Dos copos até à ponta

b_500_400_16777215_00_images_livros_anjos1b.jpg

Portugal, que como país de poetas já é o que se sabe, corre o risco de se tornar também num país de pensadores: Santana Lopes pensa no estrangeiro, Manuel Monteiro pensa devagar, José Magalhães pensa via internet, enquanto Vasco Graça Moura pensa que voltará e Carlos Carvalhas continua apenso.

Também há os que pensam que o melhor é não pensar em nada, os que gostam de estar em suspenso, os que pensam logo, os que pensam que pensam. E os bem pensantes, os que não dizem o que pensam, os penso-higiénico, a Pensão Duque, os pensionistas e idosos, a ponte pênsil.

Há, sempre houve, quem pense que em Portugal se pensa demais e quem, por menos, não pense. Pensando bem conclui-se que o pensamento lusitano, tal como o cavalo homónimo, já não é o que era. A filosofia perdeu a ponta ao confundir-se com a ideologia dominante quando desejava eliminá-la.

Os autores desta "Filosofia de Ponta", cientes do dilema em que se debate a sociedade civil, não hesitaram em atacar a ferida com pêlo do mesmo cão. Se a era é a do vazio, há que tomar de assalto o espaço e o tempo, desmontá-los sistematicamente, rever os circuitos da memória virtual e remontá-los de novo. Dos copos até à ponta - mesmo se nem sempre a realidade dos copos se mostra compatível com a natureza da ponta.

O resultado da autêntica pega de caras em que se meteram Júlio Pinto e Nuno Saraiva são estas histórias que, desde há quase dois anos, nos aliviam a dor congénita de ser português. Um espaço de respiração onde os fantasmas de Nietzsche e Freud se cruzam com a dura realidade do Guarda Abel, mas onde também Karl Heinrich Marx pode ainda vir a encontrar-se, um destes dias, com Jean Nicolas Arthur Rimbaud, numa gare de caminho de ferro em Londres, nem que seja só para um copo vadio.

Catálogo da exposição Filosofia de Ponta, de Júlio Pinto e Nuno Saraiva | Bedeteca de Lisboa, Abril-Maio de 1996

Mais sugestões de leitura

  • Saudades de ZecaOpen or Close

    E vão 26 anos sem Zeca, mas sempre com ele - e hoje mais do que nunca. Um pretexto tão bom como qualquer outro para retomar uma prosa incluída na edição mais recente d'As Voltas de um Andarilho:

    A minha memória mais antiga de Zeca Afonso vem do início dos anos 60 do século passado quando, ainda miúdo, ouvia na rádio o «Menino d’Oiro». A televisão era um luxo a que as gentes da classe média desse tempo não podiam dar-se – e, fosse como fosse, ele não frequentava os saraus de variedades que o electrodoméstico transmitia por esses tempos. (...)

    Ler Mais
  • Uma vida de risco(s)Open or Close

    Agora, o Relvas já é mais do que lenda. Ele é uma referência – porventura a mais irreverente, com certeza das mais relevantes – fundamental para quem quiser conhecer a evolução da banda desenhada em Portugal nos últimos 50 anos. E se, apesar de tudo, é hoje mais fácil para um jovem artista criar e divulgar o seu trabalho, isso em muito boa parte se deve ao Relvas – ao talento dele, sim, mas sobretudo à sua persistência homérica e à intransigência perante a mediocridade que sempre o acompanhou.

    Catálogo de Retrospectiva/Outra Perspectiva, de Fernando Relvas | 2017

    Ler Mais
  • Filhos da pideOpen or Close
    Que em Portugal se passam coisas estranhas, difíceis de entender por qualquer cidadão de inteligência média, não é novidade para ninguém.
    Mesmo assim, de vez em quando não consigo deixar de me surpreender com alguns dos insondáveis desígnios com que a Divina Providência ou alguém por ela nos brindou.
    Só no curto espaço de um século tivémos, entre outras curiosidades, um milagre de Fátima, um ditador que criava galinhas no quintal, um primeiro ministro que não lia jornais e até um Alberto João para quem a Madeira mais do que um jardim, é uma autêntica coutada.
    TSF | 18.Fev.1998
    Ler Mais
  • A magia da criaçãoOpen or Close

    Luísa Amaro é como se chama a mulher que dá vida e alma a estas músicas, seguida de perto por Miguel Carvalhinho. Habituámo-nos a ouvir a guitarra portuguesa tocada por mãos viris, mas o que aqui se nos revela é um lado outro desse instrumento delicado, talvez aquilo que explica o segredo dos mestres, sabedores de que a guitarra é um ser sensível, guardador de muitas emoções, nem sempre ao alcance da vontade de quem a toca.

    Introdução ao CD Canção para Carlos Paredes de Luísa Amaro | 2004

    Ler Mais