mar, paixão truculenta, é mais forte do que os códigos da razão. Assim, mais do que a lembrança das ruas, das casas, dos lugares e das pessoas, é o oceano aquilo que verdadeiramente nos une. Marinheiros ou não, mas sempre cidadãos das sete partidas, os de Ílhavo habituaram-se a conhecer a incerteza e a viver com ela. Aventureiros por natureza, sonham sempre com o dia do regresso definitivo a terra firme. Mas, mal o conseguem, logo a saudade do mar se faz outra vez sentir. Deve ser por isso que a sua gente por vezes parece tão insensível àquilo que tanto lhe diz respeito: os antigos, a história, o património, as tradições, as marcas do seu e nosso passado comum. Habituados ao elemento líquido, seu habitat constante e natural, os ílhavos dificilmente conseguem valorizar as naturezas sólidas. A não ser as próprias, claro está, que a solidão histórica dos nossos ancestrais marinheiros entrou-nos no corpo, colou-se-nos às veias, individualizou-nos perigosamente. Assim se condenam vestígios de antigas fidalguias, se deixam cair as casas da nossa memória, se esquecem nomes ilustres, se desprezam lugares que deveriam ser objecto de, pelo menos, um olhar diferente. Assim, neste dormente vai-se andando, vamos morrendo aos poucos.

Por isso dói a indiferença, o esquecimento, o encolher de ombros de quem prefere o deixa andar ao vamos fazer. Por isso, pela defesa da identidade que nos emparceirou no mesmo destino - e que é, afinal, um pouco da vivência de cada um de nós, presentes e ausentes -, apetece ouvir falar de novo das coisas simples que são a razão de ser de qualquer comunidade.

Os lugares, as mulheres, as casas, as lembranças, as esquinas, os cheiros, as ruas. E o mar, presença que nunca se esgota no coração de qualquer ilhavense, poeta ou não. Uma vez mais reunidos, todos estes elementos da nossa identidade colectiva, ajudam-nos a compreender melhor quem somos e como somos. Diferentes entre os iguais. Pachachos e Samagaias, Porrasanas e Patanecos, Mangonos e Pardalas. Marujos ou cavadores, citadinos ou aldeões, a todos nos cabe uma parte deste espólio imenso que é a memória comum.

Dê-se-lhe corpo, que o resto está já aqui. Em forma de poesia.

Prefácio a Da Minha Terra e de Seu Povo de Joaquim Quintino | Edição Os Ílhavos | 1995

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