A magia da criação

lamk1.jpg

De onde vem esta música? De que nos falam estes sons tão novos e ao mesmo tempo tão familiares? Que alegria saudosa é esta que se desprende destes dedos que lembram outros dedos, sendo porém distintos?

Estas e outras interrogações surgem-me enquanto vou ouvindo o Canto de Embalar, Um Jogral, Canção de Alcype, Devaneios, embalado pelas recordações de várias vidas, de várias vozes. Porque eu sou dos que acreditam na magia da criação como uma força mais a dar movimento ao mundo. E o que aqui ouvi é fruto dessa energia sincrética que vem da música, que vem da força criadora do ser humano.

Luísa Amaro é como se chama a mulher que dá vida e alma a estas músicas, seguida de perto por Miguel Carvalhinho. Habituámo-nos a ouvir a guitarra portuguesa tocada por mãos viris, mas o que aqui se nos revela é um lado outro desse instrumento delicado, talvez aquilo que explica o segredo dos mestres, sabedores de que a guitarra é um ser sensível, guardador de muitas emoções, nem sempre ao alcance da vontade de quem a toca. E Luísa Amaro chegou lá, sem a pretensão de imitar ninguém, mas também sem medo de se expor, como quem mostra a metade que completa o todo. Porque esta música é qualquer coisa mágica a que é impossível ficar indiferente, é uma arte feita de intimidades e de partilhas.

Assim chegamos a Carlos Paredes. É inevitável nomeá-lo porque faz parte deste disco, na exacta medida em que faz parte da vida de Luísa Amaro. A história dos dois é muito mais do que uma história de amor, é o resultado de uma entrega sem limites, uma partilha muito para além do entendimento.

Mas se o mestre e o amado são, na história pessoal de Luísa Amaro, o mesmo homem, tal não a impede de exprimir a sua própria voz e de a afirmar perante o mundo. E é isto, talvez, o que mais me encanta nesta música. Esta afirmação de liberdade que não rejeita a memória, sem contudo fazer dela um obstáculo à criação. Para Luísa Amaro, este conjunto de belíssimas interpretações fecha um ciclo criativo iniciado há vinte anos e construído passo a passo, com rigor e com paixão. Atrever-me-ia a dizer que, com este disco, podemos redescobrir uma outra sonoridade da guitarra, o seu lado mais íntimo, mais feminino. Porque, definitivamente, a guitarra tem em si qualquer coisa de mulher.

Carlos Paredes exprimia-se pela emotividade apaixonada, Luísa Amaro vai sobretudo pelos caminhos da ternura. Num e noutro caso, seguindo uma rota de encantamento perante a luz que tudo aclara em seu redor. Num e noutro caso com determinação e com amor, o verdadeiro segredo da magia. E da criação.

Introdução ao CD Canção para Carlos Paredes de Luísa Amaro e Miguel Carvalhinho | ed. Artemágica, 2004

Mais sugestões de leitura

  • Contas sem ajusteOpen or Close

    Contas à vida sem ajuste. Mais cansaço do que desalento. Mais sonho adiado do que utopias erradas. Mais que documentos são testemunhos estas vinte entrevistas: uns, mais intimistas; outros, mais interventivos. Encontramos neste livro um universo multifacetado, mas que tem uma matriz política, ética, estética e cultural, o 25 da nossa memória, como que pequenos afluentes que vão desaguar no grande rio.

    Ler Mais
  • Tentações assepticamente correctasOpen or Close

    A lógica do «politicamente correcto» torna-se cada vez mais sinónimo daquilo a que já se chama o «pensamento único». Na prática, trata-se de um filho bastardo do fim da guerra fria ou, se quisermos ser mais rigorosos, é uma submissão descarada à «nova ordem» que o neo-liberalismo dominante pretende impôr ao mundo.

    RCS | 8.Nov.1998

    Ler Mais
  • Fados & DesgarradosOpen or Close

    Fados & Desgarrados não é um simples livro de estreia de um autor recente. Isto porque nem o José Xavier Ezequiel é um autor recente no sentido mais rigoroso da expressão, nem estes Fados, pela sua estrutura e pela consistência que apresentam, têm as características habituais de uma «primeira obra».
    Trata-se, como afirmou Mestre Dinis Machado de «uma história revitalizada de ‘tristes, solitários e finais’, na expressão de Chandler depois recuperada por Osvaldo Soriano, e que foi durante muito tempo emblema do romance negro». Mas eu atrevo-me a dizer que é também algo mais do que isso.

    Apresentação de Fados & Desgarrados, de José Xavier Ezequiel | 2007

    Ler Mais
  • O homem e as cidadesOpen or Close

    Era uma vez um homem que gostava de cidades. A biografia de Manuel Graça Dias, arquitecto nascido em Lisboa no ano de 1953, podia começar assim. E não apenas pelo livro que acabou de publicar, justamente intitulado O homem que gostava de cidades, onde reúne uma mão cheia de crónicas que fez para a TSF durante muitas dezenas de semanas.

    Status (Semanário Económico) | Out/Nov 2001

    Ler Mais